17/02/2009

MATÉRIAS DO MÊS

Pulei de Peter Murphy para... Ivete!

Acabou de sair a nova revista Júnior, onde apresento os perfis de quatro novos escritores gays. Aproveitei para discutir com eles se existe isso de literatura gay, se literatura é literatura e pronto ou o quê. Particularmente, acho bobagem esse medo que os autores têm de rótulos. Seria mais interessante que os próprios autores pensassem numa maneira de simplificar e apresentar o enfoque principal de sua obra. Dizer que "literatura é literatura" não explica nada. Os rótulos são apenas uma maneira de facilitar a identificação.

Eu acho que existe sim literatura gay, embora no Brasil ela seja tímida, exatamente pela falta de um mercado literário forte. Quero dizer, não existem nem leitores suficientes de literatura em geral, então é compreensível que autores não queiram limitar suas obras a um público ainda mais restrito. Mas em países como Estados Unidos, por exemplo, existe um forte mercado (com publicações, premiações e mídia) de literatura voltada especificamente para o público gay.

Enfim... literatura é literatura... hehehe.

Os meninos da matéria deram sua opinião, disseram um pouco a que vieram. Tem coisas bem legais por lá, como por exemplo:

“Para começar, não gosto da palavra gay. Acho sinônimo de retardado, ‘alegre’. Prefiro mesmo a palavra viado" - diz o poeta Hugo Guimarães.

"Se literatura gay precisa tratar obrigatoriamente de sexo entre homens, ela vai ser sempre insuficiente, e eu vou precisar ler outras coisas, porque as pessoas não são só sexo, não são só afetividade. Literatura homoerótica me parece uma literatura que trata, exclusivamente, de sexo e relações afetivas entre pessoas do mesmo sexo. E isso como ser humano completo, é insuficiente, por mais legal que seja" - diz o escritor Gustavo Vinagre.

. Quando tem um casal gay em novela, é totalmente esteriotipado, eles não têm amigos gays, não fazem programas de gays. Isso precisa ser mostrado.” - diz o romancista Kiko Riaze

“Essa discussão já é levada dentro de casa. Na literatura sempre teve, mas agora chega ao grande público, na novela. Tudo bem, não teve o beijo gay ainda, mas já tem o casalzinho. O pessoal percebe que não adianta mais esconder que o tio é viado” - diz o jornalista e escritor Ramon Mello.

E tem bem mais lá. Vale a pena conferir a revista, que ainda tem uns ensaios de moda bem bacanas, matéria com os Satyros, entrevista com Bruce La Bruce e muito chachachá.

Falando em chachachá, também fiz uma crônica para a o ensaio de capa da revista Joyce Pascowitch deste mês. O tema é... IVETE SANGALO, e se você não imagina o que eu poderia escrever sobre ela, dá uma olhada na revista. É, na verdade, um conto de carnaval, inspirado nas letras mais populares dela. Foi divertido de fazer.

Estou me tornando uma espécie de cronista oficial das divas populares dessa revista. Mês passado foi com a Hebe. Aproveito que já passou e coloco na íntegra, aqui:

O SOFÁ FAZ A CASA

“Este sofá pertenceu à Hebe Camargo,” me avisou a vendedora nos fundos da loja de móveis usados.

Não levei muito a serio. Ela já tinha me mostrado um fogão que pertencera à Ofélia, uma bancada do Cid Moreira e a cama da Monique Evans.

“Compramos muita coisa de um cenógrafo aposentado. Os móveis na TV são usados pouco tempo, logo o pessoal muda o cenário e tem de se livrar de peças novinhas. O sofá foi tão pouco usado no programa que nem a Alcione chegou a sentar nele.”

A mim, o móvel parecia bem surrado. Mas era grande, dava pra deitar tranqüilamente na frente da TV. E estava em conta. Naquele meu estágio de endividamento – e com casamento marcado – precisava encontrar maneiras baratas de mobiliar a casa.

“Que sofá mais encardido!” disse minha noiva ao ver o troço na sala.

“É peça histórica. Pertenceu à Hebe.”

“Hebe Camargo?” perguntou ela, como se houvesse outra. Depois se sentou no sofá, testando as molas. “É grande... dá pra deitar na frente da TV...” constatou.

O sofá foi aceito. E poucas semanas depois estávamos casados, instalados, com a casa mobiliada. (Cheguei até a comprar uns banquinhos do Programa Raul Gil.) Minha esposa não ficou inteiramente satisfeita em ter móveis de segunda mão, nenhuma mulher ficaria, mas ainda assim, aproveitava o folclore, e convidava as amigas para tomar café no sofá da Hebe.

“Parece que foi nesse sofá que o Chico Xavier previu a queda das Torres Gêmeas,” disse uma amiga espírita.

“Neste sofá é que Leandro e Leonardo cantou ‘Entre Tapas e Beijos’ pela primeira vez,”, colocava outra.

Todas tinham uma lembrança mais estapafúrdia sobre nosso humilde sofá, mas isso não era problema, o problema era SEMPRE ter convidados em casa. Eu chegava do trabalho, havia meia dúzia de comadres fuxicando. Minhas noras e sogra passavam todos finais de semana literalmente tricotando no sofá. Não havia nem espaço para mim. Eu me esforçava para não reclamar; até porque, minha sogra se tornara estranhamente simpática comigo. “Filha, seu marido é mesmo uma gracinha,” dizia ela entre os dentes travados. Mas quando um dia ela tentou se despedir com um selinho, comecei a achar que havia algo de muito errado naquela casa.

“Querida, precisamos conversar. Essa história de sofá da Hebe está indo longe demais...”

“Mas você sempre gostou do sofá. Dizia que é grande, dá pra deitar...”

“Exatamente, e nem tem mais espaço pra mim!”

Minha mulher me interrompeu. “Conversamos sobre isso daqui a pouquinho, porque agora tenho um recadinho pra dar. Você sabia que a água da torneira contém centenas de bactérias, ferrugem, e outros resíduos que saem dos canos?”

“Ah?”

“Por isso é importante ter um bom purificador de água em casa. Olha só esta promoção: Ligando agora...”

Eu não podia acreditar, agora tínhamos merchandising dentro de casa!

Tudo aquilo foi, pouco a pouco, destruindo meu casamento. Eu não tinha mais privacidade com minha mulher, nem espaço para me deitar no sofá e assistir Esporte Espetacular. A gota d’água veio no meu aniversário. Cheguei em casa e havia uma festa surpresa, meus amigos e parentes reunidos, sentados no sofá. E sobre a TV, um aparelho de videokê.

“Olha o que a gente trouxe pra te animar! Você anda tão pra baixo; vem cantar com a gente!”

Logo meus primos e colegas da firma estavam bêbados, cantando “Alma Gêmea”, do Fábio Jr.
Aquilo foi o fim. Aproveitei que todos estavam entretidos e disse adeus àquela casa. Não fiz nem a mala. Apenas peguei meu banquinho e saí de mansinho.

Publicado na revista Joyce Pascowitch de janeiro de 2009

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