31/08/2020

ESTOU PENSANDO EM ACABAR COM TUDO

Sei que muitos tradutores lutam para serem mais reconhecidos, terem seu trabalho creditado, nome na capa e tudo mais.

Mas eu, pessoalmente, acho que se exagera.


Em livrarias online e em sites de avaliação como Skoob, na busca pelo meu nome aparece uma caralhada de livros que eu traduzi - alguns bacanas, muitos ruins - e às vezes até livros que eu NÃO traduzi, que as editoras creditam errado.


Esses títulos confundem os leitores que estão buscando minha obra como autor- e muitas vezes aparecem antes da minha própria produção (porque são sucessos maiores de venda).


A imensa maioria das coisas que eu traduzo não tem nada a ver com meu trabalho como autor...


(Até porque meu trabalho como autor é ÚNICO.... kkkk)


Agora tô até vendo créditos sobre o FILME "Estou Pensando em Acabar com Tudo", dizendo que é "baseado no livro de Iain Reid e SANTIAGO NAZARIAN!"


(Eu adorei esse livro. O filme ainda não vi. Mas é puta informação errada, não posso receber esse crédito.)


Digitando agora por esse título no Google, aparece de cara APENAS o meu nome como autor, veja só.






(Se ao menos tradutor recebesse direitos autorais das vendas...)

18/08/2020

VIREI VEGANO E OLHA NO QUE DEU!

(Clickbait do caralho. É mentira, desculpe.)


Eu gosto muito de cozinhar, de comer, me interesso pela gastronomia como cultura, por isso estou sempre pesquisando, vendo tendências e possibilidades.

Sinto que o veganismo é uma tendência crescente, de modo até que faz a gente pensar se daqui a algumas décadas (anos?) não se torne norma. O impacto da pecuária na questão ambiental, o modo cruel como os animais são tratados, talvez em pouco tempo consumir carne se torne algo como possuir escravos. Mas me restam certas resistências:

O principal para mim é que a lógica vegana não faz sentido. A questão de “amar” todos os seres vivos. Me parece um argumento bicho-grilo que esbarra no religioso (eu como ateu). “Por que você ama esse e come esse?” Dizem propagandas veganas mostrando um cachorro e um porco. Bem, AMAR é uma eleição, uma escolha. Você não pode amar a tudo e a todos. Quem ama a todos não ama ninguém. Então não entendo essa lógica vegana de amar porco, vaca, cachorro, peixe, barata...

A empatia, a solidariedade, se torna mais fácil de entender quando se vê as condições que esses animais ((de abate) sofrem, dá para associar o porco ou mesmo o frango de granja ao cachorrinho que você tem em casa. Mas essa questão ideológica ainda não se resolve.

Se a pecuária é cruel para o meio ambiente, se as condições em que os animais de abate são criados são desumanas, se o consumo de carne até pode ser considerado prejudicial à saúde, não me responde por que consumir "proteína animal em si", é pior do que consumir proteína vegetal.

E sim, daí podemos chegar até aos insetos.

Porque num mundo de escassez de alimentos e procura por proteínas alternativas, não entendo por que a resistência do consumo de insetos, além do “nojinho” e da ideologia vegana de “todos os bichos são lindos”.

É em pontos como esse que a ideologia vegana para mim se torna totalmente inválida. Dando o mesmo valor a vida de um boi (ou de um humano) a um inseto, pregando esse amor incondicional, que se torna literalmente bicho-grilismo.

(Você não mata barata? Não mata mosquito?)

Ainda acho muito cruel a forma como os animais são tratados na pecuária. Tenho acompanhado e estudado as alternativas propostas do veganismo. Mas ainda acho tudo num terreno muito pouco racional, muito “bandeiroso”. Talvez o futuro seja mesmo poupar os bois, mas qual é o problema da cochonilha? E se comemos insetos por que não camarão de cativeiro? E se camarão por que não cachorro? São fronteiras que para mim não estão muito certas, mas que partem do princípio tosco de que “mas se matamos uma alface’...” porque afinal estaremos sempre consumindo outros seres vivos.

(e sim, já comi gafanhoto, camarão, boi, urso, rena, rã, jacaré, pato, peru, coelho... tendo uma coelha em casa.)

Adoraria debater mais com gente como o Fábio Chaves (alguém faz chegar a ele), o Marcelo Maluf, a Daniela Pinotti Maluf. Pena que veganos geralmente sejam tão agressivos, pouco abertos ao debate, como se estivéssemos comendo as mães deles, que mais afastam do que agregam. 

15/08/2020

NOTAS SOBRE O APOCALIPSE



A live de ontem foi com Ivana Arruda Leite. 


- Neste ano em que estamos todos trancados em casa, minha agenda de encontros e debates está das mais movimentadas. 

- É que agora é tudo por “lives”, né? Instagram, Zoom. Não tem de pagar passagem, não tem de pagar cachê, daí fica mais fácil convidar.

- Não que eu seja dos autores mais caros... Se for um lugar bonito, já topo pela passagem/hospedagem + um boquete...

- Mas acho que o povo tem é medo dessas besteiras que eu falo. Me falta certo filtro, eu sei, mas também não é parte da graça?

- (Nunca vou esquecer quando falei isso pro querido Rodrigo Lacerda, que achava que muitos eventos literários não me convidavam por medo e ele disse que sentia o contrário. “Eu acho que não me chamam porque me acham sem graça.” Cada escritor tem sua cruz e seus complexos.)

- O foda é que esse esquema novo está abusando das novas conexões de Wifi, celular, câmera, microfone. Eu não sou nada tecnológico (lembra que até ano passado não tinha nem Whatsapp, e fiquei quase dois anos até sem celular!) e estou me desdobrando para dar conta com um iPhone 6S. Na entrevista que eu gravei pro Metrópolis eles queriam até que eu arrumasse DUAS câmeras, para ter dois ângulos diferentes. Ontem me fodi aqui gravando uma entrevista pro Arte1 e o vizinho marretando na casa em frente.


A entrevista no Metrópolis que foi ao ar na TV foi bem curtinha. Mas no Instagram deles tem mais sobre o livro. 

- Se as coisas continuarem assim, vou ter de investir em câmera, microfone, iluminação...

- O pior fruto da pandemia é esse, vai nos transformar todos em YOUTUBERS!

Recebendo o prêmio da Unesco no Rio, em março, com minha editora na Melhoramentos. 

- Saudades dos eventos literários. Não só das mesas, mas de encontrar os colegas no hotel, na piscina, nos bares (ao menos tive uma ótima despedida disso, no Rio, em março, quando fui receber o prêmio da Unesco). A gente sempre trabalha tão sozinho, que é fundamental esses encontros para trocar experiências (trocar complexos), daí a gente vê que não está tão sozinho, tão fodido.

No Rio em março também teve festinha com Samir Machado de Machado e Raphael Montes. 

- Por sinal, acho tão curioso que, agora que tá TODO MUNDO sozinho, todo mundo fodido, parece que o povo é mais solidário com o outro. Eu vivo tantos momentos de solidão, trancado neste apartamento, tive tantos momentos de falta de dinheiro, de falta de trabalho, e o povo todo parecia que estava cagando. Os amigos deixavam claro que eu estava incomodando.

- Agora ao menos estou numa fase boa de trabalho, já há um bom tempo, mas... solidão né, minha filha? Pelo menos não sou só eu que estou sozinho. Pelo menos posso culpar a quarentena. (Porque provavelmente se não tivesse quarentena eu estaria da mesma forma, trancado sozinho, abandonado nesta casa...)

Gravando entrevista pro Arte1.
Gravando entrevista pro Arte1. 

 

07/08/2020

NOTAS SOBRE O APOCALIPSE



- A quarentena acabou...

- Ou deveria... Ou teria de acabar. Quantos dias tem uma quarentena? Podemos (devemos, sempre) culpar Bolsonaro, as autoridades locais, mas a verdade é que ninguém sabe direito o que fazer – não era para usar máscara, depois devia usar máscara; assintomáticos não transmitem, depois transmitem. A ciência ainda está descobrindo sobre a doença e somos todos cobaias.

- A quarentena ACABOU de fato porque é inviável neste país. 

- A questão é que ninguém sabe se haverá mesmo vacina, se a vacina funcionará, quanto tempo funcionará, quando virá, daí fica um jogo de paciência:

- Você aceita ficar mais seis meses enclausurado esperando a possibilidade de uma vacina? Você ficaria mais? Se não houver vacina, você ficaria indefinidamente? Uma vida inteira? É possível sobreviver assim? Desejável?

- A reabertura das escolas acho que também passa por isso. Entendo que muitos pais achem precoce, tenham medo, mas se já há uma ideia forte de que vacina não é possível, as escolas nunca mais vão reabrir?

- Estamos todos esperando. Mas esperando pelo quê?

- (E antes que venham me dizer que há sei lá quantas vacinas promissoras, Oxford, China, etc, há a mesma promessa de que as vacinas não funcionem.)

- De toda forma... acho que quem pode esperar é sempre cauteloso. É tipo aquele filme, "The Mist", né? Em que o pai mata a família pouco antes de o exército chegar... (Ops, spoiler do fim da quarentena.)

- O "novo normal" é um termo odioso, mas que talvez faça sentido. Porque ficar trancado em casa esperando indefinidamente o "velho normal" voltar talvez seja uma utopia. (muito) Provavelmente as coisas não voltarão a ser como era antes, então vamos ter de sair e nos acostumar com os novos tempos... os últimos tempos?

- Adorei um meme que postaram falando: "Ai, não dá para treinar de máscara" com uma foto do Fofão da Carreta Furacão, que saltava e se desdobrava com essa fantasia. Estou pensando em ir malhar vestido de fofão.

- Sim, voltei a malhar em academia, há uma semana. Tá bem esquisito, não deixo de ter receio, passar alquingel em tudo, chegar em casa e me desintoxicar com gin, mas o que posso mais fazer da vida?

- (Entenda, não que eu seja um marombeiro suicida. Mas eu moro sozinho, sem filhos, sem amor. Eu vou passar o resto da minha vida trancado esperando o quê?)

- Ainda vejo defensores ferrenhos da quarentena, mas devíamos fazer uma escala de privilégios nesse cenário: você está fazendo quarentena acompanhado? Faz sexo? Tem uma casa confortável? Com quintal/ uma área ao ar livre? Talvez seja mais fácil pra você defender/manter, não é?

- Acho sim, que surgiu uma nova classe que está em pânico de voltar à velha vida, que se acostumou com o conforto de casa, do marido, que não quer voltar à vida miserável de antes, muito menos uma vida miserável com menos contato físico. 

- Não estou defendendo de forma alguma a balbúrdia, as aglomerações - sexta passada um amigo  meu convidou pra Roosevelt e achei um pouco demais, eu mesmo não tive coragem de frequentar um bar, um restaurante. Mas começo a flexibilizar...

- Eu passei... passo a quarentena sozinho. Só com uma coelha. (E te digo, a coelha segurou uma barra, porque era um ser vivo para eu interagir diariamente;  quem não tem animal de estimação não entende a diferença que faz). Agora comecei a flexibilizar, porque acho mesmo isso, que não tem sentido viver numa quarentena indefinida.

- Minha avó morreu de covid. Estava muito debilitada, poderia ter sido qualquer gripe, mas o problema da covid é que ninguém pôde visitar, não pôde ter velório. Ela morreu sozinha. Minha mãe dizia que queria visitá-la, não conseguiu. Eu não vejo minha mãe desde janeiro.

- Ontem fui visitar minha sobrinha. Não via havia seis meses. Ela tinha sete e agora tem oito e está muito maior. Jogamos videogame. Era um jogo que eu não conhecia, tipo Mario Kart, eu ganhei com muita facilidade (para quem não sabe, também tenho meu lado gaymer), e em meio às partidas achei que deveria dar uma canja. Confesso que deixei ela ganhar (bom, foi 2 a 3 – eu ganhei 3). Sou cavalheiro, mas tenho de sair por cima.


A CALÇA DOS MORTOS

  Resenha que publiquei ontem na Folha:    Lançado em 1993, Trainspotting, o primeiro romance do escocês Irvine Welsh, foi uma sensação ...