07/01/2010

E PARA QUEM ESTÁ NO CAMPO...

Continho meu publicado na revista... GLOBO RURAL de dezembro. Inusitado, não?

A VACA SAGRADA

No pátio, o churrasco. Cerveja, maionese, Ivete Sangalo. Douglas não gosta. Afasta-se dos adultos caminhando pelo campo, soprando um dente-de-leão. A barra do jeans se enche de picões. Ele olha para o céu esparsamente nublado. As formas das nuvens que não lhe contam histórias. Olha para a cerca à frente e se aproxima das vacas.

O filho do caseiro junta-se a ele. Bem mais novo e muito mais preparado para a vida. As mãos já ásperas, partidas, perfuradas de espinhos. Pergunta: “Quer andar à cavalo?” Douglas balança a cabeça. O filho do caseiro se afasta.

Na frente da casa, Tia Berenice começa a se perguntar se bebeu demais. O primo Gustavo tem medo de que a família esteja envergonhando sua namorada. Sua mãe ajuda a lavar os copos, os pratos, e nem sente a distância do filho. Até que a cunhada pergunta: “Por que o Douglas está lá sozinho?”

A mãe levanta os olhos, vê pela janela o filho perdido no campo e suspira. É sempre assim. “Ele é assim,” suspira, “adolescência.”

Tio Otávio vem até a cozinha procurar um copo limpo. Ajeita a calça para baixo da barriga estufada. “Deixa que eu vou falar com o menino. Ele só está deslocado. Eu também já fui assim.”
E a mãe de Douglas gostaria de acreditar. Gostaria de saber que aquilo é apenas uma fase, mas sabe, sabe que talvez aquilo nunca vá mudar. E que seu filho estará sempre distante, perdido, longe do que ela toma como festa e do que lhe imaginou como destino.

No pasto, Douglas observa uma vaca malhada, ruminando. Olha olhos nos olhos e não vê nada naquele olhar. Olhar bovino. A vaca não fala. Nada lhe diz nada. Ele sabe o quanto é inteligente e ainda assim acha que o mundo não tem sentido.

Tio Otávio se aproxima. Lhe desperta. Traz um pedaço de picanha, um pão com lingüiça. “E aí, rapaz, tá todo pensativo... Te trouxe esse churrasco; está perdendo uma festa. Sei bem que tem horas que a gente quer ficar sozinho, mas não vai dispensar essa comida, vai?”

Douglas lança um olhar para o prato, volta-se ao olhar bovino. A vaca ainda não lhe diz nada, mas aquele olhar agora lhe diz tudo. Ou ao menos diz que deveria dizer. Que se tivesse fala, que se tivesse palavras, que se tivesse dedos e vontades, poderia lhe contar.

“Obrigado, mas sou vegetariano.”

Desde quando? A mãe perguntará em poucos minutos, ao saber. “Agora essa? Vegetariano?” Não foi para isso que ela calcificou em mamilos mastigados os caninos do filho. “Vegetariano...” A mãe inspira fundo e deixa cair um copo na pia. Fala com a irmã. “Pode terminar os copos aqui? Vou fumar na varanda...”

Ela fuma olhando o filho; as nuvens no céu também não lhe dizem nada. De suas formas, o marido costumava tirar histórias. Agora ele está esquecido, virando lingüiças, bebendo cerveja, deixando a barriga crescer ao som de Ivete Sangalo.

Douglas, sozinho, perde o interesse na vaca. Estende o olhar ao campo, ao pasto, tenta enxergar além ou uma vida possível em pequenos detalhes. Mas o campo não lhe diz nada...

Ainda assim, detém-se no estrume, as bostas de vaca. Nelas crescem pequenos cogumelos, que certamente contariam uma história. Douglas olha para as nuvens, para as vacas, o estrume, e pensa em todas as possibilidades. Pensa que sua vida pode não ter sentido, mas que sempre se pode procurar. Mesmo num churrasco de família, na fazenda com os primos, mesmo ao som de Ivete Sangalo e no estrume bovino, ainda existem histórias a se contar.

Douglas pensa: existem histórias para eu contar.

(e eu já estou indo viajar de novo para a casa de campo dos Nazarian, porque não suporto mais São Paulo)

PRÉ-PÓS-URBANO

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