15/08/2013

DA ELEGÂNCIA DA DECADÊNCIA

Peter Murphy - o gótico mor na terceira idade. 

Acabo de voltar do show do Peter Murphy no Carioca Club. Peter Murphy é o ex-vocalista do Bauhaus, cruza de David Bowie com o Dito Cujo, um dos nomes mais influentes do rock gótico mundial. Carioca Club eu não conhecia; é uma casa no Largo da Batata, que abriga de shows de pagode a metal melódico, bem cafona e com um som mais ou menos, mas um bom tamanho, boa organização e bom preço nas bebidas.

Tio Pita no palco. 

Já tinha visto o Peter Murphy em São Paulo em 2009 (Via Funchal), foi um show competente, mas morno, carente de hits e com uma casa grande demais para o público. Agora ele veio só tocar hits do Bauhaus, e o Carioca Club conseguiu lotar, principalmente de goticões da velha guarda.

Adorei. Ele tocou todos os hits do Bauhaus - "Bela Lugosi's Dead", "Kick in the Eye", "She's in Parties", "The Passion of Lovers", "Dark Entries" (minha favorita) - e ainda acrescentou uma ou outra da carreira solo, como "Subway", que eu amo e fechou a noite.

O show teve ainda participação especial do Wayne Hussey, do Mission (que aparentemente está morando em São Paulo); ele cantou nas covers do bis, em "Telegram Sam" e "Ziggy Stardust." Um espetáculo para gótico da velha guarda nenhum botar defeito.

E para além do gótico, como é bacana ver o show de uma banda de verdade, que improvisa, faz jams, altera o setlist. Peter improvisava pedindo para os músicos estenderem a música; tocou escaleta, violão, guitarra, percussão. É isso o que faz de cada apresentação ao vivo única - para mim, muito mais interessante do que ver cantoras pop que reproduzem coreografias e videoclipes em grandes palcos.

Ele está cantando sucessos do passado. Ok, mas são sucessos que ele compôs. Está cantando no "Carioca Club", mas ok, está viajando pelo mundo, vivendo disso. Não acho mesmo que a fortuna deva ser a meta. Eu prefiro pagar as contas com integridade e sossego do que fazer fortuna com sofrimento.

Ele está com a voz em cima e estava na dose perfeita do gótico posudo, mas interagindo com a plateia, conversando com os fãs, fazendo perguntas e estimulando o povo a cantar. Foi lindo ver todo mundo gritando "Dark Entries!" Mas em alguns momentos escutava-se melhor o público do que a voz do cantor, pela má equalização do som. 


Das músicas mais recentes dele. Para ver como o vocal dele está foda. 

São esses exemplos que ficam - que você pode ser uma lenda... e ainda estar cantando no largo da batata... e ainda fazer a diferença. É tudo relativo, a lenda, o largo, a diferença. 

Eu gostei bem. E sempre me inspiro, me estimulo, me espelho em pessoas assim. Envelhecer é sempre cruel. Envelhecer como artista pode ser fatal - e eu ainda acho que o escritor é um artista, embora ele seja mais visto como um acadêmico, professor, senhor, coxinha. De certa forma, isso faz com que a velhice atue a favor do escritor, mas eu prefiro ter a elegante decadência de senhores como Peter Murphy (e Brett Anderson, e David Bowie) do que a bonachice institucionalizada dos nossos autores jabutados. Não há bons modelos de escritores que envelheceram ainda representando sua obra no Brasil. Na verdade, não há bons modelos de artistas velhos em geral. O Brasil não é um bom país para se envelhecer. 

Assim como eu acho que você não pode cantar hinos góticos parecendo um vovozinho, não acho que você possa escrever (e falar) sobre a crueldade humana parecendo um tiozinho. O artista tem não só de vestir, mas ser seu personagem. É o que eu sempre acreditei. 

Em Peter Murphy, eu acredito.




Peter. Nos áureos. 


Setlist: 


King Volcano
Kingdom's Coming
Double Dare
In the Flat Field
God in an Alcove
Boys
Silent Hedges
Endless Summer of the Damned
Spy in the Cab
A Strange Kind of Love
Bela Lugosi's Dead
Kick in the Eye
The Passion of Lovers
Stigmata Martyr
Dark Entries

Hollow Hills
She's in Parties
Telegram Sam
Ziggy Stardust
Subway

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