19/06/2008

TILT LITERÁRIO




Paranóia! Paranóia! Consegui terminar mais um livro do Dennis Cooper. Ou melhor, não consegui evitar de ler mais um romance dele. E mais uma vez me surpreendeu. Coisa das mais creepies, dessa vez numa direção bem diferente.

Estava acostumado com ele narrando sexo e morte de adolescentes junkies. Achava que era tudo sobre o que ele escreve. E escreve bem. Consegue sempre tornar o leitor cúmplice de sua paranóia, refém de suas obsessões, narrando da forma mais hardcore possível.

Em "God Jr" a história é bem diferente, mas o efeito é o mesmo.

Um pai de família chapado sofre um acidente de carro com o filho adolescente. O filho morre. O pai fica paralítico e obcecado em resgatar a memória do filho. Como faz isso? Jogando um jogo de videogame, nos estágios salvos pelo filho. O filho passava a vida trancado no quarto, jogando. Assim também fica o pai. Sabe quando você chega num ponto estranho de uma fase, onde acha que tem algum segredo escondido, alguma traquitana pra desvendar, e às vezes passa horas naquele ponto, mas na verdade não tem nada lá? Isso é "God Jr". Sim, é isso praticamente o livro TODO. O pai descobre um estranho monumento no jogo, decide construir aquilo no mundo real, em homenagem ao filho, mas passa dias tentando descobrir para que serve aquele monumento naquela fase (ainda que seja, possivelmente, apenas um elemento cênico).

E o livro fica nisso, paranóia de um jogador preso num ponto sem sentido de um videogame. Talvez a mim pareça mais creepy porque já estou consciente das bizarrices do autor. Mas ainda assim, acho que não tem como não enxergar a doença toda da coisa. Página e páginas descrevendo apenas um jogo de videogame. Com o protagonista imaginando o que os personagens diriam para ele. Olha só (na minha tradução):

“Primeiro você tem de entender uma coisa”, diz a planta. “O urso é o urso. Seus olhos têm apenas um grau a mais de vida do que a estampa de uma xícara. Você anda, você corre. Você mata, resolve enigmas. Não há muito na sua pessoa. Conhecemos você como um leão amestrado conhece uma cadeira de madeira. Quer dizer, não muito bem. Considerando isso, te digo uma coisa: Tommy passou semanas e semanas aqui sem fazer nada. Digo nada porque pode-se considerar imóvel um urso topiário. O que eu sei é o que o comportamento estranho dele provocou em nós. Por que ainda estamos aqui? Surgiram mil teorias. Pelo menos, nesta fase, nós conhecemos o problema. Nas outras fases... bem, deve ter sido um inferno. Imagina que você é criado para passar de dez a quinze minutos com um estranho e ele nunca chega. A introversão era uma tortura. Para todos os efeitos, nós somos os deficientes físicos. Eu mal posso me mexer. Sou como Stephen Hawkins, se o cosmos fosse um zoológico. Em todo canto deste jogo, criaturinhas tolas e folhagem bizarra se sofisticaram. Foi uma praga. Idéias se espalharam nos mais distantes confins deste jogo sobre esse urso que não fazia nada. Tendo esse dito privilégio de vê-lo, nós mantemos nossa cabeça no lugar. Mas nas outras fases, onde as criaturas tinham de sonhar, as questões se tornaram místicas. Que tipo de urso possui o poder de começar uma evolução tão terrível? Bem, um deus, claro. Então se você quer uma resposta simples, mas não tão simples, o consenso aqui é de que o urso do Tommy era Deus. Veja por si mesmo. Jogue as fases adiante e pergunte por aí.”


E fica nessa psicologia psicodélica páginas e páginas, com o urso matando personagens enquanto filosofa com eles. Bizaaaaaaaarro. Mas ainda assim, existencial. E uma prova de que pode-se falar de qualquer coisa, qualquer coisa, ainda sendo literário.

“Entendo porque todo mundo numa terra de faz-de-conta pensaria que um garoto que não faz nada é Deus”

Para mim, o poder deste livro é o mesmo dos outros do Cooper que eu li: seqüestrar o leitor nas obsessões do personagem. Lendo esse livro tive a mesma paranóia de quando jogava alguns jogos na adolescência, e não se restringe a isso. Dia desses, estava num vôo bem cedo de manhã; sentado na minha poltrona, tentava ler o jornal. Passei por aquela notícia das adolescentes que fugiram de carona para o Rio Grande do Sul, mas eu estava com tanto sono, não tinha acordado (nem dormido) direito, que passei uns dez minutos no mesmo parágrafo. Eu lia as palavras, mas achava que não tinha entendido exatamente o que diziam, ficava indo e voltando nas linhas, para assimilar exatamente o que dizia aquela simples mensagem. Mais ou menos como um urso empacado numa fase, tentando entrar num monumento que não esconde segredo algum, mais ou menos como God Jr.

Outro momento em que sempre tenho essa sensação é quando vou ao supermercado, você não? Ás vezes vou só pra comprar chocolate, ou vodca, e fico meio empacado nos corredores, indo e voltando sem conseguir chegar exatamente onde eu quero, sem direcionar objetivamente para o que eu fui fazer lá. Tem dias que a coisa fica séria e tenho a sensação de que passei HORAS perdido entre as gôndolas. Mas ou menos como Dennis Cooper...

E o pior é que eu acho que o jogo descrito no livro existe. E que eu joguei alguns anos na casa de um amigo no interior. Um amigo que não fazia nada a não ser se chapar e jogar videogame.

Paranóia... Paranóia...

Agora, o livro não foi lançado no Brasil e difícilmente será. Eu continuo na minha campanha para traduzir as obras dele por aqui, mas acho difícil alguma editora se interessar. Mesmos nos EUA ele é um a autor marginal, está longe de ser bestseller e só ganha prêmios de literatura alternativa. Mas, enfim, para mim ele é um pequeno Deus. E é bom a gente ter nossos heróis exclusivos.

Saindo do underground (mas nem tanto) para o glamooooooooour, estou aqui no SPFW. Cobrindo diariamente com minha página "Última Fila", no Journal da Erika Palomino. Tem sido divertido. Digo que é uma "coluna social dos excluídos". É uma delícia entrar nas salas dos desfile, ignorar todas as celebridades, o povo bacanudo sentado na frente e ficar procurando gente interessante sentada mais pra trás. Acho que é essa minha missão na Terra (não cobrir o SPFW, pelo amor de Deus, mas sim trazer uma visão diferenciada da realidade que há por aí. Mostrar o que os outros não mostram...)

Eu e Carol no SPFW (mostrando o que os outros não mostram)

QUANTO GANHA UM ESCRITOR

Com Paulo Scott na Garopa Literária Aqui em Maresias. Na casa que Murilo alugou. Cheguei nesta noite fria de sábado e fui fazer um ch...