29/06/2011

HEMINGWAY FOR DUMMIES



A ilha no inverno.


No inverno passado, após uma nababesca passagem pela Espanha, eu voltei para Florianópolis, para minha casinha de veraneio, de azulejos, onde o vento passava pelas frestas da porta de alumínio e minha respiração nublava-se mesmo dentro no quarto. Me senti mais ou menos na fábula de "A Cigarra e a Formiga," com todos trancadinhos em suas casas, aos pares, em seus afazeres, e eu solitário por um verão de devassidão...



Minha ilha nublada por suspiros.



Foi nesse clima de frio e chuva que comecei a escrever "O Velho e o Mato", um dos contos de PORNOFANTASMA. É a história do livro que mais reflete minha temporada em Florianópolis, sem dúvida. Tirei o cenário de lá, a estrada da Barra, a trilha para a Praia Mole e aquele sentimento de "todos estão se divertindo menos eu" (tous les garçons et les filles...), "meu tempo passou", "estou fora de forma", "só restam minhas culpas..."


Tudo isso exacerbado pela magia da literatura, oh!


A centelha inicial veio de O Velho e o Mar de Hemingway, é claro, queria esse tom de fábula clássica, o velho contra o peixe, contra a natureza, mas no meu conto o embate tem um desfecho bem mais pessimista, o velho contra o mato. Tem também algo de "O Caminho do Cemitério", conto seminal de Thomas Mann, de um velho subindo a estrada. E quando me veio uma breve frase com tom clássico de fábula, eu sabia que já tinha um conto: "Um velho subia a estrada."


Um velho subia a estrada. Bêbado, um pouco manco, tentava não cambalear e não sair do acostamento. Os carros passavam ligeiros e ele era quase invisível naquelas sombras, naquela hora. Era noite, nem tão tarde, mas agora no outono o dia acabava mais cedo e, para quem vivia na praia, a madrugada era um animal furtivo, que só se alimentava quando todos já estavam dormindo.


Desenvolvi a história como um conto de terror. O embate do velho com a natureza, a natureza como uma força maligna me remeteu a Evil Dead e a Anticristo, de Lars Von Trier (que afinal tem muito de Evil Dead e muito de O Iluminado), a fuga pela trilha tem algo de The Legend of Sleepy Hollow (o desenho da Disney, baseado no conto de Washington Irving - que agora estou traduzindo, veja só - que é um clássico da minha infância e que volta à minha mente sempre que me encontro no mato de noite... e não me pergunte o que faço no mato de noite!). E tudo isso se encaixava perfeitamente no existencialismo bizarro do livro. O velho não tão velho, não tão tarde, no outono de sua vida, com a natureza em seu encalço, fazendo-o apertar o passo, querendo puxá-lo para baixo...

Tudo isso deu mais um pornô fantasma.

Florianópolis + A Cigarra e a Formiga + Tous les Garçons et les Filles + O Velho e o Mar + O Caminho do Cemitério+ Evil Dead + Anticristo + The Legend of Sleepy Hollow = O Velho e o Mato.

Devo estar esquecendo de alguma referência...

(talvez aquela música... "Mata o velho, mata o velho...")


Bing Crosby se revirando no túmulo.


E isso é apenas mais um da série de merchandisings disfarçados de post, para fazer você finalmente comprar PORNOFANTASMA e descobrir o que acontece com o velho.


O velho tentava se desvincilhar das plantas. Sentia como se a vegetação agarrasse seus braços, prendesse suas pernas, queria puxá-lo ao chão, para debaixo da terra. O velho se debateu e debateu- se contra a ideia de que o mato de fato estava vivo, e contra ele. “Mas o mato está vivo! E contra mim!” O velho levantou debatendo-se, não se importando com os espinhos que cortavam sua carne, cipós torcendo seu pulso, galhos abrindo seu supercílio; ele ficou de pé.


Eu, na trilha do verão passado; nostalgia de mim mesmo...

COMEMORAÇÕES

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