17/05/2005

O ROUXINOL, A ROSA E OS ESPINHOS

Ai, lassidão, lassidão...

Mais uma vez meus fundos estão acabando e preciso urgentemente encontrar um amigo... ou melhor, um trabalho. Ninguém pode me arrumar freelas aqui não?

Entreguei hoje um texto de encomenda pra Folha, resenha de um livro de autor estrangeiro. Maravilhoso. Deve sair no final de semana, no Mais. Mas eu preciso de mais, Mais, MAIS.

Li no blog do Miguel Conde que ele gostou do meu livro. Então tá. Eu tinha dúvidas se a colocação dele no Globo sobre "a arte de fazer o nada aparecer" era positiva ou negativa. Acho legal isso, o "nada". Vai contra a opinião do Nelson de Oliveira, que os dois primeiros capítulos do meu livro são dispensáveis. Quanto menos ação, mais eu gosto.

Acho que por isso o Rio não deu certo...

Aliás, tem pouca coisa na minha vida dando certo...

Meu refrigerador não funciona...

Acabei de ler também "Até o Dia em que o Cão Morreu", do Daniel Galera. Eu tinha começado no avião, voltando de Porto Alegre. Mas parei porque tive de ler outras coisas e porque estava achando meio "sem molho". Sabe como é, adoro muito chantilly no meu bolo.

Mas o Galera foi tão gente fina comigo, e o considero um autor contemporâneo importante, que resolvi insistir. Bastou eu avançar um pouquinho para eu engrenar e terminar o livro em dois tempos. É bom. Tem aquela coisa testosterona, que não é muito a minha praia, mas que é feita de maneira sincera e densa, por isso gostei demais. Daniel Galera não posa de maldito, de machão, ele sabe narrar seu universo com sensibilidade e delicadeza. A história é o de menos, relações humanas e caninas. Um narrador pretensamente frio descrevendo seu cotidiano com a namorada e com o cachorro, mas que, pelo talento do Galera, deixa uma certa ternura transparecer. Verdade intensa.

Outro autor "testosterona" que precisa ser lido é o Cuenca. Seu "Corpo Presente" tem um pouco a ver com esse "realismo-orgânico", mas explorado de maneira mais hiperbólica, absurda. O livro dele é menos verdadeiro, mas essa é a proposta. É a grande encarnação de uma obsessão. Um cara que encontra seu desejo sexual personificado em todas as mulheres, em todos os lugares. Isso é genial.

Esses são autores que merecem ser lidos. São bons colegas, sim, gosto deles. Mas se não gostasse de seus livros, simplesmente não diria nada aqui.

Mudando de assunto, meu post anterior bateu recordes de comentários. Nem apaguei os negativos. Acho tão tolinha essa colocação de que "escritor não pode ser feliz", de que "escritor tem de sofrer". Escritor tem de escrever (como diria o Cuenca). E se escrever livros bons, pode ser o que quiser. Como eu disse aqui e na Bienal, se um escritor com uma obra densa for convidado para o programa da Hebe, ponto para a literatura. E talvez os jovens não leiam tanto porque não encontram autores que despertem seu interesse. Não estão nos canais que eles assistem. Daí ponto para Paulo Coelho...

Minhas reclamações aqui foram por ter chegado atrasado ao debate, por ter faltado livro para vender, pelo descaso da editora com a distribuição do livro. Isso são coisas inadmissíveis para qualquer escritor. Mas é claro que gosto de luxo, de ser bem tratado, de ter mordomias. Por que um "astro pop", um músico, um cineasta pode ter essas regalias e o escritor tem de se contentar com migalhas? A literatura é uma arte menor? Tudo isso passa por essa questão, de fazer o jovem ter tesão de ler.

Eu resolvi ser escritor ao ler Oscar Wilde – que hoje nem é mais meu autor favorito. Wilde era um astro pop, sim, com densidade literária. O que me seduziu foi exatamente esse glamour, essa escrita dândi, que trazia mais beleza e sofisticação à visão que eu tinha das letras. Se eu conseguir fazer o mesmo com jovens leitores, fico satisfeito. E pelo pessoal que foi me prestigiar na Bienal, acho que estou conseguindo.

(Antes que eu me esqueça: Saint-Clair, você pode ser gordo e careca, mas eu te amo, hehe)

Claro que sempre vai ter gente que vai encanar com minha postura, com minhas tatuagens, até com meus livros, eventualmente. Mas não dá para agradar a todos. Eu tenho de fazer o que acredito e o que sinto prazer fazendo.

Mas para quem acha que minha vida é só glamour, digo de novo. Preciso urgentemente de trabalho. Tenho contas a pagar. Moro de aluguel. Freela porque qui-lo.

LEVE NEVE

Com minha herdeira, a Trevosinha Valentina.  Lançamento ontem em São Paulo. São Paulo é o que conta - é minha casa, minha base, daqui...