29/11/2011

"WE NEED TO TALK ABOUT KEVIN"


Matando hora num aeroporto, há algumas semanas, dava uma olhada nos títulos em inglês de uma livraria. Livraria de aeroporto é a mesma coisa no mundo todo - só bestsellers - mas me chamou a atenção a premissa de We Need To Talk About Kevin, da norte-americana Lionel Shriver.

O romance é um longo relato (ficcional) da mãe de um garoto que assassinou nove colegas de escola, à la Columbine. Analisando toda sua trajetória, desde antes da gravidez até o momento atual, em que visita regularmente o filho na cadeia, a narradora, Eva, tenta entender a tragédia, seu próprio filho e sua responsabilidade no caso.

Apesar da premissa apetitosa e do tom instigante da narrativa, achei o romance, bem, bem decepcionante. Primeiro porque desde o princípio a narradora apresenta Kevin como uma "criança do mal", um bebê que se recusa a mamar, uma criança que não ri e não se diverte, ou seja um personagem bastante irreal. Em nenhum momento ficamos enternecidos pelo personagem ou nos solidarizamos com seus problemas e temos alguma "aceitação" de como ele pode ter cometido um massacre. Isso, para mim, já fodeu com a graça do livro, que poderia nos dar "o outro lado" , e o aproximou de uma narrativa B.

O romance é estruturado em cartas de Eva para seu marido, como sugere o título - "precisamos conversar sobre o Kevin" - o que agrava o tom falso da narrativa. Eva narra demais, conta fatos desnecessários, partindo da premissa de que o "leitor-destinatário" é alguém que viveu aquilo com ela, que sabe de grande parte do que ela estava falando (por que, por exemplo, ela precisa descrever em detalhes para o próprio marido a casa em que eles moravam?). Além do mais, ela se lembra dos mínimos detalhes, de coisas que aconteceram há dez, vinte anos, antes de Kevin nascer. Era melhor que ela tivesse feito em forma de diário - em tempo real - do que em cartas pós-tragédia.

É algo que sempre me preocupou, por sinal, num livro, nos meus próprios livros, como a história foi parar ali, no papel. Se meu leitor observar com cuidado, vai perceber que nos meus cinco romances, mesmo naqueles que não são narrados em primeira pessoa, há uma história, ou um subtexto por trás, justificando como aquela narrativa foi parar no papel, como se transformou num livro, o livro em si materializado na narrativa (É Thomas Schimidt escrevendo a história de "Olívio"; Lorena encarnando num escritor; Miguel escrevendo sua versão dos fatos; o jacaré narrando sua história; e a histórias dos meninos do "Prédio" teria sido supostamente escrita por um "narrador travesti").

Atualmente, eu acho isso meio bobagem, acho meio desnecessário, a história pode estar no papel apenas como história (vide a maioria dos contos de Pornofantasma) mas se o autor - como no caso do livro de Lionel Shriver - cria uma premissa para justificar a existência do livro (no caso, cartas), deve ser verdadeiro nesta premissa.

Apesar de tudo, li as quase quinhentas páginas de We Need to Talk About Kevin, e o livro não deixa de ser divertido. Um bom bestseller de aeroporto, talvez, mas não justifica os prêmios recebidos pela autora (como o "Orange", em 2005).

Pesquisando por esses dias, vi que o livro já foi lançado há algum tempo no Brasil, pela Intrinseca. E agora está para estrear a adaptação para o cinema, estrelando a magnífica Tilda Swinton. Algo me diz que será um daqueles casos em que o filme é melhor do que o livro.

Confira o trailer:


FIM DE SEMANA DO TERROR

A turma.  Passei os últimos dias trancado com uma dúzia de malucos, num sítio afastado, sem sinal de celular e internet. O “Fim d...