21/03/2017

NOVO BLOG VELHO



"Na minha opinião, teu blog merece uma nova cara, mais clean. Acho meio brega. Não combina com tua idade e tua maturidade profissional." Quando a gente ouve isso de um antigo dealer, é hora de mudar. I trust my dealer, mas não tenho o menor talento para mexer nessas coisas. Então aproveitei uma passagem do Murilo por São Paulo para explorá-lo. Os jovens já aprendem isso no berço.

Também já ouvi muito: "Quem usa blogspot hoje em dia?" Ou mesmo "quem ainda tem blog?" Bem, sou escritor, não preciso ter compromisso com as tendências, nem mesmo com a atualidade. O blog já tem treze anos! Só por isso gosto de mantê-lo; sinto-me no direito de ser vintage. Serve antes de tudo como um registro da minha trajetória, para mim mesmo... ainda que eu sempre me constranja ao ler meus textos de uma década atrás. Comecei quando publicava meu segundo livro, como uma forma de me aproximar dos leitores, divulgar melhor o que eu estava fazendo. Chegou a ter um belo acesso lá por 2005, quando começou meu hype; chegou a atrair centenas de haters, quando eu permitia comentários...

Hoje em dia Facebook e Insta já cumprem muito das funções imediatas que o blog tinha antigamente: comentários ligeiros sobre livros e filmes, frases de efeito e fotos de ocasião. E as discussões mais acaloradas sobre literatura prefiro levar a veículos pagantes, como a Folha. Mas ainda valorizo esse espaço como um mural extremamente pessoal, de temas que talvez só interessem a mim.

Assim, aproveitando a recauchutada no visual, atualizei também as abas de "Obras", com o livro novo, e "Agenda", com os primeiros eventos que já estão marcados para este ano.  Em breve posto mais novidades, que também não são lá grande coisa.

12/03/2017

IT'S ALIVE!


Sai no próximo mês, pela coleção de clássicos da Zahar, uma edição de Frankenstein, de Mary Shelley, com tradução minha. O volume traz não apenas o texto integral (da edição final do livro, de 1831), mas dezenas de notas sobre a história e uma apresentação, também escrita por mim, analisando a influência do livro e suas adaptações na cultura pop.

Foi um trabalho difícil - na véspera de Natal ainda estava pesquisando sobre territórios turcos no século XIX -, mas gostei muito de fazer. Traduzo muita coisa ruim, muita coisa boa porém fácil, então sempre é bom encontrar novos desafios, que exigem mais de mim como tradutor.

Nesse caminho também acabou de sair "Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo", primeiro romance de Iain Reid, canadense que já havia publicado livros de memórias e colabora na New Yorker.

É um thriller estranhíssimo de um jovem casal de namorados viajando por estradas do interior, para conhecer os pais do rapaz. Durante todo o caminho a menina "pensa em acabar com tudo" e o texto é recheado de imagens estranhas, arrepiantes, que deixam o leitor desconfortável, mas sem descambar de vez no horror. Tive de reler inteiro depois de terminar, para ver se havia entendido direito o plot twist. Recomendo bem.


A edição é da Fábrica 231, selo de entretenimento da Rocco (não sei exatamente por que, na verdade, é literatura e poderia ter saído pelo selo principal). A capa dura e o acabamento me fazem pensar que a Darkside está elevando o padrão nesse segmento - literatura de gênero, especialmente terror -; os livros deles são lindos (embora muitas vezes as traduções sejam sofríveis). Ainda quero trabalhar com eles, seja como tradutor, seja como autor.

E se ano passado as traduções foram poucas e boas, este ano está uma merda. Editoras todas falidas, ainda estou esperando meu ano começar...

E não se esqueçam, amiguinhos, em julho tem meu terror "Neve Negra", pela Companhia das Letras. Será que o ano não começa antes disso?







06/03/2017

NEVE NEGRA



Deu este final de semana na Folha, então finalmente posso divulgar: “Neve Negra” é meu novo romance, que sai no inverno pela Companhia das Letras, já com direitos para cinema vendidos para a RT Features - produtora fodástica que tem no currículo, entre outros, “A Bruxa” e “Love”, de Gaspar Noé.

No livro, após uma longa viagem, um renomado artista plástico volta para a casa, na noite mais fria do ano, na cidade mais fria do Brasil, na Serra Catarinense. Ao despertar de um sonho, seu filho de sete anos também desperta suas dúvidas sobre a paternidade, que se estenderão numa longa madrugada de pesadelos.

Há algo de errado com meu filho. E não posso dizer que me surpreendo. Esperei a vida toda por isso. Desde o primeiro dia, desde antes, espero algum sinal de anomalia. A mancha vermelha na testa desapareceu, então esperamos os primeiros passos. Ele engatinhou e se levantou, então esperamos as primeiras palavras. Alvinho falou – acho que foi algo previsível como mamá– e esperamos as convulsões. A cada frango servido, esperava o osso da sorte a travar-lhe a garganta. Sempre que eu voltava de uma viagem, sempre que, de longe, perguntava sobre ele, esperava, temia, ansiava pela má notícia que acreditava ser inevitável recair sobre meu filho.

Já flertei bem com o thriller e o suspense em livros como "BIOFOBIA" e "Feriado de Mim Mesmo" (os dois também vendidos para o cinema), e “Neve Negra” é um parente próximo desses, na estrutura minimalista de um cenário contido, com poucos personagens. Mas esse é assumidamente um livro de TERROR, ainda que um terror psicológico, mais onírico do que fantástico. Foi um convite do Joca Terron, de escrever um terror literário para ser lançado pelo selo principal da Companhia das Letras. E se há algo que entendo é de terror (bem, de terror e de coelhos... e há sim coelhos no livro novo).

A migração da Record, onde publiquei os últimos cinco livros, para a Companhia, se deu naturalmente, sem rusgas, por esse convite. O texto já está escrito, entregue, discutido; agora está sendo ilustrado – há um livro infantil dentro do romance, que o protagonista lê para o filho. O tema central é a paternidade e as paranoias que a rondam (estou perdendo a infância do meu filho. Há algo de errado com ele? O filho é mesmo meu?). Também foi a oportunidade de retratar o raro cenário de neve brasileira.

“Está caindo neve...”, meu filho diz de costas para mim, com a cara encostada no vidro.
“Viu que legal?” Tento me lembrar se ele já viu neve antes, se tivemos neve por aqui nos últimos anos, se eu estive aqui enquanto a neve estava. Mesmo na capital da neve no Brasil, é preciso foco; uma piscada e ela pode derreter. Capaz de ele ter perdido enquanto dormia. Perdeu a neve enquanto assistia TV. Perdeu a neve enquanto tomava banho, lia um livro, colava bolas de algodão numa cartolina da aula de artes da escolinha, reproduzindo um cenário imaginário de inverno.
[...]

Se a neve nunca derretesse, os passos de meu filho permaneceriam assim, congelados, infantis. Mas a neve derreterá e não sobrará nem rastro de por onde aquele menino passou. Piso exatamente sobre, alargando seus passos até minha maturidade. Será que um dia seus passos serão indistinguíveis dos meus? Será que sobreviveremos para não distinguir?

A Neve Negra deve cair por aqui em julho. 

02/03/2017

CARNAVAL DO CHEF


De volta, de novo, ao seco.


Com Kilo, Louise e Murilo, em almoço no Guató. 

Aproveitei o carnaval para dar um pulo novamente em Maresias, ficar um pouco com o marido, levar a coelha, curtir a companhia de um casal de amigos queridos.

Na primeira noite, com geladeira cheia de compras, encontramos tudo descongelando... A diaba da coelha tinha roído o FIO DA GELADEIRA. Resolvemos com um remendo, mas não sei como ela ainda não morreu de choque numa dessas.

Foi uma semana de praia, piscina, trilhas, drinques, jogatina, churrasco e os pratos do chef.

Casalzinho almoçando na nossa magnífica varanda. 

Trilhas...

Trilhas...

Murilo no resgate. 
Terminamos em Paúba, praia incrível onde nadamos com tartarugas e um retardad... digo, um deficiente mental fugiu com meu chinelo. 

É lindo ter essas duas casas - meu apartamento em São Paulo e a casa de Maresias, onde Murilo está trabalhando - mas na prática não é tão fácil, na prática não é tão prático. Se fosse um ano mais generoso, eu poderia aproveitar melhor o retiro e me exilar por lá, para trabalhar, mas para mim 2017 ainda não começou e preciso de São Paulo para lembrar ao mundo que ainda existo, respiro e insisto...

Enquanto isso, eu e Murilo vamos levando como dá. Desde que o restaurante abril em dezembro, ele mal conseguiu sair de lá, só deu uma passada rapidíssima em São Paulo há quinze dias. Mas tem sido uma grande experiência para ele e - por tabela - para mim também. Bom que esse relacionamento de quatro anos traga novas posições, novas configurações; para as novidades acontecerem em minha vida eu sempre tive que me esforçar tanto, me sacrificar, abrir mão da segurança. É revitalizante que agora aconteça naturalmente, como um fruto de um relacionamento, que não dependa apenas de mim...

Mas agora não há mais desculpa, carnaval passou, o ano começou mais do que oficialmente e ou as coisas andam ou (meu) mundo acaba.

Se o mundo acabar, não estarei só...


NOVO BLOG VELHO

"Na minha opinião, teu blog merece uma nova cara, mais clean. Acho meio brega. Não combina com tua idade e tua maturidade profissiona...