29/09/2014

O MATO QUE MATA




Quando estava prestes a publicar meu BIOFOBIA, soube que (a escritora/gata/carioca) Simone Campos estava para publicar um livro sobre “uma jovem que herda uma casa de campo e vai passar uma temporada por lá”. Fui ler a obra dela (que comentei aqui), ficaram claras as diferenças, mas as semelhanças me fizeram pensar sobre uma tendência atual da literatura contemporânea em fugir dos grandes centros urbanos.

Publiquei um texto sobre isso nesse final de semana, na Folha (aqui:http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/,) apontando outros romances e algumas possíveis razões e desdobramentos. Alguns autores com esse enfoque se ressentiram de não terem sido lembrados – citei apenas alguns exemplos entre inúmeros! o que só legitima minha impressão  -, outros esbravejaram contra as panelinhas ou se detiveram ao trecho que fala das traduções e publicações no exterior, lembrando que são uma minoria. Minhas considerações:

- O texto não era uma resenha - autores com quem tenho uma relação pessoal, eu não resenho na mídia impressa; ou seja, não sou pago para isso - era uma observação de uma tendência espontânea que pode ser notada em vários colegas meus (alguns amigos de fato; e se tornaram amigos antes de tudo por eu admirar seus textos).

- O próprio texto deixa isso claro desde início, falando de uma conversa que tive com Daniel Galera em Ribeirão Preto.   

- Outros livros poderiam expandir a visão do tema. Mas não era uma tese, fiz um recorte assumidamente pessoal (como qualquer crônica seria), para me deter principalmente na experiência do Galera e no livro da Simone, que me trouxe algumas respostas. 

- Falando das viagens internacionais, é inegável que tem se traduzido e publicado como nunca autores nacionais no exterior, e que os autores tenham viajado cada vez mais. Isso não quer dizer que seja o volume ideal e que ainda não haja muito a ser feito.

- Alguns autores criticam paradoxalmente a “literatura ostentação”, dizendo que esse glamour não se comunica de fato com a escrita, que o que importa mesmo é o texto. Bem, se o que importa de fato é o texto, contente-se com seu texto! Se o autor quer viajar, se apresentar fora, beber champagne e ficar hospedado numa piscina cinco estrelas, ele tem de aprender a fazer um jogo além, que não necessariamente tem a ver com literatura – porque afinal tudo isso não tem a ver com literatura.

- É claro que, num mundo ideal, os livros falariam por si só, a literatura de qualidade levaria o autor além, mas não é assim que nada funciona. É mesmo frustrante ver tanta gente sem talento, sem texto que está usufruindo da “estirpe de autor” apenas porque é bem relacionado. Mas também alguém que não sabe se relacionar e sabe apenas escrever deve... apenas escrever.


- Admiráveis são os autores com grande texto e grande traquejo social. Admiráveis são os que escrevem bem e ainda sabem se vender. Sorte dos que têm grande texto e editores poderosos investindo por trás. Eu tento aprender com todos, sem nunca abrir mão do meu universo, de respeitar meus limites, de escrever só o que acredito. Acho que isso fica claro para qualquer um que já me leu. 

- Completando, não sou acadêmico, não escrevo como acadêmico, não tenho menor pretensão acadêmica. Minha pretensão é escrever literatura pop com densidade - pretensão mais do que suficiente neste país. E o artigo vai nessa tônica. 

No final das contas, é tudo bobagenzinha, polêmicas vazias a que só o meio autofágico dá importância... ou nem. O resto do mundo não está preocupado com isso. O resto do mundo não está preocupado com nós. Continuamos criando lombadas para decorar bibliotecas, justificando páginas a serem queimadas em lareiras. 



26/09/2014

MEMÓRIAS (E AMNÉSIAS) DE UM DROGADINHO


David Carr é um jornalista americano que passou grande parte dos anos 80 chapado de álcool, crack e cocaína. Quase morreu algumas vezes, teve gêmeas prematuras, perdeu a guarda das filhas, recuperou a guarda e teve de criá-las em meio ao vício e reabilitação. Sobre tudo isso ele pouco se lembra. Então usou sua técnica de jornalista para investigar sua própria história, entrevistar amigos e familiares e remontar os anos perdidos no livro A Noite da Arma (Record).

A ideia é ótima, o resultado é regular.

Relatos de viciados geralmente têm uma carga romântica; mesmo expondo toda as mazelas, têm algo de sedutor, seja na ficção (vide Welsh, Brett Easton Ellis, JT. LeRoy), seja nas biografias (Basketball Diaries, Christiane F, Mayra Dias Gomes). Talvez seja pelo flerte com o perigo, com um universo paralelo, um esporte radical.

Carr parece ciente disso e, em determinada passagem, recomenda que um viciado em reabilitação "evite escrever ou ler biografias de viciados". Talvez seja por isso que seu livro seja desprovido de qualquer romantismo e pinte um retrato mais patético - talvez mais verdadeiro, porém menos interessante. É a história de um pai de família bêbado, drogado e acima do peso, nada glamuroso, que embora tenha caído no tráfico e se envolvido com gente barra pesada parece nunca chegar realmente ao submundo: vivia com razoável conforto (e nunca com luxo), tinha grandes amigos "da noia" e do tráfico, não caiu nas ruas, na morte, na prostituição.

Assim, A Noite da Arma se torna uma grande reportagem, mas carece de poesia para ser um grande livro. Pode ser uma visão bem pessoal minha, mas é daquelas leituras em que a ficção faz falta. Mesmo a memória falha do protagonista, que podia render histórias conflitantes, duas versões para um mesmo fato, é explorada timidamente sem grande ambição estilística. Porém se a intenção dele era criar (mais um) "alerta sobre o perigo das drogas", funcionou.

E me fez repensar em minhas próprias experiências, minha postura em relação à legalização...

Eu já usei maconha. E cocaína. E crack, ácido, ecstasy, speed, mdma, ketamina, álcool, noz moscada, cogumelo... que eu lembro é isso. Não me arrependo de nada. Muitas das melhores sensações que tive na vida foi com drogas. As piores também. E o mais perto que posso dizer que cheguei do vício, como tantos, foi com o álcool. Ainda bebo. Não uso mais nada - além de uns pegas eventuais de maconha entre amigos - há mais de dois anos. Não diria que jamais farei novamente, mas hoje em dia minha ressaca é tão pesada, passo tão mal que não vale mais a pena. Parei por isso, não valia mais a pena, não tenho mais prazer, a diversão, só noia e ressaca. Não tenho mais idade para isso.

Lembro há alguns anos, na Colômbia (ou Peru?), eu tinha uma mesa na feira do livro no dia seguinte e uma das mocinhas da organização me ofereceu cocaína. "Nah, minha ressaca é terrível, vou estar destruído para a mesa amanhã". Ao que a menina contestou: "Isso é por causa da cocaína brasileira, a daqui é que é boa." Pior ainda. Haha. Fui sensato e recusei educadamente.

As drogas me deixaram sequelas, acho. Em algumas questões, tenho uma memória lesada, lesada, num ponto quase clínico, (às vezes clínico), mas até aí, é meio genético, minha família toda é assim. Reconhecer pessoas é um problema para mim (me identifiquei tanto com o protagonista de Barba Ensopada de Sangue...). Eventualmente, tenho ataques de ansiedade - começo a hiperventilar, o cérebro sobrecarrega. Amigos queridos já me ajudaram bem; tenho um episódio patético-hilário de uma crise que tive de madrugada, liguei para vários amigos, para um menino que estava ficando. O Santo Alê Matos veio até aqui para cuidar de mim - quando o ficante chegou eu estava deitado com Alê sentado na cama e pude usar a sério a frase: "Não é o que você está pensando..."

Ainda assim, não me arrependo. Foi minha escolha, pude conhecer outro lado da vida que, apesar de tudo, valeu a pena.


Hoje sinto que tenho várias faculdades mentais prejudicadas. Mas, provavelmente, muitas outras evoluídas. E se eu não houvesse passado pelo que eu passei, não haveria graça em contar a minha história. (...) É preciso perder alguns neurônios para que os neurônios sobreviventes se esforcem mais. Esquecer os nomes dos pais, para recitar os poetas franceses. Contanto que eu não perca minha censura, tudo do que eu me lembrar pode ser usado a meu favor.

Concordo que poderia ter sido diferente, eu poderia ter seguido outros caminhos e não ter me lesado tanto. Mas vai saber o que uma simples friagem não pode fazer em mentes demasiadamente protegidas, ou o efeito tóxico da noz-moscada na comidinha caseira, ou o lapso permanente — a paralisia cerebral — provocada ao se dizer Pecan Pie num quarto de hotel. Se a destruição é inevitável, que ao menos seja saborosa.


(de Mastigando Humanos)

Não recomendo - não hipocritamente porque quero me resguardar do crime de "apologia", mas porque tenho plena consciência de que é uma roleta russa. Eu poderia ter morrido, poderia ter me viciado, poderia ter sido preso e me expus a vários outros riscos e perigos. Tive sorte. Tenho mais lembranças boas do que ruins, mas meu corpo já deixou claro que não dá mais. Não faça isso em casa. 

Daí chegamos à questão da descriminalização. Meu lado anarquista diria: que se legalize tudo! Mas pensando bem não é assim. Nunca me viciei, um pouco por determinação, um pouco por sorte, muito pela própria proibição, o acesso restrito que dificultou um uso mais regular. Essa proibição impede também que as pessoas se exponham tanto publicamente e coloquem a si mesmo e a outros em risco quando alteradas.  E num país miserável (em todos os sentidos) como o Brasil, seria catastrófico tirar a questão moral e legal das drogas e deixar a população louca pelas ruas. 

"Mas o álcool..."

O álcool já é um grande problema. Não podemos usar isso para criar outros. Talvez seja o contrário, a legalidade do álcool é uma forma de coibir outros males. 

"Mas a maconha..."

Tá, é disso que estamos falando. Acho que ninguém defende realmente a descriminalização da cocaína, do crack. A questão é maconha. Então não vejo porque não legalizar - é um mal, mas daí é um mal menor do que o álcool, talvez do que o cigarro. 

Eu pessoalmente não gosto. Fumo e fico fechado, tenho lapsos de tempo, fora minha memória lesada... Mas não dá para acreditar que a população chapada iria sair matando por aí, batendo em suas esposas, votando no Bolsonaro... E a maior "porta para as outras drogas" é o álcool. O álcool...

Assim, refletindo bem nos últimos dias cheguei a uma posição previsível: sim à descriminalização (finalmente consegui escrever essa bagaça sem o corretor apitar) da maconha; não ás outras drogas. Não vai resolver todos os problemas - nada resolve todos os problemas, isso é existencial - nem vai acabar com o tráfico, mas é um movimento sensato e, acredito, com saldo mais positivo do que negativo. 

Sentado no vaso, pensava nas possíveis consequências. Puta merda, amanhã ele estaria um caco, mas isso era algo que ele precisaria aceitar. Ele estaria um caco de toda forma, talvez em menor grau se não cheirasse, é verdade, mas o que valia eram os momentos de euforia daquela noite. Não poderia passar outra noite miserável. Não, não havia nem o que considerar. O amigo já estava lá, separando as carreiras, e aspirar era inevitável, já não era uma escolha; ele tinha apenas de se concentrar nos aspectos positivos. Levantou-se, deu descarga e se viu sorridente na frente do espelho. Os dias serão todos miseráveis de qualquer forma, o que importa é que ele ainda tinha uma noite para aproveitar...

(de BIOFOBIA)
2002 na Europa foi um ano intenso...


22/09/2014

ORFÃO


A mancha era dela mesma, a mancha era ela mesma. O sangue era dela, do pai e da irmã, o menino passara a tarde inteira fechado no quarto brincando sozinho. Não tinha nada com isso, podia jurar. Se a mãe saísse do quarto ele juraria que não tinha nada com isso. A mancha era dela mesma. Esse sangue não é meu. E a mãe se ajoelharia a seus pés para esfregar.  


Esta semana estou em no selo Formas Breves, organizado pelo querido Carlos Henrique Schroeder, que lança o conto de um autor diferente toda semana, por R$1,99, nos principais sites de e-book (Amazon, Apple, Cultura, Kobo). 

Meu conto é a coisa mais recente que escrevi, uma boa ponte entre BIOFOBIA e o que pode ser um próximo romance. A história: um menino que sai do quarto para descobrir que a família foi morta, numa narrativa entre autista e etérea, sobre independência e as descobertas da infância. 

Veja este e outros aqui: 



16/09/2014

CICLOVIDA


Em plena forma, sobre duas rodas, na ilha da magia. 


Até os doze anos, andei sobre quatro patas, dois pés, rodinhas acessórias na minha bicicleta. Foi tarde eu sei, pois ainda lembro do meu amigo Frederico, aos doze anos, me empurrando num ruazinha do Jardim América - sou garoto dos jardins, o que fazer - para eu aprender a andar sobre duas rodas. Aprendi, peguei gosto e já pedalei por várias ciclovias do mundo. Por isso fiquei pensando sobre a polêmica atual das ciclovias na cidade de São Paulo.


Atacama.

Já era hora, claro. São Paulo já devia ter investido em propostas alternativas, como a ciclovia, há tempos. Mas a palavra investido continua martelando na minha cabeça. É inegável a necessidade e louvável a proposta, mas não dá para ser maniqueísta e encarnar o demônio condenando as ciclovias nem o anjo a abençoá-las. A verdade é que essas faixas em vermelho parecem mesmo terem sido riscadas às presas, de maneira cenográfica, sem um devido estudo de onde deveriam ter sido feitas para melhor proveito da população.

Helsinque. 

Se perguntassem a minha opinião, se eu fosse dizer mesmo o que eu penso, diria que São Paulo não tem solução, então não adianta ciclovia, aerotrem ou bomba atômica. Mas tento ser um pouco menos niilista, tento acreditar em opções que deixem a cidade mais transitável.


Floripa. 

Li o post da Lucia Santaella, li as respostas a ela. O povo gosta de demonizar quem contradiz ou quem diz uma coisa ou outra equivocada. Não é pra tanto. Acho que ela tem um ponto e talvez tenha sido um pouco irônica, não sei. A forma apressada como as ciclovias foram feitas, talvez tenham buscado mais visibilidade do que real necessidade, talvez não tenha sido feito um estudo sério das melhores rotas para ciclistas. Só posso especular.


Em Jyväskylä - bicicleta do Scandic; os hotéis daqui poderiam/precisariam incentivar e deixar bicicletas à disposição dos hóspedes. 

Como ciclista, já rodei por diversas cidades do mundo. No tempo que passei em Helsinque, Finlândia, fazia tudo de bike, mesmo nos três meses de neve que peguei por lá. A ciclovia lá é pela calçada, que acaba sendo usada para amontoar a neve nos períodos mais frios. Em Copenhague há uma ciclofaixa por toda a cidade, que também é usada para motos, funciona (embora seja um pouco tenso para o turista que quer pedalar despreocupadamente). Em Tóquio, não há muita organização, mas há toda uma organização, o ciclista tem de se embrenhar no meio da multidão de carros e pessoas. Tudo funciona em Tóquio, mesmo em meio a multidão de carros e pessoas. Puxando agora, lembro que rodei pelo Chile, Japão, Finlândia, Alemanha. Dinamarca, Noruega, Suécia, Estônia...


Tallin, Estônia. 


Acho que em São Paulo ainda falta muito, muito além de uma faixa vermelha. Falta dar conta do resto do trânsito, regulamentar os ciclistas, a própria arquitetura da cidade não foi feita pensando em... em nada. Mas talvez seja um bom começo. Talvez só essa discussão já seja benéfica para pensar em alternativas para uma cidade em ruínas. As iniciativas de bikes de aluguel (do banco que me extorque, por exemplo), são bem louváveis.



Também não dá para ficar só culpando os políticos, o PT, Haddad e Jesus pelos problemas. A verdade é que o povo é preguiçoso, e coió, e não está disposto nem a ir até a padaria sem o carro. Eu faço tudo o que posso a pé; sei guiar e já tive carro, mas desisti há mais de uma década. Ônibus eu não pego, que sou fresco. Metrô e táxi quando inevitável. Esta semana tive uma reunião na Vila Madalena, fui a pé aqui da Frei Caneca - demora, mas às vezes pode demorar menos do que ficar no trânsito. E é menos estressante. E queima calorias. Tem gente diz que "não é seguro"; bem, acho que os assaltantes miram mais em quem está parado no trânsito. Outros dizem que "vou chegar todo suado"; bem... isso é verdade.

Floripa. 

Confesso que de bicicleta em São Paulo eu não ando. Não me sinto seguro com o trânsito, nem com as ciclovias. Fora que o ar daqui não é dos mais favoráveis à prática de atividades aeróbicas - delícia pedalar com o ar acre da Rebouças no rosto. Mas ainda é uma alternativa... Agora, já que estão fazendo, poderiam fazer mais direitinho.



Tóquio, em pleno cruzamento de Sibuya


15/09/2014

EXTREMA


Acabo de voltar do Primeiro Festival Literário de Extrema, uma cidadezinha linda na divisa de Minas com São Paulo. Foram mesas sobre literatura, shows, oficinas e conversas com estudantes numa programação bem variada, que contemplou vários tipos de literatura, como não se costuma ver.


Sempre de biquinho 


Cheguei na manhã de sábado já direto para um bate-papo com estudantes adolescentes que haviam lido Garotos Malditos, meu romance juvenil. Foi das melhores mesas que já tive; conversar com quem de fato já leu seu livro faz toda a diferença - e para mim esse foi o ponto alto do Festival, não apenas levar os autores, mas conseguir que seus livros fossem adotados previamente nos colégios locais. A plateia estava lotada e a molecada (de 12 a 16) bem interessada. Pareciam mesmo empolgados com o livro - lindo que o Garotos Malditos continue encontrando seu público. Fizeram perguntas bem pontuais sobre a trama do livro, algumas até que eu não lembrava mais e foram respondidas por outros alunos presentes. Cobraram uma continuação e discuti com eles possíveis desdobramentos da trama, então eles puderam entender um pouco como funciona o processo de um autor. Terminamos lendo um trecho escolhido por eles, com diferentes alunos fazendo a voz dos personagens. Inesquecível.

Garotada lindinha... fazendo chifrinho.

Giulia e Cadão.

Também tive uma mesa sobre literatura de terror no domingo, com a querida Giulia Moon, mediados por Cadão Volpato. Essa foi um pouco decepcionante. A praça estava vazia no domingo e deixaram de avisar o público nos altofalantes, então estava bem vazia. Foi mais uma conversa informal entre nós e o pouco público presente.


Andrea Del Fuego também teve uma mesa com estudantes que leram o seu As Miniaturas.

Fora as mesas literárias, tivemos as costumeiras mesas de almoço, de cachaça. Encontrei amigos queridos como a Del Fuego, e pude conhecer gente muito bacana como a Anna Claudia Ramos, reencontrar o Carrascoza. Murilo foi comigo e aproveitamos um pouco da piscina do hotel e comemos petiscos típicos que estavam numa competição de "comida de boteco" nas barraquinhas da praça principal. Valeu bem, pena ter sido tudo bem corrido, sem chances de cachoeiras, trilhas, asa-delta...


Piscininha...


Murilo, eu, Leo Cunha, Giulia, Anna Claudia Ramos, Luis Fernando Emediato, Carrascoza e esposa. 

É que sempre falo, nesses eventos é que a gente vê que todo autor tem seus dilemas, suas crises, todos enfrentam algum tipo de preconceito ou resistência, cada um busca ampliar um espaço que é sempre muito restrito. Me deixa mais seguro de que o único jeito é fazer o que eu sei, o que eu acredito, seguir na minha própria onda e batalhar para que ela se espalhe o mais longe possível. A cada mesa que assisto, com cada escritor que converso, tenho mais vontade de voltar para casa e escrever meu próprio grande romance do século...


 Com Marcelo Spomberg, organizador do evento, e a Giulia Moon. 



E lá estavam pilhas de meus livros, em destaque na livraria da praça. 

12/09/2014

HOJE NÃO PODEMOS VOLTAR SOZINHOS


Estes dias meu mural do FB foi tomado por fotos de um menino morto, jogado no mato, pescoço virado, uma bola de papel na boca. "Vamos acabar com essa praga", alguns veículos noticiaram ser literalmente a mensagem escrita no bilhete. Outros desmentiram que a bola de papel contivesse qualquer texto. Não importa, a mensagem é a mesma. Morreu por ser homossexual, desprotegido, estar sozinho.

A imagem me causou impacto, até repulsa, e contesto se deveria ser exposta assim. Talvez tenha seu valor de chacoalhão. Eu prefiro mostrar como João Antonio, 18 anos, era um menino bonito, que podia ser seu filho, amigo, irmão, namorado.

Acompanho com curiosidade e receio as redes sociais. Acho que a diminuição da miséria, a "ascensão da classe C" no Brasil tem o lado miserável de ter se dado apenas pelo consumo, sem o mínimo investimento em educação. Basta ler os comentários de qualquer grande matéria, qualquer vídeo popular do Youtube que se constata o nível baixíssimo, tanto da gramática quanto das ideias, que foram formadas (ou "incutidas") pelo único livro conhecido (não exatamente lido) pelo brasileiro médio: a Bíblia.

Nas matérias sobre João Antonio e no próprio perfil dele no FB, os comentários têm sido de solidariedade, tristeza, compaixão. "Você agora é um anjo no céu", muitos dizem. Bem, sentimos muito, mas não será. Se tivermos de acreditar piamente na Bíblia, João Antonio está queimando no fogo do Inferno, assim como quase todos nós estaremos.

A solidariedade surge agora que João Antonio está morto. Se tivesse "apenas" apanhado e postado uma foto, um vídeo dele mesmo contando a agressão, a situação seria bem diferente, acredite. Aconteceu com o estudante André Baliera, vítima de um ataque homofóbico na Henrique Schaumann (SP) há dois anos. O vídeo dele contando o caso no YouTube recebeu centenas de ataques, no tom de "viadinho tem mesmo de apanhar para virar homem".

Antes esses ataques ficassem só na palavra, só na rede, só em homofóbicos isolados que se sentem protegidos pelo anonimato.

Esses ataques acontecem todo, todo dia. Outro jovem sobrevivente vítima de homofobia, Dawan Bueno, que foi atacado recentemente no Paraná, deu uma declaração que sintetiza tudo: "Todos os dias, eu acordo já sabendo que vou ter que enfrentar algum tipo de preconceito. Já faz parte da minha rotina. Para mim, é tão certo quanto acordar, lavar o rosto e escovar os dentes."

Qualquer menino um pouco mais diferente, um pouco mais delicado, tem de crescer com apelidos, agressão e segregação na escola. Um pai que abraça o filho pode ter a orelha decepada por ser confundido com um homossexual. Há dois anos, em Florianópolis, um amigo teve uma crise forte de dor (que acabou se revelando leptospirose) e eu o ajudei a caminhar de volta até a pousada. Durante todo o trajeto ouvimos gritos e xingamentos por estarmos de braço dado; se ele não morresse de dor, poderia morrer por intolerância.

Por essas e outras que a lei que criminaliza a homofobia precisa ser aprovada. Por essa e outras é que é uma lei que beneficia a todos, héteros que abraçam os filhos, gays que andam de mãos dadas, meninos que tentam voltar sozinhos para casa... O problema não é "do outro". Os homossexuais não são "os outros". O problema será seu quando você for confundido com um gay, quando seu filho for gay (ou confundido), seu neto, quando você perder o emprego por seu chefe ser confundido com um gay e ser assassinado, que seja.

"Ah, mas lei contra agressões e assassinatos já existem, não é preciso se categorizar como homofobia", é um bom argumento levantado por muitos. Mas a lei contra a homofobia transmite um exemplo de que é errado discriminar, e esse exemplo pode diminuir o número de assassinatos, certamente diminuirá o número de agressões, humilhações, demissões, suicídios...

Os fundamentalistas que "não têm nada contra os homossexuais, mas..." nunca levam isso em conta. Acham que é uma questão que se restringe aos gays "que dão pinta" e que "se quer dar o cu, seja discreto e faça isso entre quatro paredes". Acreditam que homossexualidade é "opção" e "sem-vergonhice", como se os homossexuais mais afeminados (ou os héteros afeminados, que seja) quisessem é causar escândalo. Esse pensamento é tão forte que ecoa em grande parte dos homossexuais, que não conseguem entender as diferenças inerentes - gay tem de ser másculo, malhado, no armário.

Racismo é crime. A sociedade toda se choca com um jogador chamado de macaco. Você pode concordar com o xingamento, mas tem de ficar quietinho, na sua; essa foi uma conquista que os negros tiveram após anos de luta. Ninguém pode esconder sua cor (bem, talvez só o Michael Jackson...), mas o menino negro não está sozinho. Ele tem a família. Ele cresce entre iguais.

Ninguém pode nem deveria esconder sua sexualidade. E é preciso comprar essa briga, mostrar a cara, mostrar que esse menino gay não está voltando para casa sozinho.



Termino com o ótimo vídeo do Põe Na roda, que fala muito do que acredito. 



08/09/2014

VILAS E FESTAS


Com João Silvério Trevisan, em Paranapiacaba

Participei neste final de semana da 1a Fliparapiacaba, uma festa literária na lindíssima vila inglesa da serra do mar. Minha mesa com João Silvério Trevisan e Fabiano Calixto, mediados pelo Eduardo Sterzi, tratou de tradução literária, as realizadas por nós mesmos, o trabalho do tradutor como um todo e as traduções feitas de nossas obras. Bacana que éramos três autores-tradutores com perfis bem diferentes. Calixto é tradutor de poesia, Trevisan tem traduções literárias pontuais e eu tenho um trabalho de dia-a-dia com a tradução mais comercial. Apesar de ser numa manhã de domingo, teve um público bem razoável. 

Nossa mesa. 

Também consegui ver a mesa de crítica literária com o Manuel da Costa Pinto e Ricardo Lísias, mediados por Reynaldo Damazio. Foi uma conversa mais quente e interativa com o público (até por terem espertamente descido do enorme palco do Clube Lira e se aproximado fisicamente da plateia). 

A mesa deles. 

Passamos (eu e Murilo) o domingo todo na cidade e conseguimos dar uma volta pela estação de trem abandonada, a igreja, o museu. Deu vontade de passar mais tempo, dormir ao menos uma noite, fazer trilhas...









Murilo menino sapeca.  


E o fim de semana ainda teve a grande festa do Cidade Matarazzo, na sexta. O antigo hospital abandonado aqui do lado de casa foi invadido por artistas, performances, shows e instalações. Estava cheio demais - teve tumulto na entrada, vários "VIPs" não conseguiram entrar (porque basicamente todo mundo era "VIP"), mas nós que chegamos cedo não tivemos grandes problemas. Encontrei muitos amigos, toquei piano vi muita coisa e tudo ficou mais insano com o open bar de Absolut. Lembro que lá pelas tantas da madrugada estávamos num tour pelo labirinto do necrotério - que foi transformado numa instalação a lá "noites do terror" pelo Zé do Caixão e que ficou mais assustador com o bando de gente bêbada perdida por lá, umas meninas apavoradas, uns atores de saco cheio...

Eu de pianista. 




Murilo de anjo. 

E no próximo fim de semana estarei em EXTREMA, outra cidade lindinha, fronteira de São Paulo com Minas, também no primeiro Festival Literário de lá. Tenho uma mesa no sábado - apresentando Garotos Malditos para estudantes e uma no domingo, sobre literatura de terror com a Giulia Moon. Del Fuego, Carrascoza, Cadão Volpato e outros também estarão na cidade, o que deixará tudo mais gostoso.

Programação completa aqui: http://extrema.mg.gov.br/destaques-capa/festival_literario_de_extrema/


 A festa continua...

02/09/2014

FLIPARANAPIACABA E TRADUÇÕES

Estarei este final de semana em Paranapiacapa, no primeiro festival literário de lá, numa mesa com João Silvério Trevisan e Fabiano Calixto, mediados por Eduardo Sterzi.

A programação completa está aqui: http://fliparanapiacaba2014.wix.com/fliparanapiacaba

Gostei especialmente do convite porque a mesa trata de tradução literária. Fui fazendo as contas e já traduzi quase CINQUENTA obras... Ok, muitas nem podem ser chamadas exatamente de "obras", tradução é meu trabalho de todo dia, e já fiz de livro de regime a alta literatura. Mas sempre aprendo algo (esses "guias" de estilo, de regime, por exemplo, me ensinam horrores de vocabulário, porque tenho de pesquisar nomes de tecidos, de modelos de roupa, de sapato, de maquiagem. )

Traduzi muitos juvenis, e fui me especializando na linguagem soltinha, coloquial, que se tornou meio minha marca e as editoras me procuram muito por isso. Não gosto de muita coisa que traduzo, muito livro péeeeessimo. Mas trabalho é trabalho, paga as contas, e obviamente não vou citar aqui nomes para falar mal, não seria ético.

Falo um pouquinho dos que mais gosto:

 MALDITO CORAÇÃO - JT LEROY (GERAÇÃO): Um dos primeiros que traduzi (meeeedo); é aquele livro louquíssimo daquele garoto andrógino, drogado e prostituído, que veio ao Brasil e depois se descobriu ser uma farsa. Tudo ficção. Para mim, a história só ficou melhor. Anos depois conheci Laura Albert, a verdadeira autora. Uma fofa.

Com Laura Albert, criadora do JT. LeRoy.

 A GAROTA DOS PÉS DE VIDRO - ALI SHAW (LEYA): Talvez esse seja meu favorito de todos, um livro fantástico, em todos os sentidos, sobre uma menina que começa a ter o corpo transformado em vidro e se refugia numa ilha em busca de tratamento. Traduzi quando eu mesmo me mudei para Florianópolis, então teve um sabor todo especial.

A NOIVA DO TIGRE - TEA OBRECHT (LEYA): Dos mais literários que traduzi, não à toa a autora ganhou o prêmio Orange. Um afetivo livro que flerta com o fantástico através das lendas de família rememoradas por uma jovem após a morte do avô. (Até Alcir Pécora falou bem!)

O AMOR COMEÇA NO INVERNO - SIMON VAN BOOY (SARAIVA): Traduzi os dois livros de contos do Simon Van Booy e gosto dos dois - mas talvez prefira esse. São contos afetivos, delicados, com visões muito particulares de relações amorosas.

O MÁGICO DE OZ - FRANK L. BAUM (LEYA): Esse todo mundo conhece. O texto original é bastante infantil, no bom sentido. Eu sentia que estava contando a história para uma criança.

OLHAR MORTAL - FERGUS MCNEIL (NACIONAL): Saiu recentemente, é um thriller contado do ponto de vista do psicopata e do policial que o persegue. Bem divertido e inovador.

HATER, ÓDIO MORTAL - DAVID MOODY (SARAIVA): Basicamente um livro de zumbis - uma epidemia que varre o planeta e gera um ódio instantâneo que divide a humanidade. Bem divertido e hardcore. Estou esperando o filme.

O UNIVERSO CONTRA ALEX WOODS - GAVIN EXTENSE (ROCCO): Também saiu recentemente. Podia ser um livro piegas sobre a amizade de um velhinho mal-humorado com um adolescente nerd, mas o autor acerta em cheio na dose para tratar da eutanásia.


São agora doze anos dessa carreira - e confesso que morro de medo das primeiras coisas que traduzi... Na verdade, tenho medo de todas as traduções que vão ficando para trás, porque sempre acho que estou melhorando, aprimorando, sempre acho que hoje traduziria melhor algo feito a um, dois anos...

(Mas tenho mais medo mesmo da Marina Silva. Meeeeeedo.)

Para colocar a lista completa aqui, puxei da memória, da estante, chequei meus arquivos e entrei no site da Livraria Cultura. Na real, acho um saco digitar lá "Santiago Nazarian" e aparecer mais coisas do que eu traduzi do que meus próprios livros (por que meu nome como tradutor se mistura com o de autor na ferramenta de busca da livraria?). De qualquer forma, ajudou, porque já fica difícil de eu lembrar todos os títulos, autores, editoras...

Certo de que esqueci alguma coisa, mas a lista quase completa é essa:

 Metrossexual, Guia de estilo - Michael Flocker (Planeta)
- Quando Eu Era o Tal - Sam Kashner (Planeta)
- Fan Tan - Marlon Brandon, Donald Cammel (Nova Fronteira)
- Maldito Coração - J.T. Leroy (Geração Editorial)
- Rosa - Gus Van Sant (Geração Editorial)
- Alguma Coisa Invisível - Siobhan Parkinson (Nova Fronteira)
- O Violino Voador - Siobhan Parkinson (Nova Fronteira)
- Este Livro Vai Salvar Sua vida - A. M. Homes (Nova Fronteira)
- Os Filhos do Imperador - Claire Messud (Nova Fronteira)
- Pão de Mel - Rachel Cohn (Record)
- Siri - Rachel Cohn (Record)
- O Sonâmbulo - Jonathan Barnes (Mercuryo)
-Moby Dick/Oliver Twist/ Raptado/ O Corcunda de Notre Dame/ Viagem ao Centro da Terra (série de quadrinhos para a Ibep)
- Dizem que Sou Louco - George Haar (Ática)
- Cacos de Vida - Sally Grindley (Ática)
- A Vida Secreta dos Apaixonados - Simon Van Booy (Saraiva/Arx)
- Príncipe de Histórias, Os Vários Mundos de Neil Gaiman - (Geração Editorial)
- Você Sabe Onde me Achar - Rachel Cohn (Record)
- O Amor Começa no Inverno - Simon Van Booy (Saraiva/Arx)
- Hater - David Moody (Saraiva/Arx)
- Noturno de Havana - T. J. English (Cultrix)
- Emily, a Estranha - (anônimo) (Record)
- Bowie - Uma Biografia (Saraiva/Arx)
- A Garota dos Pés de Vidro - Ali Shaw (Leya)
- O Mágico de Oz - Frank L. Baum (Leya)
- A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça - Washington Irving (Leya)
- O Ladrão de Crianças - Brom (Saraiva/Arx)
- A Noiva do Tigre - Tea Obrecht  (Leya)
- Ladrão de Almas - Jana Oliver (Farol)
- A Filha do Caçador de Demônios - Jana Oliver (Farol)
- Quentin Tarantino - Paul A. Woods (Leya)
- Aurora - Julie Bertagna (Farol)
- Condenada - Chuck Palahniuk (Leya) 
- Academia Knightley - Violet Haberdasher (ID)
- Guia de Estilo Squire (Ibep)
- O Príncipe Desencantado - Tony Ross (Record)
- Magra Para Sempre - Jilliam Michaels (Nacional)
- Guia para Dona de Casas Desesperadas - Caroline Jones (Nacional)
- O Teste - Joelle Charboneau (Gente)
- Emily the Strange - Os Dias Perdidos (Record)
- Olhar Mortal - Fergus McNeil (Nacional)
- Os Escolhidos de Gaia - Marcela Mariz (Autêntica)
- O Universo Contra Alex Woods - Gavin Extence (Rocco)
- Dark House - Karina Halle (Gente)
- O Amor em Jogo - Simone Elkeles (Globo)
- Maldita - Chuck Palahniuk (Leya)


E mais sobre o tema... desenvolvo domingo, na Fliparanapiacaba. 

QUANTO GANHA UM ESCRITOR

Com Paulo Scott na Garopa Literária Aqui em Maresias. Na casa que Murilo alugou. Cheguei nesta noite fria de sábado e fui fazer um ch...