17/04/2015

DEFORMANDO LEITORES


Mesa de quarta. (do blog do Maurício C. Garcia: http://esquizo.com.br/)

Acabo de voltar do Salão do Livro da Serra Catarinense, organizado pelo grande Carlos Henrique Schroeder, um dos escritores que mais faz pela literatura no estado. Dividi mesa na quarta com Simone Campos, Raphael Montes (de novo nãaaaaao!) e o autor local Maurício C. Garcia. Quatro autores deixam uma mesa bastante inchada, mas a mediação de João Chiodini distribuiu muito bem as perguntas e permitiu que de fato houvesse um debate, não apenas discursos paralelos. Ainda sobrou tempo para perguntas da plateia - que foi tomada por uma juventude trevosa com camisetas de banda, talvez pelo tema da mesa (games, tiros e terror). Bem bacana.

No camarim, prontos pro debate. 


Recentemente Suzana Vargas e Afonso Borges publicaram textos em O Globo debatendo sobre a validade dos eventos literários na formação de leitores. Concordo com os dois, discordo dos dois. Acho que eventos literários formam leitores, mas sua função principal é formar autores, o que pode ser quase a mesma coisa, já que o autor é antes de tudo um leitor.

"Eu também escrevo" deve ser a frase que todo autor mais escuta de seus leitores. E os eventos literários existem para que essas frases sejam ditas. São a ponte entre leitor e autor, em mais de um sentido. É o momento do leitor ("já formado") entender como a coisa funciona, a escrita, o mercado, reformar-se como leitor e autor... ou calar-se para sempre.

Por isso é essencial que o evento tenha participação do público (que tenha público, para começar), em perguntas, conversas. As oficinas literárias oferecidas em muitos festivais contribuem com isso, mas sempre acho mais importante o leitor conhecer as experiências individuais de cada autor do que "fórmulas" para escrever.

E nesse ambiente, nessas tendas, sempre há um transeunte curioso, um acompanhante alienado, alguém que pode ouvir a palavra do autor pela primeira vez e perceber que também se fala (e se lê) sobre "games, tiros e terror". Assim também pode se formar novos leitores.

Na pesquisa que publiquei na Folha ano passado, sobre a renda de escritores, ficou claro a importância dos eventos literários na sobrevivência dos escritores. Eventos pagam as contas, formam autores na plateia, reformam autores nos palcos. Autores formam leitores, não tenho dúvidas disso.

Sobre os textos do Globo, para me deter a questões pontuais:

Eventos não levam ninguém a ler mais ou a comprar mais livros. Eventos literários sejam eles festas, feiras, bienais com maior ou menor projeção nacional, são fenômenos de marketing. Ou seja: eventualmente ouve-se falar num produto chamado livro, em seus autores, como quem anuncia uma nova marca de refrigerante. - de Suzana Vargas

Discordo veementemente. Uma limitação que encontro em muitas mesas literárias é exatamente que cada autor quer apenas falar de seu livro, dar seu serviço, não debater temas propostos e expandir a discussão para a literatura de forma mais ampla. Também não se pode esquecer de eventos que adotam e trabalham o livro previamente (como a Jornada Literária de Passo Fundo, o Festival Literário de Extrema), para depois oferecer a conversa com o autor.

O escritor quer, claro, ser reconhecido. Mas o reconhecimento se dá de uma só forma: em vendas. Ou existe escritor que vendeu 10 exemplares e é um sucesso? -
 Afonso Borges. 

Discordo e tenho discutido isso exaustivamente aqui. O reconhecimento não se dá só em vendas. O autor quer vender mas não quer vender a qualquer preço, pode ter muitas ambições antes disso. Aliás, o bom autor deve ter muitas ambições antes disso. Autores mais sofisticados, com uma literatura mais densa, arriscada ou controversa sabem que não estão publicando sucessos de vendas, e já consideram sucesso conquistar seu público (seja ele de dez leitores especializados). João Gilberto Noll, João Silvério Trevisan e Evandro Affonso Ferreira, entre outros, são senhores autores que não vendem, e sem dúvida são reconhecidos. Para mim, são heróis.


Você pode ler os textos originais da Suzana e Afonso aqui: http://editoras.com/discussao-debate-dialogo/

E assim se abre a (minha) temporada de eventos literários de 2015. Também ajudam a formar a mim como autor, não só pelos debates oficiais, mais pelas conversas que se estendem nos bares, nos translados. Sempre aprendo muito. Semana que vem vou estar na Flipoços, ao lado da querida Luisa Geisler, falando sobre o êxodo urbano na literatura brasileira atual (tema de um texto que publiquei na Ilustríssima ano passado). Você pode ver toda a programação aqui: http://www.flipocos.com/


Na estrada. 

OS MELHORES LIVROS DE TERROR DE TODOS OS TEMPOS

Dia desses rolava aquelas listas de “melhores filmes de terror” no FB. Já coloquei meus 20 aqui e poderia facilmente listar 30, 50... E...