29/07/2008

LÍQUIDO QUENTE QUE (ME) ESCORRE PELA GARGANTA





Parei de tomar café. Estava amarelando meus dentes. Estava amarelando minhas páginas. Minhas palavras, não-ditas, amarelavam dentro de minha boca, e achei que era questão de cortar a cafeína.

Na verdade, o que amarelava era minha alma...

Passei incólume pelo cigarro, álcool, maconha, cocaína, crack, ecstasy, ácido, anfetaminas, cogumelos e azeitonas.... bem, ao menos não me viciei. Não poderia me deixar dominar por um estimulante tão básico.

O caldo negro que agora escorre de minha boca é petróleo...

Estava amarelando também minhas noites, quando eu via. Já era dia quando o efeito passava, eu ia dormir e depois só queimando minhas pestanas com café fervente é que eu conseguia abrir o olho.

Fora que nunca gostei do gosto. Tomava nescafé mesmo, em pints, apenas pelo efeito que causava. Intercalando com copos de coca light, em certas épocas, até derramando um Red Bull por cima. Pensa que estou brincando? Tenta trabalhar todo dia em casa, manobrar vida de atleta e intelectual num mesmo corpo. Levantar todo dia, sem horário e sem patrão, muitas vezes sem razão, e se forçar para fora da cama, para fora de casa, para a esteira e para a piscina, para os pesos e aparelhos. Só a vaidade e o café faziam isso comigo.

Agora não tenho mais vaidade... Ou ao menos ela não é mais solúvel.


Olhando o umbigo.


Pensei nisso esses dias, revendo o roteiro de "Feriado". Um personagem sozinho, trabalhando em casa, que não tomava café, não usava maconha, não fumava... Não é uma situação real. Todos precisamos de nossos estímulos orais. Mas na época eu não tinha escrito "Mastigando", ainda não vivia tão sozinho, não tinha palavras amarelando em minha boca, que precisavam ser dissolvidas. Acho que por isso tantos escritores são alcóolatas. Talvez por isso que tantos escritores fumem. Talvez por isso engulam tantos sapos e não reconheçam que todos os prazeres são orais. É sempre preciso um substituto para umidecer os dias...


Por enquanto, vou ficar sem nada.



Perdidos na selva.



E pensei nisso esses dias, na casa de mamãe, no meio do mato. Meu marido precisou de cigarros, e fiquei com medo dele nunca mais voltar. Tivemos de andar oito quilômetros pela estrada, no sol, até chegar num posto e ele poder fumar...

Foi tudo pelos ares.

Quando chegamos ao posto, pensei se, na verdade, eu não tinha ido atrás de coca-cola, se eu não tinha ido atrás de cafeína. Voltamos pela estrada com as mãos sujas de graxa, de petróleo, mas com coca light e cigarros na sacola.

Não tomo mais coca-cola.


Acho que a inspiração foi Adriana Calcanhotto também ter largado o café. Acho Adriana Calcanhotto uma boa inspiração. Será que vou ficar que nem ela? No último show ela nem levantava do banquinho...

Tenho me sentido bem. Tenho me sentido um zumbi. Tenho me sentido bem, meio onírico, meio aéreo, é bom para recuperar um pouco da minha introspecção criativa. E quem sabe Jesus não se lembra de mim? Quem sabe ele não repara que não estou pecando, não estou traindo, que amo os animais e não estou manchando minha alma com cafeína, assim me salva do sono, do desânimo, de ter de levantar sem sentido todas essas manhãs.

Dizem que Jesus faz milagres.

Ou que Deus me dê uma medalha.


Mantendo-me puro o suficiente – acredito- serei capaz até de escapar de balas perdidas. Pagarei minhas contas em dia. Terei novos motivos para sorrir, em dentes brancos em novas gengivas. Sendo puro o suficiente, poderei até te beijar com novo vigor – Oh! – e poderei, quem sabe, um dia, pensar no chá da academia.

Não tomo mais café.
CAVALO MENTAL



Sonhei que havia um cavalo atrás de mim. Um cavalo com as patas tortas. Me seguia onde eu quer que eu fosse, subias as escadas... Era algo como um cavalo zumbi. Um cavalo que queria comer meu cérebro. E a única forma de me livrar dele era apontando meus dedos em arma.

23/07/2008

MENDIGOS CULTURAIS


Eu me sentei ao lado dela e disse: “Eu entendo... Eu entendo..."


Encontram-se nesta categoria [de “Mendigos culturais”] os artistas de rua, os atores de teatro, os músicos de bar e os escritores em geral. Todos artistas que têm de implorar por um pouco de atenção, por um pouco de reconhecimento, chamar o público como se estivesse pedindo um favor, pedindo desculpas, entregando sua obra de graça.

(Hum, mas confesso que acho sexy esses “palhacinhos de rua”, esses que jogam bolinhas, que fazem malabarismo. Tem uns bonitinhos aí pelos Jardins. Quero um desses pra mim. Quem sabe um atirador de facas? Quem sabe um engolidor de espadas? Cuspidor de fogo eu já tive. Cuspidor de fogo eu não quero.)


Nem coloco em questão o fato dos Mendigos Culturais não conseguirem viver só de arte. Esse não é o ponto. A questão é ter de mendigar um público. Obrigar os amigos, a família a assistir sua peça, deixar convite de graça, forçar a comprar o livro... Por isso tenho cada vez mais resistência a participar de eventos literários, fazer noites de autógrafos... (Festa de aniversário já não faço há anos, pior que mendigar público é mendigar amizade.)


A gerente da minha lavanderia sempre diz: "um dia você vai ser um escritor famoso", mas o que ela quer dizer com isso? Algum escritor de fato, alguma vez, consegue transcender a condição de mendigo? Será que ela reconheceria como famoso um autor como Milton Hatoum, que ganhou três Jabutis, um Portugal Telecom e foi traduzido pelo mundo a fora? Será que ela enxergaria Lygia como algo além de uma velhinha simpática? E será que João Gilberto Noll já teve de ouvir: "um dia você será o novo Paulo Coelho"?


Não, Dona Dirce, nós escritores seremos sempre mendigos, sempre precisaremos de leis de incentivo e apoios culturais. Sempre pediremos desconto na lavanderia, daremos nossos livrinhos de presente. E você nunca vai ler.



Um pouco sobre isso trata o filme “Nome Próprio”, de Murilo Salles, baseado na obra de Clarah Averbuck. No filme, a protagonista mendiga leitores, amizade e amor, tentando sobreviver apenas de sua escrita numa nova cidade. É bom. Ótimo até. Leandra Leal como Clarah/Camila está fantástica. E o tratamento naturalista do diretor funciona muito bem – me lembrou inclusive o (também ótimo) “Cão Sem Dono”, do Beto Brant, baseado na obra de outro jovem escritor gaúcho, o Daniel Galera. (Veja só, esses dois filmes aproximaram a obra dos dois, de uma forma que eu não consegui enxergar lendo os livros.)

Leandra goes Averbuck.

“Nome Próprio” tem sido apresentado por alguns meios como “um retrato da geração blog”. Pode até ser, mas não é um filme da “geração atual”. O filme, apesar de tratar de uma realidade recente, já mostra uma realidade distante. Essa “geração web” já está conectada em banda larga, comunica-se em tempo real através de MSN e paquera pelo Orkut (todas coisas que não existem no filme). Qualquer filme que trate de realidade tecnológica, corre o risco de envelhecer rápido. E esse, por incrível que pareça, já tem um clima um pouco retrô. Mas esse pode ser um charme a mais. E o foco do filme não é a vida virtual, mas a vida interna da protagonista. Bem bacana.





Boo!



Outro que fui ver, claro, é o novo Batman. Achei um pouco chato. O Coringa é legal, e tudo, mas o filme é loooooooongo demais e continua sendo apenas um filme de ação. Um bom filme de ação. E eu não gosto de filme de ação. Meu Batman favorito continua sendo o “Returns” do Tim Burton, porque esse é mais um filme de fantasia, com um visual esplendoroso. Não sei quem vê aquela Gotham City do Tim Burton e pode achar melhor a Gotham City atual. O próprio Batman, hoje em dia é mais um ninja do que um super herói. Ele perdeu aquele ar romântico, irreal. Enfim, decepcionei.





(Isso é que é Gotham)




(Mas, ok, o Coringa do Jack Nicholson ficou meio toscão. Meio seriado de TV demais. Esse novo é mais bacana.)



(Por falar nisso, agora me lembrei. Os produtores do filme "Nome Próprio" não fizeram uma campanha pedindo aos espectadores que assistissem o filme neste primeiro final de semana, ao invés de Batman? Não era uma coisa para garantir a continuidade do filme em cartaz? Muito bem, mais um para a categoria de Mendigo Cultural: cineastas brasileiros. )



Ao menos as coisas estão começando a melhorar por aqui. O cinema se diversificando, ao menos.


Embora tenha uns que insistam, né? Outro dia vi aquele trailler sobre o ônibus 174, dirigido pelo Bruno Barreto: "Contaram a história dos policiais, dos reféns, só não contaram a história do assaltante." Puta merda, vai ser desinformado assim na PORRA. Já existe um documentário longa-metragem de MAIS de DUAS HORAS contando essa história. Focando inclusive o lado do assaltante. Um documentário ótimo do José Padilha. Acho até desrespeito com ele fazer um trailler assim. Já deu, né? O povo não só não cansou de mostrar a realidade da favela no Rio de Janeiro como agora já está fazendo remake das histórias. Um pouco mais de fantasia, pessoal, um pouco mais de imaginação.


Mas algumas coisas ainda me dão esperanças...






17/07/2008

A MORTE NÃO ME QUIS





Já sangrei de tantas formas, que nem sei como me matar hoje...


Mas bem que eu queria morrer. Um pouquinho só. Um desânimo que só. Me lembra aquela música da Ângela Maria: “hoje eu queria morrer... ou pelo menos chorar.” Acho que é uma coisa química, ou falta de química, ou TPM, ou falta de TPM. Falta de hormônios femininos sobre mim. Uma mulher para passar minhas roupas. Uma mulher para lavar minha louça... eu tenho, mas custa caro. E um homem para trocar meus pneus furados. Do meu carro roubado. Em frente às ruínas da minha casa. Com o encanamento enferrujado. O que fazer deste dente cariado? Ao menos as contas do mês estão pagas.


(Agora quando me ligam de algum banco, ou tentando vender alguma coisa, eu simplesmente respondo: "Santiago foi assassinado." Eles se desconcertam, me dão os pêsames e me tiram do cadastro.)

Tenho acordado bem tarde. Nunca é hora de acordar. E tenho dormido bem tarde, na madrugada, meu dia nunca quer acabar. E ler na cama me desperta sentimentos sórdidos. Ler me desperta e tenho vontade de escrever... Mas escrever tem me dado uma preguiça... Principalmente pelos percalços em publicar, publicar, publicar.

Minha editora foi comprar cigarros e nunca mais voltou. Eu torço com perversidade em vê-la voltando nas últimas, careca, em quimio, com câncer de pulmão. Então eu tiraria meus originais das mãos dela e apagaria uma bituca em sua testa. Assim seria feliz para sempre, no prédio, no tédio, com meus sete meninos cegos (que atualmente andam surdos e mudos também.)

Falando objetivamente do lançamento do livro: não sei. A editora parece estar afogada em burocracia e nunca me diz uma data, nunca me dá uma resposta. É bom para eu aprender. É bom para eu aprender como a literatura não é uma arte independente (toma, papudo!). Eu que sempre valorizei minha arte principalmente por isso. Eu que sempre valorizei minha arte por poder fazer exatamente do meu jeito, agora dependo de uma empresa carioca para dizer o quando de vermelho há em mim...
Ah, sim, ainda, sim.

(E enquanto o livro novo não sai, você pode ir lendo os outros, vai? Tem vários outros pra você ler.)

("Enquanto eu tiver estes dedos, enquanto eu tiver vontades, você vai ter de me ouvir...")

E não é só isso, claro que não. Eu também sofro pelos meninos que tem fome (“pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela, pela janela”) e pela fome que os meninos me despertam; pelas balas perdidas, pelo leite derramado, pelo caminhão de lixo pedindo doação de sangue, por tudo que já joguei fora e não pode ser reciclado...

(Ah, tantas balas perdidas pelo Rio e nenhuma atinge o alvo certo. Nenhuma rompe a vidraça de meus editores. Nenhuma os desperta para o drama - o drama - para o drama que há em mim.).


Estou lendo Rubem Fonseca. Previsível, mas fazer o quê? É extraordinário. Mais do que extraordinário: é gostoso. Uma leitura gostosa, fácil, divertida, ainda que ainda, e ainda que extremamente literária.

Recentemente li um romance policial inglês, para dar o parecer a uma editora. Também achei gostoso, também achei divertido, mas o livro não chegava a avançar no gênero literário, não ia além da literatura de entretenimento. Rubem Fonseca sim, obviamente, sim...

(Mas eu odeio esta capa... Não, não odeio esta capa. Mas odeio essa história de editora ter capa padrão, ter padrão de capa. Quem tem de ter padrão é o autor, não a editora. É como se a Sony Music quisesse que Padre Marcelo, Michael Jackson, Kiss, Kings of Leon, Rod Stewart e Eliana tivessem capas de discos parecidas. Odeio isso... Ai, odeio isso!!! E odeio todas as editoras. E quero que as editoras tenham câncer, AIDS, lepra, que morram lentamente ao meu lado, entre minhas pernas, penetradas pela minha espada!)

Rubem Fonseca escreve fácil. E existe aquela máxima: “o difícil é escrever fácil”, mas não acho. Não quero. Quero cada vez mais caramelo no meu bolo. Quero sempre confeitar o meu sorvete. (Quero acidez no meus sonhos e morrer de diabetes.)
Tanta gente escreve fácil, mas não diz nada. O difícil é escrever bem, e ponto. Um bom exemplo é o novo romance do Noll, que eu também estou lendo. Noll não é um autor fácil. Noll não é exatamente “divertido”. É uma escrita sempre dolorosa, intricada, mas linda, poética, especialmente nesse livro novo, “Acenos e Afagos”. Uma coisa obsessiva. Uma coisa doente. Uma coisa exorbitante, que confirma Noll como meu autor contemporâneo favorito.

Sabíamos que o sexo deveria ser feito entre um homem e uma mulher e que dessa luta em meio aos lençóis se gestaria a criança, essas crianças correndo por tudo como nós. O nosso abraço belicoso fora uma situação que só poderia ter sido vivida porque se desgarrara da história principal. O vento acabou varrendo-a para o lixo. Éramos moleques que se reinventavam a cada sinal da puberdade. (Micro-trecho de tudo o que Noll pode te oferecer.)

E outro que estou lendo é o Maurício de Almeida. Marcelino (Freire) me chamou atenção sobre o livro de contos dele, “Beijando Dentes” e eu comprei. Bacana. Ganhou o Prêmio Sesc de Literatura. Então serve de dica para você. (Se você quer publicar) o Prêmio Sesc é uma boa opção, tem visibilidade, o livro sai bonitinho pela Record...


(Ó. Esta capa eu não odeio.)


Mas por que você quer publicar? Por que não fica em casa tranqüilo, quietinho, assistindo Smallville de madrugada?


Pode ser um traço de depressão, mas tenho sentido câimbras cada vez que me convidam para sair. Pânico! Pânico! Câaaaaaaaaimbra. Tenho sentido ódio de quem pede minha presença em eventos sociais. Ódio! Ódio! Câaaaaaaimbra... E recebo tanto spam de gente lançando livro, lançando peça, fazendo festa, fazendo show, que prometo a mim mesmo nunca mais fazer nada, nunca mais fazer festa de aniversário, nunca mais fazer noite de autógrafo. Nunca mais convidar ninguém para nada. É chato. Chato. Ódio! Ódio! Câaaaaaaaaaimbra... Dói ainda mais quando vejo essas colunas sociais alternativas na net, festas de modernos, inauguração de clube... Arrrrrrgh, câaaaaaaaaaaaaimbras. O que esse povo está fazendo na rua? Por que esse povo acredita que há felicidade lá fora? Lá fora há balas perdidas, gente com bafo, gente com bafômetro, gente medindo o bafo alheio e perdendo balas no chão da boate, na pista de dança. Não acham mais gostoso ficar quietinho em casa, morrendo aos pouquinhos? Comendo chocolate, assistindo Smallville?

(Ainda não comprei nenhuma temporada não... Acho mais bizarro esperar o SBT ser bacana comigo. Acho mais bacana o SBT ainda ter algo a me oferecer. Principalmente de madrugada, lá pelas tantas das três ou quatro, é bom saber que o Seu Silvio Santos ainda pensa em mim.)
Desânimo....
Deve ser químico, falta de química, câimbra, TPM, falta de hormônios femininos. Há tanto e tanto que não experimento. Quer ser minha namorada e ver Smallville comigo? Passar minhas roupas, amarrotar meus lençóis? Quer desenvolver câncer e me ver sorrindo?

(Na verdade, estou muito bem casado...)

(E estou feliz, satisfeito, contente, eufórico!)
(E tenho saído todas as noites. E defumado meu pulmão. E enxarcado meu fígado. E me esquecido.)

Dussek de louco, eu de bobo.

Para terminar em alto astral, dou a dica do show do Eduardo Dussek, no Bar Brahma. Fui ontem, e tem mais nas próximas duas quartas. Dussek é aquele mesmo, de “Doméeeeeeeeeestica, era empregada doméeeeeeeeeestica”, “Rock da Cachorra” e tantas outras. E cantou todas essas. E cantou muito mais. E continua com uma voz incrível, impecável. Também tem tiradas divertidas entre as músicas, deixando o show como algo entre o humor e o musical. Por mim, poderiam ser só as músicas. Mas foi bom para conhecer melhor o Dussek. Conversamos um pouquinho também, e ele foi muito simpático.
Pra você lembrar:


Doméstica (Brega-Chique)

Foi trabalhar recomendada pra dois gringos
Logo assim que chegou do interior
Era um casal tipo metido a grã-fino
Mas o salário era tipo um horror
A tal da madame
Tinha a mania esquisitona de bater
Lhe baixava a porrada
Quando a coisa tava errada
Não queria nem saber

Doméstica!
Ela era... Doméstica!
Sem carteira assinada
Só caía em cilada
Era empregada... Doméstica!

Nunca notou a quantidade de giletes
Não reparou a mesa espelhada do salão
Não perguntou o que que era um papelote
“Baixou os homi” e ela entrou no camburão
Na delegacia
Sua patroa americana ameaçou
Lembra que eu sou uma milionária
Eu fungava de gripada
Não seja otária, por favor

Doméstica!
Traficante disfarçada de... Doméstica!
Era manchete nos jornais
O casal lhe deu pra trás
Sujando brabo pra... Doméstica!

No presídio, aprendeu com as “cumpanhera”
A se dar bem, a descolar como ninguém
Ficou famosa no ambiente carcerário
Como a mulata que nasceu pra ser alguém
Pois não é que a... Doméstica!
Conseguiu uma prisão... Doméstica!
Saiu por bom comportamento
Mas jurou nesse momento
Vingar a raça das...Domésticas!

Então alguém lhe aconselhou logo de cara
Dá um passeio e vê se arranja algum barão
Porque melhor que interior ou que uma cela

É ter turista e faturar no calçadão
Até que um dia um Mercedinho prateado buzinou
Era um loiro alemão
Que lhe abriu a porta do carro
E lhe tacou um bofetão
Doméstica!
Virou uma baronesa... Doméstica!
Mesmo com as taras do barão
Segurou a situação
Levando uma vida... Doméstica!


Realizada em sua mansão em Stuttgart
Ouvindo Mozart e Beethoven de montão
Com um pivete mulatinho pela casa
Que era herdeiro e de olho azul como o barão
Precisou de uma babá
Botou um anúncio bilíngüe no jornal
Seu mordomo abriu a porta
Pruma loira meio brega
Uma yankee de quintal

Doméstica!
Era a americana de... Doméstica!
A nega deu uma gargalhada
Disse agora to vingada
Tu vai ser minha... Doméstica!

Doméstica!
Era a americana de... Doméstica!
A nega deu uma gargalhada
Disse agora to vingada
Tu vai ser minha... Domésticaaaaaaa!



Fábio, Eu, Luis Fernando e Marcelino, no Bar Brahma.

(Ai! Felicidade, tenha pena, que não agüento.)

13/07/2008

ENGOLINDO SAPOS, DIGERINDO RÃS





Existe a serpente que passa diante de mim. E existe a serpente que se contorce em meu ser. Mas a serpente que passa perante meus olhos existe. Existe a serpente que passa diante de mim. E por mais que eu me cure, por mais que descanse, por mais que eu respire e repense – que eu afogue em sonhos minha própria serpente - existirá a serpente que circula diante de mim. Existirá o sapo que está ao meu lado. Existirão as formigas que circulam em meus dedos, em meus olhos. Ainda que fechados, existirão os vermes que se alimentarão de mim.

Ah... Como eu me contorço e me repito... Passei mais um final de semana pisando nos mesmos rastros. Depois de ir ao instituto Butantan, fiz um belo jantar de carne de rã com banana e purê de abóbora, assistimos “Alligator” e ouvimos o (novo) cd de Brett Anderson...


Fraco.

Eu não digo que me decepciono porque não espero mais nada dele. E não espero mais nada de Brett Anderson porque acho que ele já me deu o suficiente. Mas não custa sonhar... (E por mais que eu afogue em sonhos minha própria serpente...).



“Wilderness” é um projeto despretensioso, que Mr. Anderson está lançando via Internet, em arquivo digital, e em seguida sairá em cd físico. A mim me parece um cd demo. Só voz, piano, cello. Segue um pouco a linha desses novos cantores – como Rufus, Anthony, Chris Garneau – que se apóiam apenas na melodia, na voz e no piano. Só que Brett Anderson não tem mais tanta voz, nem é tão instrumentista e nem segura mais tão bem as melodias. O resultado é um cd flat.

Mas eu não o culpo nem me decepciono. Já é lucro poder ter qualquer coisa nova dele na minha casa, quando todos meus grandes heróis já deveriam estar mortos.




Falando em heróis bem vivos, ouvi também o novo cd do CSS. Beleza, beeeeeem divertido. Faixas como a de abertura, “Jager Yoga” e principalmente a chiclete “Move” mantém o espírito festivo do grupo e são altamente discotecáveis. Eles viraram profissionais. E talvez o que mais faça falta é o lado tosco de antigamente. Lembro que quando eles lançaram o primeiro álbum alguns fãs reclamaram disso, de estar tudo muito arrumadinho, sem o tom espontâneo e bagunçado das apresentações ao vivo. Bem, agora parece que esse clima ficou ainda mais para trás. O álbum é um álbum pop muito bem acabado e encaixado na onda New Rave mais do que qualquer parentesco elektro ou elektro-funk que possam ter tido no passado. Isso não é ruim. Eles ainda soam como Cansei de Ser Sexy. “Move”, por exemplo, soa bastante como “Lets Make Love and Listen Death From Above”, “Jager” soa como “CSS Sucks”, “Left Behind” lembra “Off the Hook” e por aí vai. Não é tão inventivo (nem tão novidade), mas é divertido. E continua quilômetros melhor do que qualquer banda pop nacional... (Ah, sim, eles ainda são nacionais, não? O produtor é o próprio Adriano, e você até consegue ouvir referências como “Claudia Ohana” escapando das letras em inglês. O que quer mais? Deuses do Candomblé? Eles são filhos da Augusta, você sabe... Acho que esse é o segredo da diferença.)


O segredo da diferença.

Voltando ao mundo mágico da herpetologia (e falando do segredo da diferença), foi engraçado rever esta semana um clássico trash da minha infância - Alligator - e também o King Kong de Peter Jackson. Apesar da diferença de verbas e de época de produção, o jacaré tosco do SBT ainda é mais convicente do que o macaco do Oscar. Por quê? CGC. Hollywood hoje está tão obcecada com a computação gráfica que não consegue enxergar o óbvio. O Kong recente tem expressões incríveis, movimentação convicente, só não convence quando tem de interagir com outros seres humanos. Qualquer figura computadorizada em interação com atores ainda parece simplesmente uma animação. Já o Alligator dos anos 80 foi feito ora por animatronic (ou seja, um boneco eletrônico) e ora por um jacaré de verdade. Melhor impossível. Na verdade, melhor até do que "Pânico do Lago" (que é bem bacana também).



Este...

Versus este (sim, é este o jacaré que aparece de fato no filme, interage com atores, etc. Bem feitinho, fala?)


Eu tinha tanto mais a dizer... Ah... Tanto mais a dizer... Tenho um quadro de recados aqui na minha sala que eu uso para anotar lembretes para mim mesmo, e cada vez se torna mais enigmático. Fora os recados afetivos do Fábio, aparecem de vez em quando, com minha própria letra, mensagens como "Cachorro Morto", "Simão", "Mariana Weickert", "Artista com consciência sobre sua impotência". De tudo isso acho que só consigo me lembrar que percebi (só agora) que o (José) Simão tem meia dúzia de frases prontas e as repete sempre em suas crônicas na Folha. São bordões ou um truque para preencher sem esforço a quantidade mínima de caracteres que lhe é exigida? E o que eu tenho com isso? E como encaixar isso na quantidade mínima de caracteres que me é exigida?

(Caipirinha de frutas vermelhas, arroz, purê de abóbora e carne de rã com banana.)
Melhor eu ir, porque ainda existem formigas que circulam em meus dedos e felinos que se alimentam dos meus sonhos.
Fim por ora.

08/07/2008

A VIDA LOUCA DE MICHAEL LOVE

Michael (ao centro) e sua patota.


Michael Love sobre a visita da Marta Suplicy à Loca, em 2000: Eu tava querendo que ela fosse embora pra eu poder me colocar, pra eu poder ficar animada. Eu tava careta, bem fofa, não tinha tomado nada, e eu queria encher a cara e ficar bem bêbada. Eu achei ela muito fria, muito uó, mas educada, linda, poderosa, achei ela ótima, votei nela e é isso.

Haha. Trechinho do livro “Tragam os Cavalos Dançantes”, escrito pelo jornalista Lufe Steffen, contando a história do Grind, as noites de domingo da Loca.

(Para quem não conhece, o Grind é uma festa que foi criada há dez anos, na boate paulistana A Loca, pelo DJ André Pomba. A proposta da festa era tocar sons alternativos - principalmente rock, gótico, pop inglês – para o público GLS. Hoje em dia parece bem normal, mas na época não existia nada assim por aqui – havia as casas de rock alternativo com “tendências”, como o Madame Satã, Retrô, Torre do Dr. Zero, mas não eram abertamente gays, nem seu público podia se assumir.)
Bruno, Marcela e eu.

Meio estranho, hein? Um livro pra contar a história de uma festa semanal que ainda existe, numa boate que ainda não fechou? Exatamente. E faz sentido, para quem sabe a quantidade de histórias que já rolaram por lá (e, diga-se de passagem, pelo projeto hoje estar tão distante da proposta inicial). Aliás, apesar do Grind ainda existir, o livro trata da noite sempre no passado, com um tom saudosista, como se os primórdios do Grind (há apenas dez anos) já permitissem um distanciamento histórico. Isso é bem sintomático dos tempos nostálgicos e reciclantes que vivemos atualmente, onde se resgata o passado recente com uma estranha arqueologia pop.

Rody, Fábia e Theo.

Mas enfim, não sejamos tão rigorosos assim, o livro é bem divertido. Formado exclusivamente de depoimentos de seus freqüentadores (eu, inclusive) e funcionários, traz algumas boas histórias. Aliás, as histórias pontuais são o mais interessante do livro (mais interessantes do que a história da noite em si). Por ser uma biografia “oficial”, omite muita das coisas mais pesadas que rolaram (e rolam) por lá, mas ainda assim tem cenas bizarríssimas, como sobre as performances que aconteciam no palco:

Pomba: Decidiram proibir as performances. Tava realmente uma coisa radical, o Christian F., por exemplo, falando que ia se matar no palco....Tinha outro performer que queria matar um gato no palco, era o Dalton, que fazia um personagem chamado Isabella. Queria matar o gato e fazer uma possessão Quer dizer, tava ficando um negócio...

Aníbal (diretor da Loca): As performances deram muito trabalho, tive alguns problemas com os performáticos. Porque eram meio exagerados. Tinha um que queria matar um gato, matar um gato no palco. A gente falou: “não, de jeito nenhum.” Ele falou: “Não tem problema, o gato é meu!”

(Numa dessas performances teve um rapaz que acabou incendiado, cheio de queimaduras. Minha própria irmã fez uma performance lá uma vez, cuspindo fogo, mas ela é profissional...)
Marcela, Ambooleg e Leandro (do Multiplex).

Esses são os melhores momentos do livro, quando várias pessoas contam uma mesma história. Lufe articula muito bem os diálogos entre os depoimentos. Talvez por sua experiência como cineasta, ele consegue materializar bem os discursos e tornar vivas as experiências relatadas. Dá quase a impressão de ser um bom roteiro de documentário.

Pomba, tirando uma casquinha minha.

Mas no final, o livro me deixou com a impressão de que poderia ter ido além. Talvez ter contado a história da Loca como um todo (não só do Grind), ter esperado o fim da boate, para revelar maiores podres,. ou até mesmo se concentrar mais na biografia de alguns de seus personagens ilustres. A hostess Michael Love, por exemplo, eu acho que daria uma bela biografia. E seria muito interessante saber como é a vida dela e de algumas figurinhas carimbadas de lá FORA do circuito.

Alisson Gothz


Também poderia ser mais ilustrado, ter mais fotos. Tudo bem que isso encarece bem o produto, mas se poderia pensar numa edição totalmente ilustrada - incluir flyers, fotos de todos os personagens - ainda que em PB, principalmente pelas “figuras” que passaram por lá.

Eu e Alessandra.


E preciso dizer que os meus depoimentos são das coisas mais sem graça do livro – hahaha. Aliás, o livro às vezes toma um tom de coluna social bizarra que não deve ter a menor graça para quem não freqüentou o lugar.

Ambooleg, no banheiro (Polaróide PB)


Eu, é claro, estive desde o comecinho. Foi um lugar importante pra mim. Era realmente uma noite que eu freqüentava praticamente todo domingo, onde encontrava sempre as mesmas pessoas, formava amizades. Podia ir sozinho, porque sabia que sempre ia encontrar amigos. E o som era ótimo. Lá por 98, 99, era dos poucos lugares onde se podia ouvir David Bowie, Suede, Placebo...

Erika, Marcelo, Fábia, Pri e Nina (minha irmã).

Também era um lugar democrático, misturado. Voltado para os gays com bom gosto musical, e onde o estudante da FAAP ficava amigo (ou mais) da traveca da Zona Leste.

Cid, fulana, Marcelo Garcia, Thalia, Ambooleg, Adriano Cintra (CSS) e eu.


Hoje em dia, não sei. Me parece uma noite mais convencional. Também a novidade passou, surgiram várias outras casas iguais, uma multidão de mauricinhos invadiu o lugar depois que ficou hype... Talvez eu já tenha ido demais e não agüente mais ouvir “Groove is in the Heart”. Eu também deixei de ser tão baladeiro. Meu fígado não agüenta tanta bebida, tantas drogas... Faz uns bons meses que não apareço por lá, mas qualquer hora eu experimento, até porque moro do lado.

André e Marcelo SM


Então vão aí minhas melhores lembranças pessoais do Grind:

- Quando acabava cedo, tipo meia noite, acendiam as luzes, mas ninguém ia embora. Daí o Pomba tocava Ricky Martin, Trem da Alegria e todo tipo de tosquice... e o povo adorava (o que, basicamente, gerou a Trash 80’s).
- Quando minha irmã fez performance cuspindo fogo.
- As vezes que eu discotequei chapaaaaaado e errei tooooooodas as viraaaaadas.
- Quando a Tônia Carrero apareceu lá de pára-quedas e todo mundo achou que era uma drag.
- Quando a Gretchen fez show grávida de oito meses.
- A noite em que levei o DJ Tommy Turntables, meu chefe em Londres, e DJ do Popstarz, para tocar.
- Uma vez que encontrei uma jovem escritora e apresentadora brasileira... Ela olhou pra mim e disse em sua plena cariocagem: “Drogaxxxx, você tem drogaxxxx?”

Paula Rita (a "Apresentadora de Maiô") e uma outra que não sei o nome...

E este post hoje não é por acaso. Além do lançamento do livro do Lufe, A Loca está fazendo 13 anos. Estamos na véspera de um feriado aqui em SP, então de repente você se anima pra ir.

Mas não me chame.


Obs – Para quem quer comprar o livro, é uma edição independente, não se encontra nas livrarias e parece que só vende por email: tragamolivro@yahoo.com.br - Pois é, parece que ainda NÃO vende na própria Loca. Faz sentido?

Obs 2 – As fotos deste post não estão no livro, são do meu acervo pessoal.

04/07/2008

TRAIÇÃO!!!



“Jardim Bizarro”, o drinque (não vou dar a receita por questões de patente).

Depois que fiz um drinque, um romance e um filme pornô baseado na história da casa que jorrava sangue, no Jardim Bizarro (Jundiaí), descubro uma notinha dizendo que tudo não passou de sangue das... VARIZES de uma aposentada!!! Sacanagem!!! Como vou beber meu drinque agora? Quem vai se excitar por um pornô com esse tema? Acho que só o romance sobrevive, bizarrice por bizarrice...



O brinde (eu, Guima e Fábio)

A notícia:

O titular do 6º Distrito Policial, Marco Antonio Ferreira Lopes, afirmou que o sangue encontrado no chão de uma casa em Jundiaí era uma hemorragia proveniente das varizes da moradora. Ela e o marido de 71 anos, também aposentado, perceberam o "fenômeno" no fim da tarde dos dias 15 e 16 de junho.O resultado dos exames de tipagem e DNA comprova que o sangue era da aposentada. O Instituto de Criminalística se baseou nas amostras colhidas no chão da casa e as retiradas dos moradores."Ela não sentia dor e não percebeu que perdeu uma certa quantidade de sangue", disse Lopes, acrescentando que a senhora tem diabetes, o que contribuiu para a perda excessiva de sangue. A hemorragia aconteceu em duas ocasiões, após o banho. "Ela já começou um tratamento médico", comentou o delegado. O delegado havia arquivado o caso por concluir, a princípio que se tratava de tinta vermelha. Porém, um inquérito foi aberto na manhã seguinte, após um teste preliminar realizado pelo IC de Jundiaí comprovar que o líquido era sangue humano.Lopes disse que o caso foi encerrado. "Não houve dolo e nem ganho de vantagens das partes", concluiu. - Redação Terra

Devo dizer que foi muito mais difícil achar essa conclusão do que as matérias sensacionalistas que anunciaram o caso. Depois que atiçaram nossa (minha) curiosidade mórbida contando da casa que jorrava sangue, os jornalistas ficaram bem quietinhos e quase nenhum lugar deu o desfecho.

A matéria mais bizarra sobre o caso eu vi na Folha Online – haha – olha só:


Fenômeno pode explicar sangue em casa de Jundiaí (SP) – Adriana Alves, do Agora.


Ainda sem explicação, o aparecimento de poças de sangue humano no piso de uma casa em Jundiaí (58 km de SP) pode ter sido provocado, inconscientemente, pelos próprios moradores. É o que afirma Fátima Regina Machado, professora da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e especialista nos chamados fenômenos Poltergeist (episódios falsamente sobrenaturais).



Supostamente vertidas do solo, as poças apareceram na rua Antonio Bizarro, no bairro Jardim Bizarro, no início da semana passada.



De acordo com a professora Fátima, é provável que o sangue seja uma espécie de expressão inconsciente de problemas emocionais vividos pela família. "É o que chamamos de psicocinesia recorrente espontânea, popularmente conhecida como fenômenos Poltergeist." Em alemão, diz a especialista, a expressão significa "espírito brincalhão".



"As pessoas tendem a encarar esses fatos como sobrenaturais, mas na verdade é uma espécie de válvula de escape do próprio inconsciente humano", afirma a especialista.



O parapsicólogo Oscar Gonzalez Quevedo, o padre Quevedo, também acredita que o fenômeno tenha sido provocado pelos moradores ou por alguém próximo a eles. "Nada mais é do que uma descarga emocional, um ato movido pelo inconsciente. Não há nada de paranormal ou sobrenatural nisso."



Essa última frase é a melhor. Tudo explicado!


E o romance:


Minhas cicatrizes contam uma história, mais bonita quando a luz está apagada. Acendo o cigarro para conter o choro. Não quero que Miguel me veja desabar assim. Depois do sexo eu lamento. Depois do sexo eu me arrependo. Depois do sexo eu penso.

Nem duvidaria que estava em meu quarto. Mas o ar rarefeito me fazia sentir diferente. E o calor ao meu lado me fazia querer chorar, Miguel. Mais uma vez.

Seu sexo é áspero e afiado. O meu é liso e macio. Rasgamos lençóis, abrimos fendas, derramamos sangue. E suor. E esperma. E lágrimas. Eu engulo. O choro derrama. A noite escorre. Miguel pega um pano para enxugar.

Quando éramos mais algodão e poliéster, quando éramos mais nylon e lycra, quando éramos pele à procura de pele, uma mão baixava o zíper, a outra pedia permissão. Uma boca continha os dentes, a outra um suspiro. Uma perna enrolava-se em outra, e outras se afastavam. Eu era o sorriso de quem não pode chorar. Ele era o beijo para quem não pode sorrir. Nós éramos todas as emoções derramadas numa cama. Com a segurança de uma boa lavanderia.

Mas era tudo mentira. Saindo da cabeça dele e entrando na minha. Saindo da minha e escorrendo pelos olhos. Escorrendo pela cama a ponto de não podermos mais esconder a verdade, nem apagando a luz, nem cobrindo com os lençóis.

As manchas contavam a verdadeira história, mais bonita em papel do que em lençol. E as cicatrizes não diziam nada, acendendo as luzes, terminando os parágrafos. O que será de mim longe de você? O que será de você sem mim? Miguel fechava os olhos e caía no sono. Ou eu fechava a boca ou caía no choro.

Não era hora de cair. Nem da janela, eu podia ver. Hora de contar histórias, com as sombras na parede, o ventilador no teto, um amor intenso totalmente derramado. Depois, o que sobra? Água, minerais e suco de laranja para repor. Trinta minutos de descanso e me amará novamente. O coração bombeará seu sangue para baixo, de mim, e virá para cima, em você. E erguerá seu corpo, sobre o meu. E entrará em você, para sair em mim. Seremos eu e você contra o mundo, um milhão, de hormônios, e leucócitos e hemácias e espermatozóides.

Dormindo, Miguel me fez levantar. Para o banheiro de um solteiro, até que estava arrumado. Sem vermes no ralo, sem sangue no piso, sem catarro no espelho, mas, oh!, fungos entre os azulejos. E pelos no chuveiro. Eu abria a torneira e escorria as lágrimas. O amor é sempre líquido, mesmo quando sólido. Fumaça em meu pulmão, suspiro no dele.

No espelho, uma tristeza e um desafio. Atrás, uma lâmina afiada. Muito previsível, senhor Miguel. Giletes atrás do espelho, cortes abaixo do pulso. No rosto, por engano, quando faz a barba. O que será de mim se não me enganar assim? Se você que faz todos os dias, ainda consegue se cortar, pobre mulher que sou, não tenho como escapar. A linha pontilhada é transversal. Prata sobre roxo, cinza sobre azul, tom sobre tom, vermelho sob a pele, vermelho sobre o branco, fungos entre os azulejos. Deixo a torneira aberta nem sei por que. Para escorrer toda a água quando estiver morta. E acabar com todo o amor, líqüido, quando eu não estiver mais aqui. Quando secar o meu sangue, e o meu suor, e os meus hormônios, você não mais me amará.

E só com o sangue derramado perceberá os fungos entre os azulejos. Sim, faço um favor a você. Escrevo no espelho, tá bom? “Favor olhar entre os azulejos.” Você é um homem solteiro, tem coisas que só a perícia dá jeito. A perícia de uma mulher. A perícia de uma mulher morta. Então chame a perícia, chame os peritos. A polícia que faz perguntas e esfrega o chão à minha procura.

Já terei escorrido pelas frestas, como os insetos, e como seus pelos, no box do chuveiro. Já terá secado meu amor, apenas uma dor-de-cabeça. Mas quando todos foram embora, tudo terá passado. E terá um banheiro limpo, desinfetado, livre de vermes, fungos e amores. E ainda será solteiro.

Minhas cicatrizes contarão uma história, mais bonita quando estiver seca. Colherão suspiros na minha boca aberta. Fecharão meus olhos para dormir em paz. Tomarão meu pulso para sentir seus corações, bombeando sangue, para fora de mim.

Um capítulo só, e estará livre de mim. Uma boa recordação, quando os fungos crescerem novamente. Entre os azulejos, atrás do espelho, dentro do ralo. Você terá mais história para contar. Por aqui passou um amor, e não deixou vestígios.

Quem dera todo o amor terminasse assim. Mas os homens insistem em dormir e as mulheres a concordar. E acordar no dia seguinte. As crianças insistem em nascer e as lavanderias a esfregar. Então chamem os peritos!




Sem outra alternativa, tivemos de renomear o pornô...




"Bala Perdida", de Cláudia "Clawdia" Crab.

01/07/2008

SCI-FI SP


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(Giz de cera sobre São Paulo)


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