29/07/2007

MEDALHA DE BRONZE NA CORRIDA SEM OBSTÁCULOS DE UMA PISTA ALAGADA.


"Por hora, minhas medalhas ficam no lugar do coração."

Faz 30 anos, blablablablá...


Passei a semana inteira trancado, mas com um rapazinho andrógino com franja na cara (é o que poderíamos chamar de emo?), sem conseguir sair do apartamento. Não o meu, não o dele, dela, a (anti) heroína do meu próximo romance. Trancado num capítulo de um rapazinho andrógino trancado num apartamento lendo sobre ele mesmo trancado num apartamento lendo sobre ele. É que meus capítulos são longos. E tenho avançado uma página por dia. Uma página sobre ele. Ele então não sai do lugar. Eu não saio do lugar.Ninguém sai do lugar. Você volta uma semana depois, e eu ainda estou aqui, trinta anos depois...

Falando em capítulos, coloquei capítulos e trechos dos meus quatro romances publicados num link aí do lado. Serve como uma amostra grátis. Para tanto, EXCLUÍ os contos que estavam lá. Não gosto mais deles. Não gosto mais dos meus contos. Não gosto mais de contos. Não escrevi um único conto este ano, e acho que não escreverei. Se surgir uma boa idéia (ou uma boa proposta) posso voltar a tentar, mas no momento, o formato conto não traz nada do que eu preciso. Nem tenho orgulho dos meus contos antigos, acho que não estão no mesmo nível dos romances, então deletei.

Por outro lado, exercitei várias crônicas este ano, publicadas em diversas revistas e jornais. Acho que elas cumprem melhor o papel de satisfazer necessidades imediatas, de fazer uma ponte entre o universo interno e o que está acontecendo lá fora. Só não me peçam para escrever sobre o Pan...

Fora essas olimpíadas internas, o que posso contar? Não muito, meu amor. Está nevando lá fora, estamos todos hibernando. Mandei meu São Bernardo resgatá-lo, amaciá-lo com conhaque e trazê-lo até mim, onde ressuscitarei seus lábios roxos com meu sangue azul.

(Hibernando, azulando meu sangue, para que possa ressuscitá-lo quando estiver devidamente amaciado... pelo conhaque do meu São Bernardo.)





Não, Santiago, este não é São Bernardo!!!



Oh, não, cachorros e conhaques nunca mais!



Para não dizer que não fiz nada, fui ao grande show dos amigos do Ludov, ontem no CCSP. Eles tocaram como quarteto - Vanessa assumindo a guitarra, Mauro e Habacuque revesando no baixo - e mandaram muito bem (bem, isso é o de sempre). O público meiguinho "Harry Potter" saltitou, gritou e cantou junto até as músicas novas. Fico emocionado. Conheço a banda há tanto tempo. Acompanhei toda a trajetória, vi músicas nascendo, fui em gravações. Acabo tomando o sucesso deles como um sucesso da minha geração. Eles merecem e sempre mereceram.


É mais ou menos a mesma sensação que tive quando fiquei sabendo de um amigo meu de infância - daqueles cheios de aviõezinhos pelo quarto, que me enchia o saco mostrando fotos de caças e jatos e toda essa porra - que se tornou piloto de verdade, piloto de avião.

Bem... agora ando meio apreensivo por ele.

E acho que é essa a sensação que meus antigos amigos devem ter quando vêem que me tornei escritor (devem ficar apreensivos, com medo que eu derrape na pista).


Oh, estou me tornando sentimental. Não enferruje, homem-de-lata.


Voltando à família Ludov, estou escutando o novo cd do Pato Fu. É bom. Melhor do que anterior. Tem a boa dosagem entre o pop e o esquisito (com leves pitadinhas alternativas), que os emergeu do indie, há quase uma década. A latinona "Tudo Vai Ficar Bem" dá para ser hit de FM, tocar no Gugu, e é boa. Tem coisas clássicas Pato Fu, como "Quem Não Sou" e "Mamã Papá" - falando em mamá-papá, o disco parece ter sido concebido em parte como uma canção de ninar para o filho da Fernanda com o John. Os vocais são bons para isso. Mas eu senti falta dos vocais do John. Gostava quando ele cantava. E não consegui engolir o cover de "Cities in Dust" (bem, essa música já está TÃO desgastada que nem mesmo com a Siouxsie... Entrou para categoria de músicas "insofríveis", como "Kiss", do Prince, "Groove is in the Heart" do Deelite, e "Bizarre Love Triangle", do New Order. Pelamordedeus, gente, NÃO DÁ MAIS!!!)


Para terminar, recebi em casa o cd de estréia da Cláudia Wonder, trans antológica da noite paulistana. O cd tem ótimas bases eletrônicas (do ex-duo Visavis) e letras hilárias da Cláudia (como o "Ursinho Misterioso", que já é clássico no meu apartamento). Um petiz para quem mostrei disse "isso sim é elektro de categoria". Minha faxineira ouviu a letra e ficou desconfiada: "Deve ser besteira. Com uma voz dessas, falando de 'doce de padaria', deve ser alguma bobagem."


Imagine, poesia pura.

25/07/2007

EVERYTHING WILL FLOW



Faz frio ou sou só eu?
Não sei se é frio, não sei se é fome.
Pode ser só gula que me faz comer.
Só frio, que me faz ter fome.
É fome ou sou só eu?
É fome ou estou só?
Pode ser frio, que me faz querer.
Pode ser só que eu queira comer.
Comer para matar o frio.
Ter frio, por estar só.
E dormir para esquecer.
Comer, para melhor dormir.
Dormir, para fugir do frio.
Fugir, para não estar só.

Verdade que em dias como hoje não sei se estou com frio, se estou com fome, se é só gula, carência ou sono. Carência que faz ter frio. Ou frio que faz ter fome. Gula pela carência. Frio que me faz querer...


Ai, estou me repetindo. Prometo que essa é a última mordida. Depois vou dormir.
Continuando com a crise de meia-idade, fiquei pensando que não se pode mesmo confiar em ninguém com mais de 30. Essas pessoas nem sabem se têm frio, se têm fome, se estão só carentes, com sono ou recalcadas.


A verdade, é que depois da "passagem" a gente acredita que tem de ficar mais adulto... ou mais sofisticado. Ou a gente fica com preguiça do esforço, do ímpeto e da transgressão, e acaba se conformando com tanta coisa que a gente nem acredita.
Tenho me pegado tanto analisando meus valores. Acho que estou me tornando uma pessoa pior. Acho que meus valores são discutíveis. Mas então, encontro as pessoas que estudaram comigo, as pessoas da minha idade, as pessoas mais velhas, dos mesmos círculos, e elas estão todas assentindo e reafirmando os maiores absurdos que eu pratico, mas não concordo. Elas estão reafirmando valores em que eu penso, mas não admiro. Elas se permitem indulgências, deslizes, futilidades e as elevam para categoria de qualidade.

Ou isso sempre aconteceu, mas eu estou só mais crítico, mais paranóico ou noiado?

Ai, estou chato. Compro mais um sapatinho que passa.

Por isso eu digo: faça enquanto é tempo. Faça cedo. Busque logo para você os rótulos de revelação, promessa, prodígio. Tudo o que você conquistar depois não terá graça, não terá validade, será apenas sua obrigação. E cada comemoração na sua vida virá acompanhada de uma dor nas costas.

"Esta é praticamente a minha praga do dia!" - diz Zé do Caixão.

Voltando à objetividade, esta semana conferi a estréia do novo curta do Esmir Filho, "Saliva". Esmir é o jovem e talentoso cineasta que dirigiu não apenas o "Tapa na Pantera" como vários outros curtas, clipes e projetos mais elaborados.

Em "Saliva", ele retoma uma temática constante em seu trabalho: "as primeiras experiências da adolescência". No caso, o primeiro beijo de um menina de doze anos, que tem nojo de saliva, mas acompanha toda a expectativa das colegas. "Saliva" é um belo exercício de fotografia, com uma puxada fluida, que já estava presente em seus curtas anteriores e lembra um pouco trabalhos como o do Nick Knight (acima), embora não tão extremo. O tom é meigo, suavemente melancólico, reafirmando a sensibilidade de Esmir. Vale a pena esperar (e torcer) pelo que ele vai fazer em longa, porque com certeza ele tem um olhar que vai fazer diferença no cinema brasileiro.



Cena do curta.

E terminando com juventude, frio, fluidos e paranóia, ontem assisti ao "Dark Water" original do Hideo Nakata (sim, só ontem). Não gosto dele. Prefiro, por exemplo, "O Chamado" americano. Mas com certeza o "Dark Water" dele é melhor. Porque se continua sendo um filme pau-mole (essa coisa de fantasmas terem carência, frio e sensibilidade é o pior do cinema de horror oriental. Fantasma tem de der mau, tinhoso e fodão, tipo o Jason e o Freddy Krueger, hahaha) pelo menos tem um tom creepy dessa cultura esquista. É tudo meio absurdo, tudo mal explicado, tudo com umas mensagens subliminares que fazem o cãozinho da Xuxa levantar dos mortos.

Bem, agora vou jantar.

Ps - Música do dia, já ia me esquecendo, "The Lunatic" do segundo álbum do Elefant. O solo de guitarra vale por toda a letra, e diz: "the party is done". Eu entendo perfeitamente....

22/07/2007

MÃES ASSASSINAS E NINFETAS PISTOLEIRAS!




Trinta anos e três dias que não faço sexo...

E agora a macumba está piorando. Não estou mais conseguindo sair de casa. Passei alguns dias aqui trancado, trabalhando, tomando café, trabalhando, tomando coca-cola, planejando sair de tarde, no fim da tarde, antes que o sol se pusesse; e quando eu via, o sol já tinha se posto, o café já tinha passado o efeito e eu preferia ir para o sofá ver um vídeo ou para a cozinha fazer o (tardio) almoço.

Outro dia estava assim, mas acabei acordando as sete horas da manhã para comprar chocolate.

E outro dia estava assim, mas deu nove horas da noite, depois de quase 48 horas sem sair, e a Nina Lemos me sacudiu no MSN e disse “vem para cá” e eu fui. Assim matamos o Anjo Exterminador.

Hoje, ele quase voltou... Mas consegui sair de casa 17h, para ir ao supermercado.

Eu falo que minha vida daria um belo pornô surrealista. Mas atualmente seria um pornô ainda mais surreal, comigo apenas assistindo outros pornôs, uma coisa metalingüística-espiral-filme-dentro-do-filme. Até meus sonhos eróticos atualmente não têm minha participação.

Colaborando com esse clima, o shuffle do meu Ipod deixou de lado seu puxa-saquismo pela seleção musical que um certo rapazinho tinha deixado no meu Itunes, e agora a favorita do shuffle é a Traci Lords.

“1000 Fires” é um disco de techno-goth bem vagabundo que ela lançou em 1995, mas que é ótimo. Uma coisa “músicas para ouvir tendo fantasias sexuais bizarras que não sejam as suas próprias”. Por isso até passei a baixar os filmes pornôs da Traci.

“Okie dokie doggy Daddy yummy yummy sugar mommy”
Falando em lolitas e pornôs. Estou lendo um livro ótimo, do japonês Ruy Murakami, "Sopa de Miso". É a história de um japinha que trabalha como guia de turismo sexual em Tóquio, levando estrangeiros para a putaria. Até que ocorrem assassinatos entre as ninfetinhas da zona, e ele começa a suspeitar que um cliente dele americano seja o serial. O livro foi lançado aqui no Brasil pela Cia das Letras como "Miso Soup" (traduzido direto do japonês pelo Jefferson José Teixeira), mas eu não sabia e comprei no Chile, em espanhol. De qualquer forma, com certeza logo vem um filme baseado.
Falando em filme, assassinos seriais e Traci Lords. Tenho visto pelo menos uma vez por semana o DVD de "Serial Mom", do John Waters, com a Kathleen Turner no papel título. Traci faz só uma petinha, digo, pontinha, mas vale. E Katheen Turner está ótima.
Então, sentindo esse clima kinky-sex aqui em casa, minha faxineira me questionou. Estávamos almoçando um ótimo curry vegetariano que eu fiz – e que ela inclusive levou um pouco para casa dela, para mostrar para todo mundo lá como eu cozinho bem – quando ela soltou:

“Santiago, você não vai casar, não?”

Suspiro. “Ah, difícil... Você sabe...”

E como ela lembrava das minhas distantes namoradas, e dos namoros mais recentes, começou a especular qual daria um bom “marido” para mim. Para ela, todos meus ex eram príncipes (porque afinal, eu tenho um gosto refinado para rapazes, claro), todos eram lindos e combinavam com meu sofá. Então resolvi retrucar:

“E seu filho?”

“Meu filho?”

“É. Você não tem um filho? Quantos anos tem?”

“28...”

“Opa, idade boa. Põe seu filho na roda.

(Engasgo). “Ah, mas meu filho é... moreno. O pai dele era preto.”

“Hum, já namorei loiro, japonês, mas moreno...”
Hohoho.

Continuando nessa onda de latência e abandono, dia desses me pediram um “micro-conto erótico”, para uma “revista masculina”. Achei que podia ter ao menos dois parágrafos, mas depois disseram que tinha de ser MICRO mesmo. Então capei os excessos. O conto original era esse:

Laundramatic

Ele veio na quarta, me entregar os lençóis. Apontei-lhe as manchas, os pêlos foram ao chão. Ele dormia entre ácaros, chatos, micoses. Ela o deixou.
Um dia estarei entre os lençóis dele. Em novas manchas. Um dia lhe darei novas doenças. Quando tudo o que ela deixou se for.

Meio broxante, não? Já escrevi tanto sobre lavanderias... E recentemente comecei a mandar minhas roupas para a 5 a Séc, num surto de opulência. Não deu muito certo, a mocinha de lá pegava meus lençóis amarrotados, estendia sobre o balcão e começava a a anotar: “Alta sujidade. Manchas não-removíveis. Barra puída...”

Oh, constrangimento, constrangimento... Ao menos me rendeu um (micro) conto.
Agora me tranco novamente.

21/07/2007

30 ANOS QUE EU NÃO DURMO - LALÁ.

Okey Dokey (Traci Lords)
Okey dokey doggy daddy
Okey dokey doggy daddy
Okey dokey doggy daddy yummy yummy sugar mummy
Okey dokey doggy daddy
Okey dokey doggy daddy?
Know what you mean
Know what you mean
(Poesia pura. Para vocês que gostam de poesia e putaria)

15/07/2007

LÁGRIMAS, SANGUE, VENENO CORRENDO NO MEU CORAÇÃO*



“E agora me aperta a aflição de chorar louco e só, de manhã.”


Desde quinta estou mergulhado em Shakespeare. Legendando uma montagem venezuelana de “Hamlet”, no Sesc Consolação.

A montagem tem quatro horas, e o texto que me mandaram tem mais a ver com o texto original do que com eles dizem em cena. Então tenho de ficar de olho no monitor, ouvido atento, tentando pescar o sentido do que eles dizem, para encontrar alguma legenda semelhante.

Eles dizem:

- Este homem não tem consciência do
seu oficio, pois cava túmulos cantando.

- Com o costume nasce
a indiferença.



E eu solto a legenda:

- Será que este homem não tem consciência de seu ofício, cantando enquanto abre uma cova?

- O costume o familiarizou com a tarefa.


De qualquer forma, a montagem é estupenda (o que consegui ver, e não apenas ouvir). Eu gosto de legendar. É gostoso essa coisa de ficar associando falas com palavras. Ano passado fiz vários festivais de cinema; este ano tenho feito menos. Hoje (domingo) é o último dia da peça, no Sesc Consolação, 18:30. Se ver este post a tempo, corra para lá (e me dê um oi, sou eu sentadinho na platéia, com laptop no colo).

Outro ESPETÁCULO que vi esta semana foi o show da Marina no “Palace” (ok, o lugar tem o nome de algum cartão de crédito ou banco agora, mas todo mundo continua chamando de Palace). É um show de “grandes sucessos”, não tão cênico e conceitual quanto o último, "Primórdios", que ela apresentou no Auditório do Ibirapuera (e que era de chorar...), mas foi bom ver a Marina a toda, soltando a voz, interagindo com o público. Interagi com ela também, e consegui dar um beijinho depois do espetáculo. Ela foi bem querida quando fiz a entrevista pra Joyce, e adorou "A Morte Sem Nome".

Encontrei esta semana também a Nicole, minha nova agente, que ficou no lugar da (falecida) Ray, e está visitando o Brasil pela primeira vez. Gravei pra ela um cd de músicas brasileiras, para ela ir se familiarizando com nossa malemolência. O track list é o seguinte:



1. Chove na Roseira - Tom Jobim
2. Quem Tem Medo de Brincar de Amor - Os Mutantes
3. Olhar Brasileiro - Eduardo Dussek
4. Bolero de Satã- Elis Regina & Cauby Peixoto
5. A Galinha D'Angola - Ney Matogrosso
6. Da Primeira Vez - Ludov
7. Festa Animada - Dona Ivone Lara
8. Três - Marina Lima
9. Fica Comigo Esta Noite - Angela Rorrô
10. Dos Meus Braços Tu Não Sairás - Nelson Gonçalves & Gal Costa
11. Eu Dei - Carmen Miranda
12. A Marchinha Psicótica - Júpiter Maçã
13. Retrato pra Iaiá - Los Hermanos
14. Pelos Ares - Adriana Calcanhotto
15. Lindonéia - Nara Leão
16. Entidade - Alcione
17. Que Será - Angela Maria
18. Pauapixuna - Fafá de Belém
19. Maria Vai com as Outras - Maria Creuza
20 - Vila Esperança - Adoniran Barboza
21 - Sorria, Você Está Sendo Filmado - Pato Fu
22 - Vai Passar - Chico Buarque



Não esqueci de ninguém não! (e não, não coloquei o funk do Jeremias, embora tenha ficado tentado).

Como minha semana foi longa (e ainda não acabou), na sexta-feira 13 fiz uma leitura na Livraria da Vila da Lorena (conforme anunciado aqui). Não estava cheio não, mas estava bom. O povo foi interessado, foi querido, levaram livros para autografar e câmeras para tirar foto. Sorteei três livros também. E li trechos do meu próximo romance, que ainda não vou colocar aqui. Você perdeu. Agora não sei quando vou te encontrar. Os eventos são pra isso, se você não aproveita, só podemos sonhar um com o outro...


*Ps - O título do post veio da música “Bolero de Satã”, mas podia ter vindo de “Hamlet”, sim.

11/07/2007

"NOBODY LIKES THE RECORDS THAT I PLAY"

"E príncipe da paaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!"

Sexta agora, dia 13, estarei na Livraria da Vila da Lorena (Alameda Lorena, 1731) , em São Paulo, para ler algumas coisas, conversar com o pessoal que for, etc, etc. Devo ler pela primeira vez um trecho do meu próximo romance (que só sai ano que vem, segundo semestre) e posso autografar os livros anteriores, claro. Começa pontualmente às 20h. Apareça, não me deixe só, não me faça passar vexame.

E... Ai... outro feriado e eu morro. Não devia fazer efeito, já que eu trabalho em casa, né? Mas tudo fica mais silencioso, e o café fica mais forte, e eu não posso ir na academia desopilar, e quando eu vejo já estou jogado nas estrelas, olhando as sarjetas, imaginando como meu quarto seria bonito se eu não estivesse lá dentro.

Ou algo assim.

Daí me pego na frente do PC, vendo os sites mais inúteis do mundo, que ao menos conseguem extrair um leve sorriso, do meu dente inflamado do siso.

Uma vez postei aqui uma crítica ao funk carioca. Reitero. Não dá para aceitar músicas sem melodia, cantores sem voz e versos sem letra como se fosse "expressão de arte popular". É um apanhado de frases de efeito gritadas, feitas simplesmente para chocar pela escatologia. Não dá para admitir como arte, porque não há um desenvolvimento consciente de técnica, nem fundamento nas técnicas já existem. Felizmente, parece que essa febre já passou.

Entretanto, fuçando no YouTube, você consegue encontrar o verdadeiro lugar e função do funk carioca, que nesses casos se torna hilário (para não dizer "genial"). É quando os DJs pegam cenas já existentes - em programas de TV, entrevistas, sermões, diálogos - e descontextualizam com uma batida de funk. Dessa forma, o funk serve como inserção rítmica de pérolas do cotidiano - quase como uma paródia do que o funk "de autoria" pretende fazer. Assim, tudo pode virar música, toda frase pode ser sublinhada, os discursos mais esdrúxulos podem entrar no salão. É o funk como paródia realmente inteligente. E até o trabalho é mais elaborado, porque os DJs realmente têm de se preocupar em sincronizar batida e vozes, encaixar o discurso dentro de um ritmo.

Ai, que merda é essa que estou falando?

Para entender um pouquinho mais:

Funk do Jeremias

http://www.youtube.com/watch?v=YjlrEtl1oYs



Funk da Aula de Sexo:


http://www.youtube.com/watch?v=hEmswlmOHjk




Funk do Tapa na Pantera


http://www.youtube.com/watch?v=nIPxxtejk2g




Funk da Pastora Possuída


http://www.youtube.com/watch?v=5_ep3ZqAi8I

Meu favorito é o do Jeremias. Quem vai dizer que ele é pior do que a Tati Quebra-barraco?

08/07/2007

VENENO DE COBRA E LÍNGUA DE GATO

"Não arrasto o R, só estou rrrrronrrrronando."




Oh, me perdoem! Me perdoem! Nunca recebi tantos emails, scraps e reclamações quanto pelo último post da Clarice. E isso porque eu estava falando bem! A comunidade gay não se manifesta tanto assim nem quando eu xingo a Madonna!


Haha.


Ok, ok, mocinhos, mocinhas, queridinhos e queridinhas me escreveram primeiro para falar que Clarice não tinha sotaque de estrangeira - que era um misto de língua presa com sotaque nordestino (mas ainda acho que tem algo de fora aí, um "R" arrastado... sei lá), depois para "justificar" o conto "Aniversário", que coloquei no final do post. Ninguém disse ser uma pérola, claro, mas me disseram que era só um texto para jornal, que ela estava com dor de cabeça no dia, que ela tinha psicografado do exu-caveira, etc e tal. Então muito bem, o pior foi encontrar esse texto no livro "Os Melhores Contos de Clarice Lispector", da Global.


Mas era só para dar uma relativizada, contestar essa noção de "infalível", o que faz com que alguns autores acabem sendo sacralizados, perdendo-se o discernimento para analisar suas obras com a profundidade que merecem.


Então resolvi fazer a liçãozinha de casa, fui até a livraria, comprar os livros de Clarice que eu não tinha (inclusive um de entrevistas)


Não sou especialista nela, é verdade. Tenho de ler muito ainda, e muitos outros autores clássicos. Muitos autores "obrigatórios" eu ainda não li. Por isso você entende se eu não puder ler os contos que você me mandou, nem o link do seu blog, né?


Comprei também Marçal Aquino - "Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios" - que está na minha lista há tempos.

Até agora, o melhor livro que li este ano foi "O Desconhecido" do Lúcio Cardoso. É o que se pode chamar de creepy, estranho e poderoso. Vai trecho (para os fãs de Madonna):

Lá fora a manhã devia estar nascendo, qualquer coisa como uma neblina começava a penetrar docement no quarto. A lamparina agonizante iluminava o rosto adormecido de Paulo. Então, José Roberto aproximou-se da cama, abaixou-se, fitou um minuto a face mergulhada no sono. Que veria ele no rosto sereno do adolescente? Pela janela chegavam os cantos dos primeiro galos - e o homem julgou sentir também o perfume matinal dos campos, o gosto das ervas úmidas e das fontes escondidas no seio obscuro da mata. Aquilo chegava em ondas pela janela estreita, rompendo os limites escuros daquela prisão. Qualquer coisa pesada, qualquer coisa que parecia ter sido acumulada ali por longos anos de silêncio e solidão, cedia, rompia como um bloco de gelo no seu coração. No rosto de Paulo, ele parecia contemplar pela primeira vez a sombra fugitiva e insuspeitada do Amigo.


Agora vou falar mal de Machado...

05/07/2007

CLARICE, A INFELIZ



“Estou triste hoje porque estou cansada, mas no geral sou alegre...”

Ahhhhhhh, que mulher assustadora! Deus me livre! Nunca tinha visto a Clarice falando - ela nunca foi no programa do Ratinho nem da Galisteu. Mas graças às pirotecnias da Internet, outro dia me achei no YouTube absorto por ela. Que falta de originalidade minha! Pagando pau pra ucraniana! Bem, confesso que nunca fui fã de Clarice. Gosto bastante de algumas coisas, outras execro. Mas não posso negar que essa mulher tem uma figura impressionante. E não sabia que tinha um sotaque tão carregado. Será que podemos considerar de fato como literatura brasileira?

Veja você mesmo:

http://www.youtube.com/watch?v=9ad7b6kqyok

O programa me fez concordar mais uma vez com o Caio e rever uma carta dele. Já tinha postado aqui, mas nunca é demais. Carta de Caio Fernando Abreu para Hilda Hilst:

29/12/1970

Hildinha, a carta para você já estava escrita, mas aconteceu agora de noite um negócio tão genial que vou escrever mais um pouco. Depois que escrevi para você fui ler o jornal de hoje: havia uma notícia dizendo que Clarice Lispector estaria autografando seus livros numa televisão, à noite. Jantei e saí ventando. Cheguei lá timidíssimo, lógico. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto, toda de preto, com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo, absolutamente incrível. Era ela. Me aproximei, dei os livros para ela autografar e entreguei o meu Inventário. Ia saindo quando um dos escritores vagamente bichona que paparicava em torno dela inventou de me conhecer e apresentar. Ela sorriu novamente e eu fiquei por ali olhando. De repente fiquei supernervoso e sai para o corredor. Ia indo embora quando (veja que GLÓRIA) ela saiu na porta e me chamou: - “Fica comigo.” Fiquei. Conversamos um pouco. De repente ela me olhou e disse que me achava muito bonito, parecido com Cristo. Tive 33 orgasmos consecutivos. Depois falamos sobre Nélida (que está nos States) e você. Falei que havia recebido teu livro hoje, e ela disse que tinha muita vontade de ler, porque a Nélida havia falado entusiasticamente sobre Lázaro. Aí, como eu tinha aquele outro exemplar que você me mandou na bolsa, resolvi dar a ela. Disse que vai ler com carinho. Por fim me deu o endereço e telefone dela no Rio, pedindo que eu a procurasse agora quando for. Saí de lá meio bobo com tudo, ainda estou numa espécie de transe, acho que nem vou conseguir dormir. Ela é demais estranha. Sua mão direita está toda queimada, ficaram apenas dois pedaços do médio e do indicador, os outros não têm unhas. Uma coisa dolorosa. Tem manchas de queimadura por todo o corpo, menos no rosto, onde fez plástica. Perdeu todo o cabelo no incêndio: usa uma peruca de um loiro escuro. Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima, mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa. É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável, mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor. Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. Acho que mesmo que ela não fosse Clarice Lispector eu sentiria a mesma coisa. Por incrível que pareça, voltei de lá com febre e taquicardia. Vê que estranho. Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim – teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são, fora de dúvida, um presságio. Fico por aqui, já é muito tarde. Um grande beijo do teu

Caio.
– (Do livro de cartas dele organizado por Italo Morriconi)

Para estragar com a magia, coloco aqui um “micro-conto” de Clarice (que eu também já havia postado) para provar que até os cânones tem seus momentos infelizes (e está no livro "Os Melhores Contos de Clarice Lispector" da Global):

Aniversário

- Amanhã faço dez anos. Vou aproveitar bem este meu último dia de nove anos.
Pausa, tristeza.
- Mamãe, minha alma não tem dez anos.
- Quanto tem?
- Só uns oito.
- Não faz mal, é assim mesmo.
- Mas eu acho que se devia contar pelos anos da alma. A gente dizia: aquele cara morreu com vinte anos de alma. E o cara tinha morrido, mas era com setenta anos de corpo.

Ahhhhhh! Taquem fogo na minha cama!

Continuando com os hits do meu Ipod, entrou o novo da (dupla francesa) Les Rita Mitsouko. Catherine Ringer resgatou seus vocais poderosos e a sonoridade 80's. Mais um pra lista dos melhores do ano.




No mais, assisti "Quarteto-fantástico e Surfista Prateado" e gostei.




(Ps Não tenho ainda foto do meu sofá novo. Mas nesta foto estou olhando pra ele)

02/07/2007

COMENDO GENTE


"If you're coming back, when you're coming back, wake me up."

Hoje um rapazinho chegou até mim dizendo: “adorei aquele seu livro, ‘Comendo Gente’”. Tudo o que eu pude pensar foi: “Putz, como não pensei nisso antes?”

Com meu coração seco e minha mente esvaziada, não sobra muita coisa para dizer. Eu poderia contar dos meus dilemas morais ao traduzir uma versão juvenil de “Moby Dick”. Sinceramente, pensei até em escrever para a editora abdicando do trabalho, para não ser conivente com a matança de baleia, mas no final decidi seguir com o livro, para poder comprar outra garrafa de Jack Daniels. E Deus abençoe os cachalotes!

Digo também que resgatei uma obsessão brit pop (ou pré-emo) da minha adolescência: “Marion”, conhecem? Tudo recomeçou com aquela propaganda de celular com trilha de The Killers. Lembrei que o Jaspion (meu ex, sósia de Keanu Reeves) era fanático pela banda, e que o Rufus dedicou uma música ao vocalista e fui atrás de tudo o que o Killers lançou. Com os miados deles em meus ouvidos, comecei a pensar que já tinha ouvido isso antes, e em melhor forma: Marion, uma banda brit-pop (ou pré-emo) de sonoridade parecida e punch muito mais vigoroso. Então ressuscitei meus cds do Marion e agora é tudo o que ouço no meu Ipod.

Dá uma olhada no pitéu máximo em:

http://www.youtube.com/watch?v=k8UgYaB5GLQ


É tudo o que eu quero na vida.

Pois é, o britpop fez sentido na minha vida. Estudei na inglaterra em 94, no início do movimento, e passei o resto da adolescência sonhando em retornar. Só o fiz em 2002, quando (musicalmente) a Inglaterra não tinha mais nada a oferecer (bem, podemos considerar o elektro...).

E para quem não sabe, o britpop foi um “movimento” musical britânico de meados dos anos 90, com bandas querendo resgatar os valores, o sotaque e a sonoridade do pop-rock da região (influenciado por Beatles, Smiths, Bowie, Jam, etc). Os precursores foram Stone Roses, Suede, Blur e Manic Street Preachers, completados por grandes sucessos de Radiohead, Oasis e Pulp. Mas teve, obviamente, uma avalanche de bandas esquecidas, como Menswear, Gene, Strangelove, Salad e (uma das minhas favoritas e hoje relembrada) Marion.

Placebo? Não. Isso veio bem depois, e foi uma versão anfetaminada (alguns dizem melhorada) de Suede.

De resto, tenho comido peixe, tofu e arroz (arroz) polido.

PRÉ-PÓS-URBANO

Igreja de Satã A natureza é madrasta. A verdade da mata é impenetrável, intransponível, inabitável, não se pode pôr os pés lá. Não há tr...