30/05/2010

ANTES QUE A PÍLULA ME APAGUE...


Ó, pra quem estava com saudades do Fábio...

Agora já estou voltando pra Santa Catarina. Pulo rápido em SP no final de semana, para pegar documentos, roupas, livros, meninos...

Não, meninos eu fiquei devendo. Foi bom para rever os queridos, ventilar a casa, lubrificar torneiras, abrir comportas. E conversar, conversar, conversar.

Posto mais uma vez direto do ônibus, conectado no Vivo 3G. Merchandisings à parte, o serviço é insuperável para usar na estrada (literal e figurativamente), mas ainda meio capenga para o dia a dia. Isso porque mesmo pagando o plano de uso ilimitado, a conexão só é rápida até um certo limite de megas baixados, depois segue à lenha (e para quem trabalha o dia todo conectado, como eu, digo que o limite deles se esgota nuns... 4 dias.). Mas ainda dá para viajar postando, teclando, até o limite da bateria do notebook. Na ida inclusive trabalhei numa tradução.

Adoro viajar de ônibus. É bem mais confortável do que avião. Bem menos burocrático. E você sente realmente a viagem. Há aquele momento de passagem, de transição... Além de ser menos da metade do preço, é claro. Viajo de noite, tomo duas pilulazinhas e... não durmo, não consigo dormir, mas fico num prazeroso estado de chapação, semi consciente, meio sonhando acordado, me esfregando e me entortando nas duas poltronas - porque nas viagens de contra-fluxo, como hoje, o ônibus geralmente está vazio. Na ida só foi meio constrangedor porque o semi-sonho me deixou uma ereção que invadiu o sono da adolescente da fileira ao lado...

Quando o ônibus para na estrada, no meio da madrugada, já estou num universo totalmente David Lynch, que nem uma coxinha com catupiry consegue aterrar.

Fora o fluxo e as pílulas, uma boa playlist de sons de valium. Dou a vocês a lista completa (em shuffle), antes que a química se apodere de meus dedos...


Wild Child – Enya
Miss Sarajevo – Pavarotti & U2
Centerfolds - Placebo
Ligia – Cauby Peixoto
Calmarie – Debbie Harry
With these hands – Tom Jones
Dois Durões – Marina Lima
Blood of Eden - Peter Gabriel
Il N'y A Pas D'Amour Heureux – Françoise Hardy
Christmas – Lori Carson
Sacrifice – Sinéad O'Connor
The Rythm Divine – Yello featuring Shirley Bassey
Enough – David Mc Almont
She's Not Dead – Suede
16 Days – Lori Carson
Sunday in Savana – Nina Simone
Stella Maris – Einsturzende Neubauten
Le Voyage du Penelope – Air
Jennifer – Eurythmics
Seu Pensamento – Adriana Calcanhotto
Lovely Head – Goldfrap
Bullet Proof – Radiohead
Low Light – Peter Gabriel
Where the Wild Roses Grow – Nick Cave & Kylie Minogue
Never Never Never – David McAlmont
The Swan – Camile Saint Saens
Chove na Roseira – Tom Jobim
Where the Pigs Don't Fly – Suede
Headphones – Bjork
Away with Murder – Camara Obscura
Birdgirl – Antony and the Johnsons
Passion Play – Joni Mitchell
Weight of the World – Neil Codling
A Perfect Indian – Sinéad O'Connor
Souvenir – Bernard Butler
Notuno #2 – Chopin
Meditação – Tom Jobim
Mysteries- Beth Gibbons
Biker – Pretenders
2HB – Roxy Music
I Surrender – David Sylvian
Just out of Reach – Patsy Cline
The Gift – Annie Lennox
Little Bird – Slang
After All – David Bowie
Ce Matin La – Air
The Celts – Enya
A House is Not a Home – Chiara Mastroiani & Benjamin Biolay
Chocolate – Kylie Minogue
Alta Noite – Arnaldo Antunes e Marisa Monte
The Lake – Antony & the Johnsons
Sunny Sunday – Joni Mitchell
Canção Pra Você Viver Mais – Pato Fu
Nostros – Omara Portuondo
Poses – Rufus Wainwright
Goodnight Sweetheart – Rufus Wainwright
Wait Untill Dark – Scott Walker
Sleep the Clock Around – Belle & Sebastian
O Solo da Paixão – Marina Lima
Ai, Garupa – Arnaldo Baptista
Summer – Brett Anderson
Royal Infirmary – Dave Stewart
Cabelos Negros – Eduardo Dussek
Paper Pag – Goldfrap
Love You Like I Do – HIM
Deusa do Amor – Moreno Veloso +2
Amor nas Estrelas – Nara Leão
Säeta – Nico
A Higher Place – Royksopp
Aquarium – Camile Saint Saens
Only Myself to Blame – Scott Walker
Saraband of Dead Lovers – Sex Gang Children
Let Us Glow – Tetine
O Sol – Arnaldo Baptista
Sleeping Pills – Suede
A Warm Place – Nine Inch Nails
Favorita – Roberto de Carvalho

27/05/2010

OS FAMOSOS DUENDES

"Os Famosos e os Duendes da Morte"


Finalmente consegui assistir ao longa de estréia do queridíssimo Esmir Filho. Acompanho seu trabalho há tempos, fui nas seções de seus curtas e o entrevistei no meu falecido programa de web-rádio (Le Kitsch C’est Chic). Mas consegui perder todas as pré-estréias do filme ano passado, e este ano quando estreou eu já havia mudado para o sul, sem possibilidades de assistir. Felizmente o filme teve uma temporada longa e eu ainda consegui pegar um horariozinho de despedida, num rápido pulo que dou em São Paulo.

Esqueça o título (porque eu não vou tentar explicar), o longa mostra o cotidiano de um adolescente no interior do Rio Grande do Sul, com o existencialismo sofrido da idade sublinhado por sua falta de perspectiva local e uma inadequação ideológica, tudo num clima onírico e, por vezes, lúgubre.

O filme é lindo, com uma exuberância plástica que eu já esperava do Esmir Filho. Mas não só isso, os diálogos naturalistas, a excelente direção dos atores (não profissionais, escolhidos na própria cidade, Lageado) e toda a ambientação criam um filme raro, com uma personalidade própria – e que já aponta uma personalidade sólida na obra do Esmir.

Na verdade, o virtuosismo estético é o que acaba pesando – levando por vezes a um tom de cinema-new-age-folk bastante etéreo e cansativo. A parte "objetiva" do filme vem para dar um respiro e contar de fato uma história, mais poética do que os momentos de simbolismo discutivel.


O roteiro é de Ismael Caneppele (também velho conhecido), que tem um papel metafórico no filme, e agora lança a história em livro. Bobagem dizer que é um retrato da juventude de hoje (ou da juventude “emo” – apesar do protagonista, Henrique Larré, ser a cara do Di, do NX Zero! Haha, só eu achei?) ou mesmo da relação da juventude com a internet (como eu vi dizerem por aí), é um filme que fala da inadequação (e da latência) atemporal da adolescência, da fermentação (homo) sexual, e que talvez use ferramentas e estética da adolescência de hoje, mas isso acaba sendo apenas um detalhe técnico no filme; Esmir e Ismael afinal são jovens da minha geração.

E é lindo ver esse novo respiro, essas novas alternativas, um cinema brasileiro realmente novo, a minha geração finalmente chegando ao poder.

Gostei bem.

26/05/2010

MOMENTO PAPARAZZO

Lola Lennox... a filha de Annie Lennox cresceu e virou modelo.

24/05/2010

DORIAN GRAY

Um Dorian discutível...





Eu já gostava de escrever na adolescência. Mas lia os livros obrigatórios, os autores de respeito, os cânones e os vestibulados, e eles não me diziam muita coisa. Preferia ler literatura de horror – Stephen King, Clive Barker, Dean Koontz, até Bram Stoker e Edgar Allan Poe. Mas foi só quando li “O Retrato de Dorian Gray” que pensei: É isso o que eu quero fazer.

“Apenas as pessoas superficiais não julgam pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível, não o invisível” diz Oscar Wilde (na boca de seu alter-ego sórdido Lorde Henry). “Juventude é a única coisa que se vale a pena ter” ou “as mulheres são um sexo decorativo” e “não existe isso de um livro moral ou imoral. Livros são apenas bem ou mal escritos.” Não era preciso avançar muito nas páginas para um adolescente “confuso” se encantar. Até hoje, o humor ácido de Wilde parece sacudir a ditadura do bom gosto e do politicamente correto. Isso é literatura glam.

Então, dia desses vasculhava minha pequena prateleira de livros aqui em Floripa (ainda preciso resgatar mais livros em São Paulo) e resolvi levar “O Retrato de Dorian Gray” para ler enquanto esperava o jantar num restaurante. Apesar de já ter lido em inglês umas três vezes desde a adolescência, ano passado comprei a edição bilíngue da Landmark, e faltava conferir.

Virando as primeiras páginas no restaurante, fiquei chocado. É como se eu estivesse vendo um antigo retrato, meu e da minha literatura, reconheci e relembrei de onde vieram tantas coisas...


É claro que, além da influência que o livro exerceu, havia antes de tudo a identificação. O livro me tocou tão profundamente na adolescência porque já dizia muita coisa que eu acreditava, muita coisa que me inspirava (bem, a começar pelo personagem título, que era, é e sempre foi a minha visão de beleza) e esse, ao meu ver, é o poder mais incrível da literatura. Essa ponte direta entre consciências, universos internos, mostrando que não estamos sós.

Para quem está chegando ao mundo agora, “O Retrato de Dorian Gray” é um romance de 1890 do autor britânico Oscar Wilde, sobre um jovem de beleza absurda, que é enfeitiçado por seu próprio retrato, fazendo um pacto para se manter eternamente belo, enquanto o retrato passa a mostrar não apenas seu envelhecimento, mas a “degradação de sua alma”. Causou certo rebuliço na época (por seu teor “imoral”) mas o grande escândalo veio alguns anos depois, quando Wilde foi condenado por “sodomia”, processado pelo pai de seu amante Lorde Alfred Douglas.

“O Retrato de Dorian Gray” está longe de ser uma obra inteiramente original. É uma recriação do mito de Narciso, e também tem grandes toques de Poe (“O Retrato Oval”). Não é exatamente um romance "maduro", e aí reside grande parte de seu charme. É uma das raras grandes obras de idealização da beleza masculina, talvez o maior romance gay da história (não exatamente explícito, mas praticamente). E infelizmente ainda não teve uma adaptação cinematográfica à altura. Os filmes derivados são todos de gosto duvidoso (mas nenhum Dorian Gray é pior do que o retratado no filme “A Liga Extraordinária”). Pode-se pensar que, por ser uma obra que trata da idealização da beleza, é praticamente impossível personificar Dorian Gray (porque cada um teria a sua visão ideal), mas deve-se lembrar que Luchino Visconti conseguiu trazer lindamente às telas o Tadzio de Thomas Mann, que é praticamente uma versão púbere de Dorian Gray, em sua adaptação de "Morte em Veneza".


Dorian's prequel.


Agora, infelizmente, eu não poderia deixar de falar da minha decepção com a edição da Landmark. A delícia de se ter uma edição bilingue, com textos lado a lado, é poder conferir as soluções encontradas pelo tradutor. Mas colocar o texto original ao lado é um formato arriscado, que exige uma tradução impecável e uma revisão melhor ainda. A edição da Landmark está longe, longe disso. Não apenas tem uma revisão porca (com várias palavas quebradas - como “magni-fica,” “inter-pretam” - e erros gramaticais) mas uma tradução descuidada, com passagens que não fazem sentido ou dizem o oposto do texto original.

“Os caprichos de Dorian são leis para todos, exceto para mim” (o original era “exceto para ele mesmo” - “except himself”)

“Dorian é bem mais sensível.” (foi a tradução para “sensible”, que é sensato).

“Coisas como essas fazem um homem moderno em Paris.” (o correto seria fazem um homem “famoso” ou “popular” em Paris).

E tantas outras coisas erradas ou discutíveis eu encontrei logo no começo do romance (como a tradução frequente de disappointed como “desapontado” - eu preferiria “decepcionado”) que perdi a confiança no texto em português.

Aliás, não recomendo a ninguém ler um texto pela primeira vez numa edição bilíngue (a não ser que você não entenda nada da língua original), porque você entra nessa piração de comparar os textos e não mergulha na história. Isso me acontece também com edições comentadas – como a que eu tenho de “A Crônica da Casa Assassinada”, do Lúcio Cardoso, pela Scipione. Nem a minha edição portuguesa de “A Morte Sem Nome” (com notas de rodapé) eu consigo ler!


(nunca mais deixo colocarem meu nome tão pequeno assim numa capa...)


Enfim, para quem lê em inglês, sempre é melhor ler no original. E geralmente as edições em pocket são mais baratas do que as brasileiras.

Eu iria terminar com a anedota de quando visitei o túmulo de Oscar Wilde no Père Lachaise, em Paris... mas fiquei com preguiça.

22/05/2010

20/05/2010

UMA NOITE NA CIDADE

Bêbados na sarjeta.



Dia desses resolvi sair na noite. Em São Paulo bastava eu colocar o pé pra fora de casa pra entrar na Loca; ia à padaria e entrava por engano no Glória. Mesmo retirado em dois anos de namoro, o Dragão estava sempre lá. Mas tinha pouco sentido sair durante o dia – saía para treinar – e caminhar pela rua Augusta me tornava um animal exótico, um animal poluído.

Bem... por aqui continua sendo exótico caminhar, mas ao menos faz mais sentido.

A noite já é mais complicada. Tudo muito longe. Eu moro ao lado da praia, mas a quilômetros de todo o resto. E a natureza se encarrega de me entreter, a natureza se encarrega de me cansar. A natureza me masturba, me sua e me sangra, sobra pouco a derramar...

Mas dia desses saí na noite. Queridíssimos amigos-leitores me chamavam e já não era hora. É um ritual. E um acontecimento. Requer planejamento e agora resgata uma novidade e uma energia que havia se perdido. Tem uma nova graça.

Dois ônibus aqui de casa. Da Barra para Lagoa, da Lagoa para o centro, pouco mais de uma hora. Não há táxi aqui em casa – pode-se ligar, mas não é certo que venha. Então a gente entra no ritual, saí às dez da noite, e vai vendo o ônibus se enchendo no caminho com as meninas perfumadas, os meninos penteados. Um romantismo que acho que eu não conseguiria ver se fizesse o percurso da Zona Leste de SP à Avenida Paulista...

E a noite é divertida, a noite é divertida. Até mais divertida de se assistir do que de fazer parte. A noite aqui em Florianópolis é razoavelmente grande – maior do que Porto Alegre, me parece. Conseguimos pular de boate em boate. E encontrar o povo perdido, identificar os identificáveis, reencontrar colegas da academia, despidos de disfarces, em novos figurinos...

Divertido. Mas na hora de voltar, foda-se o ritual. Não tenho mais idade de ficar esperando ônibus das seis da manhã. Para voltar, um táxi polpudo é a única solução. Ou carona.

Fora essa noite, os dias continuam longos, mesmo com o sol chegando ao inverno. Agora estamos na época de pesca da tainha. Os surfistas foram interditados. Bem agora que eu ia começar meu Kite-surf. Bem agora que eu achava tudo possível...

É um rotina bem desestressante. Apesar do volume insano que tenho de cumprir nas traduções, é só isso. Tradução, praia, tradução, academia. Sem amores e amigos, sobra muito tempo para ser feliz.

Interessante ver como a cidade muda, de estação em estação, dia a dia, o clima fazendo todo sentido. Eu até me pego quase que diariamente checando a previsão do tempo, veja só, quando fiz isso em São Paulo?

Eu poderia aproveitar isso como inspiração direta para a literatura, mas... já não escrevi sobre isso em O Prédio, o Tédio e o Menino Cego? A influência da ilha tem surgido de outras formas...

Tenho escrito bastante, meu livro de contos. Sei que você pouco se importa – até mesmo minha editora está mais ansiosa pelo juvenil – mas a mim satisfaz. Lembro quando Nina Lemos me falou sobre seu primeiro romance, que ela havia encontrado um novo brinquedo. É exatamente assim que vejo, um brinquedo, mais do que um vício ou trabalho, com o qual posso gastar horas e horas, como videogame, e que, felizmente, recebo por isso.

Dia desses chovia tanto aqui, não dava nem pra sair de casa... E Florianópolis trancado nesta casa não faz o menor sentido. Mas me entretive começando um novo conto. Um novo brinquedo. (Isso porque não trouxe o velho Playstation – estou com uma saudades desgraçada de jogar Symphony of the Night.)

Saudades...

De São Paulo, o que mais tenho saudades é de me vestir decentemente. Aqui agora até faz frio, mas me sinto meio ridículo vestindo blazer, usar gravata pareceria uma fantasia. E cansa andar de tênis e bermuda todo dia...

É uma vida bem desestressante. Mesmo com todas as dificuldades. Difícil morar aqui sem carro – nem CORREIO tem aqui na Barra! O custo de vida é realmente mais baixo – desde o aluguel, a academia, a balada, restaurantes – mas a vida industrializada é mais cara (o chocolate, o champagne, a vodca...); e tem sido sofrido sustentar duas casas (meu apartamento em São Paulo continua montado...) Sorte que meus desvios me impediram de ter uma família.

Aos poucos vou me sentindo mais e mais em casa, cumprimentando conhecidos na rua. Outro dia voltei de um jantar de braço dado com a mocinha da farmácia. Acho que estou conseguindo simular uma vida de verdade. Simular. Não foi isso que fiz anos em São Paulo?


Corridinha na praia, hoje na hora do almoço.

17/05/2010

KAFKA FOR DUMMIES


Além de "Mastigando Humanos," não me faltam textos falando de cobras, jacarés, répteis em geral. Lembrei hoje de um dos primeiros, de anos e anos atrás, acho que meu primeiro conto publicado, inclusive, na revista literária "Ficções", organizar pelo Heitor Ferraz. Hoje acho tolinho-tolinho, mas bonitinho. Da época que eu não assumia (ou não sabia) que fazia literatura pop. Serve como homenagem para o Instituto Butantan.

PÓ DE VIDRO E VENENO DE COBRA

“Hum, cicatriz feia. Piercing?” Foi. Mas havia algo mais. E por isso é que eu pedia para o doutor examinar. Não via nada além, uma película, uma membrana, algo que lembrasse um órgão estranho?

“Não, acho que não...” e ele me deixou com receita de Bepantol.

Eu caminhei de volta para casa sentindo todos os calafrios e arrepios que sentira desde aquela manhã de segunda. Desde quando olhara no espelho e notara um terceiro orifício, pouco acima da minha narina esquerda, onde antes havia apenas uma esquecida cicatriz.

Acordara perturbado, fritando na cama. Levantei-me para o banheiro, olhei no espelho, procurando sequelas. Lembrei-me da noite anterior, a ressaca não me faria esquecer. Lembrei das coisas horríveis que eu dissera e fizera, e que naquela manhã apareciam como um furo a mais em meu nariz. Uma terceira narina.

Será que não esteve sempre lá? Será que não estivera lá desde quando eu decidi furar o meu nariz? Coisa de adolescente. Uma argola. Depois de abandonada, nunca mais pensei no assunto. O furo quase se fechara, quase. E então abrira novamente, como um crime reincidente.

Refleti na frente do espelho. E, naquele momento, senti o primeiro arrepio. Passava pela espinha. Pela minha narina. Mas vinha dos canos. Sentia a água que descia lá de cima, da caixa d’água, passando por todos os apartamentos, prestes a escorrer pelo ralo. Ela esperava por mim, com a torneira fechada. Eu podia sentir seu frescor. Podia sentir como estava gelada, antes mesmo de entrar em contato com a minha pele. Eu sentia o frio da água.

Abri a torneira e constatei. Lavei o rosto. As minhas narinas. Fechei a torneira e senti a brisa. A brisa que vinha da sala me chamava.

Eu podia fechar as janelas, as torneiras, o registro. Podia me enrolar nas cobertas, embaixo da cama, no chuveiro. Ainda sentiria todo o clima externo circulando pelas minhas veias. Sentiria o frio penetrando pela minha nova narina.

Durante o dia inteiro trabalhei assim. Achando que era apenas o clima, a gripe, talvez, um resfriado. Trabalhei o dia inteiro com calafrios pela espinha, suores na testa, algo estranho que se passava comigo. Quando a noite chegou, olhei novamente no espelho. E tive certeza do que era aquela narina: uma fosseta loreal.

Sim, como as serpentes, eu podia sentir. Eu podia sentir cada mínima variação de calor, graças à terceira narina que se abrira no meu rosto. Era para isso que servia. Para enxergar sem luz, para sentir sem o tato, para escutar sem som. Um sexto sentido, se abrindo em meu rosto, como cicatriz.

De onde veio? Eu não tinha a menor dúvida. Da noite anterior, do pó, da cocaína. Abrira aquela fenda em meu nariz, perturbara todos os meus sentidos. Sempre soube dos efeitos colaterais, mas nunca esperei que fossem como esse. Animalizando-me. Transformando-me num réptil. Era um castigo divino realmente, para me lembrar de meus pecados. A serpente na Terra, no meu corpo, oferecendo-me o conhecimento. Um sentido a mais em minha vida, expulsando-me do conforto de meus 36oC.

Pois a noite inteira eu sentia os carros que passavam pela rua. Esquentavam-me os seus motores mais do que me despertavam os seus ruídos. Até os ratos dentro dos bueiros. Até o calor dos minutos passando no rádio relógio.

Mas poderia ir além, eu sei. Conhecia muito bem daquele assunto. As fossetas loreais só estão presentes nas serpentes peçonhentas. Peçonhentas. Venenosas. Quem sabe também não seria eu? Bastava eu morder a língua. Bastava eu falar mal. Bem sei quantas besteiras eu disse - oh! - naquela exata noite anterior. Bem sei quanto veneno destilei. A fosseta poderia ser o primeiro passo, para em breve eu me arrastar...

Mas ainda podia ser racional. Antes de culpar Deus e o Velho Testamento. Antes de me perder de vez em meus tormentos. Poderia tentar descobrir motivos objetivos que me deixaram daquela forma. Sim, pois eu também sabia o que misturavam à cocaína. Eu bem sabia o risco que corria. Veneno de rato e pó de vidro. Bicarbonato de sódio e lidocaína. De onde vem tudo isso? De farmácias, laboratórios. Quem sabe sintetizado das mãos de um herpetólogo? Num becker sujo, com veneno de cobra. Num espelho antigo, com antigas escamas. Foi assim que eu me contaminei. Foi assim que eu me transformei. Ninguém nunca soube o efeito das drogas misturadas ao veneno de cobra. Mas eu descobri.

E novamente me olhei no espelho sentindo os canos d’água chamarem por mim.
Outra coisa também poderia ser. Neurônios queimados. Apenas o efeito psicológico em meu cérebro, me fazendo acreditar que sim. Me fazendo acreditar numa fosseta, quando havia apenas uma cicatriz. Tirando a minha razão e me fazendo agir como um animal. Uma serpente. Pronta para pular sobre o traficante. Sentindo de longe ele suando frio. Pulando em sua garganta e dando o beijo da morte. Tomando de volta o que era meu.

Ainda efeito da ressaca. Eu dormiria e tudo seria esquecido. Eu acordaria e tudo estaria cicatrizado. E nunca mais tomaria drogas. Nunca mais cometeria pecados. Nunca mais teria vontades, nem visitaria o Instituto Butantan. Seria um bom menino, mamífero. Ouviria a minha mãe.

Só que nada mudou, veja só. Hoje já é quarta, e a fosseta continua lá. Estudei mais sobre o assunto. Me aprofundei ainda mais em meu nariz. Deveriam ser duas, uma de cada lado, mas não é assim comigo. Eu deveria ser animal noturno, caçador, mas quem sabe não sou? Também deveria eu ser pecilotérmico, com sangue frio, para não ser contaminado por minha própria temperatura. Talvez seja isso o que causa minha maior confusão. Talvez seja isso que cause o frio na espinha. O fato de que eu sinto as temperaturas externas em comparação com a minha própria. E talvez seja isso que me cause essa febre, hipotermia, febre, hipotermia...

Ah, como vou seguir com isso no dia-a-dia? Como venho seguindo desde segunda-feira, você me pergunta, mas não há grande revelação. Já fui ao médico e ele não entende o meu drama. Ninguém me levou a sério no Instituto Butantan. Meus amigos apontam minha espinha, uma verruga, desmontariam em gargalhadas escaldantes, se eu mencionasse a palavra “fosseta”.
A verdade é que esse sentido em seres civilizados não tem nenhuma serventia. Eu não passo de mais um viciado tremendo pelas ruas. Passo como em crise de abstinência, morrendo de medo da próxima brisa. Talvez me falte um furo a mais para direcionar. Talvez falte experiência. Mas, sinceramente, eu não sei o que fazer com essa fosseta. Quem sabe uma gripe para obstruí-la?

Como lucrar com minha fosseta?

Eu poderia fiscalizar os produtos nos supermercados, se estão bem acondicionados, se os freezers estão funcionando. Poderia determinar períodos de fertilidade, quando as mulheres elevassem suas temperaturas. Eu poderia trabalhar em hospitais, nas piscinas de clubes, em firmas de ar-condicionado. Eu poderia ser um Deus entre inuítes, mas escolhi ser escritor! Escritor! Escritor!

E é por isso que essa condição ofídica só envenena minha própria arte. Veja só, meu amor, estou aqui há mais de vinte parágrafos tentando expressar meu drama. Estou há meses esperando por essa oportunidade e tudo o que posso lhe contar é uma história absurda sobre minhas próprias narinas! O que foi feito da minha veia romântica? O que foi feito do meu cinismo oliviano?

Comecei este texto mesmo com a palavra “piercing”, na primeira linha. Quanto falta para ser
intoxicado de vez pela literatura pop? Nem consigo mais passar o calor de um amor em meus texto. Não posso fazê-lo vibrar pelo vento de uma história. Afinal, é esse meu estado irracional, que chamam de pós-modernismo. E é esse veneno que hoje também sou capaz de destilar.
Mas já tenho a solução. Pode chamá-la de Ficção. É tudo o que eu pude fazer, e não deixe de ser um relato exótico, bem próprio dos jovens escritores, como eu. Sinto muito se lhe dei outras esperanças. Talvez eu não devesse ter insistido tanto naquele último domingo. Mas foi a cocaína.

Veneno. Ela me fez acreditar...

Então agora é só largar o teclado e investir numa nova carreira. À minha frente, vou descobrir aonde ela pode me levar. Quem sabe não decido mesmo ir cuidar das piscinas? Quem sabe não decido ir viajar. De repente, se abre uma nova fosseta, dessa vez em estéreo, e eu poderei me direcionar para algo mais quente, consistente, poderei mergulhar? O importante é descansar esses dedos, meu amor, e parar de insistir. Sou apenas mais um réptil peçonhento. É melhor que eu aprenda a rastejar.

15/05/2010

LUTO

Do site da Band:

O maior acervo de cobras do país e um dos maiores do mundo foi destruído pelo incêndio que atingiu o Instituto Butantan, na zona oeste de São Paulo, na manhã deste sábado. O fogo atingiu o laboratório, que continha cerca de 70 mil animais venenosos, como cobras, aranhas e escorpiões.

O Corpo de Bombeiros enviou nove viaturas para conter o fogo no local. Felizmente, o prédio estava vazio no momento do incêndio.

Segundo informações da Defesa Civil, o prédio ficou seriamente avariado pelo fogo, muito mais destrutivo do que pareceu à primeira vista, e pode ser condenado. “A estrutura está muito danificada e acho muito difícil que ele possa ser recuperada. Vamos fazer uma verificação mais aprofundada assim que forem encerrados os trabalhos de rescaldo”, afirmou o assessor executivo da coordenadoria distrital do órgão, Osório Hernandes de Oliveira.

Oliveira confirmou que nenhuma pessoa foi atingida pelo incêndio, mas as espécies foram totalmente destruídas. “Os pesquisadores estão muito abatidos. Foi uma perda irreparável”, afirmou.

Redação: Fábio Mendes



Sério, quase chorei. Mas...


O local destruído pelo fogo guardava sobretudo serpentes. Os espécimes eram conservados dentro de tubos de vidro com álcool ou formol. Na coleção, que era usada por biólogos e alunos de medicina para estudo, havia espécimes antigos que serviam para estudo de filogenia --a história evolutiva de uma espécie.

(esse último parágrafo é da Folha Online, depois que fui pesquisar melhor).

Vai se foder! Eu estava crente que o fogo tinha fritado os animais vivos! Aliás, ainda não está muito claro para mim se animais vivos não queimaram também. Aula de jornalismo leviano. E antes que venham me falar que "Museu" não abriga animais vivos, lembro que o nome daquele serpentário do Butantan onde o público pode ver os animais é exatamente "Museu Biológico." Fui criado lá.

12/05/2010

"BOG" DE ANIVERSÁRIO



Minha festa.


Este aniversário passei sozinho, sem amigos e sem amor, ninguém veio me visitar. Mas ao sair de casa encontrei uma bexiga vermelha na rua... e vi que Papai do Céu ainda lembra de mim.

Foi um dia como todos os outros, claro, trabalhei, almocei frango com abóbora, fui pra academia. Mas na volta, resolvi cortar caminho da Lagoa pelas dunas da Joaquina...


Acabei horas perdido num lamaçal, contornando riachos, lagos, pântanos, tentando sair do outro lado das dunas sem molhar o pézinho. Molhei o pézinho. Em certo momento estava literalmente afundando o pé na lama, e embora eu ainda tivesse certo receio de tomar uma picada de cobra, achei que não haveria melhor forma de passar o aniversário... ou morrer.

Sintomático...


Infelizmente não levei máquina, mas certa hora lembrei que meu Ipod gravava vídeos. Fiz vários vídeos... que saíram todos de ponta cabeça. Fica então a foto lá de cima das dunas - com vista para o pântano - que tirei alguns finais de semana atrás. E esta de baixo, que peguei do Google Earth, dá uma boa ideia do que eu passei:

http://www.panoramio.com/photo/20615972 (os pântanos lá atrás, e depois um pouco o que foi preciso escalar)


De noite jantei com minha familinha verde, voltei pra casa cedo, e me preparei para o vestibular do Nosso Senhor.


33, agora.

10/05/2010

O AMOR COMEÇA NO INVERNO

Imagine uma cidade coberta de neve. Ninguém nas ruas. Completo silêncio. Você vaga só, com as mãos nos bolsos, atravessando as nuvens de sua própria respiração. Mas você não está sozinho. Pois na neve pode ver outras pegadas, de outras vidas, rastros de bicicleta seguindo no mesmo caminho, mesmo que você ainda não saiba exatamente para onde está indo. E através de uma janela aberta, uma luz acesa, você pode espiar vidas alheias. Você percebe a delicadeza de encontros silenciosos; um aceno, um adeus, uma palavra escrita num vidro embaçado.

Bem vindo ao suave reino de Simon Van Booy, o jovem autor britânico que nos revelou A Vida Secreta dos Apaixonados agora nos traz cinco pequenas novelas de lirismo e nostalgia, onde mesmo nos cenários mais congelados sempre há esperança, e o amor serve para iluminar novos caminhos. Se é verdade que não há arte sem conflito, Van Booy existe para provar que doçura e suavidade podem ser as armas mais poderosas em campos íntimos de batalha. O Amor Começa no Inverno é o aconchego de que estamos precisando. E é literatura das mais poderosas.


Orelha que assinei para o segundo livro do britânico Simon Van Booy, que sai este mês pela Arx/Saraiva. Sem querer fazer média, e já fazendo, a Saraiva vem lançando coisas bem interessantes, e eu tenho traduzido direto para eles, inclusive o livro de estréia de Van Booy ("A Vida Secreta dos Apaixonados," lançado ano passado) e a biografia do Bowie (que sai nos próximos meses).

Aproveito para atualizar minha lista de livros traduzidos. Nem todos eu gosto, e muitos deles eu traduziria melhor hoje... e traduziria ainda melhor amanhã. Mas essa é a graça da coisa, o aprendizado constante (fora pagar minhas contas).

Alguns ainda estão por sair. Vão aí, em ordem mais ou menos cronológica:

- Metrossexual, Guia de estilo - Michael Flocker (Planeta)
- Quando Eu Era o Tal - Sam Kashner (Planeta)
- Fan Tan - Marlon Brandon, Donald Cammel (Nova Fronteira)
- Maldito Coração - J.T. Leroy (Geração Editorial)
- Rosa - Gus Van Sant (Geração Editorial)
- Alguma Coisa Invisível - Siobhan Parkinson (Nova Fronteira)
- O Violino Voador - Siobhan Parkinson (Nova Fronteira)
- Este Livro Vai Salvar Sua vida - A. M. Homes (Nova Fronteira)
- Os Filhos do Imperador - Claire Messud (Nova Fronteira)
- Pão de Mel - Rachel Cohn (Record)
- Siri - Rachel Cohn (Record)
- O Sonâmbulo - Jonathan Barnes (Mercuryo)
-Moby Dick/Oliver Twist/ Raptado/ O Corcunda de Notre Dame/ Viagem ao Centro da Terra (série de quadrinhos para a Ibep)
- Dizem que Sou Louco - George Haar (Ática)
- Cacos de Vida - Sally Grindley (Ática)
- A Vida Secreta dos Apaixonados - Simon Van Booy (Saraiva/Arx)
- Príncipe de Histórias, Os Vários Mundos de Neil Gaiman - (Geração Editorial)
- Você Sabe Onde me Achar - Rachel Cohn (Record)
- O Amor Começa no Inverno - Simon Van Booy (Saraiva/Arx)
- Hater - David Moody (Saraiva/Arx)
- Noturno de Havana - T. J. English (Cultrix)
- Emily, a Estranha - (anônimo) (Record)
- Bowie - Uma Biografia (Saraiva/Arx)
- A Menina dos Pés de Vidro - Ali Shaw (Leya)
- O Ladrão de Crianças - Brom (Saraiva/Arx)

09/05/2010

FREDDY FOREVER
Cruzamento de Elza Soares com Homem-cobra.

No final dos anos 80, Silvio Santos já estava surtado e deixou o SBT numa tela estática com uma imagem de Freddy Krueger e o letreiro: “Daqui a pouco, depois da novela das oito: A Hora do Pesadelo.” O canal ficava com a programação congelada, até a novela terminar na Globo e eles começarem o "Cinema em Casa". Eu ainda era moleque, e esperei ansiosamente pelo filme na casa do meu amigo Frederico, que assistiu de olhos tapados. Assim começou uma paixão que dura até hoje... por Freddy Krueger.


Freddy 2010



Fui ver hoje em Porto Alegre o remake (e arrestei Filipe Catto comigo). Estava preparado para detonar, principalmente porque o remake do Sexta-feira 13 foi uma bomba. Pelo diretor ser um estreante diretor de videoclipes (Samuel Bayer). E acho bem cara de pau essa tendência de se fazer quinze sequências, depois começar tudo de novo. Mas não é que GOSTEI do novo A Hora do Pesadelo? Não bate o primeiro (até por razões sentimentais), mas com certeza é o segundo melhor da série.

Agora Freddy Krueger é um jardineiro pedófilo que abusava de criancinhas de uma escola. Quando as crianças contaram aos pais, ele foi perseguido e queimado vivo. Acaba voltando dos mortos anos depois, nos sonhos das crianças que já adolesceram, para se vingar das caguetas. Essa nova versão do Freddy tem um rosto queimado mais realista, o que o deixa como uma espécie de Elza Soares do além. Eu já tinha visto no trailer e não tinha gostado, mas funciona bem no filme, até porque ele fica a maior parte do tempo nas sombras. E a diferença não é só essa, Freddy está menos pimpão, é um monstro rancoroso e irritado, não fica fazendo piadinhas e dando risinhos. É mais terror. Ele também tem poderes limitados, usando sua luva com facas para cometer os assassinatos (o que havia se perdido na série; num dos filmes ele até já chegou a transformar uma menina numa barata e esmagá-la).

Mas o filme não é uma maravilha, claro. Continua sendo um filme B (como já era o original) e tem um roteiro bastante remendado. O argumento é bacana, o Freddy novo é bacana (Jackie Earle Haley), mas as vítimas são um bando de coiós e o filme não sabe muito bem para onde vai. É pesadelo, despertar, pesadelo, despertar. O original tinha um roteiro mais redondinho, um elenco mais cativante (ninguém se lembra de que JOHNNY DEPP, em seu primeiro papel, era o namorado da protagonista?). O ator que faz o Freddy é bem convincente, mas achei certo desrespeito não reaproveitar Robert Englund (que fez todos os outros filmes). Ouvi dizer que ele estava velho pro papel, mas... alguém pode ficar velho demais pra interpretar Freddy Krueger? E mesmo a intenção sendo dar um novo tom para o personagem, acho que Englund faria bem feito. Aliás, ele já havia feito isso no Pesadelo 7 (que é o terceiro melhor, logo depois desse remake).

O Freddy "romântico" de 1994.


Enfim, longe de ser um grande filme, nem sendo um grande filme de terror, é uma ótima revitalização da franquia.

Eu tenho todos. Comprei há alguns anos a caixa completa (que ainda vêm com um DVD bônus, uma espécie de jogo de labirinto onde você vai descobrindo vários extras, entrevistas, making off.) Então aproveito e te conto filme por filme.



Johnny Depp, quando era um petizinho ingênuo.


A HORA DO PESADELO (1984): O filme que deu origem a tudo, que assisti na casa do Frederico. Ainda é o melhor, claro, é o original. Dia desses revi com os comentários em áudio do diretor Wes Craven com os atores. Eles levam um pouco a sério demais o filme, mas afinal, é um clássico...

Freddy for sissies.

A HORA DO PESADELO 2 (1985) – A VINGANÇA DE FREDDY: É um filme gay! Sério! Um rapaz tem estranhos pesadelos com um “homem maligno que quer possuir o corpo dele” (Freddy). Acorda de madrugada e vai pra uma boate gay. Foge da namorada e vai dormir na casa do amigo gostosão. São tantas referências gays no filme que é impossível ser só minha mente viciada... Ainda assim, o filme é uma bosta.

A HORA DO PESADELO 3 (1987) – GUERREIROS DO SONHO: Esse é bacaninha. Nancy (Heather Langekamp), a protagonista do primeiro volta, já adulta, para ajudar como terapeuta um grupo de jovens que está tendo pesadelos com Freddy. É cheio de efeitos mirabolantes e Freddy aí começa a virar o fanfarrão que nós conhecemos. Mas é divertido.

La cucaracha.

A HORA DO PESADELO 4 (1988) – O MESTRE DOS SONHOS: Não tem história. É basicamente pesadelo atrás de pesadelo e Freddy matando o povo das maneiras mais esdrúxulas (a cena da barata está aí). Provavelmente é o pior de todos.


A HORA DO PESADELO 5 – O MAIOR HORROR DE FREDDY (1989): Esse tem uma história bem bizonha de uma menina grávida com o feto sendo possuído por Freddy (!), mas tem uma direção de arte gótica bem bonita. E foi o primeiro que pude ver no cinema.




A MORTE DE FREDDY: O ÚLTIMO PESADELO (1991). Freddy está em pimpão mode máximo aqui, é praticamente um filme de comédia, mas é divertidinho. E tem aqueles quinze minutos finais no 3D tosco da época. O DVD vem com o óculos e tem o efeito, tão tosco quanto no cinema.

NOVO PESADELO: A VOLTA DE FREDDY KRUEGER (1994). Wes Craven, diretor do original, voltou à franquia e criou essa nova versão, onde Freddy Krueger é uma espécie de demônio assombrando atores e produtores que participaram dos filmes. Foi um exercício em metalinguagem que ele aperfeiçoaria em Pânico (talvez seu melhor filme?) e funciona razoavelmente bem. Freddy aqui é mais creepy, menos brincalhão, e acaba sendo uma grande homenagem ao filme original. Coisa para os fãs.


Não poderia sair coisa boa daí.

FREDDY VERSUS JASON (2003). Traaaaaaaaaash total. O filme que esperei minha adolescência toda para ver. Tem um roteiro tão tosco, tão absurdo, que fica bem divertido.


Englund, o velho e bom Freddy.

Nos anos 90 também havia uma série de TV (Freddy's Nightmares), mas não era muito boa. Era uma espécie de “Além da Imaginação” centrada em sonhos, e Freddy aparecia quase sempre apenas como mestre de cerimônias apresentando as histórias.


Freddy em 8-Bits (o jogo era merda).



Para encerrar, preciso dizer que eu era tão fã de Freddy Krueger que tinha a máscara, a luva, o boneco, o jogo de Nintendo, revistas, livros e as trilhas sonoras. Também cheguei a ir na redação da Fangoria (a maior revista especializada em filmes de terror) em Nova York, aos quinze anos, para comprar mais revistas e merchandising da franquia. Nerd é pouco.

Freddy estará sempre em meu coração.

"Freddy Cookies", minha obra prima.




Observação: Milagres da tecnologia. Escrevi e publiquei este post literalmente na estrada, no ônibus de Porto Alegre pra Florianópolis, conectado no meu laptop com Vivo 3G (merchandising espontâneo esperando crédito em conta).

05/05/2010

"SANGRANDO ATÉ ENLOUQUECER..."


Nesta quinta, em Porto Alegre. Eu vou.

COMEMORAÇÕES

Fim de semana em Maresias.  A neve enfim chegou. Semana mais fria do ano no Brasil coincidiu com a publicação de meu nono livro, Nev...