19/05/2005

Hoje é quinta-feira e tem feira na minha rua. Nao costumo sentir cheiro de nada, mas hoje, talvez pelo vento, talvez pelo calor, os peixes nadaram até meu apartamento. Me fez lembrar de um conto antigo, e dos verdadeiros motivos para eu criar este blog. Então, hoje, ficção:

ESPINHA DE PEIXE

Hau abriu a torneira com dedos cuidadosos. Teria de fechá-la novamente, depois de lavar as mãos. Cheiravam a peixe, peixe fresco, sempre como algo podre. Escamas em seus dedos. Não queria contaminar a torneira. Teria de fechá-la novamente, com as mãos limpas. Lavou-as.

Curvava-se na pia e sentia a dor nas costas. Curvava-se na pia e sentia a espinha. Colocava as mão, descurvava-se na frente do espelho. Olhava em seus olhos. Via a si mesmo. Nenhuma escama. Nenhuma espinha. Nenhum reflexo de peixe em seus olhos puxados, em seu rosto adolescente. Hau ainda era o mesmo, apesar dos dedos.

Tirou a mão das costas e fechou a torneira. Levou os dedos ao nariz. Cheirou. Ainda estava lá. A espinha doía. O peixe gritava. E seus olhos puxados comprimiam-se ainda mais, diante do espelho.

O dia inteiro. Toda as manhãs. Ajudava os pais com a barraca na feira. Faca na espinha, peixe no gelo, olhos baixos, como a voz, ainda que falasse português melhor do que eles. Embrulhava. Papel jornal. Tinta carbono. Dedos manchados, afundando na água. Dedos congelados, embrulhando os peixes, embalando os restos, o fim da sua adolescência.

E Hau passava toda a manhã esperando por seu reflexo na frente do espelho. Seus dedos embaixo do nariz. Sabão, baunilha, para afastar um cotidiano que não era seu. Apenas um trabalho. Apenas família. Não contaminaria sua poesia. Em seus dedos, não contaminaria seu papel. Embrulhava. Embalava. E dobrava origamis nas horas vagas.

Para ela. Quando passava. Baixava os olhos. Baixava a cabeça. Esperava que não visse, ainda que sentisse. Ainda que sentisse o cheiro da barraca à quilômetros de distância. Sempre passava apressada. Nunca olhava para ele. Ou talvez fosse ele que abaixasse os olhos. E nem podia perceber.

Encontravam-se mais tarde. De tarde. Quando ela nem mesmo perguntava o que ele fazia. O que ele faria? Filosofia. Juntos no cursinho esperando pelo vestibular. Juntos no ponto esperando o ônibus chegar. E boa noite. Amanhã eu acordo cedo para ajudar o meu pai.

Não iam muito além. Não trocavam beijos nem carícias, mas se cumprimentavam. Sacudiam mãos e tocavam os dedos. Esperava que eles não fossem denunciá-lo. Os cheiros de peixe. Estava tudo no lugar certo, no final do dia. Até amanhecer de novo e os peixes esperarem por ele.

Escovando os dentes, ouvia os primeiros cantos dos pássaros, olhava seu próprio reflexo no espelho, espumando de raiva. Cuspia. Levava os dedos ao nariz. Não sentia mais a espinha. Pelo menos a dor e o odor não se acumulavam dia após dia, desapareciam ao final do expediente sem deixar seqüelas. Um dia seu passado se apagaria para sempre. E ele nem mesmo se lembraria de qual era o cheiro de peixe.

Perfume. Numa sexta de noite, para encontrar com os amigos, para encontrar com ela, até a manhã seguinte. Num barzinho, entre cervejas, comemorariam o aniversário. Não era o dele. Não era o dela. Mas estariam juntos, e isso era o que importava. Ele estaria do lado esquerdo, com os meninos. Rindo, bebendo, destilando, fermentado. Ela estaria logo a frente, com a mulheres, acenando, perfumando o ambiente em coquetéis coloridos. Sentados à beira da rua, da sarjeta, onde seriam montadas mais tarde as barracas da feira.

O álcool abria o apetite e o menu abria a espinha, de peixe, bacalhau, bolinhos, uma porção por casal. Uma porção de provolone. Pastéis. Catchup. Maionese. E guardanapos para limpar os dedos.

Ela fazia a proeza. Usava apenas um. Um guardanapo e limpava o batom. Um único guardanapo e dava conta. Da maionese. Catchup. Provolone, pastéis e espinha de peixe, bolinhos de bacalhau. Ele acompanha os meninos, acumulava uma montanha de papéis. Guardanapos sujos de catchup, maionese. Olhava para ela e engolia. Olhava para ela e se melava todo. Limpava os dedos numa porção de guardanapos.

São necessárias mulheres assim, para fazer os meninos se comportarem. São necessárias mulheres, para os meninos usarem os guardanapos. Para beber um pouco mais, para sorrir e esconder, para esconder as espinhas de peixe entre os dentes. Para esconder as escamas entre dos dedos. Ele olhava para ela e se escondia atrás dos papéis. Um pedaço, dobrado, origami.

Ela acompanhava tudo do lado direito da mesa. Ao lado de suas amigas, sorrindo com compostura. Os meninos zombando. Ele trabalhando. Seus dedos por ela. Seus dedos sacudindo. Seus dedos trabalhando. Seus dedos melados, no papel, transformando em poesia tudo o que ele sentia.

E o que ele sentia? A sarjeta a chamá-lo. Os amigos a chamar a bebida. A cerveja, fermentada, descendo em bocas de lobo, espinhas de peixe. Horas depois estaria lá, com os dedos congelados. Os dedos no peixe, naquela mesma rua, embrulhando em papel, o jantar das mulheres, as mães, as mães de suas meninas.

E poesia seria apenas carbono. Maionese seriam as notícias, manchadas, em papel de jornal, na espinha de um peixe. Ele seria apenas mais um. Olhos puxados na feira. Olhos baixos como a voz, quieto. Ele trabalharia pelo peixe, fresco, morto, o verdadeiro interesse de todas que viriam até ele. Nem sentiriam o perfume em seu cangote. Nem sentiram a dor na sua espinha.

Com seus dedos trabalhando rápido ele concluiu, ainda que bêbado, um trabalho bem feito. Espinha de peixe. Guardanapo de bar. Um origami. Perfeito. Formas e poesias para ela, num papel sem manchas. Um peixe de papel. "Para mergulhar com você."

Ela pegou o peixe nas mãos com um sorriso nos lábios. Era lindo. O origami. O sorriso. Fazia a feira toda afundar num oceano e a vida marinha dominar. Ela o levou até a boca, até o batom, e o beijou. "Hum, que engraçado, tem até cheiro de peixe."

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Estou pensando em fazer um programa light no sábado de noite (ei, isso não é mais ficção, haha). Os leitores que quiserem me acompanhar (aqui em SP) me escrevam.

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