16/02/2014

LOBÃO SEM RAZÃO

Sou um grande entusiasta da Internet, redes sociais, do Facebook.

Enquanto que o discurso padrão é sobre o esvaziamento do indivíduo, a Internet sempre como "superficializadora"; não consigo deixar de ver com otimismo essa pulverização (em todos os sentidos) da informação. É um pouco o que coloquei (ironicamente) numa frase aqui outro dia.

"Essa geração de hoje só se informa por Facebook. No meu tempo, a Veja tinha mais páginas."

Eu acordo todo dia e abro o Facebook. Como o ritual de ler o jornal, passo pelos links dos amigos, as matérias postadas, fotos, comentários do dia (até porque, quando eu acordo o dia já começou há um tempo...). Muitas vezes encontro diferentes pontos de vista para uma mesma notícia. Diferentes matérias para um mesmo fato. Bate-bocas por um determinado assunto. Isso sem falar nas indiretas, picuinhas, alfinetadas...


[Se você não encontra tudo isso. Talvez o problema seja seus amigos...]

É inegável que isso dá uma visão mais ampla do que sempre ler apenas o mesmo jornal, a mesma revista. Claro também que grande parte dos comentários/visões/colocações são superficiais, não-embasadas e derivadas de uma terceira fonte, mas o conjunto de tudo isso possibilita que o indivíduo pensante tenha uma visão mais rica e questionadora.

Apesar disso, vejo com suspeita essa tendência de hiper-politização. Todos antenados, politizados, com algo fundamental a acrescentar. Aliás, vejo com suspeita essa tendência de hiper-tudo. Todo mundo tem algo a dizer sobre tudo, de BBB à morte de Lou Reed, Direitos Humanos, Copa do Mundo, Pec, Pac, Tetrapack e religião. Claro que é legal que todos se informem e procurem saber um pouco de política, mas na Internet parece que são todos profissionais sobre TUDO. E muitos RECEBEM para isso.


Gosto muito do Lobão, como roqueiro, como figura; outro dia estava vendo (tardiamente) a entrevista dele no Roda Viva, vendo como ele argumentava mal, como falava merda, e achando muito certo mesmo. Lobão é um roqueiro lesado, fala merda, tem umas ideias toscas, quem acha que se pode levar a sério o que ele fala sobre política? Quem vai pagar para ele falar sobre política? Lobão está certo de falar o que pensa, está sendo íntegro - coió é quem paga ler; safado é quem paga para ele escrever e está faturando em cima. 


Mesma coisa com tanta gente, sei lá, Rodrigo Constantino. É para ser levado a sério só por estar na Veja? Por que interessa o que ele acha de gay, política, do Bolsonaro? Que ele pode dizer além de achismo? A tendência da mídia impressa, "séria", "profissional" de financiar o "opinianismo" da Internet é que é a merda, por legitimar algo que deveria ser relativizado. Mas se todo mundo ler o blog da Veja como mais um blog (como este), fica tranquilo o direito de todo mundo dizer merda. 


Talvez o problema seja essa inclusão digital. Tanta gente sem ensino básico, nutrida a bolacha recheada, sem nem saber ler direito e achando que pode comentar...


Comento sobre isso (assim, gratuitamente, na minha casinha, ouvindo minha musiquinha) por essa pseudo-obrigação que se criou também do escritor ser politizado, atuante, determinante e participativo. Parece que o escritor que não fala de política não é politizado. Parece que o escritor não politizado é alienado. Eu participo quando acho que tenho algo a acrescentar. Não escrevo sobre TUDO. Sou um ficcionista. Faço literatura pop-underground-existencialista-bizarra e acho que já faço muito. Já faço muito pagando meus impostos. Ou já faço demais pagando os juros do Itaú. Já faço muito escrevendo a crítica de um livro para a Folha. Já faço muito assumindo publicamente minha homossexualidade. Já faço muito questionando o papel do indivíduo na sociedade (em tantos, em tantos livros, posts, comentários). Já faço muito questionando os valores acadêmicos. Já faço mais expondo tantos conflitos de minorias dentro de minorias. Já questiono muitos valores da cultura de massa que passam despercebidos pela massa pensante. E luto e me esforço e acho que o importante é fazer, quando muitas vezes eu preferiria passar o dia em coma. Eu me esforço. 


Esta é minha contribuição política. Não menospreze. 


E este é apenas um post, um achismo, uma opinião sem valor de alguém que acha que tem mais a dizer em seu próximo livro..




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