13/09/2018

CULTURA EM CHAMAS


Eu e Mutarelli brindando a tempos melhores (México, 2013). 

Você ganha bem com a literatura?

"Estou absolutamente falido. Vivo de aulas que dou no Sesc, o que não paga todas as contas. O que eu ganho com livro é ridículo. Recebo 10% do preço de capa, e ainda pago 27% de imposto de renda. Não tenho dinheiro para chegar até o final do ano. Vai ter uma exposição no Sesc, em novembro, com algumas coisas minhas, estou terminando umas pinturas, sem escrever neste momento. Quando começo a pintar, paro de escrever. Estou com 54 anos e tudo só piora, a cada ano está mais difícil. E acho que nem posso reclamar, estou numa grande editora, publico. Sou um dos que deram certo, mas dar certo com livro no Brasil é apenas isso. É muito triste." - Lourenço Mutarelli em entrevista a Thales Menezes, na Folha.

(entrevista completa aqui:  Entrevista com Mutarelli


Ecoou muito por aqui a declaração recente do querido Lourenço Mutarelli, em ocasião do lançamento de seu novo romance O Filho Mais Velho de Deus (que ainda não li, mas o título é foda). Tem sido um ano muito, muito difícil para mim, e saber que o meio como um todo está na mesma é ao mesmo tempo reconfortante e desesperador.



Reconfortante porque a gente se sente menos merda, né? Saber que o fracasso não é tão pessoal, que gente melhor do que a gente tá na mesma, ou pior. Desesperador porque a gente sabe que não tem muito como escapar; gente melhor do que a gente está na pior...

O meio literário-editoral está numa situação muito complicada. As livrarias não vendem e não repassam às editoras. As editoras cortam custos, publicações, traduções. Os autores não recebem. Mutarelli expôs sua situação pessoal na Folha, mas todos os colegas que encontro estão na mesma, perdidos. 


Primeira mesa da primeira Flip (2003) foi comigo (e Cuenca e Chico Matoso, mediados por Paulo Roberto Pires)


Eu tive a sorte de começar a carreira no comecinho dos 2000, num período próspero para a cena literária (e para a economia como um todo). Nunca antes na história deste país houve tanto mercado para os "novos autores": eram as feiras literárias que se proliferavam (com cachês); a multiplicação de canais a cabo e o ressurgimento do cinema brasileiro, que precisavam de novos roteiristas; e todo um público para aulas de escrita, de oficinas criativas. O escritor tinha trabalho. 


Lá por 2007 dava para ganhar um (bom) dinheiro até escrevendo pro São Paulo Fashion Week. 

Em 2014, fiz aquela matéria grande na Folha (aqui) sobre do que vivem ("do que se alimentam") os escritores no Brasil. Apesar de alguns escritores mais "comerciais" me chamarem de negativo, eu avaliava aquele cenário como muito positivo. Se os escritores não conseguiam viver da venda de livros, estavam se mantendo com as aulas, as traduções, roteiros, jornalismo.

De lá para cá, a situação deteriorou muito, com a crise econômica, ideológica e o incêndio total da cultura. Os autores que, como eu, como Mutarelli, começaram nesse novo século, encontram o pior cenário literário que já viveram. 

Espanha, 2010.

É desesperador para um mestre como ele, aos 54; é desesperador para mim, aos 41. A gente começa uma carreira, alcança certo nome, e acha que com o tempo terá certa estabilidade (se não riqueza!). Mas é tudo cada vez mais incerto. No meu caso, penso se o melhor já não passou, se meu melhor já passou (bem, foi muito a crise que expus em BIOFOBIA). Já vendi bem, já viajei o mundo (da Argentina ao Japão), será que devo apenas me contentar de já ter sido feliz?

De BIOFOBIA


Penso nos cachês dos eventos literários. São praticamente os MESMOS desde que comecei, sem reajustes de inflação - isso quando HÁ cachês...


Quando fui "bestseller" num jornal Alemâ... Ah, me perdoem, estou tentando elevar meu moral. 

Debatendo sobre isso no Facebook (sempre), o jovem autor Danilo Potens fez uma provocação pertinente: 

É triste, mas cabe citar que ele [Mutarelli] ganha mais de 4.664,68 por mês, tendo em vista os 27% de imposto de renda. É bem acima da média salarial dos pobres. Tenho medo da palavra "falido", pois já conheci diversos homens que ganhavam 15 mil por mês e ficavam lamentando sobre a "vida precária" que levavam. "Mal dava pra comer no Paris 6". Enquanto o povo come no bom prato.

É verdade. Mas para o tetraplégico o amputado teve sorte. E Mutarelli ressalta bem que "não pode reclamar" pois é um dos que têm sorte, que deu certo. É triste pensar que o exemplo de "sucesso" no mundo literário não te salva do "Bom Prato". Nos últimos tempos, já passei por meses em que tive de esperar pagamentos atrasados para trocar chuveiro queimado (isso, uns 70 reais, né?). Tomar banho gelado por uma semana é lição de humildade. 

(E Danilo, como marido de chef, te digo que Paris 6 e Bom Prato tão pau a pau...)

O escritor não é um vagabundo que teve sorte, creio eu - ou nem sempre. Para ser um escritor publicado, lido, premiado, vai um investimento pesado. Tem muito estudo, leitura, COMPRA de livros, isso é o básico. Muitos investem na formação, cursos de escrita, graduação, mestrado, doutorado. Então, em tese, estamos falando de gente com especialização que não consegue pagar as contas - é um investimento que não se paga. No meu caso, além de um diplominha universitário básico (comunicação na FAAP), e todo o repertório, teve as línguas, aulas de francês, de finlandês, o tempo que morei fora (na raça, sem bolsa). Com isso tento viver basicamente da tradução. 

Essa foi minha "Assis Brasil". 


Mas afinal, que diferença faz, que diferença fazemos, para que serve um escritor?


Com Veronica Stigger, Cuenca, Adriana Lisboa, em foto de Daniel Mordzinski (Botogá, 2007). Adoro essa foto

Ano passado, conversando com alunos do Paraná, uma adolescente afiadíssima me perguntou: Se você parasse de escrever, ia fazer diferença para quem? 


(Parem de reclamar! Parem de viver de Rouanet! Vão cortar cana, carregar lenha, aprender a dirigir caminhão e bloquear as estradas!)


O incêndio no Museu Nacional do RJ me fez pensar. Todos nós que trabalhamos com cultura somos acometidos da sensação de que nosso trabalho não importa, de que não somos prioridade, não estamos apagando incêndios. Mas com o teste do tempo, tudo fica para trás: saúde, segurança, economia, tudo é transitório, perecível e passageiro. O que fica é a história de um povo, o que foi criado, como foi registrado. No fim, só resta a cultura.



ELE NÃO!

Já falei exaustivamente no Facebook, e acho que é óbvio para qualquer um que me segue, mas ainda não tinha colocado aqui no blog, então ...