19/10/2016

MEU CASAMENTO

Isso não é uma família. 

Então me casei... E você não tem nada com isso.

Há alguns meses que eu e Murilo estamos morando juntos. Aconteceu naturalmente, com quase quatro anos de namoro. Ele tinha de entregar o antigo apartamento, o meu tem um tamanho razoável; mudou para cá enquanto pensamos se mudamos para um maior, se fugimos do país, se testamos novas configurações...


Em Búzios, outubro passado.


Já tive relacionamentos longos, mas nunca morei junto; então morar junto para mim é um casamento. Muda tudo, mas não muita tanta coisa. Muitos pensamentos, reflexões, descarregos e desabafos que diríamos num Facebook podemos dizer ao companheiro ao lado, talvez por isso eu esteja postando menos, Existe a rotina, as contas a pagar, e é preciso buscar novos respiros, preservar espaços... Pensamos juntos no que fazer para o almoço, compramos juntos o que é preciso para o jantar (e com o talento dele para a cozinha tenho de freá-lo para que cada refeição não se torne um banquete), dividimos as tarefas da casa e a atenção com a coelha. Isso não é uma família...?

No Masterchef (2015), com nossa ex-coelha Asda. 


A mim não importa.

Acompanho com curiosidade os debates sobre o estatuto da família, as possibilidades de casamento e conquistas da comunidade LGBT. Apoio a bandeira, mas não é uma briga pessoal. Não entendo a hipervalorização do conceito de família, não preciso da institucionalização da minha união.


Em Londrina, terra dele. 


“Proteção à família”: um conceito equivocado, que visa proteger quem já tem a maior proteção, a família tradicional: pai, mãe, filhos. Esses já têm ajuda entre si. Quem precisa de proteção é quem não tem família: o idoso esquecido, a criança abandonada, o eterno solitário.  Daí vejo tantos gays com gato, cachorro, coelho, filho adotado, brigando por serem reconhecidos como família... Para mim é família, óbvio. Para mim, não importa. Acho que deveríamos nos conscientizar de que família não importa, não é nada sagrado, nada que mereça tratamento especial. É pai que estupra a filha, mãe que expulsa filho de casa, filho que esfaqueia os pais para comprar crack. Isso tudo é família. Que lindo.


Murilo empratando o almoço de domingo passado.
E a foto dele do prato.


Voltando ao casamento, ao meu casamento, deixei a lista de presentes na Camicado...

Mentira. Se a união de muitos gera uma festa milionária, me esforcei para que gerasse ao menos um post... para registrar. Estou morando com meu namorado. E ninguém tem nada a ver com isso. Compareço ao casamento de amigos gays, héteros, com carinho, mas certo “cinismo interno” (pensei muito no termo exato, alguém me ajuda? Seria “empáfia”?). A festa, a pompa, me parece tão descabida quanto uma celebração de debutante. Os dois resolveram se juntar numa cerimônia solene, em que gastamos tubos em trajes, presentes, suamos numa festa que não deveria pedir terno num país tão quente; o casal gasta ainda mais. Nos preparamos como nunca, para um evento que não tem nada a ver conosco. A máxima homofóbica me vem com força a qualquer anúncio de casamento: “Não tenho nada contra o que você faz entre quatro paredes, só não queira que o mundo todo bata palmas!”

(Imagino que depois desse post muitos amigos deixem de me convidar para seus casamentos... Por favor, deixem, não gosto.)

Deve ser afinal do exemplo que tenho de casa, do mau exemplo que tenho de casa, da minha “família”... se é que posso chamar de família. Minha mãe morou dez anos com meu pai, tiveram quatro filhos, nunca foram casados. Minha sobrinha de quatro anos é fruto de um relacionamento estável de 8 anos da minha irmã com o namorado, com quem mora, divide as contas, as responsabilidades. Minha “família” é ateia, então casamento religioso não faz mesmo sentido, e nunca precisou da aprovação do estado. Não será agora.

Talvez a oficialização civil seja só uma garantia, mais do que um símbolo de união, um complicador para dificultar a separação, para forçar o casal a acreditar e se esforçar ao máximo para a coisa dar certo. Morar junto já tem um pouco disso. Eu me desfiz de um fogão, Murilo se desfez da geladeira (mas ainda estamos com uma máquina de lavar a mais estacionada no banheiro). A separação já vai sair trazer prejuízos financeiros...

O importante é encontrar seu par. Não é fácil. Ter o Murilo aqui em casa é fácil, tranquilo, natural. Ele é muito companheiro e ao mesmo tempo reservado. Somos muito diferentes e assim nos entendemos – ter outro como eu aqui seria  um pesadelo, e sei bem que relacionamentos gays têm muito disso, do narcisismo.


Então é isso, é por isso, estou casado, vivendo em pecado, e não é festa, não tem cerimônia, não tem porque impedir, comemorar, pedir aplausos ou permissão.  

Remando juntos, seja qual for a maré. 


COELHA VAMPIRA

Ilustração de Marcos Garuti para meu conto, na Revista E.                  Na noite de 28 de março de 2017, o escritor gaúcho João ...