29/07/2008

LÍQUIDO QUENTE QUE (ME) ESCORRE PELA GARGANTA





Parei de tomar café. Estava amarelando meus dentes. Estava amarelando minhas páginas. Minhas palavras, não-ditas, amarelavam dentro de minha boca, e achei que era questão de cortar a cafeína.

Na verdade, o que amarelava era minha alma...

Passei incólume pelo cigarro, álcool, maconha, cocaína, crack, ecstasy, ácido, anfetaminas, cogumelos e azeitonas.... bem, ao menos não me viciei. Não poderia me deixar dominar por um estimulante tão básico.

O caldo negro que agora escorre de minha boca é petróleo...

Estava amarelando também minhas noites, quando eu via. Já era dia quando o efeito passava, eu ia dormir e depois só queimando minhas pestanas com café fervente é que eu conseguia abrir o olho.

Fora que nunca gostei do gosto. Tomava nescafé mesmo, em pints, apenas pelo efeito que causava. Intercalando com copos de coca light, em certas épocas, até derramando um Red Bull por cima. Pensa que estou brincando? Tenta trabalhar todo dia em casa, manobrar vida de atleta e intelectual num mesmo corpo. Levantar todo dia, sem horário e sem patrão, muitas vezes sem razão, e se forçar para fora da cama, para fora de casa, para a esteira e para a piscina, para os pesos e aparelhos. Só a vaidade e o café faziam isso comigo.

Agora não tenho mais vaidade... Ou ao menos ela não é mais solúvel.


Olhando o umbigo.


Pensei nisso esses dias, revendo o roteiro de "Feriado". Um personagem sozinho, trabalhando em casa, que não tomava café, não usava maconha, não fumava... Não é uma situação real. Todos precisamos de nossos estímulos orais. Mas na época eu não tinha escrito "Mastigando", ainda não vivia tão sozinho, não tinha palavras amarelando em minha boca, que precisavam ser dissolvidas. Acho que por isso tantos escritores são alcóolatas. Talvez por isso que tantos escritores fumem. Talvez por isso engulam tantos sapos e não reconheçam que todos os prazeres são orais. É sempre preciso um substituto para umidecer os dias...


Por enquanto, vou ficar sem nada.



Perdidos na selva.



E pensei nisso esses dias, na casa de mamãe, no meio do mato. Meu marido precisou de cigarros, e fiquei com medo dele nunca mais voltar. Tivemos de andar oito quilômetros pela estrada, no sol, até chegar num posto e ele poder fumar...

Foi tudo pelos ares.

Quando chegamos ao posto, pensei se, na verdade, eu não tinha ido atrás de coca-cola, se eu não tinha ido atrás de cafeína. Voltamos pela estrada com as mãos sujas de graxa, de petróleo, mas com coca light e cigarros na sacola.

Não tomo mais coca-cola.


Acho que a inspiração foi Adriana Calcanhotto também ter largado o café. Acho Adriana Calcanhotto uma boa inspiração. Será que vou ficar que nem ela? No último show ela nem levantava do banquinho...

Tenho me sentido bem. Tenho me sentido um zumbi. Tenho me sentido bem, meio onírico, meio aéreo, é bom para recuperar um pouco da minha introspecção criativa. E quem sabe Jesus não se lembra de mim? Quem sabe ele não repara que não estou pecando, não estou traindo, que amo os animais e não estou manchando minha alma com cafeína, assim me salva do sono, do desânimo, de ter de levantar sem sentido todas essas manhãs.

Dizem que Jesus faz milagres.

Ou que Deus me dê uma medalha.


Mantendo-me puro o suficiente – acredito- serei capaz até de escapar de balas perdidas. Pagarei minhas contas em dia. Terei novos motivos para sorrir, em dentes brancos em novas gengivas. Sendo puro o suficiente, poderei até te beijar com novo vigor – Oh! – e poderei, quem sabe, um dia, pensar no chá da academia.

Não tomo mais café.

QUANTO GANHA UM ESCRITOR

Com Paulo Scott na Garopa Literária Aqui em Maresias. Na casa que Murilo alugou. Cheguei nesta noite fria de sábado e fui fazer um ch...