30/09/2009




O verão acabou logo. Menos de um ano depois já havia ido embora completamente para tornar tudo o que incomodava mais risível e tudo o que prometia mais desejável. Na verdade, foi-se em poucos meses, em poucas horas, segundos, e quando os meninos abriram e fecharam os olhos, um vento frio já varria a areia para dentro do mar e os turistas para fora, devidamente agasalhados, de volta para seus ônibus e para longe da cidade. Todos se foram.

Graças a Deus, diriam meus eleitos.

A mudança dos tempos e dos ventos sentia-se também pelos estalos do Prédio, a estrutura se conformando a novos climas, novos sentidos, que às vezes pareciam não fazer sentido algum. As aulas não voltaram, a greve não acabou. O que quer que os professores tenham decidido na assembleia, não teve interferência prática no ócio dos meninos. Agora eles viviam um ócio polar, longe da praia, sem a possibilidade de férias. Era um sentimento mais solitário, mais melancólico, como se tivessem de fato sido esquecidos, desprezados. Uma coisa é você se sentir livre quando percebe a possibilidade de encarceramento, outra é a liberdade fruto de total falta de escolha. Não havia nada a fazer. Nenhum professor a repreendê-los. Ninguém a dizer o que eles poderiam se tornar, o que deveriam desfrutar. Eram garotos perdidos, meninos congelados, esquecidos no fundo do freezer, atrás dos hambúrgueres, ao lado de uma garrafa de
vodca vazia.

Assim estava o Andrógino, na frente de seu computador. Olhava a tela, mas não conseguia ver muita coisa além. Não conseguia ver as ondas e o mar e a praia, refletidos como sempre, apenas vídeos, emails, sites de relacionamento e meninos de franjas lambidas, exibindo-se em fotos caseiras em páginas sem vírgulas nem acentos. Isso também cansava. Entediava. E fazia o Andrógino perceber que faltava algo por trás, o movimento de sempre. Onde estavam as ondas nas quais seus olhos estavam acostumados a navegar?

Foi compelido a virar a cabeça e o corpo, caminhar até a janela e de lá examinar diretamente a vista, que estava escurecida, uma luz tênue que só poderia mesmo ser captada a olho nu. Os seus estavam. Talvez ainda mais nus pela radiação intermitente da tela do computador, que ia destruindo suas camadas e películas, criando um olho mais sensível e vulnerável, que ele poderia usar de desculpa para não mirar cenários verdadeiros. Mas agora era preciso. Ele precisava observar o mundo lá fora e constatar que as coisas estavam diferentes. E a diferença que fazia, para ele ao menos, era positiva.

O mar estava congelado. Talvez por isso ele não tenha conseguido observar suas ondas na tela do computador. O mar era uma estática mancha preta de piche, um enorme borrão numa tela sobre a qual antes havia ondas pintadas. A areia, por sua vez, estava coberta de neve, soterrada, tornando impossível para qualquer um requentar pizzas antes de entregá-las.

Por que então o Entregador e seu Patrão não aproveitavam a oportunidade para construir um iglu e entregar sorvetes? O Andrógino Apático sentiu um arrepio. Depois outro. E arrepio após arrepio, percebeu que teria de fechar a janela. Quem sabe, inconscientemente, a necessidade de fechá-la foi o que o atraiu em primeira instância? Agora que ele observava através dela, percebia que não poderia ficar naquele quarto com a janela aberta por muito tempo. Fechou-a. E continuou observando através do vidro embaçado — o que tornava tudo mais irreal, de certa forma como olhar para sua tela do computador. O cenário lá de fora tornava seu quarto lá dentro mais rarefeito, mais contraído, mais estático, com todas suas quinas e protuberâncias e rebarbas mais afiadas, seus ossos mais desprotegidos. O frio que fazia o ameaçava. No frio que fazia, qualquer topada num pé de mesa machucaria.

Topadas. Pés. Pegadas. Havia pegadas sobre a mancha negra do mar que ele observava. Pegadas de seres que atravessaram o mar, agora sólido. E algumas pegadas vinham direto para a Torre, de quem seriam? Quem teria vindo do outro lado do oceano para se abrigar ali com eles? Fugir do frio, em grandes passadas. Pés grandes. O monstro das neves?

O monstro das neves... Um monstro polar. Um monstro pálido e escandinavo que, apesar de escandinavo, poderia ser chamado de monstro por causa dos pelos que o incomodavam, pela garganta que rugia, pelo alcoolismo que o embriagava, tudo detestável, ainda que nórdico. Ele rugia. Rugia com a mulher. Rugia com o filho. Rugiria a tal ponto que os atacaria (ou seria o próprio rugido interpretado como ataque?). Então delegacia da mulher. Vara da infância e adolescência. Mãe fugindo com o filho, se escondendo numa cidade litorânea, num prédio inclinado. Explicaria muita coisa. Explicaria por que um menino desde cedo se torna tão apático, e tão andrógino. Explicaria por que aqueles pés grandes seriam tudo a ser evitado. Pés grandes seriam tudo o que ele não desejaria, seguindo seus passos. Podofobia. Pés grandes correm mais riscos de topadas frias.

(Trecho de "O Prédio, o Tédio e o Menino Cego". Vai lendo aí que já volto.)

23/09/2009

NOSSOS ÍDOLOS NÃO SÃO MAIS OS MESMOS...

Mas ainda respiram...


Ainda está na sua estante aquele disco que mudou sua vida. Aquele que você comprou na adolescência, com sua mesada, quando começava a descobrir as coisas e as bandas. Aquele disco que fez você querer ser músico.




Você comprou numa loja do lado da sua casa, de um vendedor amigo, um cara que começou a te recomendar outras coisas, que achava que sabia o que você queria. Você ouvia a todo volume, porque falava sobre você e você queria que o mundo todo ouvisse. Era a sua voz. Na ordem das músicas, na arte do encarte, nas letras e melodias formava aquilo que você reconheceria pelo resto da vida como sua personalidade.

Daí você se tornou um artista.



" Tudo o que eu sempre sonhei..."

Começou estudando música – guitarra, piano, canto. Teve suas primeiras bandinhas. Tocava na garagem, pagava um estúdio, fez seus primeiros shows em inferninhos, daí mudou de banda, daí começou tudo de novo.

Agora você está no ponto.

Agora você começa a gravar seu disco.

Agora você tem repertório, tem um álbum coeso, tem uma capa que, quem sabe, poderia estar no quarto de um novo adolescente, na estante ou na parede, mudar novas vidas, influenciar vendedores...

Mas não. Não há mais lojas de discos, há apenas grandes redes. Não há mais arte nem encarte, as pessoas baixam direto faixas isoladas. Escutam 10 segundos da introdução, então se adiantam para ouvir os vocais.

Sua arte está condenada.




Não que eu queira ser nostálgico ou conservador... Mas estava pensando em como deve ser triste para músicos e bandas que estão começando agora – que tiveram seus disquinhos favoritos – lidarem agora com a imaterialidade da música, o fim dos lados B, a urgência dos singles e dos hits – apenas hits, sem mais espaço para as músicas de passagem...

Ou não, né? Há também o outro lado. Há o novo espaço da Internet – blogs, Myspace, download. Você pode conquistar seu público e seus fãs sem precisar de grandes espaços. Você pode conquistar o mundo trancado em casa, e você pode ter seus ídolos exclusivos.


(Como diria Annie Lennox: “I knew that I was going to be a legend... in my living room”)



Então poderia ser mais triste: você poderia ser escritor.



Quem quer ser um jovem autor?


Porque assim, você pode ser até lido, você até pode ter seu público, pode até vender razoavelmente bem, ou ser um ídolo para poucos, publicado apenas em blog, vendendo seu próprio livro, mas você nunca terá um ídolo.

Eu nunca tive.

Sério.

Digo, em quem posso me espelhar, qual será meu modelo? A gente não quer ser igual aos escritores que admira – ao menos, não quer ter a mesma vida. Posso louvar o trabalho deles, mas não quero terminar como Caio Fernando Abreu, Lúcio Cardoso, João do Rio... Isso sem mencionar os vivos...

O escritor no Brasil não tem modelos positivos. Ele pode seguir a arte, pode admirar o estilo, pode querer ser tão grande quanto... Mas sabe que assim só conquistará um final TRÁGICO.


Será que eu ainda acredito?

Só resta acreditar que, com a gente, poderá ser diferente. Mas, sinceramente, não é isso que o mundo mostra. Posso me consolar pensando: “Ao menos um moleque pode me descobrir daqui a 50 anos, como eu descobri o Lúcio Cardoso...” Mas acho que cada vez menos gente descobrirá livros..

E... será que o mundo ainda existirá daqui a cinqüenta anos?


O músico sobrevive com shows. O escritor sobrevive com textos para jornal, traduções, roteiros. Mas talvez a arte, como a conhecemos, já esteja com os dinossauros, já esteja com os dias contados, já esteja no alvo do meteoro.



"O erro dos dinossauros foi querer aparecer demais" (arte de Marco Túlio para meu Mastigando Humanos)

22/09/2009

SUPERFANTASTICAMENTE


No próximo sábado, na Livraria Martins Fontes (Paulista 509), a Terracota Editora lança a antologia "Alterego", organizada pelo querido Octavio Cariello. Nela, 20 autores escrevem contos de super-heróis, identidades trocadas e esquizofrenia fantástica (hum, gostei disso, esquizofrenia fantástica é uma nova modalidade de existencialismo bizarro?)

Eu não participo. Mas participo. Faço o texto de apresentação do livro, porque não sou muito de antologias, mas mais do que nunca acho que a literatura brasileira tem de fugir da praga do realismo; eu mesmo tenho me aproximado cada vez mais dessa cena fantástica - e meu texto de apresentação levanta essa bandeira.

Vai lá: Lançamento "ALTEREGO" - Livraria Martins Fontes (Paulista 509), dia 26 de setembro, sábado. À partir das 15:30.

Meu texto de apresentação eu coloco aqui, pra você ficar com vontade:


Vivemos num país sem heróis.

Ao menos, nossos heróis não têm superpoderes. Eles recebem ajuda do tio, emprego do cunhado, ganham mesada dos pais e pedem auxílio dos universitários. Vivemos num mundo sem fantasia e sem fantasiados.

Será que os valores insólitos do povo brasileiro que moldaram nossa tradição cultural, tão calcada na realidade, fizeram com que, por aqui, o dia-a-dia já bastasse como absurdo para não precisarmos dar aquele salto de trampolim para o além-Marte? O Brasil tem novelas exportadas para o exterior. O Brasil exporta mulatas, muamba, craques e cracks. Mas onde está nosso Homem-mico-leão-dourado, nosso paladino radioativo de capa e espada? Onde está nossa força imaginativa, nossa nova mitologia, deuses, monstros e heróis?

Talvez alguns pensem que eles estão por todos os lados...

É o que vemos nas histórias desta preciosa antologia de jovens autores, organizada por Octavio Carilello. Alterego é uma reunião de contos sobre super-heróis, identidades secretas, identidades trocadas. Mas todos com um tempero típico brasileiro – todos com algo de patético algo, algo de auto-paródia. Como se soubéssemos que, ainda que pudéssemos escalar um prédio como uma aranha, já seria esquisito o suficiente termos um nome de batismo como “Peter Parker”.

Alterego é um livro para desmoronar essas escaladas.

Aqui, a dupla identidade está no cotidiano, na paródia dos quadrinhos americanos, na tentativa de sobreviver com honra e hombridade numa vida que requer sempre que demos uma rebolada. Os heróis de Alterego não são tão fantásticos assim, são gente com quem nós mesmos podemos nos identificar; e suas identidades secretas... bem, eles são nossos vizinhos, nossos amigos, aquele cara esquisito que se sentava no fundo da escola.

E eles revelam novos autores com poder de fogo. Se os raios lasers ficaram nos anos 80, que venham com metralhadoras! São jovens prosadores que trazem a imaginação e inventividade que tanto falta na literatura brasileira. A influência das HQs e da cultura pop – tão natural, mas que costuma ser tão camuflada - aqui aparece com força, tomando de vez seu lugar ao lado da cachaça e da feijoada.

Batman está entre nós, não há dúvida – só não sabemos ainda se está perdendo a batalha para Fernandinho Beira-mar.

17/09/2009


Oooooooooooook, sei que é assunto meio velho (ou semi-novo?) mas só esta semana fui ver o "Anticristo" do Lars Von Trier.

Eu gostei.

Gostei bem.

E não é só para ser do contra, não.

Em primeiro lugar, o filme é visualmente lindo - às vezes até cafona de lindo - a fotografia, a locação, a trilha. Um belo antítodo para o über-realismo do Dogma, que o diretor fazia no passado.

Em segundo lugar, é um filme de terror. Mas é um filme de terror do Lars Von Trier, então sempre há uma esquisitice, uma suposta profundidade, algo maior do que o medo imediato, que deixa suspenso no ar uma tensão constante. E ainda é um filme de terror, com referências e clichês fortes do gênero. Os clichês são necessários, são as fórmulas testadas para criar o medo, mas em "Anticristo" são todas posicionadas de uma forma diferente, com alguma estranheza.

Ok, essa estranheza às vezes resvala no trash, mas o importante é que o filme tem o essencial para um filme de terror: clima. Para mim, os melhores filmes de terror são exatamente aqueles em que nada se explica realmente, que as cenas acontecem como um pesadelo, sem precisar de justificativa para terem efeito. "Anticristo" faz isso muito bem.

Além do mais, existe uma explicação lógica possível para o filme, uma explicação fácil e sem recorrer a nenhuma fantasia, que pode satisfazer aos simplistas, mas que não precisa ser dada. O grande mérito do filme é esse, dar a possibilidade de você querer explicá-lo ou não - racionalizá-lo (como Dafoe) ou apenas seguir o clima (como Gainsbourg). Para mim, a explicação reduz o filme. (Quer saber a minha explicação? Coloco no final do texto, em lilás, para não ser um spoiler para quem não viu).

Os diálogos são uma sucessão de frases prontas - claro - porque é a proposta, é a artificialidade da razão em contraponto à fúria da natureza. Esses conceitos são materializados nos personagens do homem (que está desde o começo do filme em combate com a natureza) e da mulher (que é como um animal selvagem, tentando ser adestrado pelo marido). Gosto de personagens que são materialização de idéias, mais do que seres reais.

Eu colocaria esse filme ao lado de "O Iluminado", "Audition", "Misery" e "Evil Dead", todos filmes bem diferentes entre si, mas com pontos em comum com "Anticristo". E NÃO achei este filme tão pesado e chocante como dizem - talvez porque eu já tenha ido esperando o pior. "Os Idiotas" do Von Trier me fez bem mais mal. As cenas de violência deste são fortes, mas nada demais para quem está acostumado com filmes do gênero. Também não achei as cenas de sexo apelativas. Dizer que esse é um filme pornográfico? Pelamordedeus, só há uma ceninha rápida de penetração, o resto é aquilo de casal batendo o tapa-sexo de sempre. Vocês não têm Sexyhot em casa? (eu ganhei de cortesia da Net, ok?)

A crítica mais imbecil que li questionava o título "Anticristo" - como esperando que houvesse um ser em si (talvez o filho morto?) para personificar o conceito. "Anticristo" é o filme em si, não de maneira megalômana em ser o derradeiro filme apocalíptico, mas apenas porque a premissa da história nega Cristo. A premissa é aquela de "a natureza é a igreja de Satã," que dentro do universo do filme pode ser real ou não. Mas é um filme de conceito satanista - anti-cristo.

É claro que não se pode comparar com Dogville, que é outra proposta (e é uma obra prima), mas ainda acho este um grande, grande, grande filme, que lida muito com o que é cinema (e está anos luz à frente de "Manderlay", vamos dizer).


Quanto à trama, vai aí uma (possível) explicação:

Uma mulher vai para uma cabana no meio do mato com seu filho pequeno, trabalhar numa tese sobre feminicídio. O isolamento, os barulhos do mato e o tema de sua tese acabam causando uma perturbação mental nela (à la "Iluminado"). Ela passa a maltratar o filho, vesti-lo com os sapatos errados, causando deformações em seus pés. Voltando para a cidade, seu filho acaba morrendo acidentalmente, mas ela culpa a si mesma por sua negligência (e talvez a deformação nos pés tenha contribuido para o acidente?). Seu marido terapeuta tenta tratá-la, voltando com ela à cabana no mato, mas a perturbação constante da mulher faz com que ela acabe atacando-o. O marido - também perturbado, fragilizado pela morte do filho e pelo estado da mulher - tem visões e pesadelos, mas acaba conseguindo se safar da mulher. Fim.

E vai aí outra (possível) explicação:


Uma mulher vai para uma cabana no meio do mato com seu filho pequeno, trabalhar numa tese sobre feminicídio. Fragilizada por seus estudos, ela se deixa dominar pela natureza perversa (o Anticristo) que habita todas as mulheres, tentando subjugar os homens. Ela passa a maltratar o filho, vesti-lo com os sapatos errados, causando deformações em seus pés. Voltando para a cidade, seu filho acaba morrendo acidentalmente, mas ela culpa a si mesma, agora que não está mais sob influência da natureza. Seu marido terapeuta tenta tratá-la, voltando com ela à cabana no mato, mas a natureza impera sobre a mulher, fazendo-a atacar o marido. Ele, observando-a atentamente, começa a ter indícios da maldade da natureza em ação, mas consegue dominar a razão e safar-se da mulher. Fim.

E, para mim, a graça é que pode ser qualquer uma das duas, as duas ao mesmo tempo, ou nenhuma.

16/09/2009

LULA-LÁ Mojitos do final de semana.


Tenho trabahado tanto, divulgado tanto, investido tanto na auto-divulgação que esqueci que o povo quer mesmo é fotos, fofocas e coluna social. Então vai a receita do final de semana.

Lula à dorê.

Minha lula é a melhor do mundo. Sério. Já fiz três vezes, e já comi em todo lugar do mundo (mais recentemente no Peru) então posso confirmar. A receita é bem simples e divido com você:

- Deixe a lula umas 6 horas de molho em suco de limão e alho.
- Depois passe na farinha de trigo, depois no ovo batido, depois de novo na farinha.
- Frite em óleo novo e bem quente. Quando começar a dourar, tire do óleo.
- Tem também o segredo de um molhinho de pimenta; mas segredo é segredo.


Enquanto frito na cozinha, Marion e Fábio fervem na sala.
Levo a lula lá.

Foram-se os anéis...


Como Lula só enche a barriga de quem tem bolsa família, o prato principal foi uma massinha ao pesto com salada.


Agora... Confesso que os mojitos e o vinho me deixaram com uma ressaca, que só me lembrei hoje dessas fotos do final de semana...



14/09/2009

O PINGÜIM NO PLAYGROUND


O meu pingüim balança, mas ainda tem acento.


E nesta terça a grande Índigo lança o dela - Um Pinguim Tupiniquim, livro juvenil divertidíssimo, que li há uns... 4 (?) anos, ainda nos originais.

Índigo tem um humor finissímo, uma personalidade deliciosa na escrita e é daquelas pessoas com quem fico feliz e me orgulho de pertencer à mesma geração literária. Sei que a gente vai sempre se cruzar em eventos, debates, lançamentos e viagens pela nossa carreira à fora.

Ano passado, eu , Andrea del Fuego, Índigo e Fábio, na (péssima) Bienal aqui de SP.


Vai aí um pequeno release do livro dela:Em busca de aventuras e novas experiências, ele deixa família e amigos a ver navios e percorre um trajeto confuso, que contou com um encontro com Amyr Klink e uma rápida passagem pela Argentina, e acaba vindo parar no Brasil. São muitas as aventuras pelas quais ele passa em território brasileiro até encontrar um pouco de tranquilidade no campo, onde passa a conviver com animais tradicionais de fazenda, como vacas, patos e galinhas. Segundo a autora, não há amadurecimento possível sem o risco de deixar o local onde nascemos, e é a partir disso que a aventura de Orozimbo representa também o percurso de crescimento humano.

Lançamento nesta TERÇA, às 18:30 na Livraria da Vila da Fradique (Coutinho, 915, Pinheiros).


E, pouco a pouco, vão saindo novas críticas sobre meu Prédio, meu Tédio e meu Menino Cego. A melhor delas, que acabei de ver, é do grande escritor Eric Novello, na revista Aguarrás, que coloca o livro como "Coraline with lasers" (hahaha), e também "Um redemoinho de paranóia, feito para te arrastar para dentro, para o fundo, para que você tente nadar até a superfície e chegue a qualquer outro lugar. É um livro que desorienta."


Acho que foi a primeira crítica que realmente entendeu o que eu quis fazer no livro, porque alguns (como o Fischer) apontam o livro como um romance de formação muito sério e hermético, quando é algo totalmente irônico e alegórico


No Estado de S. Paulo deste final de semana, por exemplo, há uma matéria sobre minha mesa na Bienal e a colocação de Suzana Vargas sobre meu livro como
"O Apanhador no Campo de Centeio do Século 21", que é bastante lisonjeira, mas não vejo como precisa.


Na verdade, nem me surpreenda tanto que o livro esteja sendo visto das maneiras mais diversas, apenas que ele esteja causando mais estranhamento do que algo como Mastigando Humanos, por exemplo. Para mim, O Prédio, o Tédio e o Menino Cego é mais uma consolidação do meu próprio estilo do que uma ruptura radical com o que eu já vinha fazendo.


E você, afinal, gostou?

11/09/2009

FOSSA NOVA

Filipe Catto.


Acabo de voltar do Rio. Fui e voltei. Minha mesa com Michel Melamed e Cecília Gianetti foi... truncada. Michel parou recentemente de fumar e estava subindo pelas paredes; Cecília está com a perna quebrada, tomando remédios, e errou todo o hino nacional; eu estava aéreo e hiperativo como sempre, e acho que o debate acabou não tendo liga, foi arrastado, apesar de ter tido seus momentos...




Valeu pelo pessoal que foi. Estava cheio; as perguntas da platéia foram a melhor coisa; e o querido Gustavo de Souza registrou o evento e me mandou as fotos (porque esqueci de levar câmera). Foi ótimo conhecer pessoalmente também o Italo Moriconi (que organizou as mesas) e a mediadora Suzana Vargas, que falou maravilhas de "O Prédio, o Tédio e o Menino Cego".



(Ana Paula Maia, Strausser e Simone também apareceram por lá.)


(Aproveitando, no Rio vi a excelente resenha do meu livro na Istoé Gente [de Marcelo Lyra] e no Programa Leituras da TV Senado [bom que ainda existam resenhas dentro de um programa de TV; este apresentado por Maurício Melo Júnior.])

Voltando ao tema inicial deste post, a trilha sonora da viagem foi o disco do gaúcho-pitéu Filipe Catto, Saga. Já tinha ouvido falar dele há aaanos, mas dia desses a queridíssima Marion Velasco me lembrou, me passou um link e acabei baixando seu EP de estréia. Fui ouvir durante os vôos.

Filipe é fa-bu-lo-so, e nós temos de fazer ele bombar.

No EP tem chorinho, tem tango, tem samba, tudo composição de primeiríssima qualidade do próprio Filipe; é uma mistura coesa e já tem uma personalidade muito bem definida. A voz do menino também não fica atrás, lembra cantoras como Elis, Adriana Calcanhotto no começo de carreira e Ney Matogrosso, obviamente andrógina. Ele faz o que quiser com a voz.

“Ascendente em Câncer” (um tango) é minha favorita das seis faixas do disco; “Ressaca” também é bem gostosa, música de fossa para encher a cara. Minha única queixa é que o repertório de estréia é todo muito sério, muito grave, eu adoraria vê-lo fazendo algo um pouco mais pop (ou irônico).

Você pode baixar o álbum (e saber mais sobre o trabalho), no próprio site dele:


http://filipecatto.com.br/

Aqui embaixo, tem uma pequena amostra...





(Quero gente como ele no poder!)

09/09/2009

O JÔ DE ONTEM...



...acabou passando ontem mesmo. Fiquei sabendo na hora, pelas chamadinhas na Globo (e as chamadas no meu celular), porque não tinha sido avisado.

Mas já subiram no Youtube (tx "camfwayne"). E me passaram agora esse link oficial da Globo, em melho qualidade.

Lembrando, amanhã, 10 de SETEMBRO, 20h, tenho debate na Bienal do Rio, com Michel Melamed e Cecilia Gianetti. Lá também você pode comprar o livro autografado.

Fora isso, já temos marcado Campinas em outubro e Recife em 6 de novembro.

Até.

08/09/2009

BEIJO DO GORDO, DO JUNKIE, DO ANDRÓGINO...


Eu e Alê, gravando hoje o Jô.


Gravamos. Tinha sido marcado, adiado, depois adiantado, e hoje rolou. Pra mim foi beeeeeeeem bacana a entrevista; Jô foi carinhoso e foi bem calcado no livro, nos processos da adolescência, nas dificuldades da infância... (teve até foto minha petiz...).


Alê também deu uma pontinha, da platéia. E o Fábio estava lá com a gente.

Eu diria que foi a melhor das três que fiz com ele (mas acho que muita gente vai preferir as bizarrices do disk-sexo da primeira).


Ainda não sei quando vai ao ar (acho que não será esta semana), mas stay tuned.

05/09/2009

NÃO CUSTA LEMBRAR...

O lançamento do livro no Rio é na próxima QUINTA-FEIRA, 10 de setembro, na BIENAL.

Às 20h tenho uma mesa lá no Café Literário, com Michel Melamed e Cecilia Gianetti. Logo em seguida dou um pulo no estande da Record, para autografar o livro para quem estiver por lá, ok? Apareça, porque você sabe que não estou sempre no Rio...

E para você que caiu de pára-quedas (porque sei que nesta semana vai ter muito desses...) te digo onde comprar o livro: AS BOAS CASAS DO RAMO. Já está distribuído pelas livrarias aí do Brasil. Peça na sua. Infelizmente eu não vendo o livro e nem mando autografado, sorry.

Hoje Luis Augusto Fischer falou horrores do livro na Folha. E no Globo saiu minha mesa como destaque na Bienal (e uma foto bacana minha, feita pelo Fabio Motta). O querido Felipe Sindri me avisou também da (ótima) resenha do livro na Zero Hora esta semana (consegui ver um trecho na net apenas, e não sei quem assina. Manda pra mim?).

Vai ter mais entrevistinhas também na TV (sim, também), mas algumas coisas foram adiadas, outras acontecem em breve. Stay tuned que aviso por aqui.

Estou indo viajar, de ressaca, risonho e límpido. Bom feriado.

01/09/2009

FANTASISTAS GRAÇAS A DEUS


Entreguei esses dias uma enoooorme tradução (quase 700 laudas) de Prince of Stories, um guia da obra de Neil Gaiman, escrito por Hank Wagner, Christopher Golden & Stephen Bissette. Lá, há biografia, entrevistas, fotos, resumos de todas as obras escritas por Gaiman - incluindo quadrinhos, romances, contos, roteiros, poemas e letras de música - e alguns textos inéditos dele.

Óbvio dizer que é indispensável para os fãs de Gaiman, mas para mim, que não era, foi uma imersão preciosa, não só no universo do cara, mas nos bastidores do mundo de quadrinhos e no fazer criativo como um todo.

Antes de tudo, Neil Gaiman é leitor ávido, apaixonado por histórias (principalmente mitologia clássica, fantasia e contos de fada - muito mais do que terror). Sua obra, desde Sandman até romances como Deuses Americanos e Os Filho de Anansi, é muito fundamentada no pastiche, nas citações, no que se chama de “ficção revisionista”. Mesmo a brilhante idéia gótica de The Graveyard Book (um garoto criado pelos mortos do cemitério) é na verdade uma releitura de The Jungle Book (ou, para os simplistas, “Mogli”, o livro ou o filme), assim como toda sua obra é uma releitura (assumida) do que já foi feito anteriormente.

Mas ele é um apaixonado. E é apaixonante. Daquelas pessoas que fazem a gente acreditar no valor transformador da ficção, da fantasia (e dos “fantasistas”), nesses tempos tão contaminados pela realidade, pelos realities, em que parece que não nos dão mesmo possibilidade de ir além. (Bem, ao menos aqui, ancorados no Brasil.) Muitas das discussões propostas no livro eu levantei no Fantasticon este ano, no meu debate com Nelson de Oliveira, Ronaldo Bressane e Kizzy Ysatis.

Bacanérrimas também são as entrevistas do livro, em que Gaiman esmiúça sua carreira - e inclusive dá números, valores. Fala, por exemplo, que ganha U$ 10 mil dólares a cada 5 anos da Warner Bross pelo direito de opção de Sandman – que até hoje está longe de virar filme. E que a razão dele não ter feito um novo Sandman é que ele ganha mais escrevendo romances, e a DC se recusa a aumentar sua porcentagem em preço de capa – que é de 4%.
Ele levanta também como os livros - na sua infância - eram a única forma de possuir e rever uma narrativa, já que não havia videocassete, DVD e o caralho. Os filmes que ele gostava os levava aos livros dos quais foram adaptados - como Mary Poppins, que ele dizia que sonhava em rever, mas sua família o levava sempre à Noviça Rebelde, que estava perpetuamente em cartaz, e que ele detestava.


(Isso me lembra um pouco a discussão do [péssimo] Pink, livro do Gus Van Sant que eu também traduzi [há uns 4 anos, e que acabou sendo engavetado], em que ele discutia se um filme hoje é feito de maneira diferente, pela possibilidade de ser revisto. Se o videocassete reposicionou o cinema com essa possibilidade de resgate, o DVD intensificou o processo com a possibilidade de posse. O VHS era muito mais um produto de aluguel do que o DVD, que se volta para a compra [e atualmente, diga-se, o suporte vai desaparecendo com o download direto na máquina {Aliás, na música as bandas já pensam *e dispensam* o formato álbum, com a tendência de se baixar faixas isoladas. Na indústria pornográfica, os filmes deixaram de fazer sentido e só se trabalham com cenas. Será que isso começa a alterar também o cinema? *Será que estou fazendo certo essa coisa de parêntese, chaves, colchetes e o escambau?*}].)

Enfim, Prince of Stories deve ser lançado pela Geração Editorial no próximo ano (porque é grande pra caralho e além da tradução entra todo o trabalho de revisão, pesquisa, etc). Aqui, ainda ficou uma pilha de obras do Gaiman por ler.

ESTRADA

Não sei porque colocaram só meu sobrenome, mas achei chique.  Finalmente o ano está começando para mim. Já voltei para São Paulo e sem...