11/08/2014

FORA DA FESTA



A presidente da CBL e eu, discutindo sobre o mercado, semana passada. 

Pós-Flip... (é, FLIP, ainda) pré-Bienal, voltam as discussões sobre os eventos literários. O Globo deste final de semana colocou divertidos depoimentos de Joca Terron, Andrea Del Fuego e André Sant’Anna sobre o tema. É um consenso que as feiras, festas, festivais e bienais literários se multiplicaram absurdamente na última década. E é comum os escritores discutirem sua validade para além dos cachês, o público ouvinte que não se configura como público leitor, a atual necessidade do escritor ser uma espécie de popstar.

Discuti um pouco sobre isso num debate na TV Cultura semana passada (vídeo acima) e tenho participado dessa discussão com frequência. Como eu disse, esse eventos mais vendem a figura do escritor – como um stand-up de elite – do que seus livros. Mas contesto essa ideia de que o escritor seja visto como popstar, até porque o Brasil não é um país de popstars.

“Exige-se a presença do escritor sim, mas com a pose de intelectual sério, o professor. Ele tem de fazer parte das panelinhas acadêmicas e editoriais, tem de aparentar Intelectualidade", comentei recentemente numa entrevista para o Luciano Trigo. O escritor convidado para os eventos literários é o intelectual desinibido, o cara sóbrio e sábio que reflete o pensamento de seu tempo, não necessariamente confronta, traz algo novo ou provocativo, e muito menos se assemelha a um popstar. 

Os belos depoimentos de Terron, Del Fuego e Sant’Anna no Globo expõem uma visão parcial. Provavelmente foram convidados pelo jornal por participarem muito desses eventos - e isso já comunica outra verdade: há muitos eventos, mas os convidados são sempre os mesmos.

Ao que parece, todos os autores têm um excesso de convites, maior do que dão conta, e isso se torna uma espécie de problema. Com certeza não é a regra. A regra são escritores ESMOLANDO por um convite de feira, de festival, o que deve contribuir de forma significativa para a baixa dos cachês. Claro, há autores de diversos calibres, e os iniciantes e amadores podem aceitar fazer de graça o que deveria ser pago. O escritor participar de graça de um evento para divulgar seu livro é como um músico tocar de graça para divulgar seu CD, é o que sempre digo. Assim, achei curioso a agente Valeria Martins apontar os cachês de eventos literários como “entre 3 e dez mil” (!), eu diria que é mais entre zero (mais comum) e cinco mil. O inferno é o limite negativo.

A questão é que, antes de tudo, a curadoria é preguiçosa, chama quem já fez, quem sempre faz, e é difícil furar o ciclo. O escritor é sempre um artista independente. Podem achar que estar numa editora grande garante uma equipe trabalhando por você. Besteira. Tirando raras exceções, a editora trabalha o lançamento do mês, e olhe lá, não trabalha a carreira do autor.  Vez ou outra eles podem sugerir seu nome num grande evento, mas depende das relações pessoais do autor conseguir convites, viagens, até matérias na imprensa.

O agenciamento literário tem se tornado mais comum no Brasil, mas as agentes entram timidamente nessa equação. Geralmente apenas negociam a venda dos direitos do autor (para editoras, para cinema), não entram na questão dos eventos em si, nem no papel de assessoria de imprensa.  

Nesse meio autofágico, o marketing que funciona melhor não é do escritor popstar é do escritor integrado, aquele que circula no meio acadêmico, que trabalha em editoras, que é amigo dos editores e jornalistas, que senta com ele nas mesas de bar. Pouco tem a ver com o peso obra - muitos dos autores que mais circulam ainda dão os primeiros passos na escrita. Diversos veteranos de peso ficam de fora por não participarem do lobby. O grande Evandro Affonso Ferreira, vencedor do Jabuti de melhor romance ano passado, é um ótimo exemplo.

As festas literárias brasileiras são, antes de tudo, festas de compadres. E se o escritor brasileiro tem de ser um "popstar", então é um popstar fora de forma, fora de moda, mal vestido e bem relacionado. Com a idade, estou chegando lá. 





ESTRADA

Não sei porque colocaram só meu sobrenome, mas achei chique.  Finalmente o ano está começando para mim. Já voltei para São Paulo e sem...