08/09/2005

ELA NÃO SABE NADAR

Ela acorrentou uma pedra aos pés, jogou no mar e afundou. No ponto mais fundo desta baía, saltando do barco em movimento, vencendo rapidamente milhares de léguas, integrando-se à fauna marinha. Com suas lentes de contato ela consegue ver debaixo d’água com clareza. Por ter olhos claros, a escuridão não é tão intensa. Pelo impacto da pedra, se abre uma fenda no solo. Libera uma mina submersa. Deixa fluir um lençol de oxigênio.
Ela tenta deixar de respirar, mas a corrente de ar em bolhas atinge diretamente o seu nariz. Ela é mantida viva debaixo d’água. Ela tem uma pedra acorrentada aos pés. Ela não pode ir mais fundo nem emergir. Está enterrada viva no fundo do mar.

O primeiro pensamento é de alívio. A morte não foi tão dolorosa quanto ela achou que seria. A dúvida da água nos pulmões foi satisfeita. De repente, ela até já morreu, mas nem sentiu a passagem, nem pôde ter certeza.
O segundo pensamento reafirma. Ela ainda está viva e sabe porque está. Percebe que o ar ainda preenche seu corpo e que é preciso um pouco mais de tempo para tudo terminar. Logo virá o sono e ela se esquecerá. Logo virá o sono para ela não mais acordar. Mas ela não pode se deitar. O ar em seus pulmões mantém seu corpo ereto, e a pedra nos pés a impede de flutuar. Sozinha, embaixo d’água, ela só pode esperar.

Espera que o lençol de oxigênio cesse. Que o corpo não agüente e que ela se entregue finalmente. Quanto tempo isso pode levar? Antes, será engolida pela baleia. Antes, o tubarão a terá para jantar. Ela observa o azul infinito, esperando ver a morte, o fim chegar.

Passam-se minutos, horas, numa situação daquelas é impossível dizer. A cada segundo ela acha que o próximo não virá. Mas a cada instante seguinte uma bolha penetra em suas narinas e ela é obrigada a continuar. A água ao seu redor vai se adaptando à temperatura do seu corpo e logo toda a baía está fervendo em febre. Mas isso não é suficiente para natureza desistir. Isso não é suficiente para os processos químicos do seu corpo acabarem e as células encontrarem maneiras precárias de sobreviver. Precárias, sobrevivem. Ela sobrevive. O tempo vai passando lá no fundo, e nada dela morrer.

E nada de um tubarão a comer. Com o tempo, peixes pequenos, minúsculos, se aproximam e percebem que não precisam ter medo. Que ela lá embaixo não pode fazer mal a ninguém. Que seus cabelos flutuantes e suas roupas etéreas a fazem parecer com uma alga, uma anêmona, um equinoderno sem pensamentos nem vontades. Os peixes passeiam por entre seus dedos e se encantam com a cor do seu esmalte. Provam um pedaço. Roem suas unhas. Mordem as pontas de seus dedos. Eles acham uma delícia. Ela não pode reclamar.

E, como numa anêmona, ela também serve de lar. Crustáceos nadam entre suas pernas, encontram uma fenda e se abrigam lá dentro, que é seguro, e escuro, e quente. Ela tenta espantar os parasitas, mas seus braços embaixo d’água se movimentam lentos como carícias. Os peixes levam na brincadeira. Os crustáceos levam na brincadeira. Todos levam na brincadeira e mais animais vêm brincar. Golfinhos, tartarugas, enguias e estrelas do mar. Ouriços se fixam sobre seus ombros. Ela se torna uma colônia; sobre seus seios se formam corais.

Nesse estágio de simbiose, ela já não pode mais morrer. Alimenta-se dos animais que se alimentam dela. Tornam-se uma coisa só. Seu corpo já não responde mais totalmente a seu cérebro, mas seu cérebro ainda pensa e seus olhos ainda vêem e seu corpo ainda sente e ela ainda deseja morrer. Ela ainda quer se matar.

Por que não esperou por mim, eu me pergunto? Por que não pediu para eu ajudá-la? Seca, entre os lençóis. Suada, entre minhas mãos. Eu apertaria sua garganta e não deixaria espaço para nenhuma molécula de ar. Eu beijaria sua boca e não deixaria nenhum suspiro escapar. Ela morreria em meus braços e eu meus braços eu a mataria e não haveria ouriços, nem peixes, crustáceos, nada entre suas pernas e sobre seus ombros. Não haveria o peso desses litros e litros, nem corais, nem estrelas nem ouriços. Apenas meus dedos em suas garganta, e em seus olhos, fazendo-os fechar. Seria muito mais lindo e muito mais rápido. Seria mais fácil e mais indolor. Por que ela não esperou por mim, eu me pergunto? E onde foi que ela afundou?

"Mário, pare com isso. Largue essa corrente. Você sabe que ela não se matou, apenas foi embora. Não se debruce assim no barco, que você não sabe nadar."

Achei este projeto de conto hoje aqui nos meus arquivos. Não rendeu, nunca terminei, ficou bem cru, mas, como sushi, achei interessante para postar...

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