19/12/2013


RESENHAS


(Íntegra das minhas resenhas publicadas final de semana passado, na Folha)


"SE VIVÊSSEMOS EM UM LUGAR NORMAL"

O mexicano Juan Pablo Villalobos fez uma estreia sensacional em 2010 com Festa no Covil¸ publicado no Brasil pela Companhia das Letras e em quinze línguas pelo mundo. O romance focava a vida de um chefe do narcotráfico, narrada por seu filho, mostrando a realidade violenta do México. Agora o autor volta a retratar seu país, de maneira ao mesmo tempo terna e crítica com “Se Vivêssemos em um Lugar Normal”, seu segundo romance, do que promete ser uma trilogia.
Orestes é um adolescente de uma família de sete filhos, vivendo numa “caixa de sapato” no alto de um morro, oprimido tanto pelo aperto da casa quanto pelas aspirações limitadas do pai. As possibilidades de fuga, ascensão ou simplesmente mudança são frequentemente frustradas pela condicional do título. “Mamãe é possível deixar de ser pobre?”, pergunta o protagonista. “Não somos pobres, Oreo, somos classe media.” Ao que ele conclui: “Essa coisa de classe media parecia algo que só podia existir em um país normal, em um país onde não estivessem permanentemente tratando de foder a sua vida.”
Os paralelos com o Brasil são inevitáveis – porém o humor típico mexicano e as referências culturais distantes (apresentadas em notas e num glossário) travam um pouco a fluidez do texto em português. O texto soa como traduzido (como de fato foi), ainda que o autor more há alguns anos no Brasil.
Com o decorrer da trama, Orestes foge de casa, recorre a estratagemas para sobreviver e testemunha a desgraça familiar. O tom entre o nonsense e o tragicômico é delicioso, principalmente nos diálogos, mas ao chegar ao desfecho o livro descamba para um absurdo apressado e insatisfatório, que dessa vez não se justifica nem pela proposição do título.

Avaliação: regular. 

"LOST BOYS"

Em tempos pós-globalização, a língua ainda é a principal barreira para a circulação dos produtos culturais brasileiros no exterior, mas não é a única. Os atravessadores do mercado e suas expectativas sobre os temas e histórias que podem repercutir lá fora muitas vezes travam a exportação. Especialmente na literatura, acostumou-se a acreditar que os estrangeiros só buscam um autor brasileiro quando estão à procura de temas brasileiros, e assim tudo o que passa por fantasia, thrillers, policiais ou fuja em geral da expectativa (ou estereótipo) que se faz do país é em geral desprezado.
Porém, com a proliferação das ferramentas de auto-publicação, os e-books e sites de compartilhamento, vem se tornando mais comum autores nacionais furarem a barreira e alcançarem mercados externos por conta própria. Foi assim com a carioca Marcela Mariz, que publicou a ficção científica The Chosenof Gaia no site da Amazon, e foi assim com Lilian Carmine (pseudônimo da paulistana Bruna Brito), que lançou Lost Boys no Wattpad (site de autopublicação que é considerado como “o Youtube do texto”), teve milhões de visualizações, publicação física no exterior pela RandomHouse, e agora sai no Brasil pela Leya.
O romance narra a história de uma adolescente tipicamente deslocada, que conhece um fantasma e vive uma paixão proibida. Graças a um feitiço, os dois estão presos um ao outro, mas não podem assumir esse amor por contingências sociais e ameaças paranormais. O livro é desavergonhadamente direcionado às fãs da saga Crepúsculo e tem todos os ingredientes que uma garota poderia procurar: amor proibido, punhados de garotos bonitos, uma heroína incompreendida em quem as leitoras podem se espelhar. Não é de se surpreender então que tenha sido sucesso; dá ao público o que ele quer, e nada mais.
O romance é raso, tolo e sem a menor malícia. O aspecto sobrenatural da trama é apenas um pano de fundo– o fantasma afinal é um menino reencarnado, e a grande complicação do relacionamento se dá pelo fato do casal se passar publicamente por irmãos. A tradução também pode ter contribuído pelo encaretamento do livro – conferindo um tom que se pretende adolescente, mas soa falso e antigo. O adjetivo “fofo” é usada pela protagonista para descrever basicamente todos os personagens masculinos, e um punhado de gírias atuais é encontrado entre expressões como “balançando o esqueleto.”
Adaptado com habilidade para o cinema ou a TV, Lost Boys poderia ser diversão adolescente de primeira, mas em livro sua acertada premissa é prejudicada por um texto primário. Triste ver que, nesse caso, a universalidade se deve pela reprodução de uma receita de fácil digestão. Um fastfood de 460 páginas, sem tempero, sem pimenta, sem surpresas.

Avaliação: Ruim




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