06/07/2011

O CRIME QUE COMPENSA





Marcelino Freire tem muito amor para dar. E enquanto eu fazia meu livro de sexo e morte, ele preparava seu livro de amor e morte, o amor como tema, o amor como crime, amores complicados, amores pornográficos.

Li alguns contos em primeira mão, outros ele mesmo leu para mim, quando me visitou lá em Florianópolis. Mas agora, com o livro em mãos, é que percebi como estava com saudades da prosa de Marcelino Freire.

É uma prosa oral, rápida, e absolutamente livre. Acho que isso é o mais interessante e gostoso na literatura do Marcelino, como ele escreve apenas com o que quer escrever, cada palavra encaixada, cada palavra puxando a próxima. Ele tem inclusive falado muito sobre isso no blog dele, criticado as estruturas e adereços tão recorrentes e dispensáveis para se contar uma história:

"Noto, não é de hoje, o uso repetitivo, insistente de alguns verbos. Digo: fracos. Digo: verbos que aprendemos no primário. No secundário, não sei. Os pentelhos agarram no pé do nosso parágrafo. E não largam mais. Ai, ai. Quais? Eis: os verbos de ligação. A saber: ser, estar, parecer, permanecer, ficar, continuar e andar. Pode notar. Deles, é claro, o verbo “ser” ganha disparado. Tudo é, tudo foi, tudo será. Até entendo. Na verdade, não compreendo, sobretudo, quando esses verbos aparecem em conjunto. Em tropa, em bando. Como se só eles dominassem o romance, o conto." (do blog dele: http://marcelinofreire.wordpress.com/ )


Muito autores reiteram a dificuldade de escrever, escrever como um trabalho penoso. Lendo Marcelino dá para pensar que a coisa não precisa ser assim. A literatura fluindo livremente, o autor escrevendo apenas o que quer escrever. Lembro que comigo mesmo também foi assim, essa foi minha grande descoberta. Quando eu percebi que se o personagem entrava numa sala, eu não precisava descrever a sala. Eu não precisava nem descrever o personagem. E eu podia cortar a narrativa quando eu quisesse. Eu só precisava colocar o papel a narrativa que já estava escrita em mim, o que eu sentia e já tinha de fato para contar.


"Um Conto não nasce na hora em que a gente escreve, na hora em que a gente está escrevendo. Não nasce quando a gente acaba o conto, coloca o ponto final. A impressão que eu tenho é que um conto nasce em algum ponto da vida da gente. Ele fica lá, congelado, esperando que algo o acorde..."


Esse trecho é de um conto do livro novo dele, "União Civíl", meu favorito. Discorre muito sobre o processo de se contar uma história, é uma pequena oficina literária, à partir de uma cena vista pelo autor. A união de dois homens, imaginada desde a infância:

"As alianças a gente conseguiu numa promoção de chiclete. Era. Vinham grátis anéis e brincos. Bolas de hortelã. A gente ficou fazendo, deitados na grama, depois do matrimônio, bolas enormes. De hortelã."


E o livro exercita essa liberdade em várias outras formas (criminosas), várias formas de amar. Verdade que Marcelino também aposta na concisão através dos microcontos - que para mim são pouco mais de frases de efeito ou piadas infames - mas mesmo esses carregam o peso da linguagem, a discussão da palavra.


O lançamento acontece em SP na próxima semana, em duas datas (convite acima). Marcelino está lançando o livro pelo seu próprio selo - Edith - um "coletivo cultural". Se há um escritor que pode fazer isso é ele, que carrega a literatura de tanta gente nas costas, promove tanto a literatura contemporânea por aí. Inova também já colocando o livro disponível na Amazon, para o Kindle.


Enfim, o crime perfeito.

FIM DE SEMANA DO TERROR

A turma.  Passei os últimos dias trancado com uma dúzia de malucos, num sítio afastado, sem sinal de celular e internet. O “Fim d...