04/02/2013

O ÚLTIMO BEIJO




Não se lembra do primeiro beijo? Engraçado, eu acho. Talvez tenha acontecido há muito tempo, eu entendo, muitos outros beijos acumulados. Uma segunda experiência mais impactante, uma iniciação traumática. De repente você era tão novo, tão criança, no tanque de areia, no playground, atrás da moita, que se confundia ainda com um peito desmamado. Uma menina um pouco mais atrevida, um menino mais delicado. Só uma troca por uma bolacha recheada de morango...


Ou esse primeiro beijo não foi um beijo realmente? Um selinho de tia, brincadeira de prima, um sopro pós afogamento, na praia, para lhe devolver a vida. Eu esqueceria. Afinal, quando você se tornou consciente, capaz de se lembrar realmente, o beijo perdeu sua maciez etérea, sua imprecisão inocente. O beijo áspero dos barbados. Lixa contra lixa, rasgando sua boca. O beijo se tornou só uma desculpa. Muita coisa veio depois e o beijo se fragmentou lá atrás, lá embaixo, por todos os lados. Até onde vai apenas o beijo? Quando chega a ser transmissor, comprometedor, perigoso e irrefreável? Eu quero um beijo seu. Por que você iria me negar?


Quando será seu último beijo? Você não sabe, e não se lembrará. Ninguém se lembra, mas ele pertencerá a alguém [pertencerá a mim!]; com quem ficará seu gosto, quando você não puder mais beijar? Um salva-vidas mal-sucedido. Um namorado zeloso no hospital. Um ex-namorado piedoso, com você já velho, ressecado, lábios enrugados impossíveis de beijar. Por favor, não vá tão longe, você deveria dar esse beijo ainda hoje. Quando foi seu primeiro beijo? Eu queria tanto ter estado lá...


Você fecha os olhos, para eu lhe roubar. Você abre a boca, para eu invadir. Ainda não estou certo de que é a hora – é este o final? É assim que vai terminar? Escolheu a música, escovou os dentes, passou religiosamente o fio dental? Quero entrar em suas cavidades, sugar-lhe ouro e prata, latejar-lhe em gengivite, fazer sua mucosa sangrar. Não sei onde sua boca esteve, não sei qual foi seu primeiro beijo. Mas seu último beijo é isso, é meu, isso você não pode negar. Abra a boa. Feche os olhos. Sinta o gosto, é o último que você vai sentir. Gengivas sangrando ou bolacha de morango, que seja, toda sua história do beijo agora é minha. Seu último beijo é meu.

(Publicado na revista Júnior, de novembro de 2012). 


A QUEM POSSA INTERESSAR...

Eu e Raphael, apocalípticos e integrados.  É aquele velho ranço: o autor que vende ressente não ser levado a sério, o autor que é leva...