06/08/2007

TÔ SEM TÍTULO, MAS TENHO ASSUNTO.


Bowie-pai-de-todos says: "Não sou só um rostinho bonito..."

Hoje eu tenho, tenho assunto...

Saiu no Globo deste final de semana uma extensa matéria sobre “novos autores e seus cânones”. Foram entrevistados dezessetes autores relativamente novos (eu entre eles), que deram suas listas de artistas favoritos na literatura, música, cinema, etc. A matéria pretendia identificar quais são as influências mais presentes na nova literatura, e quais foram esquecidas.

Obviamente, os autores mais votados foram Machado de Assis e Fernando Pessoa. E o jornalista Miguel Conde surpreendeu-se com Rubem Fonseca e Proust não terem sido citados.

O jornal publicou a lista completa de cada autor. Eu, que respeitei o limite de nomes a serem citados, acabei ficando com a menorzinha das listas:

Oscar Wilde; Franz Kakfa, João Gilberto Noll, Caio Fernando Abreu, Thomas Mann, Bram Stoker, Clive Barker, Dennis Cooper, Franz Liszt, David Bowie, Tim Burton, Sally Mann, Eduardo Dussek, Antônio Cícero e Tsai Ming-Liang.

Como Antonio Prata disse sabiamente, na matéria: “Sempre desconfio dessas listas, inclusive da minha. Quando elencamos nossas preferências, fazemos mais uma carta de intenções, o que gostaríamos de ser, do que uma verdadeira busca sobre as origens da nossa escrita.”

Concordo inteiramente. Ainda mais porque eu acho que, no terreno das influências, qualquer um que nasceu depois dos anos 40 teria um nome mais forte do que qualquer outro: Walt Disney (que não foi citado).
Papai Valdisnei says: "Tem alguma coisa errada nessa lista, Pluto. Me ligue com a direção do Globo".
Miqueimou-Zé says: "Senhor, Pluto é meu cachorro..."
Papai Valdisnei retruca: "Cachorro? Mas então que porra de bicho é você?"

A minha lista tem uma certa confusão, porque embora tenha meus autores favoritos (Wilde, Mann, Kafka, Noll, Caio, Cooper e Stoker) tem um autor de que eu não gosto, Clive Barker, mas que eu acho que exerceu certa influência. Eu também inseri todas as minhas influências do glam-rock, pós-punk, gótico, new wave e brit-pop num só nome: David Bowie (que foi o pai de todos que vieram depois). Sally Mann, Eduardo Dussek e Antônio Cícero são influências mais recentes, e lamento ter esquecido Denise Stoklos entre elas.

Miguel Conde também analisou que, apesar da cultura pop e de artistas de outros meios estarem nas listas citadas, nenhum autor “soube identificar de que maneira esses artistas [não-escritores] influenciaram sua escrita”. Realmente é difícil identificar conscientemente como um artista (ou mesmo escritor) influencia nossa obra. Mas eu arrisquei sim uma análise, em email a ele:

“É um velho clichê, mas é verdade: um escritor não se influencia apenas por livros, influências podem vir de todos os lugares. E pensando em termos estilísticos, outras artes podem trazer grandes idéias para a literatura. Recentemente, por exemplo, fiquei fascinado pelo trabalho da Denise Stoklos com o texto, com a repetição, e apesar de ser teatro, pode trazer muito à literatura. Listzt, por exemplo, é um artista que me inspirou no exagero assim como Kafka me inspirou na concisão. E uma foto da Sally Mann, em particular, me inspirou um conto que acabou se transformando no romance "Mastigando Humanos". Esses são apenas alguns exemplos.”


Filhote de Sally Mann. "Cuidado que neste rio tem jacaré!"


Ele também se questionou sobre o fato das listas estarem concentradas nos séculos XIX e XX e coloca uma frase minha, falando sobre a fácil identificação com uma época próxima à nossa. Na verdade, o que eu disse a ele foi:

“Bem, em primeiro lugar obviamente nos últimos dois séculos se produziu muito mais informação e arte do que em todo o resto da história. Em segundo lugar, e também obviamente, é natural que eu me identifique mais com a arte produzida numa época próxima a minha. Já a influência do século XIX em si se dá principalmente pelo romantismo.”


Franz Liszt: Tentei seguir os dedos, só consegui copiar o cabelo.


E eu acrescentaria agora que, além do fato de se ter produzido mais informação e cultura nos últimos séculos, essa informação também está mais acessível, enquanto que muito o que foi produzido nos séculos anteriores já foi perdido.

Enfim, a matéria era interessante, e uma delícia ler a lista de cada um dos autores (sorry, não tenho link para postar aqui. O site do Globo é fechado), mas poderia se ter feito o contraponto das listas com a produção de cada um dos autores. Enfim, nunca se tem o espaço necessário para uma análise em profundidade...

Fiquei pensando também que nenhum dos meus autores favoritos eu tive de ler para a escola. Nesse sentido, eu deveria ter citado Camila Delaney, minha namorada do colegial, como uma das maiores influências, que me desviou para Wilde, Caio Fernando Abreu e Suede.

Os livros que mais gostei de ler para a escola foram:

“O Centauro no Jardim” de Moacyr Scliar, “Amor de Perdição” de Camilo Castelo Branco, “As Meninas” de Lygia Fagundes Telles, “Noite na Taverna” de Álvares de Azevedo, “O Cão dos Baskervilles” de Connan Doyle, “Contos de Terror, Mistério e Morte” de Edgar Allan Poe, “Os Colegas” de Lygia Bojunga Nunes e “Capitães de Areia” de Jorge Amado.

O que mais detestei, com certeza foi “Bisa Bia, Bisa Bel” de Ana Maria Machado.

E fico feliz em saber que meus livros já estão sendo adotados em algumas escolas, tanto “Mastigando Humanos” quando “Feriado de Mim Mesmo”. Inclusive há um ano, mais ou menos, algum professor passou um questionário sobre “Feriado” para seus alunos e choveram emails na minha caixa postal, repassando as perguntas diretamente para mim. Eu não sabia responder. Haha.


Como minha formação cultural continua, ontem assisti “A Educação Sentimental do Vampiro”, do Felipe Hirst com a Companhia Sutil de Teatro (a mesma de “Avenida Dropsie”). Maravilha. Gostei muitíssimo. A leitura “expressionista” para o texto do Dalton Trevisan é ótima. A cenografia toda em preto e branco... Uma das melhores peças que vi este ano (só não bate a Denise. Ninguém bate a Denise).

Em DVD, assisti “Correndo com Tesouras”, baseado no livro de Augusten Burroughs. Eu li o livro há dois anos, tentei vender (a tradução) para a Planeta. Então fiquei sabendo que já tinha sido comprada pela Ediouro, tentei pegar o livro para traduzir, mas já estava nas mãos de outro.

O livro/filme conta as memórias (reais) de infância de Augusten Burroughs, uma espécie de J.T LeRoy (real) mais surreal, mais cômico e menos desgraçado (ainda assim, ainda acho que prefiro a Sra Albert-LeRoy como escritora do que o Augusten). No início da adolescência, foi colocado pela mãe para morar com seu psiquiatra, que tinha uma família completamente louca, pregava a liberação sexual e não tinha a menor noção de limites e psicologia infantil.

O filme é uma boa adaptação do livro. Mantém o tom entre drama e comédia, tem ótima caracterização dos personagens, mas teve de suavizar um pouco o enredo, para poder ser passado nos Estados Unidos. E o livro é um bestseller, então você percebe que mesmo nos Estados Unidos a literatura é um veículo que proporciona muito mais liberdade e ousadia do que o cinema.

Te digo uma coisa, não invejo nenhuma outra arte.

Fora esse, comprei uma pá de outros DVDs (já que não faço mais sexo e não saio mais na noite, me sobra tempo). O melhor deles é a versão dupla de “O Chamado”. Tem uma série de cenas deletadas que ampliam o sentido do filme e um curta chamado “Círculos”, que pode ser tomado como uma espécie de “Chamado 1,5” (uma história que acontece entre o primeiro e o segundo filme). Tudo bem, não é um PUTA curta, tem umas tosquices, mas ainda assim é melhor do que “O Chamado 2”, esse sim uma bomba (incluída no DVD).

Se ela saiu do fundo do poço, eu também consigo...

Ufa, para terminar, música? Tenho escutado direto o cd da Chiara Mastroiani com o (marido) Benjamin Biolay. Lembra bastante Jane Birkin & Serge Gainsbourg, mas menos tosco. Adoro “A House is Not a Home”:

Even if a house is not a home
Should have never let me sleep alone…


Benjamin e Chiara... Hum, quero um de cada.



Agora desça para o post anterior e decore a letra da "Rã Lelé".




Regininha, minha maior influência atual.

VOTUPORANGA, SÃO PAULO, SÃO ROQUE E FIM!

Quinta agora, com Reynaldo Damázio. Se há algo de que não posso me queixar este ano é dos eventos. Antes mesmo de lançar o livro novo o...