31/12/2005

ANTES QUE TUDO SE ACABE....

Vão aí as inevitáveis listas.

O Estadão me pediu uma lista dos melhores livros do ano. Sempre acho isso muito injusto, porque em literatura é muito difícil você estar bem atualizado e ler todos os lançamentos expressivos. Ainda mais porque os novos estão sempre competindo com imortais. É bem razoável alguém dizer que não leu quase nada do que foi publicado neste ano, mas até que eu li uma quantidade razoável. Então mandei os que mais gostei entre os que eu li, publicados em 2005 (ainda que em reedições). Vai aí:

A PAIXÃO DE AMÂNCIO AMARO – André Laurentino (Agir)
Laurentino faz uma bela estréia misturando uma melancolia carinhosa com humor extremamente literário.

ZARATEMPÔ – Evandro Affonso Ferreira (Editora 34)
Evandro, o domador das letras, mostra que também consegue extrair suspiros de seu chicote. Alta literatura, sem concessões, mas ainda com sentimento.

ALMOÇO NU – William Burroughs (Ediouro)
Finalmente a Ediouro traz uma versão definitiva para "Naked Lunch" com deliciosos adendos, cartas e reflexões, numa ótima tradução de Daniel Pellizzari, que consegue tornar mais fluente um texto extremamente intrincado.

CAIO 3D – Caio Fernando Abreu (Agir)
O resgate que a Editora Agir faz da obra de Caio Fernando Abreu lhe garante a imortalidade merecida e a atualidade necessária.

VOLÁTEIS – Paulo Scott (Objetiva)
Scott pisa num terreno conhecido de muitos escritores contemporâneos e sai em disparada com um romance alucinado, denso e verdadeiro. Ele simplesmente faz funcionar o que muitos outros tentam.

CONTOS NEGREIROS – Marcelino Freire (Record)
Marcelino reforça que a diferença que faz na literatura brasileira também está no papel. Uma prosa oralizada, singular e efetiva.

O PAPAGAIO E OUTRAS MÚSICAS – TIAGO PICCHI (7 Letras)
Um livro meio suspeito, que vem com CD, que aos poucos vai revelando um humor absurdo, finíssimo, inexplicável. Deixe disso. Leia e comprove.

SARAH – JT LeRoy (Geração Editorial)
LeRoy é o personagem vivo de um grande escritor (ou escritora?) que domina as páginas e os holofotes com a mesma habilidade. Isso é viver literatura.

RESPOSTA – Elisa Nazarian (Ateliê Editorial)
Quem sempre acompanhou e é fruto direto da poesia de Elisa não poderia deixar de louvar a estréia dela no mercado editorial. É vergonha a gente ter orgulho dos pais?

FERIADO DE MIM MESMO – Santiago Nazarian (Planeta)
Hum, como eu poderia deixar de colocar um thriller psicológico com um personagem só, passado num único cenário, que abre centenas de portas? É vergonha a gente ter orgulho dos filhos?

A lista dos melhores filmes eu comecei a fazer mentalmente. Ninguém me pediu. Não está muito organizada, nem chequei o nome dos diretores, mas vai aí os que eu lembro:

"O Clã das Adagas Voadoras"
"Herói"
"Mistérios da Carne"
"Old Boy"
"Casa Vazia"
"Sin City"
"Ninguém Pode Saber"
"Jogos Mortais"
"Tempestade de Verão"
"Dumplings"

Cds. Ouvi pouco do que foi lançado este ano, mas vai os que eu acho que merecem entrar na lista:

"I Am a Bird Now" – Antony & the Johnsons
"Odissey" – Fischerspooner
"Cansei de Ser Sexy" – Idem
"The Understanding" - Royksopp
"Here Comes the Tears" – The Tears
"O Primeiro Círculo" – Dan Nakagawa
"O Exercício das Pequenas Coisas" – Ludov
"Live" – Morrissey
"Craving"- Lastpain
"Drawing Restraint 9" - Björk

A revista "Quem" me pediu uma lista também, mas eu não entendi direito. Era de "programas bacanas para se fazer", e eu achei que era de "coisas que eu queria fazer antes de morrer". E mandei uma lista bem bizarra. Mas parece que eles publicaram mesmo assim, porque uma prima minha veio comentar com estranheza. Então taí a lista:

1. Se desfazer de (quase) todos os bens materiais, colocar uma mochila nas costas e ir.
2. Ir de carro para Buenos Aires, parando bastante.
3. Escrever um romance num laptop, viajando de trem.
4. Ver a aurora boreal.
5. Pular de para-quedas
6. Comer um peixe que pesquei em alto mar.
7.Fazer uma pequena aparição num filme, como eu mesmo.
8. Ter filho com uma chinesa.
9.Mudar de sexo no final da vida sexual.
10. Ser devorado por um animal selvagem. E fim.

Feliz ano novo.

27/12/2005

O SORRISO DO LAGARTO

Há algumas semanas fui ver com o Daniel Luciancencov uma mostra das fotografias do Nobuoyshi Araki na Galeria Fortes Vilaça, aqui em SP.

Araki é um fotógrafo japonês contemporâneo, conhecido por suas fotos de japonesas nuas amarradas, ornamentadas com lagartinhos de borracha. Como eu também tenho lagartinhos, aranhinhas e cobrinhas de borracha espalhados pelo meu apartamento, o fotógrafo Luciancencov começou a ter idéias...

E eu acabei ganhando um iguana real, vivo e verdadeiro de presente de Natal. Tenho um pouco de dó desses bichos criados em cativeiro. Na verdade, tenho dó de qualquer bicho criado preso, mais ainda de cachorros e gatos dentro de apartamento, mas como o Daniel também já estudou veterinária, conheceu um criador de iguanas e sabia que estava tudo certinho, achei um ótimo presente. Principalmente porque um iguana não precisa de tanto espaço (quanto um cachorro), e muito menos de atenção.

Então aproveitei um espaço aberto grande que tenho na área de serviço e montei lá um terrário. Sempre gostei de herpetologia, tenho vários livros sobre répteis, já criei aranhas e tartarugas, mas tive de me aprofundar bem no comportamento típico dos iguanas para poder receber este queridinho aqui com os devidos cuidados. Instalei uma lâmpada fluorescente de raios UVA e UVB (que só se encontra em pet shops especializados em répteis), uma pedra térmica que se mantém a 36 graus e coloquei galhos para o bichinho subir. A alimentação é tranqüila: frutas e vegetais. Minha intenção é manter o terrário aberto para ele poder passear pelo apartamento. Mas por enquanto estou deixando ele lá para se acostumar. Ainda mais porque ele ainda é pequeno e se esconde em qualquer fresta. Ontem mesmo desapareceu totalmente no terrário (que tem 2m por 1,5m). Fiquei horas imaginando como poderia ter fugido. Mas estava bancando o personagem de "Casa Vazia", escondidinho embaixo de uma madeira, espremido que nem papel.

O nome dele? Araki, claro.

E também teve os presentinhos do velhote Noel: mais uma estante para meus livros (que já não cabem nas que eu tenho), um DVD do Bowie, alguns livros, cuecas (uh-la-lá), coisa e tal. Agora quero passar logo para 2006, que este ano foi o cão. Mas ainda volto para a retrospectiva...

24/12/2005

COMBUSTÃO ESPONTÂNEA

Seres humanos não são inflamáveis. Quero dizer, não pegam fogo, apesar de seus corpos poderem ser queimados. Se, por exemplo, acendermos um isqueiro embaixo do braço de uma pessoa, esse só queimará enquanto mantivermos o isqueiro aceso abaixo. Ao afastarmos ou apagarmos a chama, a pele interromperá imediatamente seu processo de queima, as chamas não se alastram. Isso se dá devido não apenas à umidade do ser humano, mas também pelo material que o constitui. Se pegarmos uma pele ressecada, por exemplo, essa não será mais suscetível às chamas. Dessa maneira, a única maneira de queimar um ser humano é mantendo-o em contato constante com o fogo ou coberto de algum produto inflamável, como gasolina.

Fabiano Castanha D’Alva, na revista científica Relatório Vegetal.

E Hohoho pra vocês.

20/12/2005

VASCULHANDO OS ARMÁRIOS DE BICHAS MORTAS.

Nesta última semana andei pesquisando bastante sobre a morte do River Phoenix. Apesar de a gente só ter feito amor uma vez, ele se tornou um amigo querido de quem tenho muitas saudades...

Haha. Não. Sai pra lá, Milton Nascimento, esse corpo não te pertence.

É que terminei a tradução do livro "Pink" do Gus Van Sant, que foi muito baseado na história do River.
Para quem chegou tarde, River Phoenix foi um astro juvenil dos anos 80, que morreu em 93, aos 23 anos, aparentemente de overdose, em frente à boate do Johnny Depp, em Hollywood. Há diversas versões para a morte, até uma em que ele teria recebido uma dose letal do próprio Depp, que era mais velho, menos famoso, também participava de filmes alternativos e queria ferrar com o pitéu.

O romance de Gus Van Sant é feito em homenagem ao River. Conta a história de um velho diretor de comerciais de TV que sofre pela perda de um jovem garoto propaganda com o qual havia trabalhado, era amigo e apaixonado. Apesar de incluir cowboys espaciais e viagens no tempo, há vários detalhes que correspondem não só a história de Phoenix (o personagem do livro também morre de overdose na frente de uma boate), mas também a de Keanu Reeves (que estreou em 91 o filme "Garotos de Programa" com Phoenix, dirigido por Van Sant) e Kurt Cobain (sobre o qual trata o último filme de Van Sant – Last Days – que ainda não estreou por aqui). E se considerarmos o que Van Sant coloca no livro, pode-se acreditar que ele teve mesmo caso com Keanu com Phoenix e que até considera a possibilidade de culpa do Depp.

Mas enfim, nada de surpresa, porque esses boatos sempre circularam por aí - inclusive de que Keanu Reeves foi casado com o presidente da Geffen (bem, do Keanu eu já vi fotos hiper comprometedoras em início de carreira) – e esse povo tem mesmo que fazer muitas vezes o teste do sofá, ainda mais para entrar numa produção sobre garotos de programa dirigido por Van Sant, que sempre está envolvido em filmes sobre jovens gays ( até já dirigiu um videoclip dos Hanson. Hahah).

Quando você traduz um livro sempre acaba se aprofundando em outros universos, outras histórias. Eu sempre acabo fazendo pesquisas e isso me acrescenta bastante, embora não tenha o tempo ideal para me aprofundar tanto quanto eu queira e até questione a qualidade literária de alguns autores que traduzo.

Esse livro do Gus Van Sant, "Pink" (provavelmente "Rosa"), deve sair em março do ano que vem, pela Geração Editorial.

E falando em tradução, estava hoje comparando as três versões do Naked Lunch, do William Burroughs, que eu tenho. A última saiu faz uns dois meses, "Almoço Nu", traduzido pelo Daniel Pellizzari para a Ediouro. Pelizzari é um jovem corajoso, por pegar coisas espinhosas como essa e "Trainspotting" (que ele traduziu junto com o Galera). Não sei exatamente se foi proposta dele para a editora, se a editora que propôs para ele, se ele teve um tempo tranqüilo para se dedicar a esses projetos, mas de qualquer forma fez um bom trabalho.

Numa tradução há duas coisas fundamentais para se observar: a fidelidade com o texto original e a fluência na nossa língua. Não dá para traduzir tudo ao pé da letra porque fica esquisito e o texto não flui em português. Mas também não dá para adaptar e cortar demais porque senão se está fugindo da obra do autor.

O foda é quando o autor original é barbeiro e você se sente compelido a arrancar coisas fora. Eu já peguei coisas do tipo em que a tradução literal seria: "Ele se levantou da cadeira onde estava sentado e pegou uma cerveja em sua mão." Não seria apenas: "Ele se levantou da cadeira e pegou uma cerveja"? E tem vezes que você entende todas as palavras, mas não entende o que elas estão fazendo lá, o que aquela frase tem a ver com o contexto.

Bem, em Naked Lunch é assim quase o livro todo. Não entendo em inglês, não entendo em português nem em nada, mas gosto do livro mesmo assim. E jamais me atreveria a traduzi-lo (bem, jamais não, eu me atreveria, mas quando tivesse mais experiência, bastante tempo e me pagassem razoavelmente).

Tenho outra versão de Naked Lunch traduzida por Mauro Sá Rego Costa e Flávio Moreira da Costa (também como "Almoço Nu") para a Brasiliense/Círculo do Livro. Ela talvez seja mais fiel ao original, mas menos fluente. Também é muito dar a cara pra bater traduzir um livro desses, porque sempre vai ter um pentelho como eu para comparar frase por frase e ver se o tradutor trabalhou direitinho.

O próprio título, Naked Lunch, já traz problemas. O que ele quer dizer com isso? O que seria um almoço nu? São essas questões de compreensão que muitas vezes se tornam essenciais para um tradutor. No caso desse título, o próprio Burroughs explica na introdução. Aproveitei isso para testar um pequeno trecho de tradução minha e comparar com as demais:

Na versão original:

I have no precise memory of writing the notes which have now been published under the title Naked Lunch. The title was suggested by Jack Kerouac. I did not understand what the title meant until my recent recovery. The title means exactly what the words say: NAKED Lunch – a frozen moment when everyone sees what is on the end of every fork.

Na minha versão:

Não tenho lembrança precisa de escrever as notas que foram publicadas sob o título de Almoço Nu. O título foi sugerido por Jack Kerouac. Eu não entendia o que o título significava até minha recuperação recente. O título significa exatamente o que as palavras dizem: Almoço NU – um momento congelado quando todos vêem o que está na ponta de cada garfo.

Na versão da Brasiliense:

Não tenho lembrança precisa de ter escrito essas notas que agora são publicadas sob o título de Almoço Nu. O título foi sugerido por Jack Kerouac. Não compreendi o que o título significava até minha recente cura. O título significa exatamente o que as palavras dizem: Almoço NU – um momento congelado em que todos vêem o que está na ponta de cada garfo.

Na versão da Ediouro:

Não tenho uma lembrança precisa de ter escrito as anotações que acabaram publicadas sob o título Almoço Nu. O título foi uma sugestão de Jack Kerouac. Só fui entender o significado do título depois da minha recente recuperação. O título significa exatamente o que dizem todas as suas palavras: ALMOÇO NU – um momento paralizado no qual todos são capazes de enxergar o que está cravado na ponta de cada garfo.

Obviamente não é o caso de competir, porque eu já tenho as outras traduções para me beneficiar. Apenas é uma mostra como o mesmo texto permite diversas traduções – e isso porque esse é um trecho pequeno e bem simples. E a versão final também depende do revisor e do preparador de texto, claro. Obviamente, nessa função de "pentelho-cata-piolho" eu peguei vários erros nessas traduções de Almoço Nu (como "queer" sendo interpretado como "queen"), mas isso serve mais como um estudo para mim, que estou começando a me aperfeiçoar na tradução, do que um problema para o leitor comum.

Aliás, o leitor comum desse blog deve estar achando esse post um porre, ah?

Terminando, Gus Van Sant já trabalhou com Burroughs. Aparentemente, fizeram juntos uma audioficção nos anos 80. Eles têm um universo próximo - drogas e boiolice. E Van Sant também tentou fazer um romance fragmentado, lisérgico e incompreensível.... E é um grande cineasta.

Bem, são 6 da manhã. Hora de dormir. E tem gente que acha que passo todas as noites na balada...

15/12/2005

NÁUFRAGOS DO PICHE

Ontem foi lançado o segundo livro da minha amiga Andréa del Fuego, "Nego Tudo".

É uma edição bem bacana da Fina Flor, editora finérrima que faz tiragens pequenas de livros chiques numerados um a um, com ilustrações e interferências a mão, que fazem com que cada livro seja único (e que já fez com que a proposta da editora gerasse crias).

O livro da Andréa é um conjunto de contos vermelhos e brancos, femininos e ferinos, com trechos como:

"O acidente aconteceu, os corpos no chão, a noite desce. Sentada no acostamento, vejo as luzes disformes, sou uma náufraga do piche."

Aliás eu já ouvi esse conto em áudio-ficção, na casa da Cristiane Lisbôa, editora da Fina Flor. Era ótimo. Elas podiam ter colocado num cdzinho encartado no livro, hein? Taí uma idéia...

Vocês podem saber mais sobre o livro da Andréia, onde comprar e tal no: www.delfuego.zip.net (mas não sei se ainda tem, não, porque eram só 107 cópias)

Eu ainda vou lançar um livro com a Fina. Não dá para ser um livro "de carreira", porque as tiragens são pequenas e a distribuição também é limitada. Mas de repente uma prosa ligeira, para se ter como um mimo. Enfim, com certeza não será projeto para 2006...

Em 2006 quero investir mais nos lançamentos fora do Brasil. Preciso de dinheiro, porque por aqui a coisa tá feia...Vamos ver se consigo viajar, se consigo fechar outros contratos lá fora, com os três romances que já lancei por aqui.

Há o QUARTO romance, sim, "Mastigando Humanos", que já está sendo negociado. Provavelmente ficará para o segundo semestre do ano que vem, mas eu não me importaria se ficasse para o começo de 2007, porque venho lançando um livro por ano e é preciso dar um tempo para não saturar. Mas vamos ver. Eu também já estou com o livro pronto e fico querendo vê-lo logo nas ruas. Segundo semestre de 2006 é uma boa perspectiva.

E como "Mastigando Humanos" já está pronto há alguns meses (não foi tão rápido não, nesse eu levei mais de um ano - "Feriado" foi escrito há mais de dois), eu comecei recentemente a trabalhar em outro texto. Não será algo para ser lançado comercialmente. Ao menos, não em papel. Trata-se de uma PEÇA de teatro. Bem, talvez mais uma novela, escrita já se prevendo as possibilidades de transposição para o palco. A intenção é essa. Ainda não sei se vai ficar bom, se vou conseguir terminar, se vai prestar. De repente acabo jogando fora. Mas se eu ficar satisfeito com o resultado, vou espalhar por aí. De repente até coloco o arquivo inteiro aqui no blog, porque não será algo que pretenderei vender mesmo. Então vamos ver, vamos ver, nem título ainda eu tenho, estou começando...

E estou terminando uma tradução, do quarto livro que fiz este ano. Chama-se "Pink", romance escrito pelo cineasta Gus Van Sant. Não dá nem para dizer do que se trata porque é uma psicodelia geral. Psicodelia gay, absurda e fragmentada. Talvez algo como um "Naked Lunch" de praça de alimentação.

Esse ano também entreguei as traduções do "Quando Eu Era o Tal" (que já está nas livrarias há alguns meses), "Coração Traiçoeiro" e "Fan-Tan" (que começarão a ser vendidos no começo do ano que vem). Foram todas encomendadas pelas editoras – não exatamente propostas por mim – e feitas naqueles prazos corridíssimos que os tradutores têm. Mas, de qualquer forma, me deram muito prazer, é um trabalho que gosto de fazer e que me ensina muitíssimo. Espero que eu também continue progredindo nisso em 2006.

E realmente agora é só torcer para que o próximo ano seja melhor, não é? Porque este parece que já acabou e deixou um gosto amargo na boca (como uma mousse de chocolate em "O Bebê de Rosemary"). Claro que teve coisas boas, mas muita crise (de todos os tipos), loucura (de todos os tipos), insegurança (de todos os tipos) e um certo tédio sobre tudo (do único tipo possível).

Mas a vida continua, e o blog continua, sem recessos. Porque eu (infelizmente) nunca tiro feriado de mim mesmo.

10/12/2005

HOHOHO

Sempre tem um pessoal me perguntando onde encontram textos meus por aí (principalmente porque muitos querem uma amostra grátis antes de comprar um livro – compreensível, já que música a gente escuta no rádio, baixa na internet, vê na MTV e só depois decide comprar o disco).

Então vai aí um inventário de todos os meus textos de ficção que já foram publicados em papel ou na net, com trechinhos e alguns (os que estão na net) com links para serem lidos na íntegra. Eu não posso mandar nada por email, claro, muitos contos foram pagos e não vou sacanear quem me pagou :

- Pó de Vidro e Veneno de Cobra - na revista Ficções Número 12 (Ed 7 Letras)

Como as serpentes, eu podia sentir. Eu podia sentir cada mínima variação de calor, graças à terceira narina que se abrira no meu rosto. Era para isso que servia. Para enxergar sem luz, para sentir sem o tato, para escutar sem som. Um sexto sentido, se abrindo em meu rosto, como cicatriz.

- A Mulher Barbada - no livro "Parati Para Mim" (Planeta)

Sou apenas mulher. Sou o bastante e estou viva, finalmente, posso contar minha história. Posso vivê-la intensamente, em páginas amassadas, em papel de pão. Posso deixar a barba crescer sobre o meu rosto e o peso do corpo envergar minhas costas. Minha cama. E enquanto eu tiver esses dedos, enquanto eu tiver vontades, você vai ter de me ouvir.

- Serpentes com Braços - no livro "A Literatura Latino Americana no SéculoXXI" (Aeroplano)

Por mais que tentasse ver os garotos como serpentes, por mais que quisesse ser apenas um rato para alimentá-los, por mais que desejasse ser textura entre os dentes, tecido constituinte, proteína animal, ele sabia, eles sempre teriam pernas para lhe pisar.

- Como Desovar Cogumelos - no livro "4X Brasil" (Artes e Ofícios)

Na mesa da sala há uma pesada escultura de Fredy Keller moldada no crânio de um cervo. Pode parecer algo um pouco macabro. Certamente é uma obra pesada. Mas tem o peso exato que eu preciso. O peso exato que eu preciso sobre o crânio de Adelino. Acerto-o. Rachado. Ele vem ao chão. Ninguém precisa de mais um escritor que escuta Chico Buarque.

- O Vendedor de Mancebos - na Revista E (Sesc)

O verão lhe trazia um ultimato. Vinha voando pela janela aberta e deixava para trás véus de uma cerimônia que eles não tinham. Sem cerimônia, os cupins invadiam seu apartamento, devoravam seus móveis, o deixavam cada vez mais próximo do chão. O chão também era de madeira, isso o fazia pensar que, em breve, ele afundaria num buraco sem fundo. E não era nada poético pensar assim.

http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=227&Artigo_ID=3544&IDCategoria=3868&reftype=2

- Aranha no Açúcar - na revista Bravo!

E antes que eu pudesse abrir qualquer página, uma aranha subiu na minha mão, prendeu-me ao livro com sua teia, passeou por entre meus dedos. Melado eu estava, melados meus dedos. Tinha medo. De que ela me mordesse pelo açúcar.

- É o Câncer que me Faz Sorrir - no jornal Folha de São Paulo

Com o tempo, vaidade; mais vício do que latinidade. Exercitar os músculos faciais, criar um coringa, proteger minha tela. Sorrindo para não despencar. Marcando o rosto para não me esquecer. "Vaidade, doutor, vaidade. É a vaidade que me faz franzir."

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi3001200527.htm

- Quasímodo - no site Portal Literal

E quem mergulhou e quem dormiu. Quem badalou e saiu. Quem ligou o rádio e se esqueceu, se esqueceu. De nós dois, que ainda vivemos, ainda não morremos, ainda dormiremos.

- O Amolador de Facas - no site Bestiário

Imaginava o que havia por trás daquele almoço, por trás daquela mancha, por trás daquele olhar. Um tapa do marido. Uma faca para se defender. Uma faca para atacar. Para morrer. Se suicidar. Precisava ser bem afiada, para atravessar a barriga. Precisava de um fio perfeito, para romper a jugular. Para cortar a cebola do almoço, para faze-la chorar.

http://www.bestiario.com.br/16.html

- O Chamado (Selvagem) - no site Patife

Sete dias sem dormir. Mas mesmo assim parece que entre domingo passado e este foram apenas um abrir e fechar de olhos. Piscar. Esquecer. Strobes que me fazem ser quem eu sou. Eu nem sei. Acho que sou um pouco mais com ele olhando para mim. Enquanto ele nada dizer, eu vou ficar bem quieta. Boca fechada. Mandíbulas travadas. Mas ainda assim sorrindo. Porque o sorriso flui dentro de mim.

http://www.patife.art.br/outras_santiago.php

- O Pequeno Conto que Sorri - no site Patife

E as duas velhinhas cruzavam as pernas e os braços, cruzando a tarde em vão e vaidades, vaidades e infusões, num inverno solitário. Lá fora, amores resistiam, choviam e derrapavam, tentando voltar para casa, para as cobertas, para os braços uns dos outros, para fugir do frio.

http://www.patife.art.br/especial_encontros_santiago.php

- Espinha de Peixe – no site Arte e Política

Curvava-se na pia e sentia a dor nas costas. Curvava-se na pia e sentia a espinha. Colocava a mão, descurvava-se na frente do espelho. Olhava em seus olhos. Via a si mesmo. Nenhuma escama. Nenhuma espinha. Nenhum reflexo de peixe em seus olhos puxados, em seu rosto adolescente. Hau ainda era o mesmo, apesar dos dedos.

arteepolitica.com.br/literatura/contos/espinha_depeixe_nazarian

- Quando Eu Escrevo - no jornal O Globo

Pois quando ele me chama, quando diz que me ama, quando o amor me alcança, quero apenas ser mulher.

Além disso, espalhados aqui aqui nos arquivos do blog vocês podem encontrar os contos "Depois do Sexo", "Seis Dedos pra Contar", "Velhos Sapatos de Dança", "Ela não Sabe Nadar", "Irmão Sol, Irmão Água" e "Dois Perdidos na Rua Augusta".

Pronto, já tá bom de presente de Natal.

07/12/2005

CRIANÇAS ASSASSINAS

Fui assistir ao "Exorcismo de Emily Rose" e descobri tudo o que há de errado comigo....

Mudando de assunto, saiu no Portal Literal uma matéria que Marcelino Freire fez sobre a escritora Ana Paula Maia. Já falei dezenas de vezes dela aqui. É minha protegida, sim, mas com mérito. Quero dizer, tem sempre esse povo que acha que a gente é protegido da imprensa, que tal escritor é protegido de outro, e pode até ser verdade, mas a questão é saber o por quê. Acha que alguém está pagando a imprensa, os colegas, por proteção? Felizmente a pouca grana que corre na literatura ainda garante certos méritos. Eu nunca tinha ouvido falar de Ana Paula Maia, recebi o primeiro romance dela aqui em casa, achei foda, escrevi pra ela, e assim começou uma amizade.

Mas enfim, melhor do que eu ficar falando de novo sobre ela é ler o perfil no Portal Literal. Vocês vão entender que, na verdade, eu só estou me preparando para ser protegido por ela e suas duzentas metralhadoras. Eu mesmo me surpreendi com o que li, porque vi a moça poucas vezes ao vivo. Vai um trecho e o link:

Passei por três, quatro escolas. Desde pequenina perseguida por professores ferozes. Aos cinco anos, queriam me expulsar da primeira escola. Lá, sobrevivi até montarem uma comissão para me dar um chute no traseiro. Fui para a escola liberal. Lá, enlouqueci. Usava um cadeado no pescoço como pingente, fazia teatro e andava com uma garota duas vezes o meu tamanho e que me defendia. Caí durante uma partida de handball. Ganhei um traumatismo craniano e uma nova escola. Mas o traumatismo não me impediu de ir ao show do Iron Maiden semanas depois. Essa nova escola era para os marginais. Lá, fui suspensa por tentativa de incêndio, beber whisky durante a aula de geografia e outras coisas.

http://portalliteral.terra.com.br/

E eu também estou na capa do site Arte e Política, com uma entrevista/perfil e um conto (que não é exatamente inédito). Como estamos em lembranças escolares, vai aí um trecho da minha:

Eu odiava a escola. Então para me ensinar a escrever uma professora teve de me seduzir com um jacaré empalhado. Haha. É verdade. Eu andava pela escola puxando-o com uma coleira. Mas sempre gostei de criar histórias, viver no meu mundinho. Sempre fui bem nas redações, embora os professores preferissem as menininhas idiotas que escreviam histórias sensíveis com letra caprichada, enquanto eu me borrava em sangue - Eu tirava 8, elas tiravam 10.

Tá lá (com uma fotinho bonitinha) no: http://www.arteepolitica.com.br/

Agora deixe-me fritar sob a hóstia da vizinhança.

05/12/2005

FUI AO MANGUE CATAR LIXO, CAÇAR CARANGUEJO, CONVERSAR COM URUBU.

Tenho lido muitas cartas de escritores. Do Rimbaud, do Mann com o Hesse, do Caio. É triste ver a vida miserável (não apenas no sentido financeiro) que todos levaram. Parece inevitável se abrir mão da felicidade quando se quer fazer arte. A gente vê a conta no vermelho, as crises afetivas, os problemas psicológicos e pensa que tudo pode fazer parte da história, da biografia. Mas no dia-a-dia, a gente quer ser feliz, quer caviar de pérolas e um lar saudável e organizado.

Quando eu entrava numa crises dessas, e permitia comentários aqui no blog, geralmente os leitores não eram nem um pouco solidários – e por que deveriam ser? O que o leitor quer é que o autor sofra overdoses, saia na mão com outros escritores, acabe se suicidando ainda jovem, lindo e desgraçado.

Talvez essa luta constante contra a crise, e a utopia de que as coisas possam ser diferentes é o que impulsiona o artista a continuar produzindo. Como o Caio, que se dizia "um escritor positivo, finalmente", quando se tornou HIV+.

É triste ver que, como escritor no Brasil, não há ninguém em quem se espelhar. Digo, os escritores que admiro não tiveram/têm a vida que eu quero ter. Então quando penso no planejamento da minha carreira, não há parâmetros de comparação (nem mesmo se pensarmos em Paulo Coelho – Deus me livre – jamais queria ter a vida dele, muito menos "a pegada").

No caso do Caio, o mais interessante ao ler as cartas é encontrar personagens que eu também conheço pessoalmente. A própria Ray-Güde, que era (é) agente internacional dele e trabalha comigo agora. Parece que eu acabo me tornando um dos personagens do livro dele, ou continuando a história de alguma forma, mesmo que eu nem me identifique tanto com ele como pessoa, ou com algumas coisas que escreveu.

Outra coisa engraçada é ver como esse meio de comunicação se perdeu. As cartas, digo. Não apenas migraram para o email, se desintegraram totalmente. No livro de cartas do Caio, o que temos são páginas e mais páginas dele contando sua vida para os amigos e colegas (talvez isso tenha substituído pelo blog, mas com bem menos direcionamento e intimidade). Você consegue formar uma biografia íntima do escritor.

Hoje em dia, os emails são rápidos e impessoais. Talvez pela facilidade de enviá-los, o que acaba aumentando muito o volume de correspondências, e diluindo cada mensagem. O próprio Nelson de Oliveira, grande escritor, certa vez reclamava comigo e com outro escritor (que não me lembro quem era), que nós enviávamos emails "muito grandes". Geralmente ele responde com duas linhas. Realmente fica difícil ler tudo o que se recebe por email (aliás, me disseram este final de semana que a produção cultural humana de 1990 até hoje já é maior em volume do que tudo o que foi produzido anteriormente, em TODA A HISTÓRIA DA HUMANIDADE).

Isso acaba nos dando a impressão de que, quanto mais alguém se torna conhecido como escritor, mais as pessoas querem sugar dele. Não, não surgem tantos trabalhos, não surge tanto dinheiro, mas surge muita, muita gente mandando contos, originais, endereço de blog, querendo dicas para publicar, querendo até mesmo nos SUGAR literalmente... (haha). Claro que encontramos algumas pérolas no meio, textos interessantes, pessoas interessantes, mas é de se imaginar que são flocos de neve numa montanha de lixo. Outro dia teve até um cara-de-pau que me escreveu pedindo dicas de publicação e depois escreveu : "me diga, por que devo ler seus livros? Não vale nenhuma resposta clichê." Para não estressar e borrar minha maquiagem, disse a ele que o melhor que eu tinha a oferecer era mesmo meus livros (mais do que meu blog) e que, já que havia me procurado, deveria ler meus livros apenas porque ganharia mais do que esperando respostas minhas por email.

Enfim, estou enxaqueca hoje. As coisas nem estão tão ruins, mas sinto como se estivessem. Deve ser TPM (ah, afinal, os homens não podem ter desculpas químico-orgânicas?).

30/11/2005

A COLHER DA DISCÓRDIA

"O que mais me perturba agora é saber que os críticos, jornalistas e até mesmo escritores não estão mais preocupados com a consistência da mousse de maracujá. Nas raras vezes que se dispõem a provar da iguaria só avaliam sua doçura ou acidez. Não podem nem ao menos diferenciar entre uma mousse, um creme e uma torta, tal o nível de alienação que chegaram sobre o assunto. Eu poderia deixar de insistir e simplesmente baratear minha receita, tanto financeira quanto ideologicamente, descansar meus braços e não bater com tanto vigor, mas assim eu estaria me entregando de vez e jamais chegaria perto de proporcionar a autor algum o mesmo prazer, calma e elevação espiritual que me proporcionam."

Carta de Joaquim Affonso Santana a seu pai, Emílio da Costa Santana, datada de 18.03.1929.

29/11/2005

WHERE HAVE ALL THE FLOWERS GONE?

Acabo de voltar do 3o Prêmio Portugal Telecom de Literatura. É um dos maiores prêmios para escritores brasileiros, com valores em dinheiro de 15, 30 e 100 mil reais para os melhores livros do ano (passado). Eu ganhei o jantar, a sobremesa e as bebidas, tudo pago pelos portugas. Já não é algo, meus amigos?

O grande vencedor da noite foi Amílcar Bettega Barbosa, com "Os Lados do Círculo", que eu nunca li, mas minha sobrinha número 3 leu e disse que é ótimo. Hehe. Não, nunca li, mas ele é um cara simpático e disseram que foi merecido e coisa e tal, então fico feliz.

Mas ficaria mais feliz se Lorena estivesse lá.... Enfim, quando eu crescer e tiver barba...

O engraçado desses eventos é que se vê mais empresários, peruas e ricaços do que escritores. Isso eu não entendo. Alguém me explique, o que faz a rainha do basquete, HORTÊNCIA numa premiação literária? Além do mais, a cerimônia é chatíssima. No primeiro ano até que foi divertido, teve show do Cauby Peixoto, do Eduardo Dussek, da Wanderlea. Mas este ano colocaram a BANDA DO LUIS FERNANDO VERÍSSIMO, que é uma espécie de sexteto 11:30, um som agradável se você está esperando o dentista ou conversando amenidades com um copo de champagne na mão, não algo para se ouvir sentado, quieto, a seco, ANTES de servirem o champagne.

Aliás, me perdoem, de Veríssimo mesmo eu gosto do Érico (o homenageado do ano). E se for em matéria de música, fico com o Pedro, que tem uma banda de rock, o Tom Bloch.

Mas valeu por ter ido com o Marcelino, ter encontrado a Cintia Moscovich (uma das finalistas) e por todo o champagne, comidinhas e blablablá.

(De pitéu também, necas.)

Falando em navios e ataques de piratas, acabei de acabar a tradução de Fan-Tan, romance escrito por Marlon Brando e Donald Cammel, para a Nova Fronteira. É uma coisa bem Brando mesmo, sabe, com um marinheiro americano pegando prostitutas chinesas pelas cintura, levanto tapas na cara e dizendo, "oh, babe, não me deixe zangado." Romance passado no começo do século (XX) nos mares da China, cheio de aventuras e malucagens. Achei bem interessante, algo bem diferente do que eu estava acostumado a fazer. Eu gosto dessa coisa de pirata. Sempre gostei de luta de espadas...

(ai, esse champagne dos portugais me tirou dos trilhos)

Eu acho que tinha mais algo a dizer, mas não tem importância, não é algo importante. Aliás, importante mesmo é comer, já que literatura não alimenta ninguém...

25/11/2005

SENTADO NA SARJETA, OLHANDO AS ESTRELAS

Está todo mundo falando bem deles, então vou ser só mais um.

Comprei o cd do Cansei de Ser Sexy. Só o nome dessa banda eu já acho genial. Ótimo. E o cd é ótimo também. Um rock com influências pesadas de elektro e technopop dos anos 80. Isso não faz com que seja exatamente um cd de elektrorock; elektro costuma ser mais simples, mais cru (tipo Peaches, Miss Kitten), e o Cansei de Ser Sexy tem uma produção mais elaborada, timbres complexos, nada daquela tosqueira.

As letras são divertidas, a maioria em inglês (com sotaque carregado, mas quem tem problema com sotaque não deveria escutar nem Björk) e alguns trechos, gírias e expressões em português, direto do "mundinho underground". Aliás, é legal ver como o Cansei vai além do seu berço underground e consegue conciliar isso com um puro pop mainstream, para ser tocado em rádio. É raro o povo hypado do mundinho paulistano ter um trabalho minimamente consistente (bem, é raro esse povo ter um "trabalho", pra começo de conversa). Então eles têm mais um motivo para se vangloriar.

Cheguei a vê-los ao vivo uma vez só, ano passado, na Galeria Olido. Gostei do show. (A vocalista) Lovefoxxx tem uma presença incrível de palco, parece uma criança de sete anos anfetaminada. E eles mandam bem, entregam o que propõem.

Quem cuida de tudo é o Adriano Cintra (baterista, produtor, guitarrista e compositor), um cara que está há anos na cena rock alternativa, e que eu conheço desde os tempos em que eu tocava teclado no Viva Violet (faz teeeempo). Nunca fomos próximos, mas ele sempre foi um sujeito simpático. Então fico feliz pelo sucesso deles.

As melhores faixas do álbum, na minha opinião são "Fuckoff Is Not the Only Thing You Have to Show" (que abre o disco com tecladinhos Depeche Mode), "Let’s Make Love and Listen Death From Above" (com uma pegada hiphop), "Alcohol" (que parece trilha de parque de diversões), "Music is My Hot Sex" (que lembra glam rock, tipo Joan Jet ou Gary Glitter) e o hit "Superafim" ("superafim, superafim, superafim de mim"). E eles ainda terminam com uma baladinha country.

O único porém é que o álbum tem faixas demais, apesar de ser curto na duração, e acaba ficando um pouco cansativo de ser escutado inteiro de uma vez só. Mas tá valendo. Eu daria uma nota 8.

E ontem fui no lançamento do livro "Contos Sobre Tela", onde uma pá de escritores da "nova geração" escreve contos baseados em quadros da arte brasileira. Eu ainda não li, mas os autores são fodões, tipo Nelson de Oliveira, Cuenca, Carpinejar, Ivana Arruda Leite e Ana Paula Maia (que dedicou seu conto a mim).

Pois é, a resistência prossegue, a nova literatura vai esticando seus tentáculos e os imortais pouco a pouco vão morrendo.

24/11/2005

A UTOPIA DO DEFUNTO

"Eles me deram um adiantamento de 300 mil(...)e querem reeditar todos os meus livros anteriores. Já consegui recuperar os direitos de todos - à exceção dos Morangos, que continua muito bem, vai para a quarta edição. Então, depois de todos esses anos, parece que finalmente, pelo menos nessa área profissional, as coisas começam a dar certo. Feitas as contas, com seis livros circulando no mercado, daqui pra frente, se Deus quiser, poderei viver talvez exclusivamente disso."

Carta de Caio Fernando Abreu à sua mãe, Nair Abreu, em 29/06/83, publicado no livro "Caio 3D- O melhor da Década de 80". Caio morreu em 96, em Porto Alegre, sem conseguir sobreviver de literatura.

23/11/2005

JÁ DIZIA MICKEY MOUSE...

"Ao jovem que deseja escrever eu indicaria não olhar para os lados, nem mesmo para trás, a não ser para vislumbrar a própria sombra que possa ter sido produzida por um sol intenso que se coloca diante de seus olhos de forma a cegar seus passos futuros, queimar seu semblante, que pode ser tomado como um de preocupação, mas que estará revelado em todas as suas imperfeições e alegrias por um astro maior que, na realidade, não é nada além da mais absoluta vontade de viver, vencer e secar sobre uma terra onde faltam apenas suas lágrimas para germinar."

Augusto Capivari Soja, em entrevista para o jornal Tábuas de Minas

19/11/2005

ARANHA GOSPEL E BICHO GÓTICO

Hoje fui num encontro da família Gasparian. Meu avô era Nazarian. Minha avó, Gasparian. Em geral, todos os "ian" são de origem armênia. É um sufixo que indica exatamente a descendência, "derivado de algo" ou "filho de", como o "son", em inglês (Wilson), "nen" em finlandês (Kastinen), "sem" em sueco e por aí vai.

Pois bem, o encontro dos Gasparian e derivados aconteceu num hotel chicoso em São Paulo, com um bom almoço e aquele papo aranha de família que não se conhece. Bom ver que o filtro das gerações conseguiu afastar o fenótipo armênio e que os Gasparian/Nazarian mais novos são todos bonitinhos. Eu inclusive tenho uma prima que é a cara da Cher (aha, isso é um elogio, e a Cher também é descendente de armênios).

Mas nesses encontros, sempre fico me achando um animal exótico. Me sentei na mesa dos "jovens" com minhas madeixas e tatuagens e logo um deles começou um papo:

- Você é gótico?
- É... pode-se dizer que tenho umas raízes góticas, sim.
- Eu sou gospel.

E entrou naquela de Jesus e inferno e sei lá o quê. Era um primo de um primo de um sobrinho de um tio meu, algo assim, mais novo do que eu. Por sorte, ele tinha uma irmã (ou prima) bem mais interessante, que disse que fazia São Francisco, mas adorava literatura. Para provocar, comentei com ela sobre a "tradição gótica" da São Francisco, berço do romantismo no Brasil, com os poetas que estudavam lá e morriam de tuberculose, Álvares de Azevedo e a patota. E realmente acho que, para quem quer ser escritor, a Faculdade de Direito do Largo São Francisco é melhor do que a Letras na USP (onde cheguei a entrar).

Enfim, o almoço foi esquisito e eu saí me sentindo mais gótico, embora não tenha mais idade para isso. Fui porque minha avó insistiu e ela mesma não foi, com problemas de saúde. Minha avó é uma mulher estranha. Gosto dela, mas não posso levá-la a sério. Ela solta pérolas como "ninguém pode dizer que sou racista porque todos os meus criados são de cor". Parou de comprar a revistas Caras (sua favorita) porque tinha muito comercial de lingerie. Sobre minhas "histórias bizarras", ela finge não saber. Mas sei que ela já catou, por acaso, algumas entrevistas minhas na TV (piores do que as do Jô), depois deletou do HD mental tudo o que eu disse.

Por sorte, minha mãe conseguiu fugir disso tudo (literalmente). Ela foi criada nessa família armênia, rica, tradicional, que obviamente não aprovava o namoro dela com um artista plástico malucão, já divorciado e não-armênio. No seu aniversário de 21 anos, ela fugiu de casa para morar com ele, meu pai. Depois, eu acabei sendo criado basicamente por ela, com raras saídas com meu pai (quando eu era expulso da escola, por exemplo).

Então, de minha mãe herdei o berço; do meu pai, a maldição.

Ai, ai, é isso, encontrar os velhos parentes sempre desperta nossa contestação adolescente. O melhor desses encontros é ver que meus tios maternos (assim como meu pai) já estão chegando nos sessenta anos e não são carecas, usam o cabelo comprido "lisztiano" e são magros. Que ao menos a genética venha a meu favor... (se eu chegar até lá).

16/11/2005

GNOMOS NÃO FUMAM CIGARRO

Fui ver "Manderlay". Uma porra. Eu diria até que Von Trier quase conseguiu destruir tudo de novo que criou em "Dogville". Se o primeiro filme era bastante inovador, tanto na linguagem, na história, quanto na estrutura, esse segundo se tornou chato, repetitivo e falso. Quero dizer, falso "Dogville" já era, um filme cínico pra dedéu, com um dos melhores finais que eu já vi, que concluía de vez que tudo o que fora dito anteriormente era uma grande piada politicamente incorreta. Em Manderlay, já não há mais essa surpresa. O filme acaba sendo de um cinismo previsível, principalmente pelo péssimo, péssimo final. A história é chata, cansativa. Não há os desdobramentos e reviravoltas de caráter que há em "Dogville". E para piorar tudo, Bryce Dallas Howard, a atriz principal, é um horror. Nicole Kidman é uma diva hollywoodiana, que dava um tom totalmente diferente a "Dogville" ao sofrer o filme todo como uma cadela. Fazia parte da graça vê-la pastando. Toda a ironia era mais fina. Agora, essa mocinha nova acredita que está fazendo um dramalhão existencialista, não tem carisma algum para ser uma heroina, você torce mesmo para que ela se ferre. Bem, quem mandou Von Trier ferrar com suas atrizes. Nenhuma consegue fazer mais de um filme com ele.

E haverá um terceiro, não? Eu não vou ver. Aliás, meu conselho para quem gostou de "Dogville" é que nem veja "Manderlay."

No mais, meu feriado foi hardcore e nem "The Laughing Gnome" (Bowie) de trilha conseguiu torná-lo mais leve.

12/11/2005

ONDE ESTÁ A FRUTA DA MINHA FEIRA?

Saiu hoje na Folha uma matéria sobre a profusão de "eventos literários no Brasil". Essa coisa de feiras, palestras, debates e Bienais que se alastraram por todo o país. Hoje em dia temos Flip, Flop, Flap, Flup, Flep e Bienal do Oiapoque ao Xuí.

Acho isso positivo. Aumenta a divulgação dos autores, tem-se um maior contato com os leitores, além de dar ao escritor oportunidade de viajar pelo país com despesas pagas. Já cachê é coisa rara. Acredita-se que, como o escritor está divulgando seu livro, não é preciso pagar nada além de passagem e hospedagem (quando pagam). Imagine se os produtores de shows de música pensassem da mesma forma? De qualquer forma, já é alguma coisa, não ajuda ninguém a viver DE literatura, mas ao menos propicia muitos a viver A literatura.

E foi exatamente isso o que eu disse para Julian Fuks, da Folha, por telefone. Ele não deve ter entendido direito, porque o que saiu na matéria foi:

A submissão a esse mercado - os escritores acabam servindo de propagandistas de seus próprios livros- é um assunto que preocupa Nazarian. "Eles perceberam que os autores estão dispostos e que o sistema gera lucros", diz. O curioso, neste caso, é que Nazarian deve grande parte de seu sucesso à Flip, que o revelou como jovem autor em 2003, poucos meses após a publicação de seu primeiro livro.

Desde quando eu me preocupo com os escritores serem propagandistas de seus próprios livros? Acho que eles têm de fazer isso mesmo. Logo eu, que comecei minha carreira numa boy band literária (hahaha, qual é o mal? O que falta nas boys bands é exatamente o literário). E nunca neguei a importância que a Flip teve na minha carreira - também disse isso ao Julian. Se eu não o conhecesse, diria que ele estava sendo maldoso, mas sei que foi apenas equivocado...

A matéria também tem depoimentos de Nelson de Oliveira e Luiz Ruffato.

Agora, eu acho que as feiras literárias também deviam ter pastel... Não, pastel é o que não falta. Devia ter mais caldo... de cana... hahaha.

É com você, Lorena:

Sol, tempo, sapatos, ando com muito cuidado, em salto alto, nesta rua. Feira de rua, minutos finais. A gente toma conta de casa e finge que é muito civilizada. Faz fila, faz coque, coloca tudo em saquinhos plásticos. Tudo muito colorido e perfumado. Pesado e medido. Mas quando o tomate escapa das mãos, quando o molho escorre pela boca, quando chega a hora de digerir, a gente percebe do que somos feitos realmente.

Carne, osso, animais mortos. E nem conseguimos achar macabro. Enrolamos em papel jornal e jogamos no congelador. Me dê mais um pedaço. Seus braços são fortes, seu cutelo é ainda mais, mas são os meus que fazem o serviço, estendendo o dinheiro, pagando o preço. Muito justo. E civilizado. Com sacos plásticos e cabelos em coque.

Uma corrida para vencer a fome. Nela eu acho que meus saltos não combinam. E minhas cicatrizes, na luz do sol, parecem um pedido de desculpas. Minha geladeira está vazia. Não sobrou nem suco de laranja. A feira tem muito mais a derramar na minha vida. Um batalhão, fazendo compras como eu. Quanta fome alimenta este mundo.

Nem só de vodca vive minha embriaguez. Tenho fome, tenho sede, preciso de muito mais. E preciso antes. E durante. Preciso agora. Tenho fome. Pastel. Tomate. Maionese. Fazendo compras embaixo do sol, tenho sede. Água, refrigerante, caldo de cana. Tenho calor. Me dê abrigo.

Sombra para descansar, água para refrescar, estômago cheio. A gente quase acredita que a vida é bela. Quando levanto os olhos, descanso nele. Vendendo peixe, à minha frente, satisfaz todas as minhas necessidades. Faca nas mãos, peixes retalhados, tão bonito, assim, meio oriental. Metade de cima, metade de baixo. Metade pela frente, metade por trás. Agora só preciso de você.

Seus olhos contam uma história, mais bonita quando estão fechados. Pelo sol, e pelo cansaço, deite-se ao meu lado. Contenha a gota que escorre das têmporas, no meu suor, e cai pelo seu peito, liso, sobre os peixes. Terei uma história bonita para contar, quando sair da sombra e for até você.

Meu estômago, na sua barriga, quando me pegar. Assim nossas cicatrizes se entendem. Sua faca me preenche, quando corta o peixe. Abre meu apetite, em cortes transversais. Olhe pra mim. Aqui, do outro lado. Abra seus olhos, orientais.

De "A Morte Sem Nome", claro.

09/11/2005

MEMÓRIAS FALSAS DE PUTAS TOSCAS

Recebi esta noite por email do (escritor/cineasta chileno) Alberto Fuguet, um artigo sobre "A Verdadeira Identidade de JT LeRoy".

Segundo o escritor Stephen Beachy, JT LeRoy seria a invenção de uma escritora de 39 anos chamada Laura Albert. Ele coloca diversas evidências, a história é bastante complexa, então quem quiser ler, clique aqui:

http://nymetro.com/nymetro/news/people/features/14718/

Realmente faz sentido, mas tem uma coisa estranha nisso tudo. Eu jantei com o "LeRoy", conversei com ele por horas, minha irmã também, várias pessoas da editora também. O tempo todo ele estava SEM óculos e sem peruca. E, de fato, eu não posso ter certeza de que era um homem... podia ser uma menina de uns... doze anos... parecia ser um menino dessa idade. Agora, uma mulher de 39 anos com certeza não era.

Quem era o pitéu? Ou pitéia?

Engraçado que uma coisa dessas só poderia funcionar nos EUA. Aqui no Brasil, teria sido o contrário. Aliás, vou soltar o boato de que os livros da Lya Luft são escritos por uma menina de 25 anos, tatuada e viciada em crack, haha. Claro, do jeito que a cena literária por aqui é preconceituosa, uma menina com esse perfil só poderia emplacar livros se passasse por uma escritora da terceira idade.

Enfim... acho que isso só deixa a história do JT mais interessante. E os livros têm qualidade. Se toda a história por trás é invenção, sinal de ainda mais talento do autor/autora.

"The Heart is Deceiftul Above all Things", segundo romance do LeRoy, traduzido por mim, já foi entregue à editora, mas acho que só sai no começo do ano que vem (provavelmente com o título "Coração Traiçoeiro" ou "Maldito Coração"). Em português vocês já podem encontrar o primeiro, "Sarah", que eu recomendo e que foi traduzido pelo Flávio Moura, que foi meu colega de escola.

Inclusive, encontrei ele e vários outros coleguinhas numa festa de "10 anos de formatura", final de semana passado. Acho que eu fui para me vingar de todo mundo, tipo Carrie, sabe? Mas acabou sendo gostosinho. Você vê aqueles moleques "primeiros do time", que agora estão barrigudos, bebendo cerveja, vivendo "como os nossos pais". Outros que juram que eram "outsiders", mas eram os mais integradinhos do colégio. E geralmente os nerds, creeps e losers (já que estamos nessa realidade bem americana) é que se tornaram as pessoas mais interessantes. Ah, é clichê, previsível, mas uma delícia ver que ainda funciona...

Como uma menina que estudou comigo e que estava lá. Era um canhãozinho, cara de cucaracha, de óculos, a primeira da classe, cdf de quem todo mundo zombava. Hoje em dia soltou os cabelos, tirou os óculos, virou uma latina caliente... com certeza uma das mulheres mais interessantes da festa. Eu, já num estágio avançado de fritura, tive a pachorra de dizer a ela que era um caso de "Betty, a Feia", hahaha. Tudo bem, ela levou na brincadeira. Afinal, não é toda mulher que pode se vangloriar de estar muito melhor aos 28 do que aos 15 anos. Muuuuuuuito melhor...

Eu também acho que estou bem melhor agora do que quando tinha 15. Mas quando tinha 25 estava melhor do que hoje aos 28...

Quem sabe eu não devesse escrever um livro de memórias toscas/sexuais? Posso não ter sido criado num lar destruído, como o (suposto) LeRoy, mas por isso mesmo tive de me esforçar bem mais para sair da casinha e fugir dos eixos. Haha. Com certeza as histórias REAIS que eu teria para contar também dariam um bom filme... de repente um pornô surrealista?

04/11/2005

PRIMOGÊNITOS, PREMIADOS, SUICIDAS E ENCALHADOS.

Agora é tarde, mas como acontece todo ano, fica aqui o aviso. Tirei o texto abaixo do site Paralelos:

[Concursos literários costumam ser uma boa opção para novos escritores que tentam quebrar a barreira do primeiro livro. Principalmente ser o prêmio for a publicação da obra. O Prêmio Sesc de Literatura, em seu terceiro ano, vem se firmando como um forte propulsor literário, já que os vencedores das duas primeiras edições vêm conquistando um ótimo espaço no mercado. “Santo Reis da Luz Divina”, de Marco Aurélio Cremasco, vencedor do ano de 2003, foi um dos dez finalistas do Prêmio Jabuti. “As netas da Ema”, de Eugenia Zerbini, vencedora de 2004, foi lançado na Bienal do Rio em maio e já está na sua segunda edição. As inscrições para a edição de 2005 estão abertas até 31 de outubro e o prêmio é, mais uma vez, a publicação da obra pela Editora Record. O regulamento pode ser encontrado no site www.sesc.com.br. ]

Muita gente me pede dicas para publicar o primeiro livro, então talvez essa seja a melhor. Você já tem uma certa avaliação da qualidade do seu texto, por ele estar competindo com outros. E a Record é uma editora grande, tem boa distribuição, isso ajuda o livro a ter mais repercussão. Foi assim que eu comecei (com o Prêmio Fundação Conrado Wessel - que levou à publicação de "Olívio", pela editora Talento), eu nunca tinha mandado originais para editoras. É bom ficar ligado, porque sempre tem outros concursos pipocando por aí.

Por falar em primeiro livro, o meu continua aqui, encalhado, haha. Sabe como é, primeiro livro, editora pequena ao menos serviu para abrir as portas para meus livros seguintes. E até teve ótimas resenhas na Istoé, TPM e Jornal do Brasil.

Eu acabei recebendo algumas centenas dele para saldar direitos autorais. Então, como sempre, ainda estou vendendo "Olívio" autografado, baratinho, 21 reais, já incluidas as despesar de envio. "A Morte Sem Nome" eu também tenho, mas bem poucos. Posso vender os dois juntos por 40 ("Feriado de Mim Mesmo" só mesmo nas livrarias). Quem quiser, é só me mandar um email (saintdragon@uol.com.br) que eu passo os dados da conta para depósito.

Ultimamente tem surgido bastante gente comentando sobre "Olívio", que nunca foi meu livro favorito. É o de várias pessoas, ainda bem, eu o considero uma boa estréia. Vai um trecho:

Com uma garrafa em mãos, com sorriso em lábios, bateria na porta de Lorena. E sorriria ainda mais alto para que ela sorrisse também. E sorriria ainda mais alto para que ela dissesse sim. Aceitasse o convite. Bebesse com ele. Comemorassem a solidão, gota por gota, beijo por beijo.

Mais uma vez, sorriu na frente do espelho. E achou que o sorriso amarrotava seu colarinho. Trocou de camisa e sorriu novamente, despenteando os cabelos. Deu mais um gole, para ajeitar o sorriso, mas achou seus olhos um pouco perdidos, na frente do espelho, por trás de um sorriso. Deu mais um gole, para ajeitar.

E nada se ajeitava. O ponteiro dos segundos passava por cima do ponteiro dos minutos e empurrava as horas daquela noite, tirando tudo do lugar. Era tarde. Olívio estava cansado. Olhava-se no espelho e só conseguia ver a garrafa. Pensava no esforço que teria de fazer para se arrumar. Arrumar a segunda-feira. Arrumar as palavras certas. Arrumar um amor. Com a garrafa em mãos, suas intenções escorriam pela testa.

Tropeçaria nos degraus. Rolaria escada abaixo. Diria a Lorena tudo o que não deveria dizer nem a si mesmo. Que vergonha. Se pelo menos ajeitasse o sorriso, poderia dizer menos, mas com eficiência. E salvaria sua noite. Salvaria uma morte. Salvaria Lorena, em seus braços. Da solidão.

Não quer comprar?

02/11/2005

O CALDO RALO DA MELANCIA


Amanhã termina a Mostra. Consegui ver filmes divertidos de canibalismo, aborto, pedofilia e putaria.

Ontem fui ver "Nuvens Carregadas", do Tsai Ming-Liang, diretor de Taiwan que é um dos meus favoritos. Seus filmes são extremamente silenciosos, com planos longuíssimos em quadros fixos. Ele estaciona a câmera e deixa a ação acontecer, passar, descansar e só então muda para outro plano.

Há dois anos, vi o filme que considero seu melhor, "Adeus Dragon Inn". É apenas a última sessão de um cinema clássico de Taiwan, que se tornou decadente com o tempo. O que assistimos é um filme sobre pessoas assistindo um filme. Olhamos para uma platéia que olha para nós, num exercício extremo de metalinguagem. O filme também tem planos dentro da sala de projeção, no banheiro do cinema e nos corredores, quase como uma câmera de segurança. E é isso. Duas horas de uma sessão de cinema, que formam a nossa. Genial.

O clima da Mostra tem um pouco disso. É gostoso. As pessoas parecem mais dispostas a conversar umas com as outras, com desconhecidos, comentar dos filmes. Outro dia conversei com um advogado de Fortaleza que estava me comentando sobre isso. Que a Mostra tem um pouco desse ritual, de ver as pessoas, a sala, como nos antigos teatros. É exatamente isso que Tsai Ming-Liang tentou resgatar em "Adeus Dragon Inn".

Entretanto, "Nuvens Carregadas" vai numa direção bem diferente. Conta a história de uma seca em Taiwan, que faz com que as autoridades recomendem à população beber apenas suco de melancia, para economizar água. Nesse contexto, um casal se conhece e passa a dividir seus "fluídos". Ela só não sabe que ele é ator pornô.

Ao contrário dos outros filmes de Tsai-Ming Liang - que se passam sempre debaixo de uma chuva severa, mas são bem mais secos no tom – "Nuvens Carregadas" é uma comédia, muitas vezes caindo no besteirol, o que me faz considerar esse seu pior filme, ainda que seja divertido. Há diversos números com figurinos e coreografias extremamente kitsch, coisa que eu gosto; mas ele já havia feito isso em seu filme "O Buraco", que é mais denso, mais sério e que tira melhor proveito das músicas para romper com a aridez da narrativa.

Ainda assim, eu daria nota 7, pois é bom ver que ele não se leva tão a sério e é capaz de fazer auto-paródia.

Para terminar, dei uma entrevista para o site do Eric Novello. Foi centrada no mercado literário atual e na relação com outras artes, não nos meus livros, o que achei positivo. Um trecho:

Acho que há mais espaço, tanto físico quanto midiático, para o escritor brasileiro do que demanda. Quero dizer, cada vez mais se vê discussões sobre literatura, escritores na mídia, eventos sobre o tema, mas isso não é acompanhado do crescimento no número de leitores, pelo menos não na mesma base. Então é natural que não haja espaço para a literatura brasileira nas livrarias. As pessoas não estão comprando. E, ao meu ver, isso não é culpa do governo, do preço do livro, nem de coisa alguma, é reflexo simplesmente dos tempos, das pessoas não terem tempo, disposição e hábito de ler.

Vocês podem ler a entrevista completa aqui: http://www.ericnovello.com.br/entrevistas_santiago.php

Valeu.

30/10/2005

QUERO ESTANCAR O SANGUE

Ahhh...

Vocês não têm idéia do que é esse show da Marina Lima (Limão) no Parque do Ibirapuera. É sério. Eu sou um fã parcial dela. Gosto muito, mas não gosto de tudo. Prefiro as coisas "pós-queda" e comecei a ouvir mais recentemente. Mas, sinceramente, esse show que ela montou no Ibirapuera é uma das melhores coisas que eu assisti na vida.

Ok, explico.

O Auditório Ibirapuera é um novo teatro (que está sendo inaugurado no parque de mesmo nome). Parece que foi criado para englobar tantos espetáculos internos (pagos$$$) quanto aqueles shows gratuitos ao ar livre. Por esse motivo, o palco tem dois lados. Ele é virado para um auditório finíssimo, de 800 lugares, com poltrona como de cinema, de onde se tem uma visão privilegiada de onde quer que se sente. Mas tem os fundos para o próprio parque. E esse fundo fica normalmente fechado por uma parede móvel.

O show de Marina Lima não foi baseado em nenhum disco. Ela não está lançando nada novo. O que me parece é que queriam inaugurar o teatro e aprovaram o projeto da produtora dela. Escolha perfeita. Não é um show de música, é um espetáculo multimídia com projeções de vídeo, performance, laser, música e teatro. Marina entra com uma versão de Le Tigre. Em seguida canta músicas inéditas, tudo com luzes profundas, slides, modelos performáticas e um tom pesadíssimo. Coisa ultra gótica. Aliás, Marina sempre teve disso. Quem duvida, deveria escutar a versão que ela faz de "Nervos de Aço", de Lupicino Rodrigues. Acaba com a melodia da música e transforma numa poesia maldita. Termina desmaiando e sendo carregada do palco. E o show tem muito mais.

Marina está com mais voz. Ainda sofre para cantar, o que eu considero positivo, mas com certeza melhorou desde o acústico. Não tem mais medo. Em determinado momento, ela canta algo como "por que não existe sauna gay para mulheres?" e se abre uma cortina com manequins vivas simulando uma sauna. Ela também faz uma versão de Laurie Anderson em que diz, "Eu estava na Loca, é, a Loca, aquele inferninho", haha. Porra, a mulher faz Le Tigre, Laurie Anderson, A Loca, o que falta para ser rainha do underground brasileiro?

Tem aqueles momentos previsíveis de "Ainda é Cedo", "Acontecimentos" e outros hits inevitáveis, mas tudo entra no momento certo e só serve para evitar que o espetáculo seja um excesso de melancolia e tragédia, que eu considero lindo.

O final, afe, vocês não fazem idéia. É uma coisa que certamente só será feita aqui em São Paulo, aqui, neste teatro, e aqui, neste show. Ela canta "Para um Amor no Recife". Os versos: "eu voltarei depressa, tão logo essa noite acabe, tão logo esse tempo passe, para beijar você." Tudo muito bonitinho e compreensível, então o fundo do teatro se abre e você percebe finalmente que o palco também dá para um gramado imenso na noite do Ibirapuera, e que lá no fundo estão mesinhas montadas com as modelos vestidas de branco, e Marina vai embora andando pelo gramado, no meio da garoa, em direção às mesas, ainda cantando "que eu voltarei depressa, tão logo essa noite acabe, tão logo esse tempo passe, para beijar você." A impressão é que estamos vendo Marina morrendo, passando para o outro lado, enquanto continuamos cobertos, seguro da garoa, dentro do luxuoso teatro.

Para mim, essa imagem vai ficar para sempre.

E o melhor de tudo é que um show desses foi apenas 15 reais. Não entendo. Certamente deve ter sido pago pelos patrocinadores, para inauguração do teatro, porque tem uma estrutura absurda de luz e som. Quem estiver em São Paulo, tem mais este domingo (30) e sexta, sábado e domingo da semana que vem. Depois nunca mais. Em lugar algum. Porque com esse lance dos fundos do palco se abrirem é só mesmo aqui e agora.

E para quem não é de São Paulo, digo que é o momento ideal para vir. Cheio de atividades culturais. Estamos também no meio da Mostra de Cinema. Eu sempre consigo pescar umas pérolas, que depois carrego pelo resto da minha vida e que parece que ninguém mais assistiu. Mas a deste ano eu ainda não encontrei. Fui ver um filme interessante ontem. "Dumplings" (chinês), sobre uma mulher que faz bolinhos com fetos humanos para conservar a juventude. Coisa bem nojenta, com direito a babas e fluídos, bebezinhos mastigados e molho pardo, o que garante um certo interesse. No final da sessão, encontrei a (senhora Gianechinni) Marília Gabriela, e não resisti. "Fale a verdade, Marília, você anda comendo uns fetos." Ela apenas riu.

Enfim, já que pergurtaram, meu debate com Elisa Nazarian (a detentora do gene que deu origem à maldição) foi uma delícia. Lugar pequeno, público acolhedor. Ficamos lá quase duas horas, lendo contos, conversando com o público e lançando promoções instantâneas. Foi muito além do que a total desorganização (ou falta de) do Corredor Literário Prometia. Para vocês verem que não sou fresco (bem, há controvérsias) nem elitista, não havia mediador para nosso debate, nem microfone, nem mesmo luz! Eu precisei de uma certa insistência para conseguir que ligassem luzes sobre nossas cabeças para que ao menos conseguíssemos ler nossos contos. E eu mesmo fui o "mediador" do debate (eu esperava que os fundos se abrissem e eu saisse caminhando pela Paulista recitando "não quero mesmo viver para sempre, apenas experimentar mais uma forma de morrer"). É, baby, isso é ser escritor no Brasil.

Enfim, foi uma semana boa. Culturalmente ótima. E eu voltarei depressa, tão logo essa noite acabe, tão logo esse tempo passe, para beijar você.


PARA UM AMOR NO RECIFE (Paulinho da Viola)
A razão porque mando um sorriso
E não corro
É que andei levando a vida
Quase morto
Quero fechar a ferida
Quero estancar o sangue
E sepultar bem longe
O que restou da camisa
Colorida que cobria minha dor
Meu amor eu não esqueço
Não se esqueça por favor
Que eu voltarei depressa
Tão logo a noite acabe
Tão logo esse tempo passe
Para beijar você

26/10/2005

CANÇÕES DE CACHORROS E GRITOS DE MENINOS

Quinta agora, dia 27, às 18h, no Espaço Cultural da Caixa, no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, eu e minha mãe, Elisa Nazarian, estaremos lendo uns continhos, e conversando, e respondendo perguntas, se tiver público. É um debate que faz parte do "Corredor Literário", evento que traz uma série de discussões pela Avenida Paulista. Vocês podem ver a programação completa aqui:

www.corredorliterario.com.br

Sei que o horário não é dos melhores, que tem mostra de cinema e que essas coisas costumam ser chatas às pampas, mas quem quiser me encontrar, e conhecer minha mãe, apareça por lá.

Elisa Nazarian, mamãezinha, lançou "Resposta", seu livro de estréia, este ano. Está conquistando uma legião de fãs, como boa Nazarian, e teve uma ótima crítica no Estadão, algumas semanas atrás. Então venham conferir.

E domingo teve Strokes. Delícia de show. Encontrei muita gente amiga. Tava um climinha agradável (tanto de energia quanto de temperatura), só o som é que tava muuuuuuuuuuuito baixo.

Puta merda, como fazem um evento chamado Tim Festival, patrocinado por uma operadora de celular, e colocam o som tão baixo? Tem de ser muito jeca mesmo.

Apesar disso, o que consegui ouvir do Arcade Fire foi legal. Totalmente The Cure, não? Vou tentar baixar algumas coisas. Kings of Leon é um nada. Os Strokes foram sensacionais, mesmo com o Julian gripado e sem voz, acho que isso só deixou as coisas mais emocionantes. Emocionante também toca aquela petizada cantando junto e gritando "IS-TROUQUES, IS-TROUQUES".

Falando em petizada, bom ver que o rock está com força total nessas novas gerações, principalmente o rock que costumava se chamar de "alternativo". Agora se vê um monte de rapazinhos de cabelo bagunçado, gravatinhas, olhos pintados, na minha época (ui!) isso era boiolice (mas eu me montava mesmo assim, claro). E hoje até os boiolinhas também estão na onda. Quero dizer, os mariquinhas agora não escutam mais Cher, Whitney Houston e outras tosquices, eles são fãs de Placebo. As divas estão virando som de tia, essas tias bombadas que vão na The Week. (Ah, não, não me diga que estou chegando lá...)

Por esses dias eu descobri o Cachorro Grande. Já tinha ouvido algumas coisas deles, mas nunca dei muita trela. Agora conheci mais. É bem interessante. Totalmente gaúcho. Lembra coisas como Júpiter Maçã, Graforréia Xilarmônica, mas com uma pegada mais pop (e letras piores, diria). De qualquer forma, beeeeeeem melhor do que Pitty, sinal de que o rock nacional tem salvação.

Aliás, os caras do Cachorro estavam lá na pista do show dos Strokes, cheio de groupies envolta. Rock é isso.

Então tá. Sei lá.

22/10/2005

NA HORA DE SEGUIR OS PASSOS, ESCOLHO MUITO BEM OS SAPATOS

Acabei de voltar do Rio. Vivo.

Só isso já teria feito esta viagem ser melhor do que a última que fiz para lá (Bienal), da qual voltei em trapos. Mas dessa vez teve várias, várias coisas legais e importantes.

Eu era o menos experiente (e mais novo) dos oitos escritores participantes do seminário, e isso foi ótimo. É como aquele velho clichê, que o melhor para um músico é tocar com quem sabe mais do que ele, só assim se aprende. Com certeza pude aprender horrores com Alberto Fuguet, Joca Terron e Efraim Medina (os três com quem tive mais proximidade).

Alberto Fuguet é uma figura interessantíssima. Escritor (chileno), diretor de filmes e popstar das idéias, já chegou até a ser capa da revista Time. Ainda assim, mostrou-se um cara totalmente acessível e interessado, que já posso considerar como amigo (bem, depois que tive de acordar hoje às 10h da manhã, com uma baita ressaca, para ir à praia com ele...). Também é fã da Finlândia, do cineasta Tsai Ming-Liang e se interessa muito por cutting. Participamos da mesma mesa no CCBB, que foi ok, mas um pouco estranha. Não havia exatamente perguntas, apenas discursos teóricos sobre a produção literária latino-americana e eu nunca sabia se estava exatamente falando sobre o tema (já que não havia perguntas...). De qualquer forma, sempre acho esses debates estranhos, então o problema deve ser comigo...

Efraim Medina Reyes é outro escritor latino-americano que ascendeu para a condição de popstar internacional, figuraça, parece estar aproveitando intensamente tudo isso. Tá muito certo. Uma hora estávamos conversando e reparei nos sapatinhos "dândi" dele. Comentei algo como "nice shoes" e ele respondeu simplesmente: "Valentino". Haha.

Conversei muito também com Joca Terron, um cara severo, sério, impiedoso, com certeza um dos escritores brasileiros mais respeitados da safra que surgiu dos anos 90 para cá. Eu só me policio para não ser contaminado pelo pessimismo (ou realismo?) dele com a literatura brasileira, senão nem vou conseguir continuar... Ah, sim, quero calçar sapatinhos Valentino...

Mas o Rio não foi só isso, claro. Também tive o prazer de encontrar pessoas com quem já tinha falado bastante virtualmente, como o querido Saint-Clair e a Victoria Saramago, beber com gente finíssima como a Beá, Bressane e a Chris, além de sair para baladas furiosas com Ana Paula Maia, Felipe Scholl e Daniel Barros. Delícia. E, obviamente, tive meus momentos Aschenbach, vendo todos os tadzios turbinados de Ipanema. Sofrimento.

Agora é voltar para o cinza da minha vida.

Minha última palavra sobre o referendo:

Até agora eu não vi NENHUM argumento realmente inteligente a favor do "Sim"... Nem a favor do "Não". Mas eu próprio, pensando sobre o assunto, achei melhores argumentos para o "Não", embora sejam apenas teses e eu não tenha certeza de que são verdadeiras. Por exemplo, argumento do SIM de que 95% das mortes causadas por armas de fogo no Brasil acontecem com armas que foram compradas legalmente nas lojas é um TREMENDO SOFISMA. As estatísticas podem até ser reais, mas não tem NADA A VER com o referendo. Ora, 95% das mortes são causadas por armas compradas legalmente porque elas PODEM ser compradas legalmente. Se forem proibidas, 100% das mortes causadas por armas de fogo acontecerão através de compras ilegais. Então, o que é melhor, ser assassinado por uma arma que paga impostos ou por uma arma vinda do tráfico?

Agora, o PIOR argumento é de pessoas que dizem: "Ah, se o Fleury faz campanha para o Não eu vou votar no Sim." E muita gente diz isso. Fleury pode ter razões indignas para defender o Não, mas você pode ter bons motivos. O mesmo ocorre com o pessoal do Sim. Veja só o final da escravidão no Brasil, por exemplo, você acha que aconteceu por bons motivos humanitários?

Ao meu ver, são questões como essas que deveriam ser debatidas. Ou melhor, questões como essas NÃO DEVERIAM SER DEBATIDAS pelo cidadão, porque o cidadão não tem capacidade real de fazer uma escolha dessas.

Eu não tenho capacidade de fazer uma escolha dessas. Acredito que a proibição vá aumentar o tráfico, mas não tenho certeza, não sou especialista no assunto, não tem como eu saber. As campanhas não esclarecem nada e, como já disse, nenhum argumento que me passaram, de ambos os lados, eu achei realmente convincente.

Com tudo isso, provavelmente, vou anular meu voto. E reforçar meu protesto contra o referendo. É imbecil fazer uma pergunta dessas à população. Nós (teoricamente) elegemos políticos (teoricamente) capacitados para resolver questões complexas como essa. Por que a população nunca foi consultada sobre assuntos menos capciosos, como reeleição presidencial, por exemplo?

O que importa é que amanhã, dia 23 de outubro, os Strokes tocarão em São Paulo...

19/10/2005

PÓ DE VIDRO E VENENO DE COBRA

Descobri que uma maldição está se alastrando por meu prédio todo, como vazamento. Meu banheiro começou com umas manchas "Dark Water" e agora os pedreiros vieram marretar aqui também. O visual até que está interessante, todos os canos expostos. Parece que estou vivendo no set de um filme do Freddy Krueger, mas logo eles passam o reboco e eu volto à minha realidade Walter Salles...

Estou indo pro Rio. Já saíram várias notinhas, matérias e fotos pela imprensa de lá. Recebi uma que falava do evento, dava o nome dos escritores e dizia que eu era "o único escritor brasileiro participante". Ahaha. Puta merda, vai ser jornalista barbeiro assim no inferno! Eles não sabem de onde vem o Ruffato, o Joca, Sergio Sant'Anna?

Aliás, eu tava com a programação completamente errada. Mudou tudo e ninguém me avisou. Só fiquei sabendo hoje, pela imprensa.

O Globo pegou alguns depoimentos dos participantes (meu inclusive) e fez uma matéria mais analítica sobre o encontro. Dá pra ler aqui:

http://oglobo.globo.com/jornal/suplementos/

segundocaderno/188823863.asp

Recebi também uma resenha bem interessante sobre "Feriado de Mim Mesmo" no jornal "O Popular" de Goiânia. Achei interessante porque, em resumo, o resenhista Rogério Borges diz que eu sou um bosta, mas escrevo bem. Haha. Quero dizer, ele elogia bastante o livro, mas de uma forma bem venenosa. Diz algo como "veja só, que surpresa, ele escreve bem", além de colocar umas inverdades. Diz que "num debate em São Paulo" eu havia afirmado que não li Clarice Lispector nem Guimarães Rosa e que "descartava deselegantemente esses autores". Hum, será que ele dormiu durante o debate? Pois se eu mesmo LI DURANTE O DEBATE um conto da Clarice, e disse que gostava bastante dela, mas que não era uma das minhas influências de base. Do Rosa eu realmente li muito pouco, por enquanto só alguns contos, mas li. De qualquer forma, lendo a resenha com soro antiofídico, é bem escrita e ele faz uma análise legal do livro, isso é o que importa.

Bem, tchau, fui pro Rio. A programação (corrigida e atualizada) está no post abaixo. Vejo os cariocas lá.

15/10/2005

LATINO AMÉRICA ALÉM DE IVETE SANGALO

Antes que eu me esqueça, na próxima quinta, dia 20, eu vou estar no Rio de Janeiro, num debate com Alberto Fuguet, escritor chileno autor de, entre outros, "Baixo Astral", que eu acabei de ler.

Vai ser um evento legal, com uma série de debates, de terça a sexta, sempre com um escritor brasileiro e outro latino-americano. Vai aí a programação completa (que atualizei, estava completamente errada):

Dia 18: A Literatura Latino Americana entra no Século XXI - Com César Aira (romancista, dramaturgo e ensaísta argentino), Sergio Sant'Anna (romancista e contista) e mediação de Raul Antelo (professor de literatura da Universidade de Santa Catarina, escritor e coordenador de Obra completa de Oliverio Girondo para a coleção Archivos).

Dia 19: Literatura Latino Americana e Política - Com Reinaldo Montero (romancista cubano), Luiz Rufato (escritor e jornalista) e mediação de Beatriz Resende (professora, crítica literária e autora de Apontamentos de crítica cultural).

Dia 20: O Que Mudou na Literatura Latino Americana de Macondo a Mcondo? - Com Alberto Fuguet (escritor chileno); Santiago Nazarian (romancista e contista) e mediação de Paloma Vidal (contista, escritora e editora da revista Grumo).

Dia 21: Afinal, Onde Está a Literatura Latino Americana? - Com Efraim Medina Reyes (um dos mais celebrados jovens autores latino-americanos, romancista colombiano), Joca Terron (romancista, contista e designer gráfico) e mediação de Paulo Roberto Pires (escritor, editor e jornalista).

Todos os debates acontecem no Centro Cultural Banco do Brasil/Rio, às 18:30.

Tem muita gente que me escreve do Rio, que pode fazer uma forcinha para aparecer lá. Eu vou ficar pouco na cidade e essa é a oportunidade da gente se encontrar...

E na semana seguinte, dia 27, terei um debate aqui em São Paulo com minha mãe, Elisa Nazarian. Será a primeira vez que ela se apresentará em público, já que é meio tímida, para falar sobre seu livro "Resposta", que foi lançado este ano.

Aliás, saiu neste sábado uma matéria sobre o livro dela no Estadão, assinada pelo Ubiratan Brasil. "Um texto belo e movediço, um livro singular, um jogo de contrastes entre um homem e uma mulher", colocou ele na resenha.

Há também uma foto da minha mãe comigo (by Luciancencov) e o Ubiratan faz uma referência a mim: "Elisa foi
apoiada pelo filho, o também escritor Santiago Nazarian, autor de alguns dos mais instigantes romances da recente literatura Brasileira". A orelha de "Resposta" é assinada por mim. Pois é, coisa de berço, baby.

Para terminar, saiu no site Verbo 21, uma entrevista que o Ésio Macedo Ribeiro fez comigo. É uma das melhores entrevistas que já dei, com certeza a mais densa. Vai um trecho:

As viagens começaram a ter outro significado para mim no início da vida adulta. Eu me apaixonei e fui rejeitado por um rapaz do interior de São Paulo. Comecei a viajar todos os finais de semana para a cidade dele, conheci os amigos deles, namorei uma amiga dele, tudo sem ele ou eles saberem, adotei uma identidade falsa. Aliás, o pseudônimo "Thomas Schimidt" veio dessa época, eu tinha uns 19, 20 anos... Era um sofrimento terrível, mas era gostoso. E eu comecei a fazer várias dessas "viagens passionais" para várias cidades. Eu terminava um namoro e ia passar o final de semana nos puteiros de Curitiba, bebendo, me drogando, me suicidando, era lindo (risos). Claro que era tudo falso, porque domingo de noite eu voltava para São Paulo, para a casa da minha mãe, e ia trabalhar segunda cedinho, mas era uma forma de viver a literatura que já corria em mim. E acho que assim foi brotando minha escrita. Até que decidi sair de vez da casa da minha mãe e ir viver isso permanentemente. Escolhi uma cidade para onde eu nunca tinha ido, onde não conhecia ninguém e me mudei para lá, para começar uma nova vida. Nem precisei criar nome falso ou um passado falso, quando você está em outro cenário, vivendo de fato uma nova realidade, você se torna uma outra pessoa, ou ao menos percebe o que é verdadeiro em você e o que é personagem de uma vida anterior. Você passa a se conhecer muito melhor. Fiquei dois anos em Porto Alegre, foi ótimo para mim. Lá escrevi meus dois primeiros romances. E quando já estava bem estabilizado, com uma vidinha regrada, emprego bem remunerado, resolvi viajar pela Europa, só com uma mochila nas costas, para continuar a viver. Assim foi.

Vocês podem ler inteira na parte de entrevistas da Verbo 21: www.verbo21.com.br

13/10/2005

VERGONHA, IRA E INDIGNAÇÃO!!!

Vá assistir a "Dois Filhos de Francisco", "Xuxa e os Duentes 9", até uma mostra completa do Antonioni, mas JAMAIS assista "Os Irmãos Grimm".

É um dos piores filmes que vi na minha vida inteira. Segue uma tendência hollywoodiana vergonhosa de pegar clássicos da literatura e transformar em uma versão video game de Indiana Jones. Bah! Já fizeram isso com Oscar Wilde e Julio Verne (em "A Liga Extraordinária"), com Bram Stoker, Robert Louis Stevenson e Mary Shelley (em "Van Helsing") e agora pegaram os coitadinhos alemães, que devem estar se revirando no túmulo.

"Grimm" é o pior desses filmes. O roteiro (?) parece ter sido improvisido por uma criança enquanto o filme era rodado. Não tem a menor lógica e a menor pertinência. O filme consegue ser arrastado, apesar da ação incessante. As referências aos contos de fada são todas esvaziadas e os efeitos especiais são os mais toscos truques de animação computadorizada. Um nojo.

Só perde mesmo em ruindade para as propagandas sobre o referendo na televisão. Tanto o "Sim" quanto o "Não" apelam para sofismas e joguinhos morais, sem esclarecer nada à população sobre o assunto. Vi algumas coisas absurdas, como um bando de jovens com cara de idiotas que não falava nada além de: "ninguém vai tirar meus direitos, tá ligado, mano?", achando que só pela linguagem "jovem" vai se convencer alguém. Esse tipo de coisa devia ser proibido, é uma propaganda que não esclarece nada, não tem argumentação alguma, parece seguir a mesma linha dos programas políticos.

Será que eles pensam que convencem alguém com esses argumentos idiotas? Por favor, eu poderia escrever os programas deles com argumentos muito melhores, tanto pelo sim quanto pelo não.

Essa questão de votar pelo "não" por ser um "direito conquistado" é uma imbecilidade. É a mesma coisa de querer voltar à escravidão, porque era um direito que os brancos tinham e que foi perdido.

Para mim, não é um caso de conquista nem de diminuir violência. Acabar com a possibilidade do cidadão comprar armas legalmente não vai acabar com a violência, nem mesmo com a circulação de armas entre civis. O maior argumento que se pode dar a favor do "Não" é contra o tráfico. Dizer que quem vota "Não" é a favor do armamento é uma besteira. Eu não sou a favor, não acho que as pessoas deveriam ter armas em casa, mas não acho que uma proibição agora, na situação em que o país está, adiantaria alguma coisa, só pioraria. Poderia desarmar algumas pessoas bem intencionadas, que tinham armas por proteção e não costumavam usá-las, mas vai continuar permitindo que os verdadeiros armamentistas tenham acesso às armas (pelo tráfico, por seus seguranças pessoais, por brechas da lei). É por isso que, por mais que eu seja contra o "direito" de qualquer um ter uma arma, sou mais inclinado a votar pelo "NÃO".

Para mim é ou votar isso ou não votar. Aliás, Débora Guterman, da Planeta, me colocou uma questão interessante. É possível votar nulo? Se você apertar a tecla de "confirma" sem escolher 1 ou 2 seu voto é anulado? Porque, a rigor, ao responder à pergunta "Você é a favor da proibição da venda de armas e munições?" sem escolher resposta, apenas apertando "confirma", você também está dizendo que sim. Ou não?

De qualquer forma, já estou me bem armado com facas e machados para matar os pedreiros que continuam martelando aqui no prédio...

10/10/2005

SE PROIBIREM AS ARMAS, COMO VOU MATAR O ANTONIONI?*

A gente pondera, pondera se a pena de morte traria alguma solução, se deve ser aprovada a proibição do porte de armas, como fazer para diminuir a violência... Mas quando se tem uma reforma no apartamento vizinho, com pedreiros marretando o dia inteiro, despertam-se em mim os instintos mais primitivos... E eu só gostaria de torturar lentamente esses operários até a morte...

Mudando de assunto para beleza, amor e arte, fui assistir ao filme "Eros". É a junção de três curtas dos diretores Michelangelo Antonioni, Steven Soderbergh e do Wong Kar Wai. Não entendi direito a proposta do filme. Para mim, parecem três obras completamente distintas, sem nenhuma ligação uma com a outra, nem visualmente, nem tematicamente, nem em enfoque, nada. Ah, sim, claro, dizem que o tema comum é "o sexo", mas até aí, freudianamente falando, tudo é sexo.

Eu imagino que estavam Antonioni e Soderbergh sentados num barzinho em Cannes e um comentou para o outro:

- Puxa, acabei de fazer um curta, ficou sensacional, mas é foda, né? ninguém assiste curta, nenhum lugar passa...

- Eu também fiz um. Ficou afudê [licença gaúcha]. Tem uns 30 minutos. Quanto tempo dura o seu? De repente a gente podia juntar e transformar num longa, assim muito mais gente assiste.

- Putz, mas o meu também tem uns 30 minutos, a gente precisa arrumar mais um diretor com curta, daí dá pra transformar em longa. Epa... olha o Wong Kar Wai passando lá. Ei, china! Vem cá que a gente tem uma idéia. Não tem um curta aí para juntar com nóis e fazer um longa?

- Hihihi, não tem nada, né? Mas acabo de rodar filme bonito, né? Posso aploveitar locação/fotoglafia/cenálio pla rodar culta bonito, né?

- Mas, brows, pensam aí. Precisa ter um tema único para os três filmes, algo que justifique serem passados juntos.

- Hum, "existencialismo"? Existencialismo é um bom tema.

- Ou amor... sexo, sei lá?

- Pode ser, pra mim pode ser qualquer um desses, e pra você, china?

- Só se puder sexo com roupa, pulseila, bolsa, anel, né?

Haha. Vai dizer que não foi assim que fizeram o filme? Muito bem. Não importa. O que importa é o resultado. E foi uma ótima estratégia porque seria difícil mesmo ver curtas isolados desses diretores.

A primeira história, do Antonioni, é uma merda. Deu vontade de dar um tiro nele. Preciso do meu direito de ter armas para momentos assim. É um filme tosco, dublado, com umas mulheres a la fantástico (ou pior "Selvagens Inocentes") dançando na praia, um terror. No começo eu até achei que era gozação, que era um filme dentro de um filme sei lá. Mas foi ruim do começo ao fim. Ainda bem que passou rápido.

Já a segunda história, do Soderbergh é genial. Tem um texto ótimo, dele próprio (alguém sabe se o cara escreve literatura? O roteiro dele é bem literário, lembra algo como Sam Shepard), de um publicitário no consultório de um psicanalista que não está realmente interessado no que ele tem a dizer. Enredo banal, mas muito bem escrito.

A última história, do Wong Kar Wai, é linda. Realmente parece que ele aproveitou toda a equipe técnica, cenários e locações do seu longa "Amor à Flor da Pele", que é belíssimo. O texto/enredo é delicado, a história de um alfaiate que faz roupas para uma prostituta de luxo e se apaixona por ela. Mas vale mesmo pelo visual.

Então, temos o terceiro filme imagético, o segundo conteudista e o primeiro porra nenhuma. Haha.

Para terminar, a Lyvia Lemos, de Goiânia, fez uma entrevista comigo e colocou no seu blog. Dá para ler aqui:

www.psicopatamoderno.blogspot.com/2005/10/entrevista-com-o-escritor-santiago.html

*– O título do post de hoje é uma homenagem ao pitelíssimo Dênis "Papa-léguas".

08/10/2005

LARGA DA MINHA PATA

"A morte sem nome is a radically unsentimental novel. Santiago Nazarian’s dense poetic language succeeds in combining merciless realism and nightmarish exaggeration."

É isso mesmo. Adorei. Frase de divulgação do meu livro aí pelo mundo. Está no material da Dra. Ray-Güde Mertin, agente que me representa internacionalmente desde o ano passado.

Nessa última quinta-feira fui assistir ao show de outra banda do Ceará, "Montage". É um projeto de elektropunk com guitarra, programações e o vocal de Daniel Peixoto. Coisa fortíssima. Lembra bastante bandas elektrogothic como Alien Sex Fiend e Skinny Puppy, tanto o som quanto a performance, mas com uma brasilidade que deixa tudo mais interessante. Começaram com aquela "Money, Success, Fame, Glamour" do filme Party Monster, que ficou bem feitinha, pesadinha, mas previsível. O melhor começou com a segunda, "Raio de Fogo", deles próprios, que, como definiu o vocalista, é uma "macumba eletrônica", falando de Pomba Gira, encruzilhada, noite de lua cheia e coisas do demo.

E coisa do demo é o piá Daniel. Avassalador. Começa o show todo montadinho e termina só de cueca se esfregando nas caixas de som. Seu vocal é gritado, não melódico, funcionando como um MC que incita a galera à orgia ou à destruição. Lá pelas tantas eles metem um elektrofunk: "ela pula, ela gira, ela dá cambalhota. São as ginasta carioca" é a letra. E ele pede para o público gritar: "Vai Daiane! Vai Danielle!" Haha, é para levar na esportiva, em todos os sentidos.

Dá para baixar várias faixas deles no site da Trama: http://www.tramavirtual.com.br/montage, mas eu acho que é o tipo de coisa que tem de se ver ao vivo, como performance, afinal, elektro é isso, DJS performáticos. De qualquer forma, eles tem um bom trabalho de bases pesadas e guitarras distorcidas.

Falando em guitarras distorcidas, achei um link para o meu conto "O Vendedor de Mancebos", que saiu na Revista E deste mês. Quem quiser ler, toma aí:

http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=227&Artigo_ID=3544&IDCategoria=3868&reftype=2

E depois eu conto sobre a gangue que enfrentei sozinho, com uma caixa de Todynho.

06/10/2005

COMO MARRETAR BATRÁQUIOS

Esta noite, terminei de ler John Fante e peguei novamente "A Crônica da Casa Assassinada", do Lúcio Cardoso, numa edição para lá de caprichada. Numa entrevista em que o Ésio Macedo Ribeiro fez recentemente comigo (em breve coloco o link aqui), conversamos sobre esse livro e me deu vontade de lê-lo novamente. Isso tem se tornado cada vez mais difícil, quero dizer, reler livros queridos, porque tenho tantos outros inéditos me esperando...

Estou longe de ter lido de tudo. Nunca li alguns autores ditos "obrigatórios", nem tudo daqueles que são fundamentais para mim. E cada vez mais tenho de ler contemporâneos, amigos, colegas, leitores que mandam originais. É um prazer e um privilégio, quando não se torna uma obrigação. Quando começa a me impedir de ler outras coisas, se torna assustador. É como eu digo, às vezes me sinto em frente aqueles brinquedos de parque de diversão, em que você tem de dar marretadas em cada sapo que aparece, e cada vez eles vêm em maior número e mais velozes.

Mas pior acho esses escritores "estabelecidos" que dizem "não ler originais", ou pior, "não ler contemporâneos". Para mim, eles estão pedindo para não serem lidos. Há pouquíssimo tempo eu era autor estreante, ainda posso me considerar autor iniciante, a repercussão que tive devo em grande parte a gente com pilhas enormes de livros que se dispos a me dar uma chance. O mínimo que posso fazer é dar uma força para quem vem atrás na fila.

Só que por pensar assim mesmo que eu me angustio. Geralmente recebo os livros e aviso que vou demorar para ler, para dar conta de tudo, poder manter também minhas próprias escolhas, mas fico vendo aqueles livrinhos ali, de gente tão ansiosa para ser lida, e acabo achando que Guimarães Rosa não precisa mesmo de mim...

E ainda tem as traduções, que acabam sendo uma leitura hiperaprofundada, que exigem muito de mim mas me dão um enorme prazer.

Eu gosto muito da prosa contemporânea norte-americana. Não vou chegar ao ponto de alguns, que dizem que eles escrevem melhor do que nós. Eu não concordo. Acho que os escritores contemporâneos brasileiros tem uma preocupação intensa com a forma. De maneira geral, trabalham as palavras e a poesia na prosa com mais afinco do que os americanos por exemplo, mas muitas vezes menosprezam a história. É aquela velha frase de que "toda história já foi contada", de que eu discordo com fúria. Talvez, pelos americanos terem uma "indústria cultural" mais estabelecida, principalmente no cinema, os escritores se preocupem mais em contar histórias, que possam ser posteriormente filmadas, sem preconceitos (aqui geralmente se diz de forma pejorativa que um livro foi feito "para o cinema", talvez seja pelo tipo de cinema que se faça com os livros brasileiros...).

Minha mãe também lê muita prosa americana contemporânea, voltava todo ano de Nova Iorque carregada de livros, e respingava alguns em mim. Quando comecei a seguir meu próprio caminho literário, resenhei alguns na Amazon (deus queira que as resenhas não estejam mais lá), até que um professor norte-americano – provavelmente vendo que eu não entendia nada do assunto, haaha – começou a me enviar livros de presente.

Dele eu recebi Tom Spanbauer, Eric Swanson, Peter Cameron, Jim Crace.

E fico feliz de estar seguindo com isso, traduzindo alguns autores que considero importantes (outros nem tanto) para o português. Minhas últimas resenhas na Folha também foram de autores estrangeiros (ingleses), com livros muito bons ("Terroristas do Milênio", do Ballard e "Michelângelo, o Tatuador", da Sarah Hall).

Atualmente, estou traduzindo um romance do cineasta Gus Van Sant (ficção, com ilustrações inclusive) e um romance escrito pelo Marlon Brando e o Donald Cammell.

05/10/2005

TIRE A MÃO DA MINHA PISTOLA

Vocês devem ter visto que a capa da Veja desta semana é uma defesa ao "Não" no referendo sobre a proibição de comercialização das armas de fogo no Brasil.

Simplesmente não entendo como a Veja pode tornar publica uma posição dessas. Claro que não acredito que exista jornalismo "imparcial". O jornalismo é feito por pessoas, e pessoas têm suas posições. Por isso matérias são assinadas. E por isso também acho um absurdo a Veja estampar em sua capa uma posição unilateral. Ao assumi-la, é como se uma revista tivesse uma posição pessoal. Ora, quem tem opiniões pessoais são pessoas. A Veja parece desprezar as opiniões pessoais de seus jornalistas, impingindo a eles uma posição institucional. Não sou ingênuo em achar também que nenhum jornal ou revista nunca toma determinado partido ou não deixa implícitas as convicções de seus editores, mas nunca vi assumirem assim, de forma descaradas, por mais que a causa seja boa. Ao meu ver, é como se tivesse se pronunciado antes de uma eleição colocando na capa NÃO VOTE NO MALUF PORQUE ELE É LADRÃO.

De qualquer forma, eu concordo com vários pontos da matéria. Só acho que algumas questões não foram devidamente colocadas, e outras sem tanta relevância foram ressaltadas.

Eu, que tenho opinião pessoal, coloco minha posição:

Em primeiro lugar, a pergunta do referendo é terrivelmente mal formulada, não tanto por conter "palavras de forte impacto emocional", como coloca a Veja, mas simplesmente por exigir dos cidadãos que afirmem ou neguem uma negativa. Você é contra a proibição da venda? Quer dizer que você é a favor da venda então? E você é a favor da proibição? Então você é contra a venda? Qualquer um que teve uma juventude psicodélica, como eu tive, tem espasmos tentando desvendar esse enigma.

Além do mais, a pergunta reforça o lado moral da questão, que não é o caso. Parece que quem é contra a proibição é a favor das armas, quer comprar a sua, coisa que não é verdade. As pessoas associam arma a um valor negativo, ao darem "sim" para a comercialização delas (o "não" do referendo), consideram que estão ferindo sua moral.

Saindo da pergunta e analisando as possíveis conseqüências do referendo, a coisa piora. A proibição da comercialização de armas só pode aumentar o tráfico e o contrabando. E não estou falando apenas entre os bandidos. Você acha que o empresário ricaço, cheio de seguranças, não vai conseguir com eles uma arma para sua proteção pessoal? Você acha que o filhinho playboy dele, que dá tiros no trânsito, não vai ter acesso à armas? Claro que isso pode diminuir um pouco, mas não tanto quanto aumentará o tráfico. Aliás, muitos que defendem a legalização da maconha usam exatamente esse argumento, que com a legalização acabaria a violência do tráfico (coisa que não é exatamente verdade, veja só o tráfico de armas que já existe e o contrabando e pirataria de outros produtos legalizados como cds).

A Veja coloca outra justificativa que eu também colocava de maneira irônica. "Como os habitantes das regiões rurais vão se defender dos animais selvagens?" Hahah. Pior que a Veja diz isso a sério. Pense bem, QUE ANIMAL SELVAGEM EXISTENTE NO BRASIL DEVE SER MORTO POR ARMA DE FOGO? Será um elefante? Rinoceronte? Um leão?! As pessoas precisam mesmo de armas de fogo para espantar cobras e jacarés (não vê aquele que comeu minha mão?). Ah, claro, tem as onças... as dez que ainda existem na natureza...

(aliás, fiquei sabendo de uma medida – não sei se é verdade – de um grupo de preservação que oferece 300 reais a todo fazendeiro que tiver seu rebanho atacado por onça, evitando assim que ele mate a bichana para proteger seu investimento. Maravilha. Mas será que agora os fazendeiros vão começar a morder os bezerros mais capengas para faturar uns trocados?)

Existem também a questão de proteção rural, pela distância das delegacias no campo, os ataques de grupos sem terra, etc, etc. Isso eu não sei e não posso opinar.

E essa é a conclusão que eu chego. Eu, que procuro me informar sobre o assunto, que reflito sobre prós e
contras da proibição, tenho uma grande dificuldade em fechar minha posição. Eu, por exemplo, não conheço muitos argumentos para ser a favor da proibição. Se alguém tiver, por favor, me diga. O povo não está preparado para decidir uma questão dessas. Eu não estou preparado para decidir uma questão dessas. Essa não é uma questão que deveria ser decidida pelo povo. Como a Veja também colocou, fazendo o povo decidir essa questão, coloca-se nele a responsabilidade dos problemas conseqüentes do resultado do referendo. Mesmo que o resultado seja "não à proibição", as conseqüências não são neutras, não se continua na mesma, pois a responsabilidade já foi transferida. Esse referendo não deveria acontecer.

Por enquanto, acredito que, melhor do que votar contra a proibição, seja não votar. Mas se todo mundo fizer isso, vai ter uma fila enorme para justificar... Ahhh...

VIVA LA RESISTENCIA

Do alto de Medellin.  Voltando da Colômbia, após cinco dias em Medellin, numa daquelas viagens mais proveitosas do que divertidas. Via...