09/01/2009

DRACULA MEETS DOGVILLE


Passei anos e anos sufocando meu lado geek com vodca, pílulas, anfetamina, heroína... (não, heroína não, era só pra shock value e ritmo poético) então ano passado chega um rapazinho aqui em casa com cartuchos de Super Nes, Playstation e culmina me dando um Nintendo DS de presente de Natal...

Devo dizer que meu lado geek aflorou mais do que nunca.

Meio vergonha de admitir, mas acho que o prazer de jogar videogame é tipicamente masculino, e um prazer bem peculiar. Engraçado revivenciar isso agora, depois de passar por outros vícios, outros prazeres: sexo, literatura, conquistas profissionais e financeiras. O videogame aperta botões específicos do cérebro, e eu nem lembrava que os botões ainda estavam lá. Tem a questão do reflexo, da imersão numa realidade alternativa. Aliás, o videogame é um ótimo demonstrativo de como ainda é possível fisgar comprometimento do público hoje em dia. Digo, questiona-se que a literatura atualmente não tem espaço por conta da pressa da população, da hiperatividade, com jovens vendo TV, teclando na net e ouvindo música, tudo ao mesmo tempo. O videogame suga esse público de maneira integral, por horas e horas a fio, e eles estão fazendo apenas isso. Por que consegue absorver de uma forma que um livro não consegue?

Ok, além de autor sou um ser humano, e sei que a resposta óbvia é que um videogame provavelmente é bem mais divertido do que um livro. Ao menos, no que o povo entende como diversão. Talvez o que o povo entenda como diversão seja algo mais interativo, menos passivo – até hoje lembro dos livros que surgiram na minha infância, que prometiam interação, com você escolhendo o caminho a seguir e pulando direto para as páginas que davam o resultado; lembram disso? Pois bem, acho que o videogame atua com mais força do que a literatura por causa disso, por ser interativo, extremamente interativo. Vejo até que o mesmo jovenzinho que trouxe todos esses jogos para minha casa, e que joga comigo, aperta o START e salta para frente toda vez que entra na parte narrativa de um jogo.

(Isso me lembra de quando eu via filmes de caratê com meu primo. Ele avançava o vídeo para ver só as cenas de luta. Mas eu sempre ficava aborrecido por querer saber a história.)

(Com filmes pornôs eu nunca passei por isso....)

Enfim, na verdade isso é tudo uma forma de justificar que eu sou um geek da porra e troquei minhas noites de farra, minhas baladas e parte das minhas férias pelo videogame. E na verdade ao dizer “videogame” estou sendo genérico, porque há meses, meses, meses que só jogo CASTLEVANIA.


Die monster! You don't belong in this world!


Agora chegamos ao tema do post.

Castlevania é uma série de jogos que começou em meados dos anos oitenta, para o nintendinho, e segue até hoje. A premissa é sempre a mesma: matar o Conde Drácula. Mas ao longos das dezenas de jogos que a série já tem, todas as formas já foram testadas. E para um geek com raízes góticas, como eu, continua sendo divertido.

Cenário da minha infância.

No primeiro Castlevania, você era uma espécie de bárbaro que entrava num castelo assombrado, combatia monstros clássicos (Frankenstein, Medusa, múmias, a própria morte) e terminava matando o Drácula. Seguiram-se seqüências e mais seqüências até hoje. A fórmula continua a mesma, mas foram acrescentando mais detalhes à história, mais história, mais armas, mais inimigos, um castelo maior, aliados para o protagonista... e o escambau.



Um dos epítomes (oh!) da série é “Castlevania: Symphony of the Night”, lançando em 1997 pra Playstation, até hoje considerado o melhor da série. Nele você joga como o filho do Drácula, também um vampiro, e tem de vasculhar o castelo e achar armas para matar o próprio pai. Como você joga como um vampiro, pode se transformar em morcego, em neblina, em lobo (que o Fábio diz que é “se transformar em burro”, porque realmente parece um burrico) e todas essas delícias. E como os jogos são feitos pelos japas, você pode imaginar que todos os personagens masculinos são meio mocinhas, andróginos, dândis e afetados, coisa que a mim apetece. A série também é conhecida pela trilha sonora excelente. Tem um misto de barroco e gótico, com batidas eletrônicas que só os japas sabem fazer – no virtuosismo ninguém ganha.



Joguei HORRORES de Symphony of the Night ano passado. E segui em frente com a série. Além dos primeiros, para NES e SNES, joguei os de Gameboy Advance, e agora para o Nintendo DS.



O lançamento mais recente é “Castlevania: Order of Ecclesia”. Eu já terminei! Devo admitir que matei o Drácula no dia 2 de janeiro, no Rio, num quarto de hotel, de madrugada.



O novo.


É um dos melhores da série, porque é difícil, enooooooooorme, você joga no papel de uma góticona trevosa e interage com vários outros personagens durante o jogo. Eu até diria que é uma espécie de “Castlevania meets Dogville”. Sério. Porque enquanto você avança no jogo, em direção ao Drácula, vai salvando uma cambada de coió. E esse povo, ao invés de ficar agradecido de ter sido salvo, vai abusando da pitéia com pedidos do tipo: “traz meu gato perdido pra mim?”, “mata uns corvos lá na plantação?”, “tira umas fotos (!) dos monstros pra eu vender pros jornais?” E completando essas sub-missões logicamente você ganha presentinhos e o povo pede mais favores e o jogo não tem fim.



Mas é legal para ver como esses jogos ainda têm humor, ainda têm auto-paródia e podem ter sua inteligência própria. Em sábados que virei madrugada jogando, me senti um pouco culpado. Eu deveria estar lendo. Eu deveria estar bebendo. Eu deveria estar me jogando na noite e em seus prazeres perdidos, ao invés de torrar o cérebro na frente de uma tela... Ou não?
Me fez pensar no que um jogo desses pode trazer de positivo, digo, de raciocínio, reflexo. Será que se eu ainda dirigisse, estaria melhor nas manobras, ou atropelaria cuspidores de fogo no semáforo?




Falando do DS em si, o atual console portátil da Nintendo, é quase perfeito. Minúsculo, do tamanho de uma carteira. Como você joga bem mais próximo da tela, acaba compensando o tamanho mínimo dos gráficos (mas para quem está acostumado a só jogar na TV, dá um estranhamento inicial). Os auto-falantes são péssimos-péssimos, mas a idéia é funcionar como um Ipod, de fone de ouvido, ninguém vai ficar jogando com som aberto enchendo o saco de quem está ao redor (e de fone é estupendo). A bateria recarregável dura pouco, umas 5 horas (e pra quem joga videogame, isso não é nada), mas dá pro gasto.





A função principal do DS (e que dá nome a ele) é a tela dupla. São duas telas, uma delas touch screen. Isso, na verdade, ao meu ver, até agora, me parece apenas uma frescura tecnológica. Não me justifica em nada ser touch screen. Nos 3 Castlevania que existem para DS, por exemplo, a touch screen não serve para nada, nada mesmo, você não toca a tela uma única vez. Eu joguei (e terminei) jogos como Iron Man, onde a touch screen é essencial e continuo achando que daria para adaptar o jogo para uma tela só, a ser operada com botões.

As duas telas existem para mostrar informações diferentes. Uma mostra informações a serem manipuladas ao toque, outra para ser operada com botões (ou como resposta dos toques da tela “touch”). Ganhei o DS a pouco tempo e não sou especialista, mas por enquanto digo que ainda não descobriram a forma ideal de usar o touch screen. Sem dúvida é um novo jeito de jogar – no novo “Ninja Gaiden” por exemplo, você maneja a espada com movimentos na tela – mas parece mais um requinte tecnológico do que uma jogabilidade intuitiva.

(Ah, sim, a touch screen vem com uma canetinha. Como a tela é pequena, e precisa estar limpa, recomenda-se que, ao invés de usar o próprio dedo, use-se a caneta. Até para ter uma precisão mais definida da onde tocar. Ela funciona muito bem, reconhecendo toque, movimento, velocidade e vigor. Mas whatever...)
Meio inútil também é o microfone, mas até que é divertido. Em Ninja Gaiden, por exemplo, encontrei um velhinho dormindo numa ponte e tentei de todos os jeitos acordá-lo, saltando, batendo, jogando fogo nele. Só então me toquei do microfone. E o jeito de acordá-lo era simplesmente gritando.

O DS também têm funções wireless (infelizmente, o que impede de jogar durante o vôo) que eu não usei e não sei muito bem como funciona. Só sei que, como tem microfone, áudio e video, tem um esquema de chat próprio e de jogar em parceria com quem está próximo, que me dá certo medo.

No último vôo que peguei, tinha uma menina com um DS rosa, jogando Super Mario. Eu jogava Iron Man. Juro que fiquei com medo de que o Mario dela entrasse no meu jogo e atacasse meu homi-ti-ferro. Eu ia meter bomba nela.
Mario mesmo eu gostava quando era criança. Hoje acho um pouco chato. Um pouco engraçadinho demais.

Enfim, essa é a atual geração da insanidade. E fico feliz por ainda fazer parte. Mas queria é que os japoneses não seguissem em consoles tão pequenos. E que eu pudesse crescer entre seus dedos...

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Com Paulo Scott na Garopa Literária Aqui em Maresias. Na casa que Murilo alugou. Cheguei nesta noite fria de sábado e fui fazer um ch...