03/09/2013

LIÇÕES DE GÊNERO



Na verdade, eu queria ser um escritor de terror. Num mundo ideal, é isso o que eu faria, livros e roteiros, mas não estamos num mundo ideal, muito menos neste país...





Os dilemas do gênero... Já discuti um pouco sobre isso, em algumas palestras, posts, e entrevistas.  Eu mesmo já escrevi (anonimamente) pornografia para a indústria, e conheço bem as limitações. Quando você cria algo especificamente para um gênero (pornô, terror, comédia, comédia romântica) você tem uma função praticamente fisiológica a satisfazer. O filme pornô é feito (basicamente) para um cara ficar de pau duro; um filme de terror precisa dar medo; a comédia é para rir; comédia romântica para suspirar, etc, etc, não sobra muito espaço para nada mais. 

Isso é o que ferra. Para excitar, assustar, enternecer, o autor acaba recorrendo a fórmulas comprovadas, que impedem que a obra transcenda ao gênero. Excita e nada mais. Assusta e nada mais. Não te traz nada de novo. Não há espaço para reflexões. Fica uma obra rasa em conteúdo.

É por isso que a literatura e o cinema de gênero são, em geral, tão rasos. 

Falo "em geral" mas a verdade é que, "em geral", as obras que transcendem são as que não ficam restritas (ou não são vendidas) num gênero. 

Por essas (entre outras) é que admiro tanto o Lars Von Trier, um cineasta que basicamente se empenhou em experimentar sua autoria usando elementos de todos (ou vários) gêneros conhecidos. 

Musical: Dançando no Escuro
Teatro: Dogville
Comédia: O Grande Chefe
Terror: Anticristo
Western: Querida Wendy
Pornô: Nynphomaniac
Sci-Fi: Melancolia

E por aí vai...

Na verdade, eu queria ser um escritor de terror. E todos meus livros estão no terreno do terror-suspense-thriller-humor negro. Mas se eu fosse vendido como um autor de terror, sabe-se lá onde eu estaria, por que editora estaria publicando, com aquelas capas medonhas, aquele público desavisado. Não quero me restringir a isso. 

O Brasil é ainda mais restrito aos gêneros, você sabe. Apesar do espaço-público continental, o Brasil é muito uma coisa só. (Impressionante, por exemplo, não haver dinheiro na indústria pornô neste país). Então se associar a um gênero é uma sentença de morte.

Mas tudo bem. Nós podemos fazer outras coisas.

De todo modo, esses dias tive minha revelação internacional sobre a realidade de gêneros ao constatar as críticas do Rotten Tomatoes.

Rotten Tomatoes (www.rottentomatoes.com) vocês sabem, é um site americano que basicamente faz um apanhado das críticas que um filme teve e diz se foram mais positivas ou negativas. 

Esses dias, assisti a dois filmes que foram baseados na mesma história. E tiveram críticas distintas. 

A história: Nos anos 1950, uma adolescente vai morar com uma família próxima de seus pais. A mãe da família é uma vaca abusiva alcoólatra que tranca a menina no porão, e todas as crianças da casa e da região abusam da menina.

Essa premissa é igual nos dois filmes. Mas um foi feito como um filme de terror surrealista de baixo orçamento, o outro foi transformado num drama de tribunal com Ellen Page e Catherine Keener.

O filme de terror tem 67% de aprovação no Rotten Tomatoes - significa que mais das metades das críticas a ele são favoráveis. Essse aqui: http://www.rottentomatoes.com/m/10008563-girl_next_door/

O drama de tribunal tem 23%.. Esse aqui: http://www.rottentomatoes.com/m/american_crime/

Agora, qualquer SER HUMANO PENSANTE que veja os dois filmes não poderá dizer que o filme com a a Ellen Page é inferior. É um veredito vergonhoso, constrangedor, mas possível. Porque o Rotten Tomatoes só se baseia nas críticas de seus veículos associados. E o primeiro filme foi resenhado só pelos veículos de terror; o segundo foi resenhado pelos mesmos que resenham... sei lá, Titanic.

O filme com a Ellen Page é doloroso, real, cruel, e deixa uma sensação desconfortável. O filme de terror é pesado, trash e deixa a sensação: "uh-hu, queremos mais sangue!" A mãe feita por Catherine Keener é real, nós entendemos como ela pode ser tão cruel, e por isso é tão dolorosa. A mãe do filme de terror (Blache Baker) é uma vilã sem nuances, que só merece a morte.

Então o veredito basicamente é que como filme de terror "The Girl Next Door" é ótimo (que não não acho mesmo) e, como drama de tribunal, "An American Crime" é uma merda (daí eu não poderia dizer ao certo, porque não sou fã ou especialista em dramas de tribunal, só não acho). Enfim, o público alvo faz toda a diferença. E dois filmes de qualidades bem distintas acabam tendo avaliações totalmente discrepantes devido ao gênero em que foram encaixados.

Se a crítica morreu, como tantos dizem. È questão não só de levantar o olhar crítico, mas de levantar seus criticados. A crítica pode ter morrido, mas as obras, peças, filmes, discos, ainda precisam de quem tenha opinião real. Não seja um coió e saiba divulgar - que seja no Facebook, já que essa é a crítica de hoje em dia.

Talvez o mais positivo (e importante) é que o público da internet hoje tenha uma opinião, um senso crítico, saiba se guiar por resenhas aleatórias ou conheça quem realmente o represente em críticas e resenhas. 

QUANTO GANHA UM ESCRITOR

Com Paulo Scott na Garopa Literária Aqui em Maresias. Na casa que Murilo alugou. Cheguei nesta noite fria de sábado e fui fazer um ch...