25/02/2014

CARTA A UM JOVEM ESCRITOR



Neste meio em que se valoriza tanto a experiência, e onde os anos parecem estar sempre à favor do autor, pouca gente terá algum conselho útil ao jovem escritor, além daquela máxima rodriguiana: “Envelheça!”

Porém essa perspectiva não só está desatualizada como carregada de inveja, recalque e hipocrisia. Como autor de meia-idade que começou razoavelmente cedo e hoje vive de glórias do passado, posso dar conselhos realmente proveitosos ao jovem autor que deseja ingressar no mercado literário.

- Publique o quanto antes, hoje, ontem! Podem te dizer para não ter pressa, podem aconselhar a escrever com calma, mas só querem é eliminar a sua viçosa concorrência. O quanto antes, melhor. Publicar aos trinta e pouco qualquer um pode; aos vinte e pouco é para os fortes; antes dos vinte é para prodígios! Pense em Rimbaud!

- Não basta ser jovem, tem de aparentar. Moleques pançudinhos com pinta de nerd não humilham com o frescor da mocidade. Corrija essa miopia. Troque os estudos pela esteira. Se a genética não te beneficiou, por hora sua ambição pela Academia deve ser a Biorritmo!

- Um adendo aqui. Até para juventude há limites. Certifique-se da verborragia de seus pelos púbicos e pelo menos um ou outro fio de barba, para sua publicação não cair automaticamente na literatura infanto-juvenil. Acredite, a crítica irá verificar isso.

- Não basta publicar cedo – Sete Letras é para os fracos! - tem de ser por uma grande casa editorial. De preferência pela Companhia das Letras, que conferirá um selo automático de confiabilidade a toda sua malemolência juvenil.

- Não basta publicar por grandes casas editoriais, tem de estar no primeiro time e participar da FLIP, FRANKFURT, GRANTA! Claro, como jovem autor você tem tempo para tudo isso. Daqui a vinte anos a Granta lança outra edição de “Melhores Jovens” e você ainda poderá participar, mas se puder entrar ainda na portuguesa, melhor! Todos os coquetéis, festas, viagens, entrevistas de que você participar serão mais bem aproveitados na sua mocidade, solteiro, com saúde e cútis intocada. Aos trinta e poucos seu fígado já estará capenga. Você PRECISA estar na PRÓXIMA FLIP!

- Como bem aponta Luciana Villas-Boas, que bebe da fonte Catherine Deneuve de juventude eterna, começar com contos e poesia é para punheteiros! Isso todo mundo faz, e o mercado despreza livros de contos e poesia. Porém aponto ressalvas em começar pelo romance: você perde o trunfo de poder publicar o primeiro romance já com uma carreira sólida e bem-estabelecida e concorrer automaticamente ao Prêmio São Paulo de autor iniciante aos 45 do segundo tempo!  (Ou melhor, aos 39, onde concorrerá apenas com os iniciantes mais jovens, aumentando consideravelmente suas chances).

- Então, se não pode começar pelo conto, poesia ou romance sugiro começar pela... autobiografia! Vamos, um livro de memórias é muito mais fácil de escrever aos 19. Não precisa ser tudo verdade, claro que não, o ideal é que tenha a emoção da ficção com o fetiche do biográfico. Pense em Mayra Dias Gomes!

- Claro que vender uma autobiografia sem sobrenome de peso ou grande acontecimento/tragédia/conquista na vida não é fácil, mas pense em todas as coisas que você faz, que todo mundo faz, mas ninguém conta. Fez sexo grupal? Cheirou cocaína até cair? Acordou na casa de uma travesti? A literatura está aí para dizer o que todo mundo faz, mas ninguém diz. Pense que um ator da Globo nem pode dizer que fuma uma baseadinho. Pense em Bruna Surfistinha.  

- Agora, essa dica é difícil, eu sei, e também vai bem contracorrente, mas é importante:  Publicou? Afaste-se das mídias sociais. Twitter, Facebook, Skoob. Você está acima disso; seu livro impresso, revisto, preparado, editado e selado é seu atestado, e seus posts insensatos, impensados e embriagados só deporão contra você. Nada vale mais do que o jovem discreto e misterioso. Nunca despeje tudo (ou mais do) que querem saber. Corpo a corpo com os leitores na rede é coisa de autorzinho juvenil da Novo Século.  


- Obviamente esses conselhos não almejam que você escreva melhor, que tenha a melhor obra, que seja um grande autor; apenas que tenha uma vida plena, feliz, realizada, com uma polpuda conta bancária. A permanência da sua obra está menos condicionada a isso do que ao derretimento das calotas polares, os vazamentos de Fukushima e à iminente extinção da raça humana.

A citação final é aquela tradução livre de Roberto BolanõS: "Se você é jovem ainda, jovem ainda, jovem ainda. Amanhã velho será, velho será, velho será..."


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