14/12/2009

A SOLUÇÃO FINAL

Crítica minha sobre o livro de Michael Chabon, "A Solução Final," publicada na Folha de hoje (aqui, na íntegra).


Verão de 1944, sul da Inglaterra. A Segunda Guerra Mundial ainda não acabou, o país vive tempos de paranoia e as pessoas procuram ajudar umas às outras com uma solidariedade austera. Linus é um garoto judeu alemão de nove anos. Vítima de aparentes traumas, ele se tornou mudo e sua única ligação afetiva é com um papagaio cinza, que vive em seu ombro e repete constantemente números aleatórios. Os dois são adotados pelos Panicker, uma família da região que enfrenta problemas com o filho delinquente, mas vive em razoável conforto e em segurança.

Até que outro hóspede da casa dos Panicker, o sr. Shane, é encontrado morto. Recebeu um golpe
atrás da cabeça e o papagaio desapareceu. A polícia inicia sua investigação. Teria Shane tentado roubar o papagaio e sido morto? Surpreendido o ladrão e assassinado por isso? Seria um crime passional, por um possível romance entre a sra. Panicker e o sr. Shane? Os policiais seguem o caso solicitando a ajuda de um velho apicultor, que guarda um passado de investigações e, quem sabe, não é o próprio Sherlock Holmes no final da vida.

Essa é a insólita premissa da novela de Michael Chabon, "A Solução Final", publicada originalmente em 2004. Uma obra de ficção revisionista (que se aproveita de personagens e tramas criados por outros autores) e que mistura crônica histórica, trama de detetive e até piada de papagaio. Se a mistura é homogênea, não chega a ser saborosa. Falta profundidade à crônica, perspicácia à história de detetive e graça na piada. Mesmo o óbvio talento do autor com a escrita ralenta-se pela tolice da história; as experiências literárias não fazem jus ao que está sendo contado. Já a investigação limita-se a observações óbvias e anagramas banais que podem ser desvendados de primeira pelo leitor.

Americano de 1963, Chabon escreveu, entre outros, o romance "Garotos Incríveis" (levado às telas em 2000) e "As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay" (que recebeu o prêmio Pulitzer de 2001). Também foi um dos autores do argumento do filme "Homem Aranha 2" e escreveu livros assumidamente de fantasia e juvenis. Aqui, em "A Solução Final", o autor parece tentar uma experiência literária que não engrena e conclui-se preguiçosa como suas 112 páginas.

Felizmente, Chabon nunca dá nome a seu velho protagonista. O leitor pode se aproveitar do benefício da dúvida. Ainda que haja certo lirismo no retrato do investigador que está no final da vida, não se pode deixar de pensar que Sherlock Holmes já esteve em muito melhor forma.

(ruim)

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