20/10/2018

OLÍVIO (2003)



Puta capa feia.

Lá se foram quinze anos, nove livros, poucas conquistas, talvez, além das próprias publicações, todas por grandes editoras. Nesses tempos trevosos, ando reavaliando minha trajetória, pensando se já posso morrer feliz, ou se morrerei miserável.

Conversava esses dias com o querido escritor e professor Cristhiano Aguiar, que comentou sobre este blog: "Era muito legal para acompanhar o que era o mundo literário, a partir da tua vivência. Era meio inspirador mesmo."

Então resolvi movimentar as coisas por aqui, fazer um resgate da minha própria obra, com trechos, processos, bastidores, fotos da época, crítica e auto-crítica. Ao menos servirá como uma auto-avaliação minha, talvez seja inspirador para mais alguém. Servirá também como registro, porque tenho uma memória muito lesada, e as luzes vão se apagando a cada dia. Então comecemos cronologicamente este sábado, com "Olívio". 

                  Olívio abriu a torneira com dedos pegajosos. Viu seu próprio esperma escorrendo pelo ralo e se sentiu um pouco arrependido. Devia ter mandado para ela num envelope perfumado. “Fiz pensando em você”. Mas ele pensara com raiva. Raiva em cinco dedos fechados, em volta do pênis, sacudindo sua amada até derramar. “Rosalina, Rosalina, ainda consigo pensar em você.” - Assim começo. 


No final da adolescência comecei a escrever uns contos horríveis, de um sentimentalismo gótico, sempre com garotos andróginos sofrendo por amor - basicamente onde eu me encontrava. "A Morte Sem Nome", que escrevi em 2000, foi quando comecei a formar algo mais próximo de um romance (sem estrutura nenhuma - o que foi visto como um trunfo por críticos) e logo ao terminar já emendei com "Olívio", que foi a busca por uma narrativa mais linear e estruturada. 

É a história de um jovem adulto totalmente convencional, classe C, com a noivinha e o emprego das 9 às 18h, que aos poucos vai entrando numa espiral de sexo, drogas e violência. 


Conheceu Rosalina num churrasco de final de ano. Na firma. Ela era prima da secretária. Ele era funcionário da contabilidade. Ele bebeu um pouco demais. Ela bebeu o suficiente para corresponder. Ela sorria de longe, entre colegas que ele conhecia. Ele puxava assunto em espiral, se aproximando dela. Comentava com uma vizinha. Brincava com a colega. Ria alto o suficiente, para ela perceber. E com empurrões de amigos, logo estavam juntos. Conversando sobre a carne. Conversando sobre a caipirinha. Conversando sobre uma porção de amendoins, com os dedos salgados e os sorrisos desavergonhados. No final da noite, estavam tirando fiapos de carne dos dentes um do outro, num beijo quente.
 Fofocas no dia seguinte. Quem ficou com quem. Darcy e Irineu. Margarida e João Paulo. Olívio e Rosalina. Pra quem importava? Aos vinte e sete anos, Olívio era solteiro, Rosalina também, aos vinte e três. Trocaram beijos e telefones e, no final de semana seguinte, já estavam juntos, como um casal.
 Foi a melhor conquista de Olívio. Mulher bonita. Moça de família. Reunia tudo o que ele estava cansado de aproveitar, com aquilo que só a mãe de seus filhos poderia dar. Assim seu pai lhe diria, assim sua mãe aprovaria. Assim Olívio foi ampliando os convites, avaliando as expectativas. Fechando os botões da camisa e pensando em voz alta. “Puxa, me dei bem.”
 Não precisava de muito para fazê-la sorrir. Ela sorriria toda vez que ele tivesse a intenção. Ele sorriria de volta, satisfeito consigo mesmo. Passeavam juntos e conversavam amenidades. Conversavam amenidades porque não tinham nada mais para conversar. Quando se cansavam, se abraçavam. Quando faziam silêncio, se beijavam. Depois, ela encostava a cabeça em seu ombro e a semana de trabalho se afastava quilômetros, para o outro lado do porto, no começo da estrada, varrida pelo vento e pelo tempo que passavam juntos. Era um final de semana suave, como deveria ser. E ele achou que deveria ser sempre assim.
   Daí os finais de semana foram se somando. Os dias foram se acumulando. O compromisso foi se agravando e tomaram como noivado. Que fosse. Olívio achava uma ótima idéia. Até porque, estava apaixonado. Tanto quanto poderia estar. De sua maneira calma, às vezes até impotente. Olívio amava Rosalina. E Rosalina? Rosalina amava Olívio.
   Tanto amava que não pediu muito. Nem precisou de anel no dedo e enxoval no armário. Não precisou de pedido formal nem promessas de felicidade. Não precisou de nenhuma prova para se entregar. Não. Era amor mesmo. Daqueles que Olívio pegava com as mãos cheias. E Rosalina aproveitava. Rosalina aproveitava todas as coisas boas que Olívio poderia fazer por ela. E Olívio aproveitava. Olívio aproveitava todas as coisas boas que ela deixava ele fazer.
    Eram duas coxas generosas para apalpar. Meias de seda, calcinhas de renda. Perfume quente e doce. Cabelos lisos e compridos. Um vestido bem curtinho. Um sutiã vermelho, fazendo Olívio corar. Quando Olívio viu pela primeira, por trás das rendas, por trás do vermelho, o bico do seio de Rosalina, teve certeza de que era amor.
    Era um bico escuro, mais escuro do que a pele castanha de Rosalina. Quase tão escura quanto a pele morena de Olívio.  Morena como as castanhas, castanho, como a pele morena. Salgada, rígida. Tocou com seus próprios dedos. Provou com seus próprios lábios. Abriu sua própria braguilha e esperou não desapontar. Ah, não, não desapontou, daquela vez não. Era amor. E ela não disse nada.
   Ele pensou que seria muito bonito, assim, castanho com moreno, moreno com castanho, pêlos nos pêlos, pensou nos filhos. Pensou nos filhos que teriam, morenos, correndo pela casa. Com os olhos amendoados, como os dela. Castanhos. Com os cabelos lisos, como os dele. Indiozinhos a brincar. Olívio a derramar. Rosalina a enxugar. Sim, era amor, seria casamento e ninguém poderia evitar. Poderia?


Começa com uma broxada, e acho que a ideia inicial era que ele ia se deteriorando, perdendo movimentos, sentidos, muito inspirado pelas novelas do Noll. O que acabei fazendo foi mostrar como a vida dele era baseada em suas relações cotidianas, e que, com a mudança dessas relações, a vida mudava completamente. Olívio, o personagem, era a junção de todos os personagens que cruzavam sua vida, por isso cada capítulo ganhou o nome de um personagem. 

Foi escrito em poucos meses, do final de 2000 para 2001, em Porto Alegre, onde eu morava. Mostrei para alguns amigos e engavetei - não sabia para onde mandar e o que fazer. Descobri no final de 2002, quando vi no jornal o anúncio de um prêmio para romances inéditos - o Fundação Conrado Wessel (tradicional em fotografia, que teve poucas edições de literatura). Além de "Olívio", eu já tinha "A Morte Sem Nome" na gaveta, mas decidi mandar esse por causa da estrutura mais convencional.

O prêmio. 


Funcionou. Ganhei o prêmio e o livro saiu no início de 2003. 

Na época, com 25, eu sobrevivia trabalhando de barman em inferninhos de noite, escrevendo roteiros de disk-sexo para operadoras de celular e dando aulas de inglês. (na foto, eu - no centro - na noite de Natal de 2002, na Sogo, que era misto de boate gay com clube de sexo.)

A editora Talento não tinha tradição literária - era conhecida por anuários de publicidade -, mas foi contratada pelo prêmio para a publicação. Cometeu uns erros primários, como não colocar meu nome na lombada do livro, e fez a capa mais horrenda do mundo (assinada por Kiko Farkas, que melhorou muito desde então). Ao menos tive interferência na orelha - que foi escrita por mim, como TODOS meus livros. 

Olívio é um romance de romantismo-absurdo, como define o próprio autor. Narra a história de um jovem simples e conformado que aos poucos vai se afastando de todos os pilares que sustentam seu cotidiano. A partir de um encontro com um misterioso escritor, ele passa a questionar as verdade de sua própria vida e se vê perdido num mundo de perversões e surrealismos. 

De estética kitsch e teor erótico, em meio a uma atmosfera degradada, Olívio explora o processo de construção de um personagem baseado em experiências do autor em bordéis de Curitiba, se apropriando com habilidade de uma metalinguagem irônica. 

(Ainda gosto dessa orelha. Acho que o "romantismo-absurdo" se tornou meu "existencialismo-bizarro". Na época eu era mais sentimental mesmo, muito influenciado por Caio Fernando, muito coisa de moleque gótico - este blog começou como "Amor e Hemácias", afinal. Os bordéis de Curitiba foram de fato a inspiração pelos cenários. Na época eu achava divertidíssimo viajar para cidades do sul e passar o fim de semana conversando - basicamente só conversando... - com as putas, dormindo em moteizinhos baratos.)

Na premiação-lançamento, com Tânia Franco Carvalhal, José Mindlin e Beatriz Resende. 

O mais bacana do Prêmio foi o juri: Carlos Heitor Cony, Carlos Graieb (Veja), Daniel Piza (Estadão), Tânia Franco Carvalhal (do extinto Prêmio Nestlé) e a Beatriz Resende, que se tornou minha madrinha. Foi ela quem me indicou para um amigo de uma "grande editora espanhola que entrava no país". Era Paulo Roberto Pires, na Planeta. Uma semana depois de eu mandar o livro ele me oferecia contrato para um próximo,e três meses depois a Planeta me colocava na primeira FLIP, numa mesa com Cuenca e Chico Mattoso, os "jovens talentos" da época, lançando em conjunto o livro de contos "Parati Para Mim" (não temos culpa do título, não). 

Foto num dos jornais na época - eu estava numa fase bandana, me perdoem, mas reparem como caminho descolado de Cuenca e Matoso, talvez mostrando como era independente, talvez mostrando como estava atrás...

A Planeta acabou fazendo muito mais por "Olívio" que a própria Talento. Com o livro de contos saímos em TODOS os jornais, incluindo Jornal Nacional e Jornal Hoje. 

Achei que a vida seria sempre assim...

As fotos de divulgação foram feitas pelo meu amigo de vida toda, o muso gótico Ambooleg. A editora vetou as mais sangrentas - como essa. (o corte é real, claro). 

"Olívio" teve boas críticas, no JB, na Istoé, na Trip assinada pelo Bernardo Carvalho. Também teve uma proposta de compra para o cinema, pelo Canal Brasil, que acabei RECUSANDO pela grana - me arrependo, mas não muito, porque hoje sei bem que venda de direitos está longe de ser garantia de filme produzido. 

(Bacana ver que a crítica da Istoé ainda está online: https://istoe.com.br/13704_SPOT+LITERARIO/

Confesso que hoje é o livro de que menos gosto. Não me envergonha, mas acho pouco pessoal... parece que estou querendo emular um escritor, a trama me parece absurdamente convencional. De marca registrada, temos a estreia de "Thomas Schimidt", o escritor-alter-ego andrógino e misterioso, basicamente o que eu queria ser (e que aparece ou é citado em praticamente todos meus livros desde então). 

Escritor? A última coisa em que Olívio pensaria. Sempre achou que os escritores eram aqueles senhores velhos e cansados, com uma barriga cheia de idéias para digerir e uma boa esposa para trazer o café. Um escritor jovem, tatuado, agia como se fizesse parte de um grande plano literário. “E o que você está fazendo fora de casa, que não está escrevendo?”

“Ah, mas a poesia está por aí, não é? Nas ruas, nos prostíbulos, nas tatuagens. A gente precisa viver mais, escrever certo caminhando em linhas tortas. De onde acha que eu tiro inspiração?”  

Melhor tirar inspiração dos livros. Tirar inspiração do estudo. Mas quem era Olívio para condenar Thomas? Ele também estava num prostíbulo sem nem ao menos desculpas para escrever. 


Está há uns bons anos fora de catálogo, o que não me incomoda tanto. Os livros têm seu tempo, ou sua sazonalidade, não dá para manter tudo em livraria o tempo todo. Mas se alguém quiser reeditar (com uma BELA capa), ficarei feliz. 





MASTIGANDO HUMANOS (2006)

A capa original, minha e do Marco Túlio, de que ainda gosto muito, porque parece um chiclete.  Eu fiz uma longa viagem para chega...