22/10/2015

MAMA ARMÊNIA

Pagando meus pecados em grande estilo.
Como típico brasileiro, minhas origens são uma mistura incerta (que não deu lá muito certo), mas que, no caso da minha família podem ser rastreadas principalmente na Armênia. Meu lado materno vem de lá, de meus dois avós, filhos de imigrantes que vieram ao Brasil em diferentes momentos do genocídio causado pelos turcos (com auge em 1915).

O Monte Ararat é símbolo do país, pode ser visto da capital, mas atualmente está em território turco. 

Talvez tenha sido um trauma que atravessou gerações, mas estranhamente ninguém da família próxima, tios, primos, nem mesmo minha avó (que já nasceu no Brasil) nunca visitou o país, ainda que nossas origens armênias sempre tenham sido exaltadas.

Ararat da janela do meu quarto de hotel. 

Eu também demorei. Armênia se torna agora o 27o país que visito. E confesso que esperava menos - talvez um país mais pobre, talvez menos bonito ou menos interessante de se visitar. Mas vim a tempo.
A paisagem compensa. 

Apesar da crise, este foi um bom ano profissionalmente para mim. E me orgulho que minha literatura tenha me proporcionado isso, possibilitado que planejasse a viagem e convidasse minha mãe. Estamos muito bem instalados num hotel quatro estrelas no centro de Erevan, com uma bela vista do Monte Ararat. Aproveitamos esta semana para conhecer não só a capital como fazer uma série de excursões turísticas pelo interior - Lago Sevan, Tatev, Noravank, mosteiros e mais mosteiros…

Mosteiros e estradinhas...

No campo. 

Pegamos uma agência de turismo local e planejamos o que poderíamos fazer com o tempo que tínhamos; o passeio de ontem durou treze horas, num ônibus lotado de russos. As paisagens são magníficas, de florestas a montanhas nevadas, regiões semi-desérticas e vilas. O turismo aqui é muito baseado na religião (a Armênia foi a primeira nação cristã e resiste bravamente cercada pelo mundo muçulmano) e cansa um pouco ouvir os guias contando (monocordicamente) sobre as construções das igrejas, mas o visual compensa. É curioso conhecer a história daqui e, de certa forma, identificar como minha própria história, faz com que me sinta, em certo grau, menos turista. Eu passaria um tempo aqui.

Dona Elisa Nazarian perdida na neblina.

O povo tem aquele tipo caucasiano - as mulheres bem mais bonitas do que os homens. Como estou numa viagem familiar, e passei grande parte do tempo na estrada, não conheci o "fervo", mas também, pelo que sei, Erevan está longe de ser uma cidade boêmia. O clima está ok, um friozinho de outono. Só ontem que demos azar no teleférico de Tatev, que estava coberto com uma neblina absurda e praticamente não vimos nada.

Os carneiros parando o trânsito. 

Em termos culturais, a marca da união soviética (da qual a Armênia fez parte) ainda é muito forte. O russo é a segunda língua do país, a comida tem muito a ver com a de lá, e um pouco do temperamento. O povo não é muito simpático, ninguém fala inglês e eles não se esforçam para ajudar. Mesmo minha mãe, que é exemplo de simpatia e sociabilidade, fica constantemente no vácuo ao dizer bom dia ou tentar engatar uma conversa com alguém. Há aquela tentativa constante de enganar e tentar tirar mais dinheiro do turista, mas também me pareceu um país seguro.


Recorrendo ao cardápio turístico em inglês. 

Essas bagaças com nozes que vendem nas vilinhas são uma delícia. 

A capital é bem cuidada, ruas, canteiros, limpa, tranquila, bonita, ainda que longe de cosmopolita. Tem um clima europeu, talvez de cidade menor. Os supermercados têm uma ótima oferta - bem integrada ao resto da Europa - e as gôndolas enormes de vodca (armênia, russa e escandinava) me impressionam; acho que descobri de onde vem minha predileção. E, para se visitar, é um país barato.

Uma pequena amostra do paraíso das vodcas. 
Dona Elisa Nazarian também está positivamente impressionada, gostando bastante. É o que sempre digo para ela: bom que ela pode vir a tempo, enquanto ainda está andando, comendo com os talheres, raciocinando razoavelmente…

Elisa Nazarian reencontrando as origens.

Amanhã já volto para Paris, no final do dia pego o trem para Londres, onde fico sozinho por quatro dias, daí de volta para o Brasil. Não sei qual será o próximo país novo que vou conhecer - na lista de desejos estão Islândia, Tailândia, Austrália e Itália (onde até já publiquei livro mas, infelizmente, nunca fui convidado). Minha lista atualizada de países fica assim, em ordem alfabética:

ALEMANHA
ARGENTINA
ARMENIA
BELGICA
BRASIL
CHILE
COLOMBIA
DINAMARCA
ESCOCIA
ESPANHA
EUA
ESTONIA
FINLANDIA
FRANÇA
HOLANDA
HUNGRIA
INGLATERRA
JAPAO
MEXICO
NORUEGA
PERU
PORTUGAL
REPUBLICA TCHECA
RUSSIA
SUECIA
URUGUAI
VENEZUELA

Dona Elisa solta a franga, digo a pomba, no Lago Sevan.

PRÓXIMOS, PÓS E PARALELOS

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