14/07/2011

A FLIP CONTINUA...



Lançamento neste domingo, Vila da Lorena.

Dizem que sentimentos guardados por muito tempo podem gerar doenças. Mas quem sabe também não podem gerar grande literatura? Os monstros guardados de Rafael Primot são isso, doença da pior estirpe, literatura da melhor espécie. Em onze contos que se dividem e se completam, parecemos ver diferentes máscaras de um mesmo autor, de um mesmo ator, de um mesmo monstro que se esconde em personagens cotidianos, e se revela em perversões comuns a todos nós. Podem ser velhos, crianças, pedófilos e operadores de telemarketing. Vivem perversões sexuais, sociais e gastronômicas. Na justiceira de “Benfazeja”, no misofóbico corneado de “Pequenos Viventes” ou no masoquista de “Flor Azul-Marinho”, encontramos aquele monstro tão identificável, que vive sempre por perto, mas que tentamos sufocar em nós mesmos. O Livro dos Monstros Guardados foi originalmente escrito e montado para o teatro, trazendo o Prêmio Shell a seu autor. Agora Primot faz sua estreia em livro, com páginas que ficarão guardadas como ferro em brasa em nossa memória.


Orelha que assino para o livro de estreia do Rafael Primot. Já diz tudo. Na verdade, eu queria aproveitar este post, o lançamento dele, para colocar aqui outros novos autores da "Geração Dez" que merecem ser lidos, mas a verdade é que... não tenho gostado de muita coisa não. Eu leio, leio sim, estou com uma pilha aqui e li vários novos autores nos últimos tempos, talvez até já tenha lido o SEU livro (talvez não...) mas não tenha gostado...


Eu costumava ser mais sincero. Ou talvez um crítico mais construtivo. Costumava escrever ao autor que me mandava o livro, dando minhas impressões reais, mesmo quando eu não gostava. Não dava certo. Geralmente quem manda o livro quer apenas ouvir elogios. Eu entendo. Eu também não sou muito bom de aceitar críticas, tenho esse defeito.... mas é que meus livros são realmente bons!


Até já perdi amigos por isso, por ser construtivo. Pior ainda é quando o autor não é meu amigo, nem meu leitor. Vem com aquilo: "Quem essa bicha pensa que é para criticar meu livro?" Bom, se não queria saber minha impressão real, se não me admira como autor, por que me mandou seu livro? Porque quer é que eu indique para minha editora, para eventos, trabalhos, para o Marcelino, que eu coloque no blog...


Coloco: seu livro é uma merda.


Mas não estou falando do SEU livro não...


Ou talvez esteja...


Enfim...


Agora não dou mais minha opinião, só quando eu gosto. Não sou pago para isso. E já sou pago para ler muita coisa ruim, em inglês, avaliar para editoras, muito livro tosco de vampiro, muito escritorzinho americano cria desses cursos de "creative writing", aqueles autorzinhos eficientes, com as fórmulas certinhas, mas nada de novo a dizer. Então quando encontro um grande autor, me sinto grato, e faço questão de dizer.


Conversei mais ou menos sobre isso com o Michael Sledge, autor americano de "A Arte de Perder", romance sobre o relacionamento de Elizabeth Bishop com a brasileira Lota, publicado no Brasil pela Leya, com tradução da minha mãe, Elisa Nazarian.


Fiquei de intérprete do Sledge durante um dia por São Paulo. Comentei como o livro dele estava indo bem no Brasil. Ele: "Verdade? Por que você acha isso?" E eu mencionei as dezenas de matérias e entrevistas que saíram. "Mas não dá para saber realmente o que os críticos acharam; eles falam sobre o livro, a história, mas não há uma opinião," apontou ele. Puta merda, é exatamente o que eu tenho reparado sobre meus próprios livros, saem matérias, saem entrevistas, mas você mal consegue tirar aspas com uma opinião. O cara vem dos EUA, passa uma semana no Brasil e repara isso de cara. Então só pude repetir a ele a verdade que já se tornou um clichê: não existe mais crítica literária no Brasil.


Será que ninguém mais é pago para isso?


Michael Sledge esteve na FLIP, numa mesa com Andres Neuman, que foi meu companheiro de Bogotá 39, palestra lotada. Todo mundo vai pra FLIP ver esses autores, não é? Todo mundo gosta de acompanhar o que está acontecendo na literatura, né? Então por que será que Sledge dá uma palestra dias depois, aqui em São Paulo, de graça, na Livraria da Vila, e tem meia dúzia de gatos pingados?


Eu, minha mãe e Michael Sledge, ontem na Vila.



É o que eu sempre digo: há eventos de literatura o ano todo, com os mesmos autores da FLIP, inclusive os estrangeiros, e ninguém vai.


Então deixa de ser pau no cu e vai no lançamento/leitura do Rafael Primot no domingo.


PRÉ-PÓS-URBANO

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