12/08/2012

MALDITOS, FANTÁSTICOS E OBSCUROS

Martha Argel, André Vianco, Santiago Nazarian, Sarah Backley Catwright e Giulia Moon, hoje na Bienal.


"Vampiros e Lobisomens à Solta." Era esse o tema de minha mesa hoje na Bienal do Livro de São Paulo, com autores mais do que conhecidos neste filão. Eu entrei de penetra. Embora não abraçado totalmente pelo meio literário dito "sério", nunca cheguei a fazer parte e ser conhecido como um autor de gênero, de terror. Coisas como Pornofantasma e Mastigando Humanos flertam bem com o fantástico (e TODOS os meus livros ficam num universo trevoso), mas eu não poderia categorizá-los como livros de gênero, e fico feliz que nunca ficaram restritos a isso.


A mesa. 


Mas gostei bem do convite para a mesa de hoje, porque Garotos Malditos, meu primeiro livro juvenil, é certamente o mais focado nessa direção, e busca um público específico que talvez ainda não me conheça muito bem (e certamente conhece os outros autores). 


É Nazarian "se vendendo"? Talvez, de certo modo. Fiz o livro pensando num mercado - recebi uma grana da Petrobras para escrever, antes de tudo - mas fiz da forma que acredito, dentro do que sempre gostei, respeitando meus princípios e minha ideologia. (Feio seria se eu estivesse escrevendo novela de TV, participando de reality ou dando oficinas literárias, coisas de que não gosto e nunca acreditei.)

Foi também um desafio importante para minha formação como escritor, fazer um livro sob encomenda, pensando num público específico. Exigiu um novo talento e muito trabalho. Acho fundamental que o o autor profissional se coloque desafios assim. 


"Não dá para ficar sem mesa de vampiro," disse à Folha Zeca Camargo (isso, apresentador do Fantástico), curador do espaço jovem da Bienal, que me convidou para a mesa. E tanto nas declarações dele como no próprio debate nota-se o incômodo provocado pela "literatura comercial", uma certa mágoa (compreensível) dos autores que vendem muito mas são "congelados pela crítica" - como diz o próprio subtítulo da antologia Geração Subzero.

O caso de Geração Subzero é curioso, porque focou-se em autores comerciais, gente que vende horrores (como Vianco, Spohr e Thalita Rebouças), mas o título faz referência a Geração Zero Zero, antologia organizada pelo Nelson de Oliveira com os "melhores autores surgidos neste século", autores que vendem infinitamente menos, muitos dos quais são notórios desconhecidos. Reforçando a ironia, Subzero foi lançado por uma editora bem maior (Record) e teve muito mais repercussão do que o Geração Zero Zero, mas a mágoa (ou a provocação) está impressa eternamente em seu título. 




Então o debate de hoje não ficou só nos vampiros. A mágoa estava lá, não só do desprezo da crítica pelo gênero fantástico, mas pela falta de espaço no Brasil para essa produção em geral - em filmes, TV, debates, etc. Digo, no Brasil, mas a americana Sarah Blackey Catwright também deixou escapar um ressentimento em relação a como a crítica literária vê os gêneros fantásticos, isso num país com tradição cultural nessa área, como os EUA.

Claro que nem tudo foi amargura. Afinal, em graus e formas diferentes, pode se dizer que os cinco autores da mesa são bem-sucedidos (eu quero acreditar! Deixe-me acreditar!). Então também se falou muito sobre vampiros, lobisomens, construção de narrativas, dicas para quem quer escrever/publicar (claro), livros de cabeceira, autores de formação e nossas inspirações. Estava lotado, lotado de uma petizada. Foi divertido, engraçado - e obviamente eu procurava sempre pontuar a discussão com tiradinhas. O povo riu bem. Achei que a Sarah - autora de A Garota da Capa Vermelha - que fosse arrastar o grande público, mas me parece que todos eram mesmo fãs do Vianco.




Meus três bebês com a Record. 

Dos meus leitores, pouquíssimos. Eu não esperava mesmo - domingo, de manhã, com a desculpa do dia dos pais. Mas a mesa era para isso, buscar novos públicos, ampliar um pouco meu alcance. Lindinho ter várias meninas pedindo para tirar foto comigo depois do debate (meninas que com certeza nunca tinham ouvido falar de mim). E um garoto me levou balas de gelatina em formato de minhoca - prova de que leu muito bem Pornofantasma. 

Todo o pessoal da mesa foi muito bacana. Maria Tereza Arruda Campos mediou muito bem - éramos 5 pessoas afinal, achei que não ia render nada, mas todo mundo falou bem, trocou ideias, discutiu e ainda se abriu espaço para perguntas do público. Eu já conhecia a Martha e Giulia por alto, são queridíssimas e fazem parte da cena gótica paulistana - agora preciso ler mais as duas. Vianco eu conheci hoje, e me pareceu muito gente boa. E pela Sarah eu quase me apaixonei...

Curioso foi notar que a figura do popstar não faz mesmo sentido na literatura. Sarah e Vianco, que são bestsellers, estavam vestidos completamente "a passeio", longe de encarnar visualmente o que escrevem. Ninguém vestia o personagem vampi... Bem, talvez EU fosse o mais próximo disso, mas o que posso fazer, é assim que eu sou...



O querido Arthur Spada, marido da leitora perfeita -Hitomi - não só prestigiou como tirou a maior parte das fotos deste post. 



Encerrando minha participação no debate, não pude deixar de assinalar a diferença. O grande clichê do autor de gênero é dizer que "não existe isso de literatura de gênero, é tudo literatura." Eu não concordo. Disse isso publicamente. Literatura de terror pode transcender o gênero e ser tornar Literatura, mas geralmente não é o que acontece. Geralmente o livro de terror cumpre a função de entreter, assustar, contar uma boa história - e só. Não inova na linguagem, não trabalha a construção poética, não provoca a reflexão profunda - enfim, não é Literatura. Já fiz Literatura com o universo adolescente, em O Prédio, o Tédio e o Menino Cego, acredito. Garotos Malditos é literatura juvenil NÃO é literatura. 

E acho que a literatura de entretenimento pode ser inteligente, ousada, provocativa, engraçada - acima de tudo, engraçada - é o que procurei fazer. É o caminho desse livro. Não estou desistindo da Literatura. Meu próximo romance será Literário, adulto... ou quase. (Só em 2014...)

Ajudaria a diminuir o preconceito da intelligentsia com a literatura de entretenimento se seus autores realmente fossem mais engraçados, inteligentes, não se levassem tanto a sério e não dessem declarações sofríveis como a que Raphael Draccon - autor bestseller de livros de dragões e agora editor - deu à Folha de ontem: 

"Queremos livros diferentes do tradicional, mas que tenham apelo comercial, e, principalmente, queremos saber da índole do autor, tem que ter ficha limpa, analisamos seu histórico antes de decidir publicá-lo."

WT? Sinceramente, a declaração mais pau-no-cu que já li de um escritor. 


Achei a Sarah uma graça, uma graça. Fofíssima.


A QUEM POSSA INTERESSAR...

Eu e Raphael, apocalípticos e integrados.  É aquele velho ranço: o autor que vende ressente não ser levado a sério, o autor que é leva...