03/10/2011

RESENHANDO A MÃE


Bilhete Seco, de Elisa Nazarian.





Se é curioso ler um livro quando se conhece o autor, é até um pouco assustador ler um livro escrito pela própria mãe...


Só tinha lido alguns contos de Bilhete Seco, terceiro livro de Elisa Nazarian, que ela acabou de publicar pela Ateliê Editorial. Minha mãe sempre escreveu, desde bem antes de eu existir, mas só foi publicar depois de mim, um pouco por receio de se expor, um pouco por receio - segundo ela mesma diz - de que seus escritos fossem apenas desabafo, não fossem de fato literatura.


Elisa Nazarian segue a tradição das escritoras intimistas, confessionais, e faz grande literatura com isso. Como filho, consigo reconhecer de onde vieram quase todas as histórias - em algumas eu até apareço discretamente, como "personagem" - mas lendo agora Bilhete Seco não pude deixar de me surpreeder. O foco, o enquadramento, o campo de visão de histórias que eu já conhecia da vida funcionam quase como uma aula para mim, de como transformar fatos reais em literatura. Elisa não está desabafando ou registrando para si mesma histórias de sua vida, está jogando o jogo, brincando com as formas possíveis de contar histórias, apresentando-as a um terceiro, e encharcando-as com sua visão pessoal.


"Vou balançando os quadris, confiante no andar, para que você me deseje. Os seios vão livres por debaixo da blua. Passei creme nas mãos pra que fiquem macias, deslizem no afago. Você vai me achar bonita. Quero mais do que isso. Vou fêmea e suave. Levo a arrogância dos meus partos, e de todas as vezes em qeu preguei botões e areei panelas."


É um pouco assustador ver sua mãe própria mãe assim, não só como escritora, mas em tantos textos que ela aparece como mulher, antes de ser mãe, e até mesmo como adolescente (no lindíssimo conto "De Saltos Baixos", em que ela vai a uma festa e, com medo de ser chamada para dançar, passa a festa mancando.)


Elisa é mãe coruja, mas nem tanto. É uma boa leitora, não gosta de todos os meus livros, me dá bons conselhos e costuma dizer que inveja minha capacidade de criar histórias e personagens absolutamente ficctícios (cada vez mais no terreno fantástico, inclusive), talento que ela diz não possuir. Mas nem precisa. Ela faz outro tipo de literatura e tem uma visão aguda do outro e de si mesma que substitui a imaginação por poesia.


Confesso que não gostei de todos os contos. Poucas, mas algumas vezes a visão de um universo alheio me parece um pouco falsa - como a história da costureira "Edileuza"; só o nome "Edileuza" em si já me parece um recurso falso para ilustrar uma realidade (social) mais simples. (Na verdade, talvez seja essa a mesma ressalva que eu tenha com Olivio, meu primeiro livro, que hoje me parece um pouco falso por tentar mostrar uma realidade social que não é realmente a minha e que acaba se materiaizando com uma visão "burguesa"... Talvez como seja feito em grande parte do cinema Brasileiro - realizado pela elite econômica brasileira "fascinada com suas empregadas domésticas" - parafreasando uma crônica que certa vez escrevi.)


Uma coisa que eu também não gosto, em geral, nos textos de minha mãe são os títulos. Seus livros anteriores são Resposta, título que para mim não diz nada, e Feito Eu, título que eu acho um horror. Bilhete Seco é sugestão minha, tirado de um texto dela. E é um ótimo título, diz aí? Mas se eu tivesse lido antes um conto belíssimo desse novo livro como "Essas Mal Traçadas Linhas", jamais deixaria que ela tivesse publicado com esse título bagaceiro (haha, sorry, mom).



"Um sabiá está remexendo as folhas secas. Um pica-pau cutuca o tronco do angico. Meus cachorros tomam sol comigo. Tiro a roupa aos poucos, até me esquentar. O sol de inverno é de calor carinhoso." (Só por esse parágrafo você já vê que o conto merecia um título melhor....)



Ok, estou pegando pesado. Mas acho que é uma tentativa de me mostrar um leitor imparcial (ou pentelho) para que os elogios ao soberto Bilhete Seco sejam compreendidos como sinceros, já que ser imparcial nesse caso, pode ser impossível. Bilhete Seco é o melhor livro de Elisa Nazarian, e isso não é pouco. Fica claro que até hoje minha mãe tem muito a me ensinar.


FIM DE SEMANA DO TERROR

A turma.  Passei os últimos dias trancado com uma dúzia de malucos, num sítio afastado, sem sinal de celular e internet. O “Fim d...