23/08/2005

VAMOS TRANSAR ESTA TARDE, COMPANHEIROS!

Essa maratona de filmes políticos que eu legendei me fizeram pensar bastante nessas questões sociais, nas utopias dos anos setenta e na minha bandeira pessoal do individualismo/relativismo.

Hoje, os filmes do grupo Dziga Vertov parecem bastante ingênuos, apesar da ironia, e o próprio Jean Pierre Gorin assume isso. Muitos deles, por exemplo, tratam Mao Tse Tung como um ídolo, um benfeitor da China. Num dos filmes, há um diálogo hilário entre um casal que diz que devem se questionar sobre "transar de tarde", porque esse é um privilégio burguês. O operário que trabalha o dia todo não pode transar de tarde; e se trabalha de noite, na tarde do dia seguinte está cansado demais para transar. Então transar de tarde é um ato burguês. Hahaha.

Numa das conversas com Jean Pierre Gorin na qual eu estava de intérprete, um rapaz da platéia questionou isso inclusive; toda essa patrulha, ingenuidade e radicalismo do socialismo dos anos 70. Obviamente que transar a tarde não é um privilégio burguês. Não poder transar a tarde que é um dos muitos absurdos do capitalismo.

Aliás, aí reside a pequena contestação política de todos os meus livros. A ideologia capitalista é tão oposta à ideologia socialista quanto da individualista, que também são opostas entre si. Quero dizer, à medida que o sistema de produção capitalista obriga o indivíduo a respeitar um relógio padronizado, acordando sempre em determinado horário, almoçando num horário determinado e voltando para casa num horário determinado, afasta-o de suas verdades pessoais e assim da própria verdade absoluta.

Ui, ui...

Já, as poucas experiências de governo socialista que o mundo teve pecaram também justamente por essa questão, de limitar a liberdade individual, de querer uniformizar a sociedade e assim cair no autoritarismo.
No capitalismo, o individualismo é possível através da conquista econômica. No socialismo, o individualismo simplesmente não existe. (George Orwell, baby). Entretanto, já existem grandes tendências que consideram que o capitalismo já está efetivamente chegando ao fim, com a desassociação de capital/empregador. Cada vez mais o profissional é um ser autônomo, que recupera para si sua força de trabalho, apesar de receber cada vez menos por ela.

Se eu ainda fosse adolescente, diria que não há saída: socialismo, capitalismo, tudo levará a humanidade ao seu fim. Porque o fim é inevitável e todos vamos morrer e tudo vai se acabar, então que se dane. Como eu já sou gente grande, fico quieto.

Mas já aviso que meu próximo romance é o mais político de todos, de uma forma bastante sarcástica, claro, e com um toque de contestação adolescente...

O que eu acho mais interessante não é ter uma posição (política e ideológica) fechada, é analisar as diferentes formas e possibilidades de discurso. Isso é o relativismo.

Um dos melhores professores que tive na faculdade, Luis Felipe Pondé - de filosofia - fazia experiências bem interessantes de dialética relativista com seus alunos. Um dos trabalhos que nós tínhamos de apresentar, por exemplo, era criar campanhas defendendo idéias que fossem consideradas moralmente absurdas. Foi defendida a escravidão dos negros, o trabalho infantil, a descriminilização da pedofilia... Isso é fantástico, pois vai contra a moralidade burra, as verdades pré-estabelecidas e o falso juízo de valores. As pessoas aceitam as verdades sociais sem nem saber o porquê. Em contrapartida, é interessante defender idéias que você mesmo não acredita, pois o abriga a analisar todos os lados da questão. Não se trata de aceitar preconceitos, e sim de entendê-los.

Ao meu ver, isso é essencial para se criar um discurso conta a intolerência e para fazer literatura. Contrariando o que muitos dizem, acredito que a literatura não tem nenhum compromisso com a verdade, o compromisso é com com as possibilidades...

Já a IMBECIL escola de Idiomas Milenium, que diz possuir um método "psicoterapeutico", empurra para seus alunos uma retórica estúpida, maniqueista e reducionista. Numa das minhas aulas de finlandês, quando eu questionei o conceito de "bem" e "mal", o professor Marku Lira me acusou textualmente de estar "possuído pelo demônio", haha, por isso tive de abandonar o curso. Sai, capeta!

Bem, bem, aproveitando todas essas questões políticas, coloco aqui

AS 5 VELHO (MACRO) QUESTÕES DO INDIVIDUALISTA:

- Por que o trabalhador não vende apenas seu trabalho para o capital mas também o seu tempo, seus horários de dormir e acordar, de tirar férias e de almoçar, de falar ao telefone e ir ao banheiro?

- Por que o trabalhador noturno (seja da indústria, das artes ou de onde for) não tem o mesmo direito de dormir do que o trabalhador diurno, já que durante o dia se instaurou que não é preciso fazer silêncio e as construções, reformas e buzinas operam a todo vapor?

- Por que se preza, se preserva e se incentiva a constituição familiar e não o indivíduo, numa sociedade hiperpopulada como a nossa?

- Por que a razão é determinada pela maioria se a maioria não representa o interesse exato de ninguém?

- Por que se fala em aceitar a diferenças se a lei determina que todos os homens são iguais?

E AS 5 NOVAS (MICRO) QUESTÕES DO INDIVIDUALISTA:

- Por que, quando o telefone toca, somos obrigados a interromper tudo o que estamos fazendo para conversar com outra pessoa se não quisermos dar satisfação do que estamos fazendo realmente?

- Por que ao entrarmos num elevador, táxi ou sentar numa cadeira de barbeiro somos obrigados a manter uma conversa sobre um assunto genérico qualquer, sendo que nenhum dos dois está realmente interessado em conversar?

- Por que mesmo andando de fones de ouvido na rua as pessoas nos param para pedir informações, oferecer produtos e serviços ou simplesmente conversar e querem que desliguemos nossa música?

- Por que precisamos dizer bom dia, boa tarde e boa noite para porteiros, colegas de trabalho e familiares, sendo que este é apenas um cumprimento mecânico que não expressa nenhum interesse particular verdadeiro?

- Por que a pizzaria não entrega pizza brotinho?

UM ANO TREVOSO

Saindo do poço... Não foi fácil para ninguém, não se engane. Não foi fácil para mim. Estava revendo há pouco minhas retrospectivas de a...