05/01/2005

SANGRE FRIO E LÍNGUA BIFURCADA

Li recentemente a reportagem vencedora do Prêmio Esso 2004. "A Tragédia de Felipe Klein", de Renan Antunes de Oliveira. O Felipe era um garoto de 20 anos, filho do ex-ministro Odacir Klein, adepto da "body modification" e que se suicidou no começo de 2004.

Apesar do detalhamento da reportagem, achei-a extremamente moralista e conservadora, como é comum nas reportagens que tratam de body art.

"Ele tinha tudo para ser feliz. Juventude, saúde, talento, dinheiro, o amor de belas garotas. Mas Felipe construiu para si um mundo dark e animal. Tatuou demônios no peito - e foi vencido por eles."

Coloca as tatuagens e as modificações corporais como "o mal que afligia Felipe", e não como manifestações de suas verdades (ou contradições) internas. É claro que alguém que, como ele, coloca próteses de chifres na cabeça, bifurca a língua como a de um réptil, entre outras coisas, não tem uma mente exatamente saudável, mas até aí, quem tem? É como dizer que a pintura foi a loucura de Van Gogh (guardadas as devidas proporções).

Por que esse povo tem sempre de julgar a estética alheia?

Eu conheci o Felipe quando morei em Porto Alegre. Fomos amigos próximos por um tempo, mas ele era bem mais novo do que eu e muito obsessivo/depressivo. Eu, que estava "descobrindo a luz", não tinha mais muita paciência com o povo gótico, e me afastei daquela turma. Mas posso dizer que o que movia/motivava o Felipe era esse trabalho estético. Inclusive ele trabalhava fazendo tatuagens e piercings, ou seja, esse era o lado prático e produtivo da vida dele.

Minhas "incursões" na body art foram muito mais sutis e esporádicas. Apenas fotos com alguns cortes reais (algumas delas inclusive estão nas orelhas dos meus livros). O povo mais radical dizia que "aquilo não impressionava", que eu deveria pegar mais pesado. Os jornalistas e outros "alistas" por aí criavam um grande alarde. Cheguei a ser capa da Ilustrada, em 97, por causa disso. Mas minha intenção é apenas fazer um trabalho estético com uma simbologia por trás. Não é prazer, não é dor, apenas beleza. Qualquer um que se corta fazendo a barba não cria grande alarde por causa disso, e a intervenção física é a mesma.

Mas eu acho interessante quem realiza intervenções mais radicais, embora nem sempre eu goste do resultado. Como a artista francesa Orlan, que faz operações plásticas sistemáticas para reproduzir fragmentos de obras de arte em seu corpo, "a testa da Mona Lisa", o "queixo da Vênus de Botticelli, e por aí vai.

Outra amiga minha que passou por isso (e não sei onde parou) foi a Priscila Davanzo, a "mulher-vaca", que tatuou manchas bovinas pelo corpo e pretendia colocar chifres também. Eu questiono alguns de seus argumentos, mas o que eu não entendo mesmo é por que isso agride tanto os outros, a ponto deles agredirem a Priscila de volta. A discussão sai de uma questão estética para virar ofensa pessoal.

Outra coisa que eu não entendo é a "polêmica das tatuagens". Não vejo o menor sentido naquela pergunta, "e se você enjoar". Tenho tatuagens que fiz há dez anos, e talvez hoje elas não tenham mais tanto significado pra mim, mas já fazem parte do meu corpo. Eu não as questiono. Depois de um tempo elas simplesmente se tornam parte de você, não fazem tanta diferença, só para os outros.

Mas é um saco sempre ter de explicar o que elas significam. E olha que eu tenho onze, ainda que pequenas...

Well, well, vocês podem ler a matéria sobre o Felipe Klein aqui:

http://www.jornalja.com.br/indx_detalhe.asp?cod=148


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Saindo do poço... Não foi fácil para ninguém, não se engane. Não foi fácil para mim. Estava revendo há pouco minhas retrospectivas de a...