29/04/2010

FALTOU O CHÁ DE COGUMELO...

Uma Alice genérica.


Tim Burton é provavelmente o gótico mais bem-sucedido do planeta. Começou a carreira como animador da Disney e, após realizar alguns curtas, conseguiu emplacar projetos de peso, se tornando um dos principais diretores comerciais dos Estados Unidos. Nos seus primeiros filmes (“Beetlejuice”, a antiga franquia “Batman” e “Edward Mãos de Tesoura”) sua escola gótica era flagrante tanto na temática, quanto na estética, e até em seu visual pessoal (com aquele cabelo desgrenhado à la Robert Smith). Como “gótico consciente” (e bem sucedido) ele foi além do clichês e adotou também um tom lúdico, por vezes kitsch, que o tornou mais palatável para as massas. Com essa mistura ele conseguiu tocar seus projetos mais pessoais e improváveis (“Edward” e “Ed Wood”), mas também errou a mão feio (em “Marte Ataca”.)

Não sou gótico, sou "neo-noir".


“Ed Wood” e “Peixe Grande” são meus favoritos. Acho que têm a dose perfeita de sua estética noir com um humor kitsch, e vão além do mero filme de entretenimento. “Marte Ataca”, “Sleepy Hollow”, “O Planeta dos Macacos”, “A Fantástica Fábrica de Chocolate” e “Sweeney Todd” são, ao meu ver, deslizes feios - aburridos, tolinhos e vazios filmes de entretenimento que só se salvam pelo visual.


"Beetlejuice" - filme da minha infância - toda sua estética já estava aqui.



Infelizmente, coloco “Alice no País das Maravilhas” nesse último grupo.

É um filme de fantasia. Apenas. E é um filme para crianças – mas não sei nem se as crianças se empolgam (no cinema que assisti, por exemplo, não ouvi nenhuma gargalhada, nenhum entusiasmo, o filme não pareceu provocar graça, em nenhum sentido). O principal problema é o roteiro: banal - transforma o absurdo e o surrealismo da história de Lewis Carroll num conto de fadas tipo Nárnia, sem ironia, sem humor, sem novidade alguma. Um reino contra o outro; o povo esperando o Salvador prometido que vai empunhar uma espada e matar o dragão – que argumento mais genérico é esse?

O visual me incomodou menos do que achei que incomodaria (tenho uma birra monster dessas coisas ultra computação gráfica), mas não achei nada espetacular, nada divertido, e não entendo essa febre do 3D, para mim só surte efeito no começo, depois torna mais difícil e cansativo assistir o filme.

Enfim, eu não diria que é uma decepção, porque já estava esperando pouco. Ainda achei melhor do que “A Fantástica Fábrica” (que é visualmente equivocado e metido a engraçadinho) e “Sweeney Todd” (que é chaaaaaaaato pra caralho), mas me pareceu isso, um filme genérico. Fiquei tentando caçar Tim Burton – talvez na maquiagem abatida dos personagens, nas árvores retorcidas da floresta ou... principalmente, nos trejeitos de Johnny Depp (que faz o que a gente já o viu fazendo).

Willy Wonka 2.0.


- Se Tim Burton está precisando de uma boa história (adulta) de fantasia, recomendaria a ele “The Girl with the Glass Feet”, romance do (jovem escritor britânico) Ali Shaw, que acabei de traduzir para a Leya e deve ser lançado no segundo semestre aqui no Brasil. É uma bela fábula, recheada de estranhezas.

- A missão de Burton como ex-animador da Disney parece ser destruir clássicos alternativos do estúdio. Além de “Alice”, “Sleepy Hollow” (“O Cavaleiro Sem Cabeça”) também tem uma (óoooooootima) versão anterior em animação (curta metragem), com narração e músicas do Bing Crosby.

Também da infância.


Uma boa dica do próximo desenho da Disney para ele destruir seria... “O Caldeirão Mágico”, lembra? É um desenho macabro e maldito da Disney, do começo dos anos 80.


E com uma infância gótica dessas, como eu escaparia?


- Mais genérico do que o roteiro de “Alice” só... a TRILHA de Danny Elfman. Puta merda, como esse cara ainda tem trabalho em Hollywood? Ele faz a mesma trilha para Batman, Spider-man, Hulk Alice, Edward, o Lobisomem e o Caralho...

- Tristeza que “Alice no País das Maravilhas” é dos poucos filmes assistiveis (entre os pouquíssimos em cartaz) aqui em Florianópolis. Bem, pelo menos vou conseguir ver "Homem de Ferro 2" e "A Hora do Pesadelo" nas próximas semanas.

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