13/07/2012

LEMBRANÇAS DE MORTES PASSADAS


Eu, aos 9. 


- Quando eu tinha uns cinco, seis anos, tive uma daquelas febres de criança. Minha mãe voltou do trabalho e me trouxe bonecos de borracha do Pernalonga, da Pantera Cor-de-rosa, do Tom & Jerry. Não entendi direito o que eu havia feito para merecer presentes, mas foi instantaneamente instaurado em minha mente (por "reforçamento positivo") que era bom ficar doente.

- Aos 18, fui operado de apendicite e fiquei internado no Sírio Libanês. Além da família, minha avó, minhas tias, vieram me visitar a menina que eu namorava e o menino com quem eu ficava. A chapação da anestesia geral tornou minhas lembranças mais oníricas e prazerosas. E que falta que me faz, desde então, uma cama cheia de movimentos e posições.

- Aos 24, defendi o bar que eu trabalhava de um assalto. Levei quatro tiros e fiquei em coma quinze dias. Mas nesse período tive os delírios que iriam gerar A Morte Sem N.... Ah, é mentira.

- Aos 27 eu tinha um namorado loiro, russo e cabeludo, e isso acabava comigo. Quando eu tinha uma gripe, uma febre, uma dor de siso, eu até procurava colo. Mas era ele deitar comigo para confirmar que eu ainda tinha muita saúde. E assim nós nos matávamos aos poucos.

- Nesta semana, após anos de pura saúde, tive uma febre de 39 graus. Achei gostoso não precisar sair, não precisar comer, não precisar nadar. Dormi umas 20 horas por dia, trabalhei umas 4 - na cama. Teria sido melhor se OS FILHOS DA PUTA dos vizinhos não estivessem (como sempre) martelando o prédio inteiro reformas abaixo. De toda forma, deu pra aproveitar, por dois dias. Na noite do segundo já estava hiperativo, sem sono, sem febre - bem, estou postando isso agora, de madrugada. Checo o termômetro e confirmo: Merda, amanhã vou ter de ir pra escola.


COELHA VAMPIRA

Ilustração de Marcos Garuti para meu conto, na Revista E.                  Na noite de 28 de março de 2017, o escritor gaúcho João ...