06/06/2007

CÁLCULO DO DESESPERO

(Só coloquei esta foto porque achei bonita...)



Saí de casa na madrugada de segunda para terça, às três e meia, 7 graus centígrados. Cheguei na frente do Shopping Eldorado, às quatro horas da manhã e encontrei um pequeno aglomerado. Lá, a pretensa elite econômica brasileira se enfileirava com colchões, colchonetes e cobertores, dormindo na rua.

Esse é o processo atual para se retirar/renovar passaporte aqui em São Paulo.

Todos nós, cerca de oitenta pessoas,esperamos na rua até cerca de cinco horas da manhã, quando os caridosos seguranças do shopping nos deixaram esperar lá dentro, onde estava um pouco mais quente. Às dez horas da manhã, o posto da Polícia Federal abriu e começaram a distribuir senhas. São setenta senhas por dia, setenta pessoas atendidas. Eu – na minha atual sorte de vítima de macumba- fui o número setenta e um. Poderia ficar na lista da espera, para ver se seria atendido ainda hoje, mas não havia garantia... Fiquei.

Ás onze horas da manhã, depois de esperar 7 horas, consegui a senha setenta e um, e a garantia de ser atendido ainda hoje – às duas e meia da tarde. Fui. Assim, consegui renovar meu passaporte.

Já vimos filas como essa de mães para matricular filhos em escola pública, de doentes para ser atendidos em hospitais, mas agora chegou à elite que viaja ao exterior. Nas várias horas de espera, conversei com um dono de empresa de auto-peças, que ia para o México encontrar fornecedores; uma física que ia estudar na França; um mineiro que ia fazer a primeira viagem internacional, e tinha medo de não conseguir o visto americano. Houve ainda alguns (raros) espertalhões que compraram lugar na fila. Um deles, um engravatado com cara de corrupto, que eu interpelei na cara dura: “Olá, sou escritor, colaboro com alguns jornais e revistas, queria escrever sobre esse processo de conseguir passaporte. O senhor não fica um pouco constrangido de furar a fila pagando, sendo que tem gente dormindo aqui desde as seis horas da tarde? Quanto o senhor pagou? Você é, tipo assim, muito importante, um nível acima das pessoas que normalmente viajam ao exterior?” E se o engravatado não estava constrangido antes, ficou com minha indiscrição. Saiu da fila e ficou escondidinho num canto, mas já tinha sua senha em mãos.

Então não há solução. Quem viaja em vôo doméstico sofre com os atrasos. Quem viaja em vôo internacional tem de rastejar pelo passaporte. Se viajar de ônibus corre o risco de ser queimado vivo. E não aconselho viajar na maionese, pela salmonela e o colesterol, hohoho.

Ainda assim, hoje na fila o pessoal mantinha um acolhedor bom-humor. Deve ser porque todos farão belas viagens em breve. À certa hora, ouvimos alguém soltar a máxima: “Eu sou brasileiro, e não desisto nunca.”




Ps1 – Poderia terminar por aqui. Mas tenho de dizer que aproveitei tempo da fila para ler o segundo romance de Simone Campos, “A Feia Noite”. Coisa das mais estranhas, ainda mais para se ler na rua numa madrugada fria. Mas fez um bom efeito e coisas lindas ficaram na minha cabeça:

“Eu não quero ser feliz agora. Eu quero ser verdadeira, e isso um dia vai me levar a algum lugar. E se não levar, eu tenho o direito de desistir.”

(Eu não. Quero ser feliz. Neste exato momento. Ainda que não verdadeiro... )

Ps 2 – Continuando com as mulheres talentosas. Victoria Saramago lança seu romance de estréia, “Renée Esfacelada”, dia 16/06, às 19h, no Espaço Cultural Maurice Valansi (rua Martins Ferreira, 48, Botafogo), no Rio. Esta é a orelha que escrevi pra ela:

Dândi. Glamuroso. Mas com uma leve estranheza. Uma certa doença. Isso é que encontramos no romance de estréia de Victoria Saramago, uma jovem e bela escritora que faz jus a seu sobrenome e o leva a outras dimensões. Escrito com um fôlego impressionantemente raro na literatura atual, “Renée Esfacelada” conta a história de uma ex-estrela de TV, uma cantora mirim, que cresce até a fama e que acaba sendo literalmente cegada por uma vida de alienações. Cega, Renée se tranca em casa na companhia do filho que odeia, da empregada que lhe ampara e do filho adolescente desta, que se torna seu amante. Assim, encontramos uma personagem vagando por seus sentimentos, como um fantasma de si própria, resgatando memórias de uma vida passada que a condenou a esse limbo. Aos poucos, aos fragmentos, vamos montando essa Renée, esfacelada como o texto, mas que se revela rica e densa a cada passagem. É para ler comendo madeleines, bebendo prosecco, admirando-se com todo o requinte que a literatura brasileira ainda pode ter.

Santiago Nazarian

Ps 3 – Indico com vemência o espetáculo “O Abajur Lilás” (texto de Plínio Marcos), em montagem no TUSP, aqui em São Paulo. Poucas vezes vi um elenco inteiro tão afinado e tão afiado.

UM ANO TREVOSO

Saindo do poço... Não foi fácil para ninguém, não se engane. Não foi fácil para mim. Estava revendo há pouco minhas retrospectivas de a...