13/11/2016

ALICE NO CANAVIAL

(de Sally Mann)

Há algumas semanas uma revista bacana me pediu um conto inédito – que deve sair no próximo mês (aviso aqui) – e trabalhando nesse novo texto comecei a pensar em outros contos ainda não publicados, alguns anteriores até mesmo ao Pornofantasma. Fiquei pensando que poderia ser bacana publicar outro livro de contos, mesmo que as pessoas não gostem de livros de contos, mesmo que qualquer um possa escrever contos, mesmo que contos sejam brigadeiros para confeiteiros.

Achei só que é algo que eu mesmo gostaria de fazer – com um novo romance já entregue (sim, romance novo já está entregue; vamos ver se sai no começo de 2017) – enquanto fermento as ideias para o... décimo? (Juro que perco as contas, ainda mais com um romance para sair, um juvenil, um livro de contos, fica uma conta quebrada...) – achei que poderia fazer meu segundo livro de contos (mesmo que as pessoas não gostem dos meus contos, mesmo que todas as pessoas escrevam contos; brigadeiros aos porcos). Enfim, só para registrar...

E com essas ideias em mente que escrevi o conto abaixo. Já pensando num livro novo, mas carregado de tudo o que já fiz. Está carregado principalmente desse próximo romance, que gira muito na questão da paternidade. Mas aqui pude brincar um pouco mais com a questão do gênero, dos banheiros, masculino/feminino (eu mesmo tenho uma placa de “FEMININO” no único banheiro do meu apartamento... Mas não abaixo a banca e, confesso, sou péssimo de mira...)

Carregado de tudo o que já fiz, achei que seria mais leve apenas postar assim. Faz tempo que não posto minha “literatura” aqui. O blog perdeu muito de sua função com as novas “redes sociais”, mas alguns leitores permanecem. Bem... Por que estou me justificando desse crime?


O título poderia ser melhor... Talvez seja. “A Loira do Banheiro” ou “Alice No Canavial"?. Mas “A Loira do Banheiro” é uma ótima amostra do “existencialismo bizarro”, as referências trash em contextos mais literários (ou pretensamente literários, se preferir). É um projeto falido, eu sei, mas é tudo o que eu tenho... 

A LOIRA DO BANHEIRO (conto inédito). 

“Papai, quero fazer xixi”, disse minha filha do banco de trás do carro. Previsível. Dirigíamos a um bom tempo pela estrada em silêncio; passamos por pastos de vacas, criações de pôneis, o Castelinho da Pamonha, e eu me perguntava como minha filha absorvia tudo aquilo, se absorvia tudo aquilo, e quando iria se deixar seduzir por esses pretensos oásis rodoviários. Pediria para parar, pediria para olhar os pôneis, pediria uma pamonha – pamonha é um sabor infantil? Mais tímida ou esperta pediu para usar o banheiro, ao que eu não poderia tentar dissuadi-la. Ainda assim tentei: “Está muito apertada? Pode esperar um pouco?” Observei-a pelo retrovisor meio retorcida, pernas cruzadas, como se não pudesse mais. Tudo bem...
Não sei se ela tinha noção que o que havia passado havia passado.  As vacas, pôneis e castelinhos haviam ficado para trás, não tinha mais jeito; e ela estaria entregue à sorte do que a estrada oferecesse em seguida; a parada do banheiro seria num posto incerto que provavelmente mal garantiria as condições mais básicas de higiene. Espiei pela janela aberta: uma borracharia, um quiosque de bananas, um posto da polícia rodoviária. Esperava qualquer uma dessas grandes redes que hoje tomavam a rodovia oferecendo de bufê de churrasco a artesanato, mariola, drogaria, panelas de barro, CDs de duplas sertanejas. Nada. “Papai, quero fazer xixiiiiii...” Choramingou mais veemente do banco de trás. Se fosse um menino eu pararia em qualquer ponto, no acostamento, e vigiaria enquanto o moleque se aliviasse sobre dentes de leão. Se fosse um menino pararíamos em qualquer ponto, no acostamento e o moleque poderia se satisfazer ainda hoje em dia? Quando eu era menino, parávamos em qualquer ponto, no acostamento, com minha mãe vigiando para eu me satisfazer, eu já um pouco mais velho pedindo para que ela não espiasse, que assim eu não conseguia, ela jurando que não espiava; e ela ainda que na direção, eu ainda que criança exercia minha superioridade masculina; ao sinal da menor pressão na bexiga pedia para que minha mãe parasse, enquanto que ela, enquanto que minha irmã, elas teriam de se conter até que um empreendedor da estrada concedesse permissão para as mulheres. Nessas horas é que se encontra apenas um precário posto anônimo que parece ter ficado na minha infância, nos anos 80, nos anos 70, daqueles em que pedimos informações apenas para sermos desviados para uma estrada deserta tomada por canibais. Foi o que encontrei, o posto, ao menos. Guinei do acostamento para o cascalho já sentindo falta eu mesmo dos castelinhos pelo quais passamos; uma pamonha cairia bem, agora que eu estava certo que aquela lojinha de conveniência não teria nada a oferecer. Estacionei, desci do carro e abri a porta traseira com minha filha já se desvencilhando de cintos e bonecas.
Deixou a mão que eu oferecia no vácuo, correndo à minha frente, ansiosamente apertada. Levantei o olhar para o frentista solitário que nos observava da porta da loja de conveniência. “Um banheiro para ela?” ofereci minha filha como saudação de paz; os banheiros estavam bem visíveis ao lado da loja. Ele indicou com a cabeça. Eu assenti em agradecimento. Minha filha já entrava no feminino sem me dar tempo para pensar se eu devia levá-la comigo ao masculino, se eu deveria entrar no dela. “Você vai sozinha?” perguntei com ela desaparecendo lá dentro, sem resposta. “Estou aqui fora qualquer coisa...”
Parado na frente dos banheiros me voltei novamente à estrada, um caminhão entrava no posto. Percebi que minha própria bexiga já exercia aquela leve pressão, que na infância obrigaria minha mãe a parar, mas que neste dia eu tentava ignorar para não impor minhas necessidades à minha filha. Era o final de semana dela. O final de semana dela comigo, depois de muito tempo... Eu queria provar à minha ex-mulher que daria conta, mais do que a mim mesmo.
“Vou só ao banheiro aqui do lado, tá? Stella? Estou aqui no banheiros dos homens.” Gritei na porta do feminino e corri para o outro sem resposta da minha filha.
 Encontrando o que eu já imaginava, imaginei o que encontrava minha filha. Qual seria o nível mais baixo de um banheiro feminino, porque aquele certamente correspondia aos piores exemplos de banheiro masculino, ainda funcional. Para nós é perfeitamente possível usar sem tocar coisa alguma, além de nós mesmos, sem papel, sem sabonete. Para uma menina que mal alcançava a altura da privada, o que seria? Bem, se as meninas não mijam de pé, as mulheres não mijam fora do vaso, não mijam na tampa do vaso, não tentam acertar miras aleatórias com o jato nem desenham seus próprios pênis nas portas do reservado anotando o telefone logo abaixo. Não?
Cheguei ao vaso torcendo o nariz. Aquilo entupido de todo tipo de sólido, líquido e gasoso. Obrigava-me a dar descarga com a ponta do dedo. Uma vez: um estrondo e uma espiral agitaram o lamaçal que se aquietou novamente aonde estava. Na segunda, um leve burburinho com um filete d’água que provocou menos mudança ainda. Tudo bem, apontei para o centro da massa e olhei para cima, tentando não respirar. Fixei-me num desenho infantil de um boneco de pauzinhos pagando um boquete. Imaginei que criança desenharia aquilo, tão alto na parede do reservado. Imaginei que adulto ainda usava seus bonecos de pauzinho com propósitos pornográficos. Voltei meus olhos ao meu próprio membro que espirrava na banca da privada que não tive coragem de levantar. Deve ser isso, o círculo vicioso, bola de neve, avalanche escatológica, é preciso um único porco para que o próximo siga o exemplo; com o banheiro naquele estado ninguém poderia mais se importar. Concluí em respingos para todos os lados, e dei a terceira descarga, que despertou apenas um chiado oco nos canos.
Torneira seca também, constatei levantando meu rosto para o espelho riscado. Três descargas na privada, então olhe para o espelho, a fórmula para encontrar a loira do banheiro. Perguntei-me se a fórmula funcionaria ainda que a descarga não. Perguntei-me por que uma loira fantasma apareceria num banheiro masculino daqueles; sem necessidades, por que se sujeitaria um fantasma; siga pela estrada. Pensei em minha filha sozinha no banheiro ao lado e saí apressado.
Lá fora o caminhão fumegava ansioso. Nem sinal de Stella. As meninas demoram. “Tudo bem por aí?” Ainda sem resposta. Imaginei minha filha indecisa sobre como usar um vaso sanitário naquele estado. Imaginei-me entrando e indo até ela ajudá-la e a menina berrando, gritando para eu sair, pedindo privacidade, já consciente de suas vergonhas. Achei por bem perguntar: “Precisa de ajuda?”
“Quem sabe, boneco...” veio a resposta lá de dentro.
Uma voz  anasalada. Nasal. Anal. Quase masculina, quase feminina. Endureci incerto se deveria endurecer, se deveria ficar no mesmo lugar, com uma mulher lá dentro, se deveria correr para o banheiro, com um homem lá. Passei pela porta já me desculpando – “Desculpe, minha filha está demorando...”
Encontrei lá dentro, na frente do espelho, uma travesti.  Algo indígena, mulata, morena, loira, os peitos siliconados, me olhava num sorriso cínico, duvidando de minhas intenções, acreditando em minhas intenções. “Stella?” disse alto demais observando o reservado, porta fechada. Não houve resposta, mas uma descarga soou de lá. Minha filha me ouvindo e se apressando para sair. “Ela ainda é pequena”, justifiquei-me com a travesti. Olhou-me de cima a baixo avaliando o que eu tinha a oferecer. Olhou-me de cima a baixo como se avaliasse se eu podia gerar filhos, ser pai de família, pai de seus filhos.
“O que vocês estão fazendo aqui?!” ouvi detrás de mim. Virei-me. O velho frentista. “Esse é o banheiro feminino!”
“A minha filha...”
“Vamos, fora!”
Voltei-me novamente para a travesti, que arqueava a sobrancelha em seu sorriso ainda cínico. “Stella?” Pressionei para que minha filha viesse me resgatar. “O senhor me viu entrando com ela...”
“Fora daqui!” O velho falou fazendo um sinal para fora que indicava tanto que eu deveria sair quanto que ele mesmo poderia sair e voltar com providências mais contundentes. Levantei as mãos me rendendo, mas respondi somente à minha filha. “Stella, vamos, papai tem que sair. Vamos voltar para o carro.”  
A porta do reservado se abriu. De lá saiu uma morena ainda mais morena, menos loira, mais alta e com peitos ainda maiores. “Pra que tanta pressa, papai?” me disse com ironia.
“Onde está minha filha?” perguntei; a porta de dois outros reservados abertas.
A segunda travesti deu de ombros, lavando as mãos.
“Vamos, todo mundo fora daqui!” insistiu o frentista.
As duas saíram aos pulinhos enquanto eu corria para os reservados, espiava por minha filha, constatava que as mulheres, sim, são mais limpas, que o banheiro feminino era impecável; nem sinal de Stella. “Você viu que minha filha entrou aqui!” argumentei com o frentista tentando convencer a mim mesmo de que ela certamente entrara, dando a ele a oportunidade de discordar.
O frentista apontou novamente com a cabeça, rígida, fazendo sinal para eu sair, ou fazendo sinal que minha filha me esperava lá fora, fazendo sinal para eu esperar lá fora.
Saí olhando ao redor. “Stella?!” Gritava contemplando o vazio por que não havia onde procurar. Na loja de conveniência, entre bombas de combustível, na estrada, nada. As duas travestis requebravam de volta para o caminhão, caminhão ligado, motorista na direção, era o momento de correr até lá e bater na caçamba, atacar o motorista, o que você fez com minha filha. Eu me arrependeria, e me arrependeria de não ter ido, mas permaneci enraizado no lugar apenas olhando para o rosto dele, tentando ler alguma culpa, tentando obter alguma resposta. Por favor, o senhor viu minha filha? Era uma alternativa. Se ela a tivesse, negaria. E eu teria de bater na caçamba, bater no motorista, sair em briga de navalha com travestis. Permaneci. O olhar de óculos escuros dele impossível de ser decifrado. Logo as travestis embarcavam, o caminhão manobrava, dava ré, voltava à estrada, lento, decisivo, ainda possível. Permaneci.
Eles voltariam à estrada até a bexiga das meninas novamente pressionarem. Se fossem meninos, poderiam parar em qualquer ponto, no acostamento, e o caminhoneiro tentaria ignorar enquanto os dois levantavam a saia, botavam o pau para fora, se aliviavam sobre embalagens de mandiopan, bitucas de cigarro, garrafas pet de dolly guaraná.
“Stella!”
Tirei o celular do bolso, como um reflexo, como se tivesse algum recado, alguma mensagem, alguma resposta, como se pudesse alcançar minha filha por lá. Olhei as horas. Considerei ligar para minha ex. Ligar para a polícia, assumir a culpa, assumir meu fracasso. Só fui capaz de ser pai até a primeira parada. Perdi minha filha num posto rodoviário. Deveria verificar o álbum de fotos, certificar-me se ela estava mesmo lá, estivera mesmo lá, existia, existira, agora não mais. O senhor nunca teve filha, chegou aqui sozinho, diria o frentista, agora já é hora de o senhor partir.
Entrei atrás dele, na loja de conveniência. “Escute... Espere... Olhe... Parei aqui para minha filha ir ao banheiro e ela não está mais lá. É apenas uma menina; o senhor não a viu?”
“Sim, vi chegando com o senhor...” Ele respondia como para confirmar que eu não estava louco, sem dar solução alguma.
“Não, digo, a viu depois que saiu do banheiro? Entrei um segundo no masculino e a perdi... Eu estava logo ao lado... Foi apenas um instante...” Desculpava-me como para isentar de culpa, provar que eu era um bom pai, qualquer um poderia passar por aquilo, não era como se eu tivesse abandonado minha filha à beira da estrada...
“Ela deve estar por aí... Não pode ter desaparecido”, foi o que ele respondeu.
“É óbvio. É isso que estou dizendo. Onde ela está?”
“O senhor está me acusando de algo?”
“Não, não, é só que...”
Ele revirou os bolsos e os puxou para fora. “Não está aqui comigo.”
Suspirei. “Olha, de repente aquele caminhão...”
Ele me interrompeu levantando o dedo indicador. “Venha cá.” E saiu da loja.
Eu o segui dando a volta até os fundos do posto. “O senhor deu uma olhada aqui?” Chegávamos a uma oficina num barracão e, atrás disso, uma plantação de cana. Paramos diante do canavial.
“Acha que ela pode ter entrado aí?”
Ele deu de ombros. “Às vezes... Às vezes saem animais daí.”
Eu o olhei franzindo a testa. Queria dizer que animais saem, assim como poderia sair minha filha? Ou que animais sairiam para buscar crianças à beira da estrada, um lobo, uma jiboia, onça-lontra-chupacabra. “Animais selvagens?”
Ele assentiu. “É. Animais selvagens. Coelhos, principalmente.”
Imaginei os coelhos selvagens que poderiam arrastar uma criança. Refleti se de fato existiam coelhos na natureza. Lembrei das pragas de coelhos na Austrália. Visualizei minha filha como Alice, seguindo um coelho que voltava correndo para dentro do canavial, sereia para crianças. Stella atravessando fileiras e fileiras até não poder mais enxergar o caminho de volta. “Stella!” gritei na entrada do canavial. Minha voz venceria o caldo de cana? Minha voz venceria o vento, levada pelo vento, barrada pela cana, venceria o canto do coelho? “Stella, se estiver me ouvindo dê um grito! Siga a voz do papai!”
Virei-me novamente para o frentista, pedindo ajuda. “Como podemos encontrá-la aí?”
Ele meneou a cabeça. “É difícil...”
Eu assenti enfaticamente, concordando, implorando, alguma sugestão.
Ele suspirou. “Podemos tacar fogo. Se ela não sair correndo, encontramos depois entre as cinzas...”
Vendo o choque em meu rosto, ele caiu na gargalhada. Não tinha a menor graça. Corri desesperado para dentro do canavial. “Stella!”

                                                               *
“É uma menina”, me disse minha ex-mulher quando voltei de uma viagem com um palhacinho de pelúcia em mãos. Palhacinho azul, já me parecia totalmente inadequado, não pelo gênero. Palhacinho azul para menino, boneca rosa para meninas; o que a criança precisava era de um berço, fraldas, obstetra, pediatra, um pai. Mas eu não tinha a menor experiência. Minha ex-mulher se anunciara grávida dois meses depois de não sermos mais. Eu me questionei como pai, não sendo mais marido. Então chegando de viagem com apenas um brinquedo em mãos olhei para o amigo gay dela que se esparramava no sofá, respondi com ironia: “Bem... o palhacinho pode ficar para ele, então.”
                                                               *

Saí do canavial em farpas. Atrás do posto, nem sombra de ninguém. Caminhei para o estacionamento com celular em mãos. O sinal era bom e não havia nada que me impedisse de chamar socorro, só não sabia do que adiantaria.
“Alô... Olá... Oi... Boa tarde, estou aqui num posto no quilômetro...” tentava confirmar a localização enquanto entrava no carro, me esforçando para não soar patético, manobrando para explicar que perdi minha filha à beira da estrada. Olhei pelo retrovisor:
“Você é uma menina muito malcriada. É sim! Vai ficar sem sobremesa. Olha só, que menina malcriada.” Stella conversava com sua boneca cor de rosa.
“Stella...” sussurrei ao vê-la lá no banco de trás. Ela continuou sua conversa imaginária com a boneca, perguntando e respondendo, alheia a mim. Ofeguei por alguns segundos observando-a, então me virei como para confirmar que o reflexo no espelho era real. Minha filha continuava lá, voltara ao carro antes de mim, sentara em sua cadeirinha e prendera o cinto. Virei-me para mim mesmo e encontrei marcas novas, rugas que ainda não notara, uma vista cansada. Dei partida.
Saí do estacionamento para a estrada. Ainda era cedo e o fluxo seguia tranquilo. Mais uma hora até o sítio dos meus pais. O fim de semana estava apenas começando. 

ESTRADA

Não sei porque colocaram só meu sobrenome, mas achei chique.  Finalmente o ano está começando para mim. Já voltei para São Paulo e sem...