24/05/2010

DORIAN GRAY

Um Dorian discutível...





Eu já gostava de escrever na adolescência. Mas lia os livros obrigatórios, os autores de respeito, os cânones e os vestibulados, e eles não me diziam muita coisa. Preferia ler literatura de horror – Stephen King, Clive Barker, Dean Koontz, até Bram Stoker e Edgar Allan Poe. Mas foi só quando li “O Retrato de Dorian Gray” que pensei: É isso o que eu quero fazer.

“Apenas as pessoas superficiais não julgam pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível, não o invisível” diz Oscar Wilde (na boca de seu alter-ego sórdido Lorde Henry). “Juventude é a única coisa que se vale a pena ter” ou “as mulheres são um sexo decorativo” e “não existe isso de um livro moral ou imoral. Livros são apenas bem ou mal escritos.” Não era preciso avançar muito nas páginas para um adolescente “confuso” se encantar. Até hoje, o humor ácido de Wilde parece sacudir a ditadura do bom gosto e do politicamente correto. Isso é literatura glam.

Então, dia desses vasculhava minha pequena prateleira de livros aqui em Floripa (ainda preciso resgatar mais livros em São Paulo) e resolvi levar “O Retrato de Dorian Gray” para ler enquanto esperava o jantar num restaurante. Apesar de já ter lido em inglês umas três vezes desde a adolescência, ano passado comprei a edição bilíngue da Landmark, e faltava conferir.

Virando as primeiras páginas no restaurante, fiquei chocado. É como se eu estivesse vendo um antigo retrato, meu e da minha literatura, reconheci e relembrei de onde vieram tantas coisas...


É claro que, além da influência que o livro exerceu, havia antes de tudo a identificação. O livro me tocou tão profundamente na adolescência porque já dizia muita coisa que eu acreditava, muita coisa que me inspirava (bem, a começar pelo personagem título, que era, é e sempre foi a minha visão de beleza) e esse, ao meu ver, é o poder mais incrível da literatura. Essa ponte direta entre consciências, universos internos, mostrando que não estamos sós.

Para quem está chegando ao mundo agora, “O Retrato de Dorian Gray” é um romance de 1890 do autor britânico Oscar Wilde, sobre um jovem de beleza absurda, que é enfeitiçado por seu próprio retrato, fazendo um pacto para se manter eternamente belo, enquanto o retrato passa a mostrar não apenas seu envelhecimento, mas a “degradação de sua alma”. Causou certo rebuliço na época (por seu teor “imoral”) mas o grande escândalo veio alguns anos depois, quando Wilde foi condenado por “sodomia”, processado pelo pai de seu amante Lorde Alfred Douglas.

“O Retrato de Dorian Gray” está longe de ser uma obra inteiramente original. É uma recriação do mito de Narciso, e também tem grandes toques de Poe (“O Retrato Oval”). Não é exatamente um romance "maduro", e aí reside grande parte de seu charme. É uma das raras grandes obras de idealização da beleza masculina, talvez o maior romance gay da história (não exatamente explícito, mas praticamente). E infelizmente ainda não teve uma adaptação cinematográfica à altura. Os filmes derivados são todos de gosto duvidoso (mas nenhum Dorian Gray é pior do que o retratado no filme “A Liga Extraordinária”). Pode-se pensar que, por ser uma obra que trata da idealização da beleza, é praticamente impossível personificar Dorian Gray (porque cada um teria a sua visão ideal), mas deve-se lembrar que Luchino Visconti conseguiu trazer lindamente às telas o Tadzio de Thomas Mann, que é praticamente uma versão púbere de Dorian Gray, em sua adaptação de "Morte em Veneza".


Dorian's prequel.


Agora, infelizmente, eu não poderia deixar de falar da minha decepção com a edição da Landmark. A delícia de se ter uma edição bilingue, com textos lado a lado, é poder conferir as soluções encontradas pelo tradutor. Mas colocar o texto original ao lado é um formato arriscado, que exige uma tradução impecável e uma revisão melhor ainda. A edição da Landmark está longe, longe disso. Não apenas tem uma revisão porca (com várias palavas quebradas - como “magni-fica,” “inter-pretam” - e erros gramaticais) mas uma tradução descuidada, com passagens que não fazem sentido ou dizem o oposto do texto original.

“Os caprichos de Dorian são leis para todos, exceto para mim” (o original era “exceto para ele mesmo” - “except himself”)

“Dorian é bem mais sensível.” (foi a tradução para “sensible”, que é sensato).

“Coisas como essas fazem um homem moderno em Paris.” (o correto seria fazem um homem “famoso” ou “popular” em Paris).

E tantas outras coisas erradas ou discutíveis eu encontrei logo no começo do romance (como a tradução frequente de disappointed como “desapontado” - eu preferiria “decepcionado”) que perdi a confiança no texto em português.

Aliás, não recomendo a ninguém ler um texto pela primeira vez numa edição bilíngue (a não ser que você não entenda nada da língua original), porque você entra nessa piração de comparar os textos e não mergulha na história. Isso me acontece também com edições comentadas – como a que eu tenho de “A Crônica da Casa Assassinada”, do Lúcio Cardoso, pela Scipione. Nem a minha edição portuguesa de “A Morte Sem Nome” (com notas de rodapé) eu consigo ler!


(nunca mais deixo colocarem meu nome tão pequeno assim numa capa...)


Enfim, para quem lê em inglês, sempre é melhor ler no original. E geralmente as edições em pocket são mais baratas do que as brasileiras.

Eu iria terminar com a anedota de quando visitei o túmulo de Oscar Wilde no Père Lachaise, em Paris... mas fiquei com preguiça.

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