13/08/2017

NOVOS RITMOS

Flipelô (foto de Leto Carvalho).

Já estive na Flip, Frankfurt, Guadalajara, Madri, Bienais e dezenas de outras mesas em festivais por aí. Mas esta foi uma das semanas mais importantes para minha carreira. Foram seis mesas em seis dias, seis cidades, em debates que exigiram muito de mim e apontaram para novas direções... todas as direções.

Segunda feira embarquei na Viagem Literária, um programa da Secretaria de Cultura do Governo do Estado que existe há dez anos, sempre convocando uma dúzia de autores para circularem por bibliotecas públicas de cidades do interior. Alguns autores já participaram diversas vezes, eu nunca havia sido chamado, e participando agora consigo entender possíveis motivos.

Parte do público de Adamantina. 

Meu roteiro foi Anhumas, Santo Anastácio, Mirante do Paranapanema, Dracena e Andradina, cidades a cerca de 600km a oeste de São Paulo, com populações entre 4 mil e 50 mil habitante. Em todas fui muito bem recebido nas bibliotecas, com um público que variou entre 20 e 80 pessoas.  A maioria das conversas não teve mediação nenhuma e o público era o mais heterogêneo possível: universitários, adolescentes, escritores locais, idosos em processo de alfabetização.

Em Mirante do Paranapanema: fofo. 

É um programa que exige muito jogo de cintura e improviso, para chegar lá e começar a falar com gente das mais diversas origens e formações. Nessa hora, entendo a dificuldade de seleção da curadoria. Um escritor mais tímido, travado ou inexperiente não rende. Alguém sem filtros pode escandalizar o povoado. Natural que chamem autores com perfil mais convencional, “fofinho”, gente de literatura juvenil e "contadores de histórias". Eu mesmo teria ressalva em ME chamar - olhava aquele público e pensava: "O que tenho a dizer pra esse povo, meu deus?" Achei bom que o convite tenha acontecido só agora, que sou um senhor de 40, calejado, adestrado, que consigo me conter para apresentar uma versão mais soft de discurso. Sabe-se lá o que teria rolado com minha versão despirocada do passado.

Ainda assim, foi preciso de fato um esforço para eu me conter. Mais do que “polêmico”, mais do que “tretoso”, meu ponto de vista sobre sexo, drogas, religião e conservadorismo é apenas sincero. Meus temas passam por isso, vivo numa bolha elitista, e é preciso muito tato para eu falar de literatura com um público evangélico, por exemplo.

Foi um exercício importante e acho que o resultado foi bem positivo. Pude falar de forma mais ampla como funciona a literatura no Brasil, e mostrar a eles outra visão de escritor. Surgiram muitas perguntas interessantes, e algumas totalmente aleatórias como uma senhorinha em Mirante do Paranapanema, que perguntou: “É verdade que o Didi (Renato Aragão) morreu?” A imensa maioria do público não me conhecia, e espero ter conquistado alguns leitores. Uma senhora disse emocionada que "aos 65 anos era a primeira vez que conhecia um escritor." Ganhei o apelido de “Menino Maluquinho” e as mesas terminavam com longas sessões de selfies com a plateia.

Com os adolescentes lindinhos de Dracena. 

Tirando as mesas, teve a viagem em si, saindo de São Paulo de carro com um motorista (o típico tiozão taxista homofóbico), dirigindo horas e horas por estradas vazias, presídios, pastos de gado, paisagens bucólicas. Não consegui conhecer muito das cidadezinhas, fiz apenas uma ou outra caminhada gostosa de manhã, e péssimas refeições em restaurantes de beira de estrada. Foi um encontro com outro lado de São Paulo. Uma experiência nem sempre prazerosa ou divertida, mas importante. E eu adoraria repetir.


Na Flipelô.
Terminando essa, já embarquei para Salvador, também minha primeira vez na cidade, primeira vez na Bahia, para participar da Flipelô, a primeira Festa Literária do Pelourinho, organizada pelo Sesc. Minha mesa foi em horário nobre, sábado 18:30, no teatro do Sesc no Pelourinho, com Mário Rodrigues e ótima mediação de Milena Britto. Ela deixou claro que gostou muito de Neve Negra e pude tratar em profundidade de algumas ideias do livro, o que foi revigorante depois de tantas mesas de apresentação básica que fiz esta semana. Pena que o tempo de debates da Flipelô era tão curto, menos de uma hora, porque a plateia lotada pôde participar pouco e quando começava a esquentar tivemos de encerrar. Em seguida, autografei o livro novo e encontrei gente queridíssima que só conhecia das redes e que estuda minha obra na Bahia. De lá esticamos para a noite em Santo Antonio, também na companhia de Ana Bárbara, uma das minhas leitoras mais queridas e fiéis.

Sol em Salvador. 

Salvador ainda teve caminhadas pela orla de Itapoã, uma piscininha básica no hotel na manhã de domingo e muita comida. Consegui provar acarajé, abará, moqueca, sarapatel e espetinho de bode em apenas dois dias. E acho que está decidido que a comida baiana é minha comida favorita do Brasil – mas também, qual é a concorrência?

Primeiríssima coisa que fiz na Bahia foi comer uma moqueca de camarão. 


Agora o resto de agosto está mais tranquilo – em setembro terá Bienal do Rio, debates no Paraná e na Colômbia. Mas antes tem o lançamento em São Paulo, finalmente, nesta segunda 19h, na Blooks do Shopping Frei Caneca. A Folha já deu uma matéria grande sobre o livro neste sábado. Dá para ler aqui:  



Folha de sábado. 


FIM DE SEMANA DO TERROR

A turma.  Passei os últimos dias trancado com uma dúzia de malucos, num sítio afastado, sem sinal de celular e internet. O “Fim d...