31/12/2009

2010 - O Ano dos Mortos Vivos.

(Artigo meu publicado na Folha, nesta quinta, 31/12)

Se 2009 foi o ano dos vampiros, 2010 será o ano dos zumbis. Seguindo a onda de filmes e séries de TV, a literatura estrangeira traz os mortos-vivos em romances de terror, juvenis, satíricos e até mesmo num romantismo açucarado.

São versões mais palatáveis desse subgênero, que até então era associado ao horror escatológico e ultraviolento, principalmente a partir da década de 1960, com a paranoia nuclear e filmes como "A Noite dos Mortos-Vivos" (de 1968, dirigido por George Romero).

No mercado editorial externo, é flagrante a enxurrada de livros tratando do tema. E, em 2010, vários deles serão lançados no Brasil. A Intrínseca, que publica os best-sellers da saga "Crepúsculo" aqui, já anuncia para o primeiro semestre o lançamento do insólito "Orgulho e Preconceito e Zumbis", uma sátira trash do clássico romântico de Jane Austen. A obra, do americano Seth Grahame Smith, foi publicada lá fora este ano e virou um best-seller instantâneo do "New York Times". É de pensar se Austen não está (literalmente) se revirando no túmulo.

A editora Record investe no público adolescente com "Loiras Zumbis", do americano Brian James, em que uma nova aluna do colégio percebe que as líderes de torcida são mais desmioladas do que parecem. É uma sátira de humor negro com tom lúdico, como vários filmes já vêm fazendo (vide "Fido", de Andrew Currie, de 2006, em que zumbis são tratados como animais domésticos).

Já o romance "Warm Bodies" (ainda sem título em português), de Isaac Marion, que a Leya lançará no Brasil no segundo semestre, deixa o humor (e o horror) de lado e investe numa visão romântica do tema. Narrado em primeira pessoa por um zumbi apaixonado, é uma espécie putrefata de "Romeu e Julieta", em que o amor é capaz de vencer todas as barreiras e até re-humanizar os mortos. Não é à toa que os direitos da obra foram comprados para o cinema pelos mesmos produtores de "Crepúsculo".

Na literatura brasileira, o realismo tradicionalmente domina, e elementos fantásticos ficam em sua maior parte restritos à literatura de gênero. Mas não poderia deixar de citar meu próprio romance, "O Prédio, o Tédio e o Menino Cego", publicado este ano pela Record, em que zumbis aparecem como alegoria de uma sociedade pós-apocalíptica imbecilizada. Alegoria que até me parece óbvia, nos tempos de hoje, e que também é reforçada pelos alardes ambientais e as novas epidemias. Os zumbis carregam essa imagem de infecção, das doenças transmissíveis entre humanos e animais.

É nessa linha que segue o ótimo thriller "Hater", do inglês David Moody, a ser publicado no Brasil em março pela Arx. Embora não seja precisamente um livro de zumbis, trata de uma epidemia que desperta uma raiva repentina e irracional nos seres humanos. Também está prestes a virar filme.

Mas quem quer ir ainda mais longe pode ir se preparando para 2011. A nova onda virá com uma maré que já está se esboçando e que é trazida pela lua cheia. Depois dos vampiros e dos zumbis, a sequência se dará de forma óbvia: será a vez dos lobisomens.

(Continuo aqui em Floripa, nessa felicidade pastosa... Boas viradas para vocês)

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