20/06/2007

OS CAMINHOS DE SANTIAGO

Carol e eu. (Na primeira fila é obrigatório fazer biquinho)

Voltei. Acabou o São Paulo Fashion Week.

Semana de maratona intensa. Estive lá todos os dias, vi quase metade dos desfiles, no resto do tempo tinha dar conta da minha coluna (e da minha espinha), das traduções em paralelo, de uma pauta pra Joyce.

Na verdade, minha coluna do SPFW era uma página inteira. Diária. E em alguns dias ainda contribui em outras páginas. Chamava-se “O Caminho de Santiago”, e me foi dada carta branca para eu escrevesse o que quisesse sobre o evento.

A redação.

Por isso ficava zanzando pela Bienal. Entrevistei modelos, celebridades, resenhei desfiles, procurei o periquito perdido. Foi uma experiência... Eu não sou jornalista, nunca corri atrás da notícia, então ter uma coluna diária foi um grande aprendizado, ainda que, na maioria das vezes, eu tenha exercido mais a função de cronista. Pude exercitar vários estilos, fazer textos mais sérios, outros mais desbocados. Não fiquei com um formato fixo.

O convite foi feito pela Erika Palomino, diretora do Journal. Nunca havíamos trabalhado juntos, apenas trocado alguns emails, mas deu tudo certo. Ela foi muito querida. Aliás, todo mundo foi bem querido, ainda que o clima geral do evento seja um pouco pesado. Encontrei muitos amigos, gente da noite, jornalistas. Para quem trabalha sempre em casa, sozinho, como eu, foi uma mudança proveitosa. Vou sentir falta de muita gente com quem trabalhei diariamente lá.


Suzy Camará. Não solto mais. (obs: note o buffezinho modesto da redação, atrás)


Santiago de michê, Erika de vagaba.

Na última edição do jornal (que sai hoje, distribuída em algumas lojas) coloquei os highlights da temporada, os desfiles mais legais, etc. Mas aproveito aqui para reproduzir parte de uma das minhas colunas (acho que foi de segunda), que talvez tenha sido a mais “literária”.

O Olhar Vidrado da Maneca

Más linguas dizem que é de fome, de sono, de tédio ou de lobotomia. Mas se tudo isso já foi dito, já foi ouvido, não é o mesmo que eu diria. Sentado na primeira filha, olhando a moça mais incrível de André Lima, fiquei pensando no que poderia estar atrás daquele olhar vidrado, aquele ar inconsciente, aquele rosto perdido, escondido, tão longe, bem ali...

Ela pensa nele, logo à frente, do outro lado da lente, a fotografá-la. Ela não pode vê-lo, as luzes o escondem, o apagam. Mas por trás da retina, no solo da mente, dentro do peito ela está presente. O fotógrafo. Seu namorado.

E ela pensa no irmão, lá embaixo. Decolando. Começando. Tremendo na prova de roupa, no desfile da Sala 1. Nunca foi irmão modelo (na verdade, sempre foi meio pentelho), mas agora tudo o que ela quer é ajudá-lo, como amado modelo irmão.

Porque ela pensa em Catarina, a Santa, lá no fundo, lá no meio, no interior. Estado de graça. Fronteiras estendidas. Longe da família. De um cenário que deu a luz e o leite e os dentes, para tudo o que ela é hoje em dia.

E não apenas isso, suas raízes, agora florescendo. A goiabeira no fundo de casa. Subindo. Caindo. Esfolando os joelhos. Será que já foi derrubada? Será que ainda dá frutos? Será que seu pai algum dia ficou sabendo que foi lá, sob seus galhos, que ela deu o primeiro beijo? Não parece, mas nem faz tanto tempo...

E ela pensa não apenas no físico, na prova de química, cadeias peptídicas. O efeito da citosina. Hormônios a jorrar. Um dia ela vai ser doutora, duvida? Um dia ela ainda vai te examinar. Vai observar seu sangue em filetes, num microscópio. E vai ver muito mais do que você vê em seu olhar.

Para não dizer que não falei dos alfajores, ela pensa nisso também. E em sabão de coco e cândida. Tudo o que ela precisa comprar no supermercado. Pensa na casa nova que já é o seu lar. O apartamento que divide com as meninas, que já são realmente amigas, que agora são sua mais próxima família, que ela nunca mais vai conseguir largar.

Ela só não pensa que eu também penso em tudo isso, penso nela. Eu entendo. E por tudo o que há por trás de seu olhar, por tudo o que me faz imaginar, por todos os lugares que me leva e me traz, só uma coisa eu posso ver. Beleza. Agora já posso aplaudir de pé.

Ps – Agora quero cobrir a Flip pelo prisma da moda.

Ps2- Os eventos literários têm muuuuuuuuuuito o que aprender sobre coquetéis, festas e canapés.
Ps3 - Espero que eu não tenha sido contaminado. Hoje estava picando as verduras do meu iguana, servi o pratinho e disse pra ele: "Arrasa, Araki."

QUANTO GANHA UM ESCRITOR

Com Paulo Scott na Garopa Literária Aqui em Maresias. Na casa que Murilo alugou. Cheguei nesta noite fria de sábado e fui fazer um ch...