24/11/2008

CINEMA FANTASMA




Neste final de semana assisti a mais um filme de zumbi (este, nada pornô e muito menos gay): [Rec]. Vai naquela onda atual de “mockumentary”, ficção filmada como se fosse um pretenso documentário (câmera na mão, tremendo, fora de foco, etc), no estilo “Bruxa de Blair”, “Cloverfield”, “Canibal Holocaust” e por aí vai.

[Rec], um filme espanhol, é bacana, tenso, com um final ótimo (e pesado). Não me impressionou tanto quanto “Cloverfield”, talvez por já ser uma fórmula um pouco batida e talvez por não ser tão “fantástico” (ou grandioso). “Cloverfield” usava um enfoque realista para contar uma história totalmente surreal: um monstro gigante destruindo Nova York. Já [Rec] usa o mesmo recurso num enfoque mais micro, um prédio isolado, proliferando-se com zumbis. Causa certa claustrofobia, dá uns bons sustos, mas não parece nada novidade.

De qualquer forma, o mais gostoso foi assistir ao filme num legítimo “cinema fantasma”, o Gemini. Não é exatamente um cinema de bairro, fica dentro de uma galeria, no meio da Avenida Paulista, mas está bem abandonado, vazio, e eles estão tentando fazer de tudo para atrair público(a meia entrada num domingo custa 7 reais, dá direito a um doce na bomboniere e ainda o segundo ingresso – mesmo que inteiro- sai por R$4.) O cinema é bem grande, tem um visual antigo (mas não detonado) e toca coisas como Richard Clayderman na sala (ahaha), antes da sessão começar. Tem duas salas, e geralmente passa filmes que acabaram de sair de cartaz em cinemas maiores. Então vale como uma “última chance”. Neste domingo, tinha eu e mais uns 4 vendo [Rec].

Tenho tanta pena desses cinemas que fecham. Hoje em dia só sobrevivem as grandes redes. Eu até gosto das grandes redes – o tamanho da poltrona, a distância e a altura entre elas – mas geralmente elas só passam filmões, estão sempre lotadas e são caras.

Comecei a me lembrar de todos os cinemas de bairro em que já fui, os que permanecem, os que fecharam. Poucos continuam com esse ar nostálgico – como o Gemini.

Um clássico da minha infância é o Lumiere, no Itaim. Ele chegou a pegar fogo, foi reformado e acho que ainda existe – mas hoje tem nome de algum provedor, Uol, Ig, algo assim... Nunca mais fui.

Na Faria Lima, dentro de uma galeria, tinha o Cal Center, que sempre passava uns filmes tosqueiras de terror. Parece que virou Igreja Evangélica. Tenho medo.

Lá na Santo Amaro tinha o Chaplin, onde fui barrado ao tentar ver “Ghost Busters” – eu ainda não tinha idade. Muito tempo depois - e ainda assim, há muito tempo atrás – foi fechado. Acho que não tem nem mais sombra.

Há pouco tempo fechou na Paulista, dentro de outra galeria, o Top Center, que passava filmes bem bacanas, cult, muitos fora de circuito. Não resistiu.

Na Paulista também tinha o Astor (era Astor?) no Conjunto Nacional. Tudo bem que não passava nada que prestava, mas a idéia da Livraria Cultura de abrir uma loja lá foi das mais infelizes. Como o prédio é tombado, eles não puderam reformar decentemente e fizeram uma LIVRARIA INCLINADA, como um cinema. Eu não consigo pensar em lugar mais desconfortável para se folhear livros.


Devo dizer que deteeeeeeeeeeesto o Espaço Unibanco da Augusta, é cheio, povinho cabeçudo (em todos os sentidos), as salas são apertadas e tem uma disposição péeeeeessima de assentos. Não vou; mas do Unibanco Arteplex eu gosto (ainda mais porque é literalmente do lado da minha casa, sério, dá pra ver a escada rolante dele aqui do meu apartamento, olha só):


É perto.


De qualquer forma, ninguém pode reclamar da quantidade (e da programação) dos cinemas de São Paulo. Nas cidades do interior, é bem mais difícil. Raríssimas são as que têm cinema – mais raro ainda as que têm cinema fora de shopping. A programação dos cinemas que restaram... eu nem comento.

Fui num bem bacaninha (embora tumultuado) em Capivari (interior de SP) quando fiz a “rota do chupacabra”, em 2006 (e espero que o cinema ainda exista). Assisti “As Torres Gêmeas”, com o Nicolas Cage, só mesmo para ter a sensação de ir num cinema do interior.

Na cidade vizinha, Rafard, há um cinema abandonado desde os anos 70 – e eu ainda acho melhor que permaneça abandonado, em ruínas, com cara de cinema do que se torne igreja evangélica (como a maioria). Rafard como um todo tem cara de cidade fantasma (no bom sentido, sério, no bom sentido) é uma delícia, meio vazia, meio melancólica, bem bonita.

Lembro também de um cinema abandonado em Lorena (290km de SP), na praça principal. Lá pelo final dos anos 90, estava abandonado há uns 10 anos, e ainda tinha uma carta de despedida (e agradecimento) dos proprietários, fixada na porta, lamentando-se por não conseguirem manter o cinema aberto. (Pesquisando agora, rapidamente, encontrei programação desse cinema entre 2002 e 2005, então talvez tenha reaberto, e talvez já tenha fechado).

Porto Alegre, no começo dos anos 2000 (quando eu morava lá), estava numa pobreza brava de cinema. Os de bairro já haviam fechado (havia vários “cinemas-fantasma” perto da minha casa, na 24 de Outubro, na Benjamin Constant e na Cristóvão Colombo) e ainda não tinha aberto a quantidade de shoppings que tem hoje. Os cinemas com programação mais “esperta” ficavam apenas na Casa de Cultura Mário Quintana e no Olaria. Hoje tem Unibanco, Santander e várias mostras acontecendo, com filmes raros pelos shoppings. Já fui várias vezes para fazer tradução/legendas, inclusive em cidades do interior.

Aliás, o interior do Rio Grande do Sul em geral tem uma boa cobertura de cinemas. Não é ótima, claro, mas talvez ainda seja melhor do que a do interior de SP. Santa Maria, Passo Fundo, São Leopoldo e Novo Hamburgo, por exemplo, tem boas salas de cinema, cobertas pelas mostras mais espertas.

Paraná tem salas bem espertas (em Curitiba), mas não tantas. E Santa Catarina é bem devagar (mesmo - ou principalmente - em Florianópolis). Os cinemas do sul do Brasil nem são tão fantasmas, porque nunca estiveram vivos.


Do resto do país, eu não sei, porque isso aqui não é fruto de uma pesquisa consciente. É apenas uma maneira de eu próprio me lembrar e manter vivo os cinemas pelos quais passei... e que passaram.

QUANTO GANHA UM ESCRITOR

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