06/06/2011

SCOTT WALKER E OS ZUMBIS



Eu deveria tentar sobreviver. Ao invés disso, estou ouvindo discos do Scott Walker enquanto meu som ainda tem pilhas; bebendo vodca pura enquanto ainda há vodca; ignorando a situação do país, a crise em geral e os milhares de livros que forram essas prateleiras, que eu nunca li, nunca lerei e provavelmente logo estarão perdidos para sempre, sem herdeiros ou mesmo um sebo que os resgate, leitores que os justifique....Apocalipse Silencioso @ PORNOFANTASMA


Estou eu nesta noite fria, ouvindo Scott Walker, sem um sebo que me justifique, pensando que, se eu tenho uma missão neste mundo, deveria fazer chegar a você Scott Walker, e todo um apocalipse musical.

Scott Walker é um cantor americano, mas que só se tornou popular na Inglaterra; inicialmente cantando standards como ídolo teen; depois no grupo vocal Walker Brothers, em meados dos anos sessenta; e seguindo posteriormente uma carreira solo que dura até hoje, apesar de lançar álbuns em intervalos de décadas.

Os Walkers Brothers tiveram um sucesso razoável, mas a carreira solo dele nunca teve muita repercussão, em parte por seu repertorio difícil. Ele começou de forma mais palatável, tentando mesclar standards com versões em inglês das músicas de Jacque Brell. Mas suas aspirações como compositor vinham contra sua própria voz, minando sua vocação de crooner com um repertório esquisito, que misturava releituras de Bergman ("The Seventh Seal") com faixas experimentais, o que o deixou sem gravar por anos e anos.

Suas últimas experiências fonográficas são tão espaçadas que podemos dizer que seu disco de 95, Tilt, e de 2006, Drift, são da mesma fase. Ambos sem melodias, experimentais, extremamente estranhos, mas ainda com coisas lindíssimas, que são mais valorizadas por quem conhece o Scott Walker dos anos 60, quem sabe do que ele é capaz como crooner e renunciou. Uma voz absurda, que não se curvou a um repertório fácil. A faixa que abre este post é dessa fase.


Em 2006, foi lançado o documentário 30th Century Man, sobre vida e obra de Scott Walker, com entrevistas de diversos artistas que foram influenciados por ele, como David Bowie, Jarvis Cocker, Damon Albarn, Brian Eno e Sting. Imperdível para os fãs, ainda que não acrescente muito ao mito e mistério de Scott Walker.


No meu “Apocalipse Silencioso” o personagem está trancado no apartamento, ouvindo Scott Walker, discutindo a relação com a namorada, sem poder sair de casa porque o mundo lá fora foi tomado por zumbis. A ideia original era escrever uma peça de teatro, mas achei mais fácil colocar no papel como conto. E se fosse para indicar uma música do Scott para a peça, seria “In my Room”, dos Walker Brothers, melodramática até o osso.

O conto foi escrito especialmente para o PORNOFANTASMA, mas acabou sendo publicado antes em espanhol na antologia Brasil 90-00, organizada pelo Nelson de Oliveira e lançada no Peru, na Feira do Livro de Lima de 2009, onde eu fui um dos convidados. Nesse evento conheci inclusive meu editor peruano, Álvaro Lasso, que comprou os direitos de Mastigando Humanos para lá. Mastigando também foi vendido para a Itália e agora Espanha. É meu jacarezinho ganhando o mundo.

Para terminar, Scott em grande forma, cantando uma de suas versões para um clássico de Jacque Brell, "Jackie".


PRÉ-PÓS-URBANO

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