21/06/2009

ENTREVISTA

Saiu neste final de semana entrevista bem bacana que dei para Kátia Borges, do suplemento "Muito" do jornal "A Tarde", de Salvador.

Íntegra abaixo:

- Quando sai seu novo livro "O prédio, o tédio e o menino cego"? Mesmo para um autor reconhecido é complicado editar?

Sai em julho. Agora sai mesmo. Estamos vendo as provas. É complicado publicar porque o mercado literário brasileiro movimenta pouco dinheiro, principalmente em literatura contemporânea. Então há uma atitude de certo desdém dos editores. Mesmo autores reconhecidos (pela crítica), premiados, muitas vezes não conseguem editora, porque não vendem. As editoras publicam esses autores eventualmente, como forma de prestigio, de penetração na mídia, mas ganham dinheiro mesmo com auto-ajuda, com os bestsellers. Meus livros vendem razoavelmente bem. Mastigando Humanos, por exemplo, vendeu 15 mil exemplares, entrou na segunda edição menos de seis meses depois de publicado, posteriormente foi comprado pelo governo para o ensino médio. Mas 15 mil exemplares só é muita coisa quando se fala de literatura, se projetar esse número no mercado fonográfico, mesmo nesta era de pirataria, ou no segmento de auto-ajuda, não é nada. Eu também não sou um autor "de respeito", um "acadêmico", tenho um pé de cada lado. Tenho certo prestígio com a crítica e certa aura pop, mas tudo de forma moderada. É difícil.


- Como foi lidar com tantos personagens (você disse em seu blog que são sete protagonistas, todos meninos)?

Foi como administrar uma creche. Claro que eu tinha meus favoritos, então me peguei várias vezes achando que eu estava favorecendo (literariamente) mais um do que outro. Eu compunha muito bem o Andrógino – que é uma espécie de emo/gótico bem próximo do que eu fui na adolescência – e via que estava deixando de lado o Atleta, ou o Negro. Alguns meninos se tornavam bastante densos, enquanto outros ficavam bi-dimensionais. Por isso foi importante trabalhar (e retrabalhar) tanto tempo no livro. Pude rever o texto várias vezes, me concentrar mais nos meninos que estavam abandonados. Acho que consegui dar um certo equilíbrio – embora ainda existam meus favoritos, claro, e eu até assumo e brinco com isso no livro - aliás, eu não, a narradora, porque existe uma narradora no livro, que aparece bem vagamente, no final do livro, como personagem.



- Li o início do livro em seu blog. Poxa, é viagem minha ou tem ali uma referência a Kafka?

Referência não. Influência talvez. Ele é um dos meus autores favoritos, mas não pensei tão conscientemente nele neste livro quanto em Feriado de Mim Mesmo, por exemplo. A coisa dos insetos, do inseticida tem mais a ver com Burroughs. O começo do livro, com o menino emergindo do quarto como um inseto envenenado tem a ver com fatos que acontecem da metade para o final do livro, e que têm uma referência explícita de Naked Lunch. O livro todo tem muito essa coisa de inseto, como uma alegoria rastejante da degradação da pureza sendo consumida, formigas no açúcar, por aí.


- Verdade que você está escrevendo um livro de contos? Como é seu processo criativo?

Sim. Está bem encaminhado. Quis fazer um livro de contos para mudar um pouco o formato, tenho cinco romances... E também porque sempre me pediam contos para antologias, principalmente fora do Brasil, e eu não tinha mais o que mandar, não gosto dos meus contos antigos, não acho que estão à altura dos meus romances. Então decidi fazer um livro de contos, mas contos longos, porque esse é o ritmo narrativo em que gosto de trabalhar. Não sou um autor de concisão, de economia, gosto do exagero, e isso acaba se refletindo também no número de páginas. Os contos são como mini-novelas de 20, 30 páginas. Quero fazer uns 10 para o livro, já tenho metade disso. Os contos também têm uma unidade temática, têm todos uma aura sexual pesada e uma certa referência sobrenatural. Basicamente, são contos sobre sexo e morte.

- E a história de um livro infanto-juvenil? Rola isso também, em que pé está esse projeto?

O juvenil também está bem encaminhado. Mas tenho me dedicado mais ao livro de contos atualmente, preciso voltar a ele. Está com a Record, deve sair ano que vem. É um livro para adolescentes, bem soltinho, despirocado, nada careta.

- Você recebe muito material inédito de gente pedindo avaliações e sempre recomenda os concursos litériarios. É a saída mesmo? Mas e a lisura da coisa?

Não é a saída porque não há saída. Literatura não é a solução, ou melhor, a publicação não é a solução. O principal é a pessoa gostar de escrever, fazer isso por prazer; se dará certo como escritor profissional é outra coisa, que não depende só de talento. Muita gente publica, até por boas editoras, mas não faz a menor diferença porque o livro não vende, não é resenhado, o autor praticamente volta a ser inédito. Então essa tentativa desesperada de publicar como uma salvação é discutível. Eu mesmo relutava em procurar editora, tentar publicar, porque achava que o livro até podia sair, mas que não faria diferença. Achei que participar do concurso (Fundação Conrado Wessel) seria uma alternativa, talvez para o livro sair com um aval a mais. Para mim funcionou – e claro que houve toda uma batalha minha por espaço na imprensa – então recomendo isso a quem me escreve.

- Um Jabuti na estante ainda dá status? Ganhar prêmio é algo que te estimula?

Bem, é o prêmio literário de maior prestígio no Brasil. Mas a questão não é nem tão essa; por ser um mercado tão restrito não há espaço para outros prêmios, outros tipos de prêmios, outro tipo de literatura. Eu realmente não vejo sentido em concorrer com Milton Hatoum ou Chico Buarque por um prêmio – e não é por humildade nem soberba. O que eu estou fazendo não tem nada a ver com o que eles estão fazendo. É outro universo, outra forma de arte até. Claro que adoraria ganhar um Jabuti, mas não acho que tenho perfil pra isso - meu livro tem zumbis!

- Qual é a sua grande viagem na literatura?

Eu tenho prazer em criar histórias, personagens, conviver com eles diariamente, por isso o formato romance. A literatura me dá a oportunidade de materializar um universo interno, íntimo, ideal. É brincar de ser Deus, não é? Não pode ser melhor do que isso.

VIVA LA RESISTENCIA

Do alto de Medellin.  Voltando da Colômbia, após cinco dias em Medellin, numa daquelas viagens mais proveitosas do que divertidas. Via...