30/04/2006

OLHOS VERMELHOS E PÁGINAS EM BRANCO

Acabei de ler "Frisk", do Dennis Cooper, autor norte-americano que só escreve sobre estupro, tortura e assassinato de adolescentes gays. Ainda assim, é um escritor consistente, suas obras não satisfazem apenas desejos sadicos e pornográficos, são muito bem estruturadas, de uma certa forma como Brett Easton Ellis.

Em "Frisk", por exemplo, ele narra a saga de um jovem escritor (também chamado Dennis, vejam só) que vai alimentando um desejo crescente por torturar e matar seus parceiros sexuais. A narrativa é estruturada de uma forma em que não fica claro o que está acontecendo realmente e o que é apenas uma fantasia do personagem. Ele ainda introduz fatos, depois os retira, dizendo que aquilo de fato não aconteceu. Em certo ponto comecei a perceber que aquilo não era nada além do que o próprio exercício de escrita, com o autor criando fantasias e depois alertando: "isso é apenas um livro. Eu só estou escrevendo sobre isso, não estou matando ninguém, o sadismo está com você".

Na maior parte do livro, a violência é apenas sugerida, não chega às vias de fato, entretanto, no penúltimo capítulo alcança um ponto quase insuportável. Sinceramente, foi o livro que mais me impressionou pela violência gráfica. Quase desisti da leitura. Mas Cooper é inteligente, e só chega nesse ápice no final, forçando o leitor a prosseguir: "vamos lá, são só mais trinta páginas...".

Muita gente que duvidava da identidade de J.T. LeRoy acreditava que ele não era ninguém além do próprio Dennis Cooper (que já havia elogiado LeRoy publicamente e se tornado "amigo" dele). Não era. E talvez Cooper tenha descoberto a verdade sobre a farsa há algum tempo, porque já dizia publicamente que não queria ser associado ao rapazinho.

Quando eu estava terminando a tradução do "Maldito Coração", recebi um email do "LeRoy" pedindo para que eu tirasse todas as referências ao Cooper do livro (ele era citado nos agradecimentos finais, na dedicatória e numa frase da capa). Apesar de terem personagens semelhantes, acho impossível confundir os dois. Tem estilos completamente diferentes, a maneira como a violência e exposta, e até a temática central difere.

Dennis Cooper está mais próximo até do Clive Barker... e ainda assim está dezenas de quilômetros à frente (talvez ao lado de Brett Easton Ellis). Ainda não foi traduzido para o português. Eu já indiquei para algumas editoras, para eu traduzir, mas não sei se de fato daria certo no Brasil...

Continuando com as coisas "impressionantes", fui ver "BR-3" do grupo Teatro da Vertigem. É uma peça de 2 horas e meias encenada toda dentro do Rio Tietê. Sim, você assiste a peça dentro de um barco enquanto os autores encenam nas margens, em lanchas, no próprio barco e até dentro do rio. O barco está sempre navegando, passando por novos cenários, os atores acompanham com lanchas, todo o texto é declamado através de microfones. Tem um clima bem surreal. O cheiro do rio é suportável, porque a peça é encenada de noite. O texto é interessante. Mas o que mais impressiona mesmo é aquele cenário, você dentro do Rio Tietê, os carros passando nas marginais, nas pontes, as garrafas boiando... Só por isso já vale. E é uma peça que só pode acontecer em São Paulo.

Falando em esgoto, jovenzinhos sendo engolidos e literatura, não esqueçam de que "Mastigando Humanos" sairá... ahhhhh, deixa pra lá. Deixo então um trecho de "Catorze Anos de Fome", conto meu que também tem a ver com isso, e que sairá em breve, em breve numa antologia... Quem foi na Casa das Rosas no dia 8 de abril já tem o continho inteiro em mãos.

"Olhos tingidos de vermelho, de doenças, de ódio. Olheiras profundas, narinas dilatadas. Olha para os meninos como quem pede socorro, como quem pede desculpas, como quem não pode se conter e não pode mais suportar. Como se quisesse engolir até o último dedos dos jovens, sugá-los, como um fio de espaguete, como se só assim pudesse sobreviver."

Doença. Doença. Na minha boca hoje tem uma espinha de peixe, nada poético. Me tragam uma faca para eu abrir a espinha...

LEVE NEVE

Com minha herdeira, a Trevosinha Valentina.  Lançamento ontem em São Paulo. São Paulo é o que conta - é minha casa, minha base, daqui...